Ttulo original: A Bruxa, de Ryoki Inoue



 Copyright 2000  edio eletrnica  by Ryoki Inoue Todos os direitos reservados.  proibida a reproduo desta obra, com fins comerciais, por qualquer meio, em
seu todo ou em partes, sem a autorizao expressa do Autor e da Editora.



Editorao eletrnica e diagramao 



Georges Kirsteller 



Arte da capa: 



Nicole K. 



CDD  869.935 CDU  92- 2075 ISBN  85- 86345- 223- 8 



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Os fenmenos sobrenaturais devem ser interpretados como m anifestaes de uma naturalidade de ordem mais elevada,  qual os sentidos fsicos somente respondem de 
modo limitado, e a comunicao com esse mundo superior pode ser estabelecida por meio de uma gama de sentidos paranormais que operam junto aos sentidos convencionais, 
mas que na prtica so muito pouco usados. 



LOIS BOURNE 



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CAPTULO I 



Primavera em Paris... O sol, ao se levantar por trs de Notre Dame, fazia com que seus raios, percorrendo a Rue de la Huchette ao comprido, fosse iluminar diretamente 
a Place St. Michel. Um pouco adiante, quase paralelo ao sentido da pequena rua, o brao meridional do Sena margeava a Ile de la Cit, carregando barcaas cheias 
de mercadorias que se dirigiam para o Havre. Do outro lado do rio, podia- se ver a Conciergerie e o Hospital Municipal enquanto a leste, estava o Quartier Latin 
e o Muse de Cluny. 



O chafariz com golfinhos de pedra da Place St. Michel ficava bem em frente ao Caf de la Gare, o primeiro estabelecimento a se abrir na manh para servir os trabalhadores 
que chegavam pelo subterrneo e os que, das vizinhanas, engoliam apressados um caf com croissants, antes de descerem para o Metr. Eles passavam diante da banca 
de jornais  entrada da estao, sem a menor vontade de gastar quatro sous para adquirir um matutino. Afinal de contas, o que estava acontecendo no era to importante 
assim que os forasse a ficar sem o caf da tarde apenas para tomarem conhecimento das decises do governo... 



Decises que nunca levavam em considerao a opinio do povo e que todos sabiam muito bem estarem visando apenas o bolso dos que as tomavam. 



Do outro lado da praa, diametralmente oposto ao Caf de la Gare, ficava o famoso restaurante Rouzier, sofisticado para levantar suas portas de ao antes de onze 
horas da manh. 



Desembocando na Place St. Michel, a Rue de la Huchette no tinha mais do que trezentos metros de comprimento e suas casas, antigas, mal conservadas, mostravam bem 
que seus habitantes eram pobres, pessoas que lutavam com as mais diversas dificuldades 



para sobreviver. Ali, naquele pedao de Paris, o dinheiro curto era uma constante e  at difcil explicar como conseguiam se manter os estabelecimentos comerciais 
do lugar, uma vez que ningum dispunha de muito para gastar. 



A parte mdia da rua era cortada, porm sem ser atravessada, por duas outras, ainda menores que ela, a Rue Zacharie e a Rue du Chat qui 



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Pche, nome este devido  histria de um gato que, antes da Primeira Guerra, ali andava perambulando e roubando de tudo quanto se pudesse comer, especialmente quando 
o Sena enchia e a gua transbordava invadindo as adegas. Dizia a histria que o gato era to esperto que, numa poca em que nem mesmo os ratos conseguiam escapar 
da fome dos humanos, esse bichano conseguiu ficar gordo e... No ir parar no fundo de uma panela. 



Era bem na esquina da Rue Zacharie com a Rue de la Huchette, que ficava o bordel Le Panier Fleuri, cuja proprietria, Madame Mariette, era uma das poucas pessoas 
com algum dinheiro naquele bairro.  verdade que mme. Mariette sofria muito com a desleal concorrncia que lhe fazia Mme. Lanier, a dona da lavanderia em frente, 
na esquina da Rue du Chat Qui Pche, um estabelecimento que contava sempre com meia dzia de robustas moas, muito acessveis e alegres, que no se incomodavam de 
maneira nenhuma com o fato de alguns fregueses preferirem esperar que suas roupas fossem passadas enquanto eles se distraam em atividades que a imensa maioria das 
mes e esposas costumam reprovar... 



Mas essa concorrncia, no que pudesse pesar as lamrias e lamentaes de Mariette, no fazia sombra ao movimento de sua casa, sempre bem sortida de moas bonitas 
e atraentes, sempre com a adega cheia de vinhos de boa procedncia e, alm de tudo isso, contando com a proteo dos policiais do lugar, permanentemente benvindos 
ao seu salo para um copo de vinho ou de conhaque e bem tolerados entre os lenis das moas no andar superior... 



Mesmo sem gastarem um s tosto. Madame era esperta e sabia que mais valia o apoio, a proteo e a conivncia dos policiais do que qualquer dinheiro que eles pudessem 
querer gastar numa noitada em seu estabelecimento. Madame sabia que a polcia era mal paga e que, de qualquer maneira, no poderiam se dar a grandes luxos... 



Isso era justamente o que no acontecia com Madame Lantier, excessivamente antiptica para o gosto dos flics, por demais sovina para lhes oferecer mesmo que fosse 
um modesto pourboire e sem a sensibilidade de permitir que um deles, numa noite fria de inverno, fosse aquecer os ps na cama de uma de suas empregadas. 



Por isso, sempre que podiam, os policiais arrumavam uma maneira de implicar com Madame Lantier e de, no mnimo, deix- la com raiva e com medo, obrigando- a a fechar 
a casa por uma ou duas noites. 



Prejuzo para a proprietria e alegria para Mariette que, muito agradecida, franqueava sua adega para os policiais e determinava que suas meninas os distrassem 
e satisfizessem seus mnimos desejos. 



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Difcil dizer se essa atitude acabava por significar lucro ou prejuzo pois, via de regra, os homens que costumavam ir  lavanderia de Madame Lantier, nem sequer 
eram aceitos no bordel de Mariette, exigente demais para deixar que trabalhadores suados e mal- asseados frequentassem seu estabelecimento. 



Mariette chegava a ser rude e grosseira com os que insistiam e seus dois homens de segurana, Pierre e Claude, no vacilavam em pr para fora da casa, aos pontaps, 
aqueles que tentavam entrar contra a vontade de sua patroa. 



 Fao isso para a segurana dos que aqui vm  dizia Mariette  Meus clientes so pessoas de bem. No posso permitir que haja uma mistura de classes, no posso 
deixar que um mendigo queira compartilhar a mesa de um fidalgo! 



E, com expresso horrorizada, acrescentava:  Mesmo porque, em pouqussimo tempo, eles estariam querendo compartilhar outras coisas, no  verdade? E sabe- se l 
que doenas eles podem estar carregando! 



Assim dizendo, Mariette voltava a sorrir, contando:  Como o caso desse maldito Berthelot!  to sujo que pode estar at com sfilis... J imaginou se ele resolve 
aparecer por aqui? No posso correr o risco! Meneando a cabea, fazendo balanar os cabelos muito louros, finalizava: 



 Por a voc v como eu tenho razo... Como o asseio e o aspecto fsico tm importncia... Eu jamais deixei que esse miservel entrasse em minha casa! 



Erguendo o nariz, Mariette encerrava o assunto lanando um olhar irado para o outro lado da rua, para a pequena casa encravada entre a lavanderia e a mercearia de 
Jean- Marie Gounot, a casa onde Berthelot Hoche vivia com a mulher e a filha. 



******* Berthelot sabia que Mariette no se cansava de dizer coisas horrveis a seu respeito. 



No fundo, ele nada podia fazer, no lhe era dado o direito de contestar suas palavras pois, alm de serem verdadeiras, havia os dois gorilas a soldo da cafetina 
que no lhe deixariam um s osso inteiro no corpo se ele ousasse sequer replicar. 



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Berthelot era obrigado a calar, a suportar tudo aquilo e ainda por cima, aguentar as admoestaes de sua mulher: 



 Voc no presta para nada, mesmo! Ainda se tivesse dinheiro, ns poderamos mudar daqui, poderamos ir para um outro lugar onde fssemos respeitados! 



Judith Hoche tinha toda a razo de reclamar. Com o marido sem ganhar um tosto furado, ela era o esteio da famlia, vendendo seu corpo para poder comprar comida. 



Sim... Judith Hoche tambm fazia concorrncia a Mariette. Era uma concorrncia ainda mais dbil do que a das meninas de Madame Lantier mas... Era uma concorrncia 
e os homens que a procuravam, no iam ao bordel Panier Fleuri... 



Com isso, com a autoridade que lhe era conferida pelo fato de ser quem sustentava o lar, a mulher se dava o direito de xingar Berthelot e, s vezes, at mesmo de 
bater nele. 



E Berthelot ficava calado. Engolia sua revolta, humilhava- se, pedia entre lgrimas que ela parasse de lhe bater e... 



No dia seguinte, voltava a pedir dinheiro para um copo de absinto, para o jogo ou qualquer outra coisa que nada tinha a ver com as responsabilidades de um pai de 
famlia. 



 Voc no tem a menor vergonha!  urrava a mulher  Nem mesmo se incomoda com a maneira como fao para que esse dinheiro chegue s suas mos! 



Atirando algumas moedas no cho, acrescentava:  Tome! V beber! V jogar at o raiar do dia! Mas, pelo menos, no me incomode, no venha perturbar o meu trabalho! 



Berthelot apanhava o dinheiro com um sorriso triste e cheio de revolta... 



 Um dia  pensava ele  as coisas vo mudar... E eu terei dinheiro para beber um tonel de conhaque, se tiver vontade, sem ter que lhe dar qualquer satisfao! 



Berthelot dizia isso olhando para a filha, ento com dezesseis anos de idade e mostrando que herdara da me as curvas sensuais, a maneira sedutora de andar e de 
olhar, e a voz quente, insinuante e tentadora. 



Era isso mesmo... Ali estava a sua esperana, a ltima coisa com que poderia contar: sua filha! 



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Ela haveria de lhe render alguma coisa, haveria de ser diferente da me... Berthelot haveria de lhe arranjar um casamento, haveria de lhe arrumar um homem que a 
sustentasse e que lhe fosse pelo menos grato por ter tido participao na existncia de uma to bela mulher... 



Ajuntando as moedas, Berthelot ganhava a rua sabendo que no deveria voltar, mesmo que o desejasse, antes da manh  sua casa, para no atrapalhar o trabalho de 
Judith. 



Um trabalho que no fundo de seu corao ele abominava mas que, ao mesmo tempo, sabia muito bem ser a nica maneira de ter o que comer e o que vestir... Ele, Judith 
e a filha. Mas... Berthelot tinha suas manias... Suas esquisitices. 



Berthelot deixava sua casa e, ao contrrio do que se poderia esperar, no ia beber nos bares da vizinhana. Ia, isso sim, para os lados do Boulevard St. Germain 
onde, caminhando por entre os pltanos, chegava a parecer uma outra pessoa, as costas eretas, a cabea erguida, o olhar altivo e dominador. 



Entrava, ento num caf da Place Saint Andr e, pouco depois, estava conversando animadamente com algum importante senhor, um desses homens do mundo dos negcios, 
desses que trazem os bolsos cheios de francos e o corao vazio de amores, a existncia completamente sem sal, incapazes que so de pensar em qualquer outra coisa 
que no o enriquecimento. 



Era desses homens que Berthelot gostava. Achava- os fascinantes, sempre falando em grandes cifras, sempre dando a impresso de que seriam capazes de ter o poder 
nas mos um poder to grande que conseguiriam mudar o rumo da poltica, mudar o curso dos acontecimentos da nao e, quem sabe, at mesmo do mundo inteiro... 



Para o pobre Berthelot, esses indivduos representavam quase que um papel de deuses e era com um deles que ele queria ver sua filha casada. 



S que... Nenhum desses homens que Berthelot conhecia era solteiro... No que isso incomodasse muito o pobre homem. Ele no via mal no divrcio, muito pelo contrrio... 
Se tivesse dinheiro, j teria mandado Judith para o inferno muitos anos atrs... 



Porm, o fato de aqueles indivduos serem casados atrapalhava um bocado. Se ele quisesse tentar alguma coisa com referncia  sua filha, teria de aguardar que o 
escolhido se divorciasse e, naqueles anos finais da dcada de 30, o que quer que dependesse da Justia ou de qualquer 



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servio pblico, seria terrivelmente demorado e complicado, os passos do processo entravados por uma burocracia irracional e por uma manifesta m vontade de todos 
os funcionrios do governo francs. 



Berthelot j estava comeando a ficar desanimado quanto a arrumar um marido para a filha que lhe desse algum dinheiro sem que tivesse que trabalhar ou que aguentar 
as palavras duras de Judith, quando conheceu Jacob Fleitcher. 



******* Jacob Fleitcher tinha um inconveniente: era judeu... Naquela poca, ser judeu na Frana no era das melhores coisas do mundo uma vez que havia uma certa 
tendncia germanfila entre muitos franceses e, consequentemente, um visvel apoio s idias de Adolf Hitler. Essa tendncia fazia com que os descendentes de Abrao 
fossem discriminados em muitos lugares e em muitas atividades e fazia com que eles sofressem humilhaes as mais variadas e, por vezes, privaes da pior espcie. 



E Jacob Fleitcher, por ser judeu, estava sendo humilhado, perseguido, discriminado... 



Era um homem baixo, troncudo, com o pescoo curto e taurino, a pele muito vermelha e os olhos de um verde acinzentado que deixavam ver a tristeza que lhe ia pela 
alma sem, no entanto, esconder a fora de sua determinao e a intensidade de sua revolta. 



Quando Berthelot o conheceu, Jacob estava meio embriagado, tentando afogar no fundo de um grande copo de conhaque, os sofrimentos daquele dia e de muitos outros... 



 So todos uns desgraados!  exclamou ele com a voz j um pouco pastosa, a lngua grossa e desobediente, parecendo maior que a boca  Se eles soubessem tudo o 
que tenho, tudo o que sou, jamais me tratariam dessa maneira! 



Berthelot estava sentado ao seu lado, no balco de um caf, na Place St. Andr e, ao ouvi- lo dizer tal frase, interessou- se. 



 Voc no parece de muito bom humor...  comentou. O judeu olhou para ele com desprezo e, incapaz de controlar suas palavras devido ao excesso de lcool, falou: 



 No sei porque est interessado... No v a cor de meus cabelos? No v o formato de meu nariz? 



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Antes que Berthelot pudesse se refazer do espanto, Jacob completou: 



 Ser possvel que no tenha percebido que eu sou judeu?! Berthelot Hoche riu alto. Batendo nas costas de Jacob, disse:  Ora, meu amigo! No seria isso que me 
faria deixar de trocar algumas palavras com voc! 



Ficando subitamente srio, acrescentou:  Principalmente porque estou percebendo que o amigo precisa de ajuda... Eu no seria capaz de deixar de estender a mo a 
algum simplesmente por professar uma religio diferente da minha! 



Jacob olhou para seu interlocutor com desconfiana. Ele j tivera diversas experincias e das mais desagradveis com pessoas que se aproximavam parecendo cheias 
de boa vontade e que, no fundo queriam apenas arrumar uma maneira de explor- lo e de persegui- lo ainda mais. 



Percebendo o que ia pela mente do judeu, Berthelot voltou a sorrir e sugeriu: 



 Vamos tomar mais um copo? Talvez lhe faa bem e ajude a me contar o que est acontecendo... 



Pousando amistosamente a mo sobre o ombro esquerdo de Jacob, finalizou: 



 Se eu souber de que est precisando, talvez possa ajud- lo... E desinteressadamente, pode estar certo! Ficarei satisfeito se apenas me convidar a beber consigo... 



Jacob suspirou. Na realidade, o que ele mais estava precisando naquele momento, era de algum que ouvisse suas lamrias... 



No poderia contar com os outros judeus pois estes  todos os outros judeus de Paris  o conheciam muito bem e dele no gostavam pois, alm de jamais freqentar 
a sinagoga, desprezara a mo de Sarah Steiner dizendo abertamente que os pais da moa quiseram forar o casamento unicamente por estarem falidos e por terem tomado 
conhecimento do quanto ele possua... No poderia encontrar qualquer receptividade entre os no- judeus por razes bvias: havia o nazismo, havia o colaboracionismo, 
havia a discriminao com pessoas espalhando boatos dando conta de que os judeus ricos como ele, estavam deixando a Frana e levando em suas bagagens verdadeiras 
fortunas em ouro, platina e diamantes. 



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Fortunas que estariam fazendo muita falta para a Frana no que dizia respeito aos preparativos para a guerra, um mal que naquela ocasio j dava mostras de ser inevitvel. 



Jacob ergueu os olhos do fundo de seu copo e fitou longamente o homem que estava ali, ao seu lado, insistindo num relacionamento, em uma troca de palavras e de confidncias. 



Pareceu- lhe que Berthelot era digno de confiana. Pelo menos, era um total desconhecido e depois, aps aquele dia, as possibilidades de voltar a encontr- lo seriam 
mnimas. 



Assim, no havia nada de mal em abrir a alma com ele. Com um menear desalentado da cabea, Jacob falou:  Talvez tenha razo... Lavar a alma pode ser que sirva como 
um bom remdio para mim... 



Sorriu, estendeu a mo direita para Berthelot e se apresentou:  Sou Jacob... Jacob Fleitcher. E acho que vou gostar muito de lhe oferecer uma bebida... 



Berthelot sorriu, por sua vez e, depois de sacudir vigorosamente a mo de Jacob, murmurou: 



 Est certo... Mas voc precisa me contar o que est acontecendo... Sem saber das coisas, no me ser possvel nem mesmo tentar ajud- lo! 



O judeu fez um sinal afirmativo com a cabea e, chamando o garom, mandou- o trazer mais um copo de conhaque, enquanto dizia: 



 Acho que hoje tive muitos motivos para ficar aborrecido... O garom trouxe as bebidas e Jacob, depois que ele se afastou, prosseguiu: 



 No creio que meu dinheiro seja diferente do dinheiro que os outros trazem nos bolsos... 



Voltando a encarar Berthelot, perguntou:  Ou ser que  diferente pelo fato de eu ser judeu? Berthelot deu de ombros e respondeu, em voz baixa:  O dinheiro  igual... 
E isso, no mundo inteiro! As pessoas  que so diferentes... 



******* Jacob olhou com raiva para Berthelot e este, com um sorriso apaziguador, apressou- se em dizer: 



 Mas eu, por exemplo, no sou ningum para julgar as pessoas. No vejo porque tratar um homem de maneira diferente s por causa de sua religio, de sua nacionalidade 
ou cor... 



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Muito srio, Jacob murmurou:  Espero que esteja falando a verdade... No sou bem exatamente o tipo de indivduo que aceita brincadeiras, sabia? 



Assim dizendo, Jacob olhou para Berthelot e este chegou a sentir um frio na espinha tal era a intensidade daquele olhar. 



Com um sorriso sem graa, Berthelot indagou:  Mas o que aconteceu para deix- lo assim to revoltado e to amargo? Foi mandado embora do emprego s porque  judeu? 



Antes que Jacob pudesse responder, Berthelot explicou:  Tm feito isso, ultimamente... Ns, franceses, parecemos no perceber que os judeus que aqui esto so to 
franceses quanto qualquer um que tenha nascido  sombra da Notre Dame! 



Jacob riu alto, um riso tpico daqueles que j esto comeando a se deixar dominar pelo lcool e, depois de tossir um pouco, engasgado com a prpria risada, falou: 



 No tenho esse problema, meu amigo... No tenho patro para me despedir. Sou dono de meu prprio nariz, tenho uma joalharia perto do Quai des Offvres... 



 Ento  disse Berthelot  voc no tem muito do que se queixar... Os joalheiros ainda esto ganhando muito com as pessoas querendo transformar jias em dinheiro 
antes que a guerra estoure! Vocs podero fazer bons negcios e enriquecer ainda mais! 



 No estou me queixando  admitiu Jacob  Pelo menos no estou dizendo nada a respeito de dinheiro... 



Sem deixar que Berthelot o interrompesse, o judeu continuou:  Minha revolta  por causa dessa discriminao... Baixando um pouco a voz, Jacob completou:  Hoje 
fui expulso de um bordel... Imagine uma coisa dessas! Ser expulso de um bordel unicamente pelo fato de ser judeu! 



Berthelot olhou surpreso para o outro e, depois de alguns instantes, enquanto Jacob tomava mais um gole de conhaque, ele disse, com ar de reprovao: 



 Mas tambm... A troco de qu voc teve que dizer que  um judeu? 



Com um sorriso, arrematou:  Na realidade, voc no tem aspecto de judeu... Poderia passar perfeitamente por um irlands... 



Jacob balanou a cabea negativamente e murmurou:  Os irlandeses no so circuncidados, meu amigo... Fui 



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descoberto pela mulher que deveria ir para a cama comigo... E no instante em que tirei as calas! 



Berthelot teve que se esforar para no rir e Jacob prosseguiu:  Foi uma humilhao... Eu no poderia adivinhar que aquela maldita era germanfila! E ela saiu pelo 
corredor gritando que no se deitaria comigo pois no queria se contaminar! 



Apertando muito os olhos, ele finalizou:  Tive vontade de mat- la... De apertar seu pescoo com as mos at ver seus olhos saltarem para fora das rbitas! 



Os dois homens ficaram em silncio por alguns instantes e Jacob, j bastante embriagado, serviu mais conhaque em ambos os copos, dizendo: 



 Eu seria capaz de dar uma mala de dinheiro por uma mulher... Mas por uma mulher que se decidisse a ficar comigo, que fosse s minha... 



 Voc est querendo dizer por uma esposa?  indagou Berthelot, mal acreditando no que ouvia, achando que estava sonhando pois o que aquele judeu estava querendo 
era justamente o que ele estava querendo arrumar para sua filha  Se  assim, porque no se casa com algum de sua religio? 



Jacob olhou torvamente para seu interlocutor e respondeu:  No quero uma judia... Na realidade, eu no me considero muito judeu, no sou um homem religioso e no 
conseguiria suportar um casamento em que tudo  feito com base em fundamentos bblicos, em ordens e determinaes dos rabinos... Quero uma mulher comum, que no 
esteja interessada em papis, em normas litrgicas, em coisas desse gnero. Quero algum que no sinta a necessidade de se fundamentar num deus para sentir a felicidade. 



Soltou uma gargalhada e encerrou:  O meu deus  o dinheiro, amigo... Preciso de uma mulher que tambm pense assim e que saiba prestar a esse deus a sua merecida 
devoo... Que saiba am- lo ao invs de gast- lo! 



Berthelot ficou calado, pensativo... Talvez as coisas comeassem a melhorar... Aquele judeu era simptico, parecia ser saudvel e, o que era melhor, parecia estar 
nadando em dinheiro... 



E havia sua filha... Uma moa bonita e que, se continuasse ali, naquela casa e com aquela me, muito provavelmente acabaria indo parar no bordel de Mariette... 



No... Ele no queria isso para a filha. Afinal, aquela menina tinha crescido ao seu lado e, no incio, enquanto ela ainda era bem 



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pequena, tinha sido ele quem trocara suas fraldas enquanto Judith perambulava pelas ruas  caa de... clientes. Berthelot no gostaria que ela viesse a sofrer ainda 
mais e, alm disso, se a filha se ajeitasse na vida, com certeza, haveria de ter uma ou outra sobra que ele poderia abocanhar... 



Fitando Jacob com intensidade, ele murmurou:  Acho que tenho a mulher adequada para voc, Jacob... E, se  verdade o que me falou a respeito do dinheiro... 



Jacob ergueu do copo os olhos baos e, com a voz j bastante embotada pelo lcool, disse: 



  verdade... Poderei lhe dar o dinheiro necessrio para voc comprar uma casa... 



Com um sorriso canalha, acrescentou:  Mas,  claro que eu precisarei gostar da mulher... Berthelot olhou o relgio e, vendo que ainda no era meia- noite, falou: 



 Se ns nos apressarmos, poderei levar- lhe uma pessoa que, aposto, voc jamais trocar por outra enquanto for vivo... 



Jacob balanou pesadamente a cabea e resmungou:  Est certo... Vou lhe dar meu endereo... Esteja l antes de duas horas da madrugada... Estarei com o dinheiro 
 sua espera. 



******* Berthelot nem sequer se deu o trabalho de verificar se o endereo fornecido por Jacob era verdadeiro ou no. Segundo o que j conhecia de homens embriagados, 
a possibilidade de um deles dizer uma mentira quando sob os efeitos do lcool eram muito pequenas. Os bbados podem at tentar mentir mas dificilmente o conseguem 
fazer de maneira convincente... Talvez seja nessa assertiva que tenha origem o dito popular de que no se deve confiar em quem no bebe. 



Com essas idias na cabea e j pensando na soma que haveria de receber, Berthelot voltou para casa. 



O mais difcil, imaginava ele, seria convencer a filha... Ela ainda era bastante infantil e, at onde Berthelot sabia, no tinha qualquer experincia com essa faceta 
da vida. 



Era mais do que claro que no era uma inocente ingnua... Bastava ver como era sua me para se chegar  concluso de 



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que a moa j ouvira falar  pelo menos ouvira falar  de tudo quanto se deve fazer para atrair um homem... 



 Ora!  exclamou, em voz alta, quando chegou  esquina da Rue de la Huchette  Estou me preocupando  toa! Ela  suficientemente inteligente para saber que esse 
homem poder lhe dar uma vida bem melhor do que esta que est levando aqui... Basta que saiba como fazer as coisas! 



Respirou fundo e, apressando o passo, murmurou:  Talvez no seja muito bonito tudo isso... Mas  a melhor maneira de conseguir a minha liberdade! Com dinheiro na 
mo e sem ter que me preocupar com minha filha, poderei ir embora, poderei deixar Judith em definitivo e nunca mais terei que tolerar seus desaforos e suas humilhaes! 



Chegou  porta de sua casa e, cauteloso, procurou espreitar em seu interior colando o ouvido ao buraco da fechadura, para tentar escutar se sua mulher no estaria, 
por acaso, na sala, bebendo com um de seus clientes. 



No ouviu qualquer rudo e, criando coragem, girou a maaneta. A sala estava deserta. Berthelot caminhou nas pontas dos ps pelo pequeno cmodo e foi abrir a porta 
do quarto da filha. 



Esta, dona de um sono muito leve desde pequena, acordou sobressaltada e fixou seus grandes olhos azuis no pai. 



 Levante- se  disse este  Arrumei uma vida bem melhor para voc. 



Tomou flego e arrematou:  H um homem desesperado atrs de uma esposa. Um homem rico... Voc poder ser feliz e no precisar mais viver num antro como este. 



Com um sorriso sem jeito, acrescentou:  E eu, de minha parte, tambm poderei encontrar a minha felicidade... 



A moa ficou imvel por um instante, a boca entreaberta, olhando para Berthelot. 



Depois, num salto, saiu da cama e vestiu- se, enquanto dizia:  Acho que algum ouviu minhas oraes, papai... Eu ia fugir amanh de manh... 



Berthelot franziu as sobrancelhas.  Porque diz isso, minha filha?  indagou.  Amanh  noite, eu deveria comear a trabalhar para Mariette...  respondeu ela  
E deveria entregar todo o dinheiro para mame... 



Berthelot fez uma careta de desagrado e murmurou: 



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Voc tem sorte... E sua me  mesmo uma desgraada... Vendo que a filha j estava arrumada, disse:  Vamos! No podemos correr o risco de sua me chegar e nos encontrar 
aqui... 



 Ela no vai chegar  respondeu a moa  Ela est a dentro, no quarto, com dois carregadores do mercado... 



Berthelot respirou fundo e, pousando a mo no ombro da filha, falou:  Bem, querida... Isso acabou... No pense mais nessas coisas, esquea que um dia teve essa 
vida, esquea que teve essa mulher como me... Faa tudo bem direito e bem corretamente que voc ter todas as chances de ser feliz! 



******* Quando Judith abriu a porta do quarto para que seus dois fregueses sassem, teve a surpresa de encontrar Berthelot sentado na sala, acordado e sbrio, olhando 
fixamente para ela. 



Os dois homens, um bocado sem jeito e bastante assustados, imaginando que Berthelot pudesse ter um acesso de fria e cometer um desatino, trataram de dar o fora 
dali o mais depressa possvel. 



Tentando ser zombeteira, Judith indagou:  Mas o que est fazendo aqui? Ser possvel que nem sequer me deixa trabalhar em paz? 



E, sentindo crescer a raiva dentro do peito, acrescentou:  No percebe que isso faz com que eu perca clientes? Ser que no v que pode espant- los? 



Berthelot sorriu e, pondo- se de p, disse:  No quero brigar com voc, Judith... Vim aqui apenas para buscar minhas roupas... E, para no atrapalhar, esperei que 
seus... 



clientes... sassem. Separando bem as slabas, completou:  No precisarei mais suportar sua cara, seu mau gnio e, o que  mais importante, as suas humilhaes. 



Judith deu uma risada.  No me diga!  exclamou  Voc no poderia estar me dando uma notcia melhor! 



Apertando um pouco os olhos, ela perguntou:  E como  que pretende se sustentar? Estou enganada ou 



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encontrou uma outra idiota que se venda para lhe por comida no prato?  No encontrei idiota nenhuma  respondeu friamente Berthelot  No encontrei nenhuma idiota 
que se venda por mim ou que venda a prpria filha! 



Judith fez desaparecer o sorriso de seu rosto e, depois de encarar o marido por um bom momento, rosnou: 



 Quando o homem que se tem em casa  um ordinrio como voc, no restam muitos caminhos... 



Antes que Berthelot pudesse contestar, ela falou:  Mas pode estar certo de que sua filha est muito satisfeita... Ela sabe bem que qualquer coisa  melhor do que... 



 Ela no precisar mais seguir os passos de sua me  cortou Berthelot  E isso, graas a mim! 



Judith olhou atnita para o marido e, s ento, percebeu que a porta do quarto da moa estava aberta e que ela no mais se encontrava ali. 



 Jeanne!  exclamou ela  Onde est Jeanne?! O que  que voc fez para ela, miservel?! 



 No fiz mais do que a minha obrigao de pai... Arrumei- lhe um marido. 



Com uma risada, arrematou:  Fui um pouco diferente de voc, rameira... Voc apenas arrumou para nossa filha um lugar no prostbulo! O lugar que voc no pode ter 
pois est velha e acabada demais para isso! 



Da garganta de Judith saiu um som que se assemelhava ao rugido de uma fera... 



Com as unhas em riste, ela atacou.  Maldito!  gritou  Mil vezes maldito! Berthelot sabia- se bem mais frgil que a esposa. Estava perfeitamente consciente que 
jamais conseguiria segur- la, que jamais conseguiria impedi- la de feri- lo no rosto com aquelas unhas afiadas que mais pareciam as garras de uma coruja. 



Assim, no teve outra alternativa seno enfiar um soco no meio do rosto da mulher... 



Colhida no nariz, mais pela surpresa do que pela potncia do golpe, Judith jogou a cabea para trs. 



Teve azar... Perdeu o equilbrio, escorregou nos farrapos de um tapete que estava no cho e caiu. 



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Bem que Berthelot ainda tentou impedir, ainda tentou segurla, pelo menos pux- la um pouco para a frente. 



Porm, sua fora fsica deixava muito a desejar... Ele no conseguiu nada a no ser cair por cima dela e, justamente por isso, por estar com a cabea quase colada 
 de Judith, ele pode escutar com nitidez o som macabro de ossos quebrando, um som que parecia o de um pote ao se rachar, quando a mulher bateu com a parte de trs 
da cabea na maaneta da porta. 



Judith escorregou para o cho, os olhos revirando nas rbitas, o sangue escorrendo de seus ouvidos. 



Ela ainda respirou uma ou duas vezes com muita dificuldade e ficou imvel. 



Berthelot no precisou fazer nada para saber que ela estava morta. Bastava ver o aspecto vtreo de seus olhos, o peito paralisado, o busto imvel, sem o subir e 
descer da respirao. 



 Meu Deus!  exclamou o homem  Eu a matei! No mesmo instante, passou por sua mente a possibilidade de ir para a cadeia, de no poder aproveitar o dinheiro que 
Jacob lhe tinha dado com um imenso sorriso de satisfao ao ver Jeanne  sua frente. 



 No serei preso!  gemeu Berthelot, desesperado  No posso ser preso! 



Saiu correndo de casa e, por azar, esbarrou num policial que voltava naquele preciso instante de algumas horas divertidas no Panier Fleuri. 



 Ei!  exclamou ele  Onde vai com tanta pressa, Berthelot? Berthelot no respondeu. Em pnico, correu rua abaixo, entrou na Rue du Chat qui Pche e, tentando olhar 
para trs ao mesmo tempo em que corria, viu que o policial, estranhando sua atitude, tratava de persegui- lo. 



Apressou- se. Viu chegar a margem do Sena, viu a pequena mureta do cais e, achando que seria essa sua salvao, saltou. 



Sabia que atrs da mureta havia uma estreita faixa de areia e era por ali, longe da vista do policial, que ele tencionava fugir. 



Porm, Berthelot no podia imaginar que ali, bem no lugar onde cara, algum deixara um resto de grade de ferro, em p e com as aguadas lanas apontadas para cima. 



Berthelot sentiu os ferros varando- lhe as carnes... Sentiu, de repente um ardor em suas entranhas e, logo em seguida uma intensa falta de ar. 



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Quis tossir, quis se debater, quis gritar... Porm nada conseguiu fazer. O sangue, esvaindo- se rapidamente por quatro grandes ferimentos na barriga e no peito, 
formou uma poa junto  grade e esta foi a ltima imagem que Berthelot teve deste mundo que to cruelmente o havia tratado. 



Quando o policial que perseguia Berthelot, mais para saber o que o havia assustado tanto do que para prend- lo, se aproximou, ele j no mais pertencia ao rol dos 
seres vivos... 



Com asco  afinal no estava acostumado quelas cenas de violncia e sangue  o policial olhou para o cadver. 



 Meu Deus!  murmurou, vendo todas as cdulas que apareciam no bolso do palet de Berthelot  Onde  que ele conseguiu esta fortuna?! 



Olhou para os lados. No havia ningum na rua quela hora. Ningum jamais perceberia o que ele estava para fazer... Rapidamente, o policial apanhou o bolo de dinheiro, 
meteu- o dentro da tnica e, s depois de tornar a aboto- la  que pegou seu apito e comeou a soprar, chamando a ateno dos moradores da pacata e tranquila Rue 
de la Huchette. 



Viu que pessoas se aproximavam, algumas ainda em trajes de dormir, avistou o seu colega de planto no posto policial e, cambaleando como se estivesse sentindo tonturas 
por causa da viso do sangue, ele se afastou dali, dizendo: 



 Preciso tomar alguma coisa... Detesto sangue! Detesto esse tipo de coisa! 



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CAPTULO II 



A cabea lhe doa ao menor movimento e, quando Jacob tentou mudar de posio na cama, sentiu tonturas, parecendo que o mundo inteiro estava se mexendo. 



Aos poucos, as imagens do que acontecera na vspera foram se formando em sua mente e, mais uma vez, sentiu uma raiva surda invadir sua alma. 



Lembrou- se dos dois gorilas pondo- o para fora do bordel, pareceulhe ouvir, ainda, os gritos da mulher dizendo que ele era mais um dos muitos judeus nojentos que 
estavam fazendo a Frana ir  falncia... 



E, ento, ele sentiu o aroma de po torrado, escutou o barulho de panelas na cozinha. 



Franziu as sobrancelhas, intrigado, murmurando:  Mas... Que diabo...? Estou sozinho em casa! Quem ser que est fazendo torradas? 



Tentou erguer a cabea do travesseiro mas a dor voltou, implacvel e avassaladora, fazendo- o desistir da idia com um gemido cheio de sofrimento. 



Nesse instante, ele viu surgir,  porta do quarto, aquela moa. Era muito bonita, no teria mais que dezesseis ou dezessete anos de idade e estava sorrindo para 
ele, trazendo nas mos uma bandeja com o desjejum. 



 Bom dia!  exclamou ela, alegre  Est melhor? E, com uma expresso maliciosa, acrescentou:  Acho que voc se excedeu um pouco na bebida, no  mesmo? Jacob no 
respondeu. Limitou- se a olhar espantado para ela, tentando encontrar uma explicao para a sua presena ali. 



Sim... Ela era lindssima... Possua olhos muito azuis, os cabelos bem ruivos emoldurando um sorriso que mostrava alguma coisa de misterioso, de terrivelmente encantador. 
Seu corpo, que ele podia adivinhar sob uma de suas camisas, era bem feito, cheio e generoso e as pernas nuas, muito bem torneadas, a pele lisa e, j aos olhos, macia 
e quente. 



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O fato de a moa estar usando  guisa de robe- de- chambre, uma de suas camisas, era mais do que significativo... 



Com sacrifcio, pois mover a cabea era algo muito doloroso, Jacob olhou para o lado direito de sua cama. 



No teve qualquer dificuldade em constatar que ela dormira ali, ao seu lado. 



O problema estava em Jacob no conseguir lembrar de nada, em no conseguir localizar em seu crebro ainda embotado pelas muitas doses de conhaque, os acontecimentos 
da noite anterior. 



No conseguia recordar, por exemplo, de onde ele trouxera aquela moa, de que maneira ela surgira em sua vida. 



Era mais do que evidente que no tinha sido de um bordel... Jacob podia no ser dos homens mais experientes em matria de mulheres, de bordis e de prostituio, 
mas tinha conhecimento bastante sobre esse assunto para saber que aquela moa no era uma qualquer... Pelo menos, no tinha o aspecto vulgar das meretrizes que deixavam 
as casas de tolerncia no final da noite para passar algumas horas na cama de algum fregus. 



 De onde surgiu voc?  perguntou, por fim. Jeanne sorriu e, sentando- se ao seu lado, na cama, colocou a bandeja sobre os joelhos. 



Inclinou- se um pouco para poder servir o ch e esse movimento permitiu a Jacob ver pela abertura da camisa, os seios da moa, jovens, firmes, fartos, os mamilos 
rosados pontudos, quase que forando o tecido, parecendo ansiar por liberdade. 



 No se lembra?  perguntou ela aceitou uma torrada em que ela passara manteiga e gelia e murmurou: 



 No... No consigo me lembrar de nada, a no ser daquela cena deprimente... 



Mordeu a torrada e, com a boca cheia, completou:  Quando me expulsaram do bordel... Jeanne balanou afirmativamente a cabea e disse, enquanto acariciava os cabelos 
de Jacob: 



 Eu soube... Papai me contou o que lhe aconteceu. Com um sorriso carinhoso, falou:  Mas no deve se preocupar... Voc no ter mais necessidade de procurar esse 
tipo de mulher. Estarei aqui, ao seu lado, a partir de hoje... 



Ento, Jacob lembrou. Aquele homem tinha cumprido sua promessa! Tinha trazido a moa! 



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Abriu a gaveta do criado- mudo e constatou que o dinheiro que ali tinha guardado, desaparecera._ _ 



 Voc o deu para papai  falou Jeanne com um timbre de preocupao em sua voz  Ningum o roubou, posso garantir! 



Jacob pegou outra torrada, tomou um gole de ch e sorriu.  Tenho certeza disso, moa  disse ele. Olhando intensamente para ela, acrescentou:  E algo me diz que 
eu no vou me arrepender desse investimento. Mais aliviada, Jeanne murmurou:  Do que depender de mim, fique tranqilo... Hei de fazer tudo para satisfaz- lo... 



Assim dizendo, ela se inclinou um pouco mais e pousou os lbios sobre a testa de Jacob. 



Os dois ficaram calados por alguns instantes e, depois de mais um gole de ch, o homem perguntou: 



 J esteve com outros...? Jeanne sacudiu negativamente a cabea e respondeu:  No... Ainda no estive com homem nenhum. Maliciosa, completou:  Nem mesmo com voc... 
Depois que papai foi embora, voc dormiu de imediato, parecia at que tinha desmaiado! 



Jacob tirou a bandeja do colo de Jeanne e, puxando- a para si, falou:  Acho que esta madrugada eu poderia ter sido assassinado que nem sequer perceberia a morte 
chegar... 



Acariciou os cabelos muito vermelhos da moa e disse:  Mas hoje, as coisas sero diferentes, querida... Muito diferentes! 



Percebendo que Jeanne ficava subitamente rija em seus braos, Jacob sorriu, sussurrando em seu ouvido: 



 Mas no se preocupe... Sei que esta ser a sua primeira vez e sei que  preciso ir devagar... Saberei ser paciente e delicado, querida... 



Beijou- a e arrematou:  No mnimo, preciso tomar cuidado com o meu investimento, no  verdade? 



Jeanne fechou os olhos enquanto as mos de Jacob percorriam seu corpo provocando- lhe um delicioso arrepio. 



Sim... Tudo indicava que ela tivera sorte. Muita sorte, na realidade... J ouvira muitas histrias de outras moas que tinham esbarrado, na sua 



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primeira noite de amor, com homens rudes, verdadeiras cavalgaduras, egostas a ponto de no pensarem um s instante que aquilo, o amor carnal,  um ato para ser 
praticado a dois e que a satisfao s existe quando ambos os parceiros conseguem sentir prazer... 



Viu Jacob se levantar, avaliando- o com frieza. No poderia dizer que ele era um homem bonito. Alis, bem ao contrrio, Jacob estava muito longe de ser ao menos 
parecido com os prncipes encantados que povoavam seus sonhos de adolescente. 



De mais a mais, ele era judeu... No que Jeanne tivesse alguma coisa contra os judeus. Isso, de maneira nenhuma! Jeanne no via qualquer diferena numa pessoa simplesmente 
por causa de sua religio, cor ou raa. Ela apenas sabia que os judeus no eram queridos, sabia que eles estavam sendo vtimas de perseguies e isso sim, a incomodava 



Mas... Jacob era um homem. Um homem com os bolsos cheios de dinheiro e que poderia muito bem proteg- la, pelo menos evitar que ela tivesse de ir para um bordel 
onde, com certeza, no teria a menor possibilidade de ser feliz. Jacob a sustentaria, faria com que ela no tivesse de levar o mesmo tipo de vida de sua me, obrigada 
a se deitar cada noite com um homem diferente e isso, quando no era com vrios, para poder ter o dinheiro para a sobrevivncia. 



Sim... Ela faria de tudo para conservar aquele homem. Faria de tudo para aprender at mesmo a am- lo e a desej- lo... 



 Voc no ter queixas de mim, Jacob  disse ela, ajudando- o a se vestir  Ver que sou perfeitamente capaz de ser a esposa ideal, aquela companheira com quem 
voc sempre sonhou, mesmo sem o saber... 



******* Jacob saiu de casa perto de dez horas da manh, preocupado com o fato de estar to atrasado e, por isso, mal teve tempo de conversar com Jeanne. 



No me espere para o almoo  disse ele ao se despedir  Mas em compensao, teremos muito tempo  noite... 



Jeanne beijou- o delicadamente, desejou- lhe um bom dia de trabalho e ficou vendo o homem, o seu homem, se afastar em passos apressados rumo a St. Germain. 



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Uma vez sozinha, ela resolveu assumir, em definitivo a posio de dona- de- casa, atividade em que ela estava bem treinada j que Judith, sua me, dificilmente acordava 
antes de meio- dia e seu pai jamais se propusera a ajudar em alguma coisa no servio domstico. 



Olhou ao redor de si. A casa de Jacob era grande, at mesmo grande demais para uma pessoa sozinha. Confortvel, possua uma sala ampla, com mveis de gosto duvidoso 
e que mostravam terem sido comprados em lojas de segunda mo. Porm, por mais feios e anti- estticos que fossem aquelas poltronas, mesinhas e mais um milho de 
pequenos objetos que se encontravam espalhados pelo ambiente, eram muito melhores do que os cacos com que fora obrigada a conviver na casa de seus pais. 



Assim, com cuidado e carinho, ela comeou a limpar o p dos mveis, a varrer o cho e a limpar as vidraas das janelas. 



Contrariamente ao que sentia em sua casa quando tinha de fazer esse mesmo tipo de servio, ela estava feliz, cheia de boa vontade e de animao. 



Sorriu consigo mesma, constatando que estava assim pura e simplesmente por j considerar aquela casa como sendo sua e aquele homem que sara para o trabalho, como 
sendo o seu marido... O que era muito diferente de ser obrigada a realizar o trabalho domstico para seus pais que, no fundo, no estavam nem um pouco preocupados 
com a sua felicidade. 



Por um momento, Jeanne pensou que estava sendo injusta para com o pai. Afinal de contas, tinha sido ele quem arranjara as coisas de maneira a ela poder ter um horizonte 
novo, a esperana de uma vida melhor. Porm, raciocinando mais friamente, chegou  concluso que seu pai s tivera aquela atitude por causa do dinheiro que Jacob 
lhe dera... Em seu ntimo, Jeanne sabia muito bem que, se no fosse por isso, ele jamais teria movido uma s 



palha para defend- la e at acharia muito bom que ela estivesse trabalhando com Mariette pois assim, haveria mais francos para gastar com bebidas, outras mulheres 
e com o jogo... 



Suspirou, pensando:  Mas isso acabou! Agora, se eu quiser ser feliz, se eu quiser ter uma vida calma e confortvel, no precisarei depender de mais ningum, apenas 
de mim mesma! 



Seu estmago se contraiu quando lembrou que  noite, teria de enfrentar a realidade decorrente do fato de ser mulher e de estar ao lado de um homem... 



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De um estranho... Com uma ponta de medo, Jeanne murmurou:  Sim... Jacob pode estar sendo carinhoso e delicado... Mas ser que ele vai ser assim o tempo todo? Ser 
que ele no vai acabar se transformando em uma pessoa egosta e que queira apenas uma mulher para satisfazer seus desejos e realizar os trabalhos de casa? 



******* Enquanto Jeanne se desincumbia da limpeza e comeava a tomar conscincia de que aquela casa seria a partir daquela data o seu reinado e ao mesmo tempo se 
deixava corroer pelo medo do que iria acontecer logo mais  noite, Jacob tambm tinha suas preocupaes. 



Em primeiro lugar, na verdade, ele no tinha planejado nada daquilo. Tinha ido, na vspera, a um bordel, tinha sido maltratado e humilhado... Por causa disso, bebera 
demais e, em sua bebedeira, dissera coisas a um estranho. 



Coisas que, de repente, tiveram o dom de modificar radicalmente sua vida, tiveram a faculdade de transformar o seu quotidiano de celibatrio, no de um homem casado. 



E era justamente isso que o estava pondo nervoso e apavorado. Se, com quase quarenta anos de idade ele ainda no havia se decidido a casar, como poderia se acostumar 
com o convvio, com a partilha de seu dia- a- dia, de sua vida, com uma mulher que nem sequer conhecia? E, o que era mais grave, com uma mulher que teria idade para 
ser, no mximo, sua filha?! 



Jacob estava cansado de ouvir histrias de seus amigos, de outros homens que tinham passado pela experincia de desposar uma mulher muito mais jovem. Todas as histrias 
tinham acabado mal, com a mulher traindo o homem, com o homem se desesperando por no conseguir acompanhar o ritmo cheio de energia e de desejo da jovem companheira... 



 Isso no vai acontecer comigo  murmurou Jacob  Pelo menos nessa parte, sei que sou perfeitamente capaz de satisfazer qualquer mulher! 



Mas... Jacob no pode deixar de pensar que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde... A impotncia aconteceria, a idade chegaria, to implacvel para ele quanto 
para qualquer outro homem e, ento, Jeanne, ainda cheia de vida, cheia de energia e ardor, teria de procurar a satisfao nos braos de outro, mais jovem, ainda 
capaz de lhe proporcionar aquilo que ele no mais estaria conseguindo. 



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Sacudiu a cabea procurando afastar de si tais idias e, com o pensamento longe, rebelde, tentou se dedicar mais uma vez s contas que estava fazendo. 



Logo percebeu que seria impossvel. No conseguia se concentrar no trabalho, chegando mesmo a ver diante de si a imagem de Jeanne vestida com sua camisa, os seios 
aparecendo, as pernas muito brancas e bem modeladas ali, ao alcance de suas mos... 



Novamente, procurou pensar em outras coisas, procurou desesperadamente empurrar Jeanne para fora de sua mente, buscando uma desculpa para voltar atrs, para retornar 
ao seu estado de solteiro. 



 Nem vou me incomodar com o dinheiro que dei para seu pai  murmurou  Acho que cometi um erro e devo pagar por ele... Mas o erro ser muitas vezes maior se eu 
insistir! 



Apertou os lbios, tomando uma deciso. Ainda no acontecera nada com a moa, ele no a deflorara... Seria at natural que a devolvesse, dizendo para seu pai que 
no raciocinara direito na vspera, que estava embriagado e que, por isso... 



Lembrou- se que Berthelot, no momento em que sara para ir buscar a filha, dissera que residia na Rue de la Huchette. 



No  longe daqui  pensou  Irei at l, agora mesmo! Fechou a loja e, em passos apressados, rumou para a Rue de la Huchette, j ensaiando o que diria para Berthelot, 
disposto at mesmo a desembolsar mais algum dinheiro s para readquirir a liberdade que estava em vias de perder. 



Levou um susto quando chegou ao endereo que procurava. Havia uma verdadeira multido  porta da casa e vrios policiais se acotovelavam com as pessoas, esforando- 
se para deixar livre a passagem. 



 O que aconteceu?  perguntou a algum, muito embora j desconfiasse que uma desgraa tinha ocorrido  Por que esse alvoroo todo? 



 Foi um crime  respondeu o inquirido  Marido e mulher brigaram, ele a matou e, depois, atirou- se do cais, espetando- se numa grade... 



Com medo, no querendo acreditar que estava vivendo aquele momento, Jacob indagou: 



 E quem eram, esses infelizes?  O casal Hoche  responderam- lhe  Berthelot e Judith Hoche... E o interessante  que ningum encontra a filha deles! 



Jacob sentiu uma pontada no estmago. Uma pontada que se transformou rapidamente em angstia quando algum disse: 



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 Pobre moa! Deve ter fugido, desesperada, quando viu o que aconteceu! E agora, ela est absolutamente sozinha, sem ningum no mundo que a ampare! 



Procurando disfarar da melhor maneira possvel o que lhe ia pela alma, Jacob se misturou com as outras pessoas e voltou para casa. 



Teria de dar a notcia para Jeanne e teria de procurar resolver com ela aquela situao.  No vai ser fcil  murmurou  E Jeanne vai se sentir a mais desgraada 
de todas as pessoas do mundo quando eu lhe disser que no a quero em casa... 



******* Jeanne estava com um pano amarrado  cabea, uma vassoura nas mos e um sorriso feliz ao ver Jacob voltar to cedo para casa. 



 O que aconteceu, querido?  indagou ela, esforando- se para dar  sua voz uma entonao de naturalidade, como se j estivessem juntos havia vrios anos e, naquele 
dia, o marido tivesse resolvido voltar do trabalho muito antes da hora habitual. 



Jacob no sorriu. Olhou intensamente para a moa, seus pensamentos num intenso conflito, sua alma num terrvel dilema. 



No estava esperando encontr- la vestida daquela maneira, como se no fosse mais do que uma faxineira, no imaginava que ela fosse capaz de assumir to rapidamente 
o papel de dona- de- casa e isso estava fazendo com que suas idias se desencontrassem, estava fazendo com que ele inteiro se debatesse em busca de uma resposta 
sobre o que deveria fazer. 



A jovem, percebendo pelo olhar de Jacob que alguma coisa no estava indo bem, cheia de preocupao, repetiu a pergunta: 



 O que aconteceu? Porque est com essa cara? Jacob respirou fundo e, deixando- se cair em uma das poltronas da sala, respondeu: 



 Tenho uma pssima notcia para lhe dar, Jeanne...  melhor voc se sentar para ouvi- la. 



Jeanne estava trmula quando, desprezando a poltrona ao lado de Jacob, foi se aninhar sobre seus joelhos, dizendo, com voz insegura: 



 S h uma notcia ruim que voc pode me dar, querido... E  voc no me querer mais aqui... 



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Jacob sacudiu negativamente a cabea e, vendo que os olhos de Jeanne se enchiam de lgrimas, murmurou: 



 No se trata disso, mocinha... Creio que a coisa  muito pior do que isso... 



Lentamente, com todo o cuidado, procurando escolher bem as palavras e criando a cada uma delas mais um pouco de coragem para continuar, Jacob disse para Jeanne o 
que acontecera... 



Quando ele terminou, ficou surpreso ao ver que nenhuma lgrima escorrera de seus olhos. 



Bem ao contrrio, ela parara de tremer e, com voz firme, perguntou:  E o que voc tinha ido fazer em minha casa? Por um instante, Jacob se viu tentado a responder 
que ele l tinha ido para tratar com Berthelot de sua devoluo. Da devoluo de Jeanne como se ela no fosse mais do que uma mercadoria qualquer, que se compra 
e que se vende, que se devolve quando no se est satisfeito. 



Porm, ele no teve coragem para tanto. Sua voz ficou presa, ele no conseguiu pronunciar uma s palavra e Jeanne, com um sorriso assustadoramente frio, disse: 



 Como j lhe falei, a nica notcia que poderia ser ruim, seria a de que voc no me quer mais... Espero que no seja essa e  para ter certeza disso que eu preciso 
saber o que voc foi fazer em minha casa... 



Jacob respirou fundo. Juntando toda a coragem que ainda lhe restava, ele conseguiu balbuciar: 



 Queria agradecer a seu pai... Queria dizer para ele que lhe era muito grato por me ter trazido uma mulher to... 



A voz morreu em sua garganta. Jeanne sorriu. Parecia feliz, paradoxalmente feliz mesmo aps toda aquela desgraa... 



Cobriu os lbios de Jacob com um beijo, a lngua se insinuando no interior de sua  Venha, querido  disse ela  No vejo nenhum motivo para esperarmos a noite... 
Voc j est aqui e acho que no devemos perder mais tempo, no  mesmo? 



******* Foi muito difcil para Jacob acreditar que Jeanne de fato era inexperiente. A moa parecia conhecer tudo sobre sexo, parecia estar 



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simplesmente repetindo atitudes e gestos de que j tivesse amplo e vasto conhecimento. 



Ela levou Jacob para a cama e, depois de beij- lo mais uma vez, comeou lentamente a desabotoar sua camisa enquanto pedia, com um sorriso malicioso nos lbios, 
que ele fosse compreensivo. 



 Entenda, querido  disse ela em um sussurro  Para mim estar sendo a primeira vez... Por favor, d- me um voto de confiana e no se decepcione... Pode estar 
certo de que eu estarei dando o mximo de mim, estarei fazendo o possvel e o impossvel para satisfaz- lo completamente! 



Jacob estava surpreso e assustado. No conseguia compreender muito bem como aquela moa, quase uma menina, ainda, conseguia ser to fria em relao  morte de seus 
pais. 



Concordava que ela poderia no am- los... Afinal, pelo que pudera entender e pelo que ele chegara a ver na Rue de la Huchette, a vida de Jeanne jamais seria considerada 
um mar de rosas, um oceano de felicidades... Porm, mesmo assim, tinha sido sua famlia que se destrura! Seria de se esperar que ela ao menos derramasse algumas 
lgrimas... Mesmo que fingidas, mas seria o natural! 



E, no entanto, o que estava acontecendo era justamente o contrrio. Jeanne parecia estar mais feliz do que nunca, estava ali, agarrando- o, abraando- o, mostrando 
que o desejava e parecia mesmo que enlouqueceria se ele no a satisfizesse! 



Jacob ainda tentou perguntar para Jeanne se estava mesmo bem disposta, chegou a lhe dizer que detestava fingimentos e hipocrisias especialmente nessas horas... Mas 
a moa respondeu que jamais estivera to bem e que o queria... 



 Quero- o como nunca quis qualquer coisa em minha vida, Jacob!  exclamou ela  Quero que voc me mostre como  ser uma verdadeira mulher, quero que voc me ensine 
o caminho do prazer e da felicidade... 



Jacob no discutiu mais... Na verdade, no o conseguiria. Jeanne acabou de desabotoar sua roupa e, com movimentos sedutores comeou a se livrar do vestido que estava 
usando. 



Soltou primeiramente as alas sobre os ombros, depois, virandose de costas para Jacob, pediu- lhe que o desabotoasse. 



quela altura, Jacob j estava excitadssimo e a viso do corpo nu de Jeanne fez com que, definitivamente, ele perdesse o controle. 



Segurando- a pela cintura, enquanto desajeitadamente tentava fazer cair suas calas, ele a beijou. 



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Beijou- a primeiro na nuca, afastando- lhe os cabelos ruivos e, acariciando suas costas com a lngua, foi descendo at chegar s ndegas de Jeanne. 



A jovem sentiu medo, no comeo... J ouvira tanto a respeito da dor que as mulheres sentem quando da primeira penetrao... Mas, logo em seguida, esse sentimento 
foi sendo substitudo por um arrepio de prazer e ela passou a ansiar pela continuao daqueles carinhos, comeou a desejar, de fato, que Jacob a possusse.. 



Sim... Era verdade o que lhe tinham dito... Jeanne sentiu uma dor lancinante, como se estivesse sendo rasgada ao meio e, depois... 



Depois, essa dor foi dando lugar a uma sensao agradvel, a uma impresso de leveza que, aos poucos, foi se transformando em ansiedade... 



Numa ansiedade que a moa no conseguia explicar, uma busca constante de alguma coisa a mais e que ela no conseguia atingir. 



Quando sentiu que Jacob se esvaziava em seu interior, Jeanne percebeu que ela, na verdade, no tinha alcanado o prazer. 



Faltara alguma coisa... Faltara talvez muito pouco mas... Faltara. Ela no chegara l. 



Por alguns momentos, experimentou uma imensa frustrao, teve a idia de que no se completara e isso a deixava at com uma certa raiva de si mesma. 



Chegou a pensar em comentar com Jacob mas, esperta, achou que valeria muito mais a pena ficar calada, amargar a sua decepo em silncio. 



Sabia, intuitivamente, que homem nenhum gosta de ouvir que no conseguira satisfazer a mulher. 



 Se eu soubesse que era to bom...  murmurou Jeanne, com um sorriso e abraando Jacob. 



 Se soubesse que era to bom  falou ele, ofegante  j teria experimentado, no  mesmo? 



Jeanne beijou- o sobre os lbios e sacudiu negativamente a cabea, respondendo: 



 No... Eu teria esperado por voc... Teria esperado pelo homem de minha vida, Jacob. 



Muito sria, acrescentou:  Nada acontece por acaso, querido... Se eu pude me manter virgem at agora,  por que o Destino sabia muito bem que eu tinha de ser sua, 
sabia que teria de ser voc a me mostrar como o amor  feito, realmente... 



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Jacob sorriu... Olhando intensamente para Jeanne, ele perguntou:  Voc jura que no vai me trair?  Mas  claro que juro!  exclamou ela, com entonao de revolta 
em sua voz  O 



que est pensando que eu sou?! Jacob no respondeu. Beijou- a mais uma vez, cheio de paixo e novamente cheio de desejo e disse: 



 Seja assim sempre, Jeanne... Seja assim e eu aposto como no vai ter motivos para se arrepender! 



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CAPTULO III 



Jeanne no poderia se queixar. Jacob era delicado, dedicado, trabalhador e, ao contrrio do que ela mesma esperava, no media esforos ou despesas para faz- la 
feliz. Costumava dizer que um sorriso de Jeanne valia mais do que qualquer dinheiro do mundo e, assim, no vacilava em tirar a carteira para lhe comprar roupas, 
jias ou simplesmente um doce que ela mostrasse desejo de comer. 



Por sua vez, Jeanne era esperta. Tinha perfeita noo de limite e sabia quando poderia fazer 



um beicinho de criana mimada que deseja alguma coisa e quando deveria dizer que no queria nada, que no queria significar despesas para Jacob. 



 Estamos numa situao ruim, aqui na Frana  falava ela  vale mais a pena economizar, querido... Nunca se sabe o que vai acontecer amanh... 



Parecia at que Jeanne era muito mais velha do que seus dezessete anos de idade, alis, recm- completados. 



O bvio aconteceu: Jacob passou a amar Jeanne e esta aprendeu a gostar de sua companhia, aprendeu a conhec- lo muito bem e, dessa maneira, os dois tinham uma vida 
bastante agradvel. 



Do ponto de vista profissional, Jacob chegou a ficar surpreso quando percebeu que as coisas estavam indo at melhor do que antes, enquanto ele era um homem sozinho. 
Provavelmente, pelo fato de ter assumido mais responsabilidades, passara a trabalhar mais e a tomar mais cuidado com os negcios, temendo perder dinheiro, receando 
ser obrigado a fazer Jeanne passar qualquer espcie de necessidade. 



Jacob estava consciente de que ela se tornara muitssimo importante em sua vida. S a comodidade de ter tudo em casa perfeitamente controlado pela companheira, j 
era uma maravilha. Porm, ainda mais do que isso, o fato de no mais precisar se sujeitar a humilhaes em bordis e de no ter que correr o risco de ficar doente 
apenas para satisfazer seus anseios sexuais, j era mais do que motivo para que Jacob respeitasse e quisesse bem quela moa. 



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Como se no bastasse, Jeanne estava mostrando que era capaz de ser a mulher dos sonhos de qualquer homem. 



E isso, em todos os sentidos. Ela fazia Jacob se sentir satisfeito sob todos os aspectos, quer domsticos, do ponto de vista da organizao do lar, quer sob o aspecto 
meramente sexual... 



Mas, se Jacob estava mais do que satisfeito, o mesmo no se dava com Jeanne. 



Era bem verdade que ela no tinha o menor motivo para se queixar. Jacob supria as suas mnimas necessidades materiais e, em nenhum momento deixara de ser atencioso 
ou deixara de manifestar a paixo e o desejo que sentia por ela. 



E era justamente a que Jeanne no estava feliz... No campo de batalha em que se transformava a cama do casal praticamente todas as noites, ela estava sendo derrotada. 
Jacob se esforava, se desdobrava, bufava e gemia... 



No se poderia dizer que ele era inexperiente, incompetente ou o que quer que fosse. Muito pelo contrrio, alis. 



Mas, apesar de todo o esforo de Jacob, Jeanne no conseguia atingir a plenitude do prazer. 



Faltava sempre alguma coisa, parecia- lhe faltar vencer mais um ou dois degraus para que pudesse chegar ao xtase, para que pudesse se sentir realizada e satisfeita. 



E Jeanne no queria contar a Jacob esse seu problema. Com o passar do tempo, ela foi se acostumando, foi achando que era assim mesmo e que as outras mulheres com 
quem conversava a respeito dessas coisas, mentiam ao descrever as sensaes maravilhosas que experimentavam. 



Para ela, o ato sexual era agradvel, ela sentia uma poro de coisas mas... 



Continuava incompleto e, enquanto Jacob virava para o lado e adormecia, cansado e satisfeito, ela ficava rolando na cama, o corpo ardendo de desejo, a alma frustrada 
e revoltada consigo mesma por no ter atingido o orgasmo. 



Era nesses momentos, enquanto Jacob roncava, que ela tentava, de todas as maneiras descobrir, ela mesma, a forma de atingir o prazer. 



Marianne, uma sua amiga, dissera- lhe muito confidencialmente  e fora a nica a confessar  que s chegava ao orgasmo assim, 



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trabalhando seu corpo ela mesma... E Jeanne tentou imit- la. Sem qualquer sucesso. As sensaes se repetiam, talvez de uma maneira um pouco mais intensa, mas... 
Jamais chegava ao clmax. 



Por fim, desanimada, aborrecida consigo mesma, ela acabava por dormir e... 



A sim, em seus sonhos, ela conseguia atingir o orgasmo. Sonhava que um homem muito bonito e muito forte a agarrava e, apesar de seus esforos para impedi- lo, acabava 
possuindo- a, acabava fazendo com ela coisas incrveis, indescritveis... 



No comeo, Jeanne se opunha mas, depois que ele iniciava os carinhos, ela se abandonava aos seus caprichos e vibrava... Sentia vibrar cada um de seus nervos, sentia 
as contraes espsticas dos msculos e no foram poucas as vezes que Jacob a acordara, preocupado, dizendo que ela estava gemendo. 



Quando despertava, Jeanne sorria e, erguendo os ombros, dizia, para si mesma: 



 Bem... Pelo menos assim... Afinal de contas, de uma maneira ou de outra, consigo chegar l... 



E passava o dia inteiro com a imagem do belo e estranho cavalheiro que a visitara durante o sonho e com a lembrana, em seu corpo, de todos os carinhos recebidos... 



Uma lembrana que a deixava excitada como se ele ainda estivesse ali, a acariciar seus seios, suas coxas, seu ventre. 



******* Enquanto Jeanne e Jacob iam vivendo e progredindo tanto materialmente quanto na estabilidade de seu relacionamento, a Frana ia de mal a pior. 



Alis, era a Europa que ia mal... Hitler iniciara sua marcha, avanara sobre a Polnia e prosseguira... A Frana, ameaada... Os presunosos e esnobes generais franceses 
garantindo que jamais os alemes conseguiriam invadir o solo gauls. 



Mas as coisas no se passaram como eles estavam prevendo e os ataques tiveram incio, como que preparando o terreno para a invaso germnica. 



Na noite do primeiro alarma antiareo, Jacob e Jeanne correram com 



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mais de duas centenas de pessoas, para o nmero 7 da Rue de la Huchette. Jamais eles conseguiriam explicar a si mesmos o que estavam fazendo ali, por que diabos 
tinham voltado para a rua onde a jovem passara tantos anos to difceis e to infelizes de sua vida... 



O fato  que eles ali se encontravam e, quando as sirenas comearam a tocar, acompanharam a massa que corria em busca de abrigo no subterrneo do nmero 7 que, segundo 
a Defesa Civil, tinha capacidade para abrigar pouco mais de oitenta pessoas. 



Ora, na correria para buscar proteo, mesmo no havendo bombas, mas com as sirenes gritando, com a expresso apavorada das pessoas e o permanente medo da utilizao 
pelos alemes dos terrveis gases venenosos, no havia a menor possibilidade de se controlar o nmero de pessoas num abrigo. 



Assim, no nmero 7 da Rue de la Huchette, seguramente naquela noite havia mais de duzentas almas, todas desesperadas, quase em pnico, como se estivessem esperando 
que, de um momento para o outro, a morte ali surgisse e comeasse a fazer uso de seu alfanje. 



Muito juntos, abraando- se como se um pudesse proteger o outro e como se um quisesse buscar a segurana que porventura emanasse do outro, Jacob e Jeanne acomodaram- 
se da melhor maneira possvel num canto do abrigo. 



Jeanne vivera por dezessete anos ali na Rue de la Huchette e isso fazia com que fosse conhecida... 



Alis, no havia quem no soubesse quem ela era uma vez que sua beleza e,  claro, a atividade de sua me bem como a ociosidade de seu pai, marcaram- na como uma 
habitante diferente da rua. 



Diferente para todos e... Desejada por alguns. Como, por exemplo, por Claude Jolas, funcionrio dos Correios e que, desde sempre, alimentara por Jeanne um desejo 
dos mais intensos e que se sentira terrivelmente frustrado quando soubera que ela estava vivendo com Jacob. 



Com um judeu! Para Claude, um homem de tendncia germanfila, aquilo era um verdadeiro absurdo. 



Precisou se controlar quando viu Jeanne, a musa de seus sonhos abraada a Jacob. 



Sua vontade era de ir at onde os dois se encontravam e tirar aquele judeu do abrigo aos pontaps. 



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Porm, ele se conhecia... Sabia que no poderia jamais ser considerado um homem forte ou mesmo, apenas valente. Era, isso sim, franzino, frgil e bastava olhar para 
Jacob para ter certeza que acabaria apanhando se tentasse qualquer coisa. 



Viu, cheio de revolta, os dois se beijando, viu- os se acariciando e tentando se reconfortar mutuamente... 



Aquilo fez com que comeasse a tremer de raiva e, lanando um olhar invejoso para o casal, pensou: 



 Voc ainda ser minha, Jeanne... E h de esquecer esse maldito judeu! 



******* Naquela poca, as opinies na Frana a respeito de Hitler, eram as mais diversas. Havia os que afirmassem categoricamente que Hitler queria a paz com os 
franceses, havia os que diziam que ele no passava de uma raposa traioeira e que, com a implantao dessa dvida no estava fazendo mais que minar a unio entre 
os franceses para, depois, mais facilmente dominar o pas. 



Com o alarma de maro de 1939, alarma este que forara a mobilizao de toda a Frana para logo em seguida se espalhar a notcia de que mais uma vez a guerra fora 
evitada  a primeira vez fora em setembro de 1938  o sentimento de alerta comeou a arrefecer e a confiana dos militares aumentou muitssimo. Diziase, nos quartis 
e nas guarnies, que Hitler jamais atacaria a Frana simplesmente por temer o seu potencial blico. 



Mas os alemes no estavam com medo de nada. Muito menos do exrcito francs. 



No dia 14 de junho de 1940, Paris caiu sob as botas e os tanques germnicos. 



O desespero foi geral. No era apenas o desespero causado por um estado de guerra, por uma derrota militar. Era o desespero provocado pela frustrao e pela perplexidade 
de ver que, afinal de contas, Paris no era baluarte nenhum, no era a cidadela inexpugnvel que certos marechais faziam questo de considerar. 



Muito pelo contrrio, a cidade se mostrou frgil, seu povo provou estar debilitado e, psicologicamente, instvel. 



Os alemes marcharam pelos Champs Elyses, pelo Bois de 



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Boulogne, pela LEtoile, aos lados da Notre Dame e pelo bairro de St. Michel. 



Tanques germnicos percorreram a Rue de la Huchette a caminho do velho mercado, andaram pela St. Sverin e pela Rue des Deux Ponts. 



Os nazistas estavam ali, em frente s suas casas, dentro de seus cafs, sentados em seus restaurantes, conversando entre si ou com os prprios parisienses... Estavam 
em todos os lugares, vigiando, perseguindo, humilhando, dominando... 



Para Jacob, essa situao era aterrorizante e insuportvel. Ele sabia perfeitamente do risco que estava correndo pelo simples fato de ser judeu e sabia que estava 
obrigando Jeanne a um risco idntico, ainda mais que ela, semanas antes da queda de Paris, anunciara que estava grvida. 



E, carregar no ventre o filho de um judeu, era o pior que poderia acontecer para uma francesa em regime de ocupao germnica. 



 Precisamos fugir, Jeanne  disse Jacob  No podemos continuar em Paris! Precisamos ir para algum lugar onde voc possa estar em segurana! 



Jeanne no discutiu. Desde que fora entregue a Jacob por seu pai, ela decidira 



que sua vida seria orientada por aquele homem e que no mediria qualquer esforo ou sacrifcio para satisfaz- lo. Se ele estava querendo sair de Paris, sua obrigao 
era, evidentemente, acompanhlo. Ainda mais sabendo que ele assim agia em seu prprio benefcio. 



 Arrume nossas coisas  ordenou Jacob  Eu irei at a loja para apanhar o que nos resta de jias e dinheiro. Assim que regressar, viajaremos. 



Jeanne ficou observando Jacob enquanto ele se afastava pela rua em passos apressados e, de repente, teve um arrepio. 



Uma estranha sensao de angstia a invadiu e ela teve a impresso de ser aquela a ltima vez que o via. 



Teve um inexplicvel pressentimento de que alguma coisa trgica estava para acontecer e, por muito pouco no saiu correndo atrs dele para lhe dizer que no a abandonasse, 
que no a deixasse sozinha. 



Sacudiu com energia a cabea, tentando afastar de sua mente esses pensamentos, dizendo para si mesma que no havia nenhum motivo para ter essas idias. 



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 Sei que estou fazendo Jacob feliz  murmurou  E sei que ele est mais do que orgulhoso com o fato de eu estar grvida! Ele jamais me abandonaria, ainda mais num 
momento como este! 



E fazendo fora para se convencer, acrescentou, em voz alta:  Jamais! 



******* Enquanto Jeanne arrumava suas coisas e Jacob comeava a erguer a pesada porta de ao da loja, a pouco mais de vinte passos de distncia, no interior da diminuta 
agncia dos Correios, o estafeta Claude Jolas olhava para o judeu, cheio de raiva. 



Ele vira Jacob e Jeanne abraados no abrigo do nmero 7 na Rue de la Huchette e desde ento, o desejo que havia muito tempo sentia pela moa, ficara ainda mais intenso. 



Franziu as sobrancelhas quando percebeu que Jacob, assim que entrara na loja, voltara a baixar a porta pelo lado de dentro, deixando apenas uma pequena fresta aberta. 



 Mas que diabos ele est fazendo?  perguntou- se  Se no veio trabalhar hoje, o que  que pode estar buscando ali? 



Sem sequer se incomodar com as trs ou quatro pessoas que estavam no interior da agncia esperando que ele acabasse de despachar a correspondncia, deixou seu lugar 
atrs do balco e atravessou a rua, aproximando- se da loja de Jacob. 



Ouviu rudos ali dentro, rudos que ele conhecia muito bem: o som do mecanismo de segredo de um cofre, o barulho mais do que caracterstico de algum contando moedas... 



Imediatamente ele se lembrou do que lhe disseram os alemes com que mantinha estreita ligao: os judeus estavam acabando com a economia francesa, estavam fugindo 
com jias e com ouro que deveriam permanecer no pas! 



Sem perda de tempo, correu para a agncia, literalmente expulsou os que ali se encontravam e, depois de baixar a porta, apanhou o telefone e fez uma ligao. 



Nem cinco minutos se passaram e quatro homens, dois soldados armados com metralhadoras e dois indivduos vestidos com sobretudos de couro negro, ergueram com violncia 
a porta de Jacob. 



Da agncia dos Correios, Jolas sorriu quando o judeu foi arrastado para fora da loja e levado, aos gritos, pela calada... 



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Esperou que os agentes da Gestapo desaparecessem na esquina e, fechando em definitivo a porta, correu para a casa de Jacob. Precisava avisar Jeanne pois ela tambm 
acabaria sendo presa por estar vivendo com um judeu e isso, Jolas no queria. 



Muito pelo contrrio, o que ele estava pretendendo era ficar com a moa, era poder usufruir de seu corpo jovem e bonito que, enquanto ela residira na Rue de la Huchette, 
estivera fora de seu alcance e que, depois, pusera- se inacessvel j que estava com Jacob. 



Mas, Jolas no foi suficientemente rpido... Uma moa que trabalhava no bordel de Mariette, Francine, e que conhecia Jeanne desde pequena, vira o que Jolas fizera 
e, enquanto ele observava a ao dos alemes, correu para a casa do judeu. 



 Voc precisa fugir!  disse Francine para Jeanne  No pode ficar mais um momento sequer aqui! Jacob foi preso e dentro de poucos minutos os alemes viro apanh- 
la tambm! 



 Mas...  balbuciou Jeanne  E Jacob? Com as lgrimas escorrendo por seu rosto, completou:  No posso abandon- lo agora! No posso deixar que o maltratem! Francine 
fez uma expresso severa e falou:  Sinto muito por ser to rude e realista, Jeanne... Mas voc no poder fazer nada por Jacob. A esta altura, ele j est sendo 
encaminhado para um campo de prisioneiros e duvido muito que voc venha a ter notcias dele. 



Empurrando a moa para fora, apanhando apenas duas pequenas malas, acrescentou: 



 Claude Jolas, alm disso, no tardar a aparecer aqui. Foi ele quem denunciou Jacob e o fez somente por que sempre a desejou! Trate de fugir, Jeanne... Trate de 
fugir ou, se preferir, aceite a vida que Claude Jolas vai lhe proporcionar... Uma vida que nem mesmo eu aceitaria! 



Jeanne ainda parecia indecisa e Francine insistiu:  Voc precisa fugir, minha querida... No perca tempo, pelo amor de Deus! 



Beijando as faces da moa, finalizou:  E no me diga para onde est indo... Nem sequer mande notcias por um bom tempo! Quanto menos eu souber a seu respeito, melhor 
ser para voc e para mim! 



 Mas nem sequer sei para onde ir!  exclamou Jeanne, em pnico  No tenho a menor idia para onde fugir! Nem tenho dinheiro! S tenho alguns francos! O dinheiro 
do po! 



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Francine suspirou e da pequena bolsa que trazia na mo, entregou- lhe um mao de notas dizendo: 



 Tome, Jeanne...  o que tenho... Espero que isso lhe sirva para alguma coisa. Pelo menos para lev- la o mais longe possvel de Paris! 



Jeanne hesitou e Francine, pondo- lhe o dinheiro dentro da blusa, falou:  Fuja, menina... Apenas fuja! V para o interior, para qualquer lugar onde exista a possibilidade 
de refazer a sua vida! Esta guerra, como qualquer outra, no ser eterna e, se voc tiver a pacincia de esperar que ela acabe, ainda ter muita juventude para usar, 
ainda ter muita chance de encontrar a felicidade! 



Com uma expresso entristecida, murmurou:  Voc ainda tem o futuro pela frente, Jeanne... No  como eu que nada mais tenho a esperar da vida... 



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CAPTULO IV 



A regio de Auvergne, no Macio Central, oferece paisagens magnficas e que se sucedem em distncias muito curtas, possibilitando uma tal variedade de panoramas 
que chega a embriagar os que ali vo pela primeira vez. 



Era exatamente essa a sensao que tinha Jeanne enquanto ela percorria os estreitos e acidentados caminhos entre Clermont- Ferrand e Riom, mal- acomodada ao lado 
do motorista de um pequeno caminho de entregas. 



Ela sentia que no poderia ficar na cidade pois ClermontFerrand, antiga capital de Auvergne, sempre se esforara para ocupar uma posio de destaque entre as concentraes 
urbanas do interior da Frana e isso fazia com que os alemes se interessassem pela cidade. Jeanne queria distncia dos alemes, apesar de saber que isso seria muito 
difcil num pas ocupado por eles. 



Depois de desembarcar do trem, de p, na entrada da estao, segurando suas malas e com a tpica aparncia de quem se encontrava completamente perdida, Jeanne chamava 
muito a ateno. 



Com pavor, ela percebeu que dois soldados alemes a olhavam com curiosidade e trocavam algumas palavras entre si... 



Sentiu que suas pernas tremiam enquanto via que eles avanavam para ela, os rostos ptreos, o olhar inquisitivo... 



Teve medo. Teve medo que Jacob, torturado, tivesse dito que ela estava grvida de um judeu, tivesse dito que ela poderia fugir para Auvergne e, aterrorizada, lembrou- 
se que, certa vez, ele 



comentara que aquela regio da Frana era a que mais o atraa e que, se um dia tivesse de sair de Paris para qualquer lugar, seria justamente para Clermont- Ferrand. 



Alm do mais, havia Claude Jolas... Ela o conhecia muito bem, desde quando comeara a correr, em brincadeiras com as outras crianas, pela Rue de la Huchette. Assim, 
Jeanne sabia que Claude era um indivduo mesquinho, ambicioso, mau, e que poderia muito bem estar achando que ela estivesse com as jias de Jacob... 



Em sua mente cheia de medo e de receios, Jolas aparecia como um indivduo todo- poderoso que tinha sido capaz de destruir o seu sonho, 



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que tinha tido a fora de mandar prender o seu Jacob e que teria toda a possibilidade de persegui- la at o fim do mundo se isso fosse necessrio. 



Dessa maneira, nada o impediria de avisar os alemes e a Gestapo de Clermont- Ferrand, da probabilidade de ela estar l. 



A expresso de medo no rosto de Jeanne a estava traindo... Fazia com que os soldados desconfiassem dela acautelando- se e, prevenidos, destravassem suas armas enquanto 
se aproximavam da moa. 



Atitude, alis, mais do que natural... Eles estavam avisados de que haveria resistncia, muito embora em focos isolados, e de que os franceses verdadeiramente patriticos 
 considerados fanticos pelos nazistas  No mediriam esforos para prejudicar a ocupao germnica. 



Por isso, aquela moa segurando duas pequenas malas  porta da estao, poderia muito bem estar carregando bombas ou, quem sabe, dinheiro para grupos da Resistncia 
que estariam escondidos nas montanhas da regio. 



Porm, essa mesma expresso de medo que Jeanne no conseguia disfarar, tambm chamou a ateno de Louis Morel, proprietrio de um pequeno caminho e que fazia o 
transporte de verduras e hortalias das granjas dos arredores para o mercado municipal. 



Vendo que Jeanne estava praticamente paralisada de medo e que aqueles soldados com certeza a iriam incomodar, ele se adiantou para a moa e, passando- lhe o brao 
pela cintura, falou, em voz alta: 



 Marie! Minha filha! Mas que satisfao voc deu a seu velho pai! Vir at aqui por causa de meu aniversrio! Mas  uma surpresa muito agradvel! 



E, ao ouvido de Jeanne, com energia, sussurrou:  Vamos! Abrace- me! Beije- me como se fosse mesmo minha filha! Jeanne compreendeu imediatamente que aquela seria 
a sua nica chance de no ser interrogada pelos soldados e, abraando Louis, exclamou: 



 Ora, papai! Eu no poderia deixar passar uma data to importante! E, j mais senhora de si, completou:  Afinal, desde sempre estivemos juntos no seu aniversrio, 
no  mesmo? 



A cena conseguiu convencer os dois alemes. J conheciam Louis, sabiam que ele era o tipo do homem inofensivo e, alm do mais, sempre lembrava de trazer para eles 
algumas coisas gostosas das pequenas vilas onde ia buscar suas mercadorias. 



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Aproximando- se, sorriram para Louis, curvaram a cabea num cumprimento gentil para Jeanne e o mais velho deles, disse: 



 No sabamos que  seu aniversrio... Com um risinho maroto, acrescentou:  Quem sabe no nos convida para um copo de vinho logo mais  noite? 



Louis garantiu que no deixaria de cham- los se estivesse na cidade e, quase empurrando Jeanne, meteu- a dentro de seu caminho e deu partida ao motor. 



Avanando em direo  Place de Jaude, Louis respirou fundo e falou: 



 Bem... Desta vez, escapamos... Com uma risada, acrescentou:  Agora, preciso encontrar uma outra desculpa para o resto do ano... Afinal, no posso aniversariar 
mais do que uma vez, no  mesmo? 



Jeanne procurou sorrir mas no conseguiu muito mais do que um esgar nervoso que lhe repuxou os lbios. 



Olhando de lado para a moa, Louis murmurou:  Voc est fugindo de alguma coisa... Sou capaz de apostar... Voltando a cabea para Jeanne, perguntou:  Tem para 
onde ir? Ao menos sabe o que vai fazer? Jeanne balanou negativamente a cabea e, com um soluo aflito, respondeu: 



 No, senhor... No tenho a menor idia do que farei... Com as lgrimas escorrendo pelo rosto e esforando- se para poder falar, acrescentou: 



 A nica coisa que desejo  poder ficar em paz...  encontrar um lugar onde possa ter meu filho sem temer que venham tir- lo de mim, sem precisar ficar com medo 
de que me venham prender! 



Para Louis, homem experiente e que estava trabalhando para a Resistncia, no era preciso dizer mais nada. Aquela moa estava com problemas dos mais srios e ele 
seria um canalha se no a ajudasse. 



Sorriu, pousou a mo gorda e forte sobre a coxa de Jeanne e falou:  Pois, nesse caso, fique tranquila, mocinha... Vou lev- la para um lugar onde os alemes jamais 
iro! Para um lugar to pequeno e to sossegado que os boches jamais teriam qualquer interesse ali! 



******* 



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Pelo que Jeanne conseguia ver da paisagem, os alemes deveriam ter todo o interesse naquele pedao de paraso... 



Assim que deixaram para trs a regio vulcnica  fala- se de oitenta vulces em Auvergne mas os habitantes de Clermont- Ferrand dizem que h muitos mais  Jeanne 
e Louis entraram num vale de vegetao rica, com pequenos lagos muito azuis circundados por morros de encostas mais ou menos abruptas em que as florestas se sucediam. 



 O mnimo que voc vai conseguir  brincou Louis  ser passar uma bela temporada de tratamento em nossas estaes termais... Como deve saber, Auvergne  o centro 
do termalismo na Frana e isso no vai mudar, mesmo que os boches estejam em nosso territrio! 



As palavras de Louis sobressaltaram Jeanne. Se a regio era to famosa assim por suas estaes termais, os alemes certamente haveriam de querer tirar proveito disso 
e dentro de pouqussimo tempo estariam ali, dispostos a expulsar os franceses para poderem melhor usufruir das delcias do lugar. 



Um pouco sem jeito, tmida, manifestou sua preocupao para Louis e este, com uma risada, falou: 



 No tenha esse medo, menina... Pode ser que os boches venham a ocupar toda esta rea... Mas ainda assim, continuo duvidando que a encontrem no lugar para onde 
a estou levando! E ainda mais na casa em que a deixarei! 



Jeanne no pode evitar uma certa preocupao. No conhecia aquele homem e, apesar de at aquele instante ele se mostrar correto e dono de uma boa alma, no havia 
nada que lhe dissesse ser ele sempre assim. Na realidade, o que o impediria de violent- la numa cabana abandonada no meio da floresta? E o que o impediria de mat- 
la, depois? 



Como se estivesse lendo os pensamentos de Jeanne, Louis falou:  No tenha medo, minha pequena... Voc estar em segurana... Poder ter seu filho em paz e a velha 
Gabrielle ficar muito contente em poder ajud- la na hora do parto... 



Jeanne respirou um pouco mais aliviada. Se ele estava falando assim, se parecia mostrar um tal paternalismo, talvez devesse, realmente, confiar... 



Sorriu, consigo mesma, dizendo- se que, na realidade, no poderia fazer outra coisa seno confiar. Ali, sozinha naquele fim de mundo, no poderia contar com ningum 
para socorr- la e, a julgar pela solido daqueles caminhos, se Louis quisesse tentar alguma coisa contra ela, j 



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poderia t- lo feito havia muito tempo, desde que tinham deixado ClermontFerrand para trs... Saindo da estrada principal, Louis tomou um caminho bem mais estreito 
do que aqueles em que tinham estado at ento e, com um sorriso, murmurou, quase inaudvel por causa do rudo do motor: 



 Daqui para a frente, os alemes no vo passar, minha pequena...  No imagino por qu  protestou Jeanne  Os veculos que eles utilizam andam por qualquer estrada... 
E a paisagem  to bela... At mesmo os boches so capazes de se encantar por ela! 



Jeanne estava com a razo. Depois que tinham passado por Riom at entrarem naquele caminho, o panorama fora uma sucesso de quadros dignos dos mais famosos e mais 
importantes acadmicos. 



De quando em quando, avistavam uma velha construo medieval, outras vezes, um pouco mais ao longe e encarapitado no alto de um morro, um castelo que parecia querer 
transportar o viajante para a poca de Carlos Magno... Mais adiante, um lago, muito azul espelhava os picos das montanhas, cercado por florestas ou por pastarias 
onde os carneiros pareciam apenas pintas brancas contra o verde. 



  muito bonito...  murmurou Jeanne  Gostaria de estar vendo tudo isso numa outra situao... Numa situao em que no tivesse medo de ter os alemes em meus 
calcanhares! 



Louis voltou a sorrir e falou:  J lhe disse que os alemes no viro para c. No  preciso ter medo dos boches na casa de Gabrielle... 



Virando o rosto para Jeanne, explicou:  No  apenas uma questo de localizao estratgica, querida...  algo mais... Algo que voc s conseguir compreender depois 
que conhecer essa mulher! 



******* Localizada literalmente no meio da floresta, a pequena cidade de Randan, fez com que Jeanne se imaginasse de repente transportada para as pginas de um livro 
de contos de Randan surgiu  sua frente logo depois de uma curva no estreito caminho onde dois olmos pareciam cruzar seus grandes galhos formando um portal pouco 
acima da capota do caminho. 



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Jeanne concluiu que por ali, veculos altos no passavam havia mais de dois sculos e essa constatao trouxe um pouco mais de confiana  sua alma. 



Como se os boches fossem respeitar a galharia de dois olmos que estivessem atrapalhando a passagem de suas panzers... 



Entraram na cidade. Maravilhada, a moa deixou que seus olhos se enchessem com a imagem daquelas casas pequenas, de telhados pontudos, com jardineiras floridas nas 
janelas onde se podia ver cortinas caprichosamente bordadas e rendadas. 



Ao norte, em uma continuao do caminho por onde chegavam, ficava a rua principal, pouca coisa mais larga que a estrada, com casas feitas em pedra e madeira, cada 
uma delas com um pequeno e bem cuidado jardim. Havia uma agncia dos Correios, o que fez o corao de Jeanne bater um pouco mais apressadamente ao relacionar aquele 
estabelecimento com a recordao de Claude e de Jacob... 



Sacudiu a cabea para no se deixar entristecer novamente e viu, um pouco mais adiante, uma diminuta loja, um desses pontos comerciais que existem em todos os pases 
do mundo, em suas cidadezinhas de interior, onde se pode encontrar de tudo, desde alfinetes e agulhas, at as mais variadas ferramentas para a agricultura. 



A oeste, uma rua com casas mais simples, alongava- se em direo  orla da floresta e, na esquina com a rua principal, um sobrado sem jardim e com as pesadas portas 
de madeira fechadas, tinha um cartaz avisando que ali era o Posto Policial. 



Instintivamente, Jeanne procurou ficar menor do que j era quando o caminho de Louis passou por ali... Para o lado leste, uma rua um pouco mais larga e com muitos 
terrenos vagos, levava para a margem do rio Allier onde desembocava em um tapete de margaridas que se estendia por vrias centenas de metros ao longo do curso dgua. 



Louis seguiu em frente, atravessou a cidade e, quando j tinham passado a ltima casa da rua principal, entrou  esquerda numa variante mal conservada, em direo 
 floresta. 



 Para onde vamos?  quis saber Jeanne  Pensei que eu fosse ficar na casa de algum, aqui na cidade... 



 Voc ficar na casa de algum  riu Louis  Algum muito especial cujo nome  Gabrielle... S que esse lugar  um pouco afastado... 



Engrenou uma marcha mais forte para vencer um ngreme tope e completou: 



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 Teremos de andar um pouco...  Isso no tem importncia  disse Jeanne  Numa paisagem como esta,  um prazer andar a p! 



Louis meneou afirmativamente a cabea e, depois de alguns momentos de silncio, murmurou: 



 No se assuste com a velha Gabrielle... Ela tem algumas maneiras estranhas, faz coisas esquisitas... Mas  uma excelente pessoa e, por aqui, todos acreditam que 
 graas a ela que toda a regio estar sempre livre de inimigos... Mesmo que sejam boches! 



Jeanne olhou intrigada para o motorista e este, com um sorriso maroto, procurou tranquiliz- la mais uma vez, dizendo: 



 No se preocupe... Ver que Gabrielle ser muito mais do que uma me para voc... 



Cerca de quinze minutos mais tarde, Louis parou o caminho num trecho onde a estrada se alargava. 



 Daqui para a frente teremos que ir a p  informou  Pode deixar que eu a ajudo com as malas... 



Isso falando, apanhou as duas malas de Jeanne e, indicando uma trilha que avanava por dentro da floresta, acrescentou: 



 Vamos... Sero apenas dois quilmetros. Riu da expresso que fazia Jeanne e disse:  Sei o que est pensando... Que eu escolhi o lugar errado para deixar uma moa 
grvida... Que tudo aqui  muito isolado e que se voc passar mal, estar em maus lenis... 



Balanou negativamente a cabea e finalizou:  Mas pode estar certa de que eu no poderia ter escolhido melhor... E aposto que no encontrar no mundo inteiro maior 
segurana do que nas mos de Gabrielle! 



Caminhando  frente de Jeanne por entre as rvores, repetiu:  S lhe peo para que no se espante... Para que no se incomode com as esquisitices dessa velha. 



 No vou me incomodar  retrucou Jeanne  Alis, na minha situao, eu no posso me incomodar com nada, no  verdade? Tenho  que me dar por muito feliz por me 
ter encontrado! Estou certa de que, se no fosse o senhor, a esta altura, eu j estaria em alguma cela mida e fria, respondendo a perguntas feitas pelos alemes, 
perguntas para as quais eu jamais teria qualquer resposta! 



Louis ficou muito srio e comentou, baixinho:   engraado... Eu no deveria estar ali... Deveria ter ido  



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Rue 11 Novembre, tinha um compromisso l. No consigo entender porque diabos fui at  estao, no compreendo como fui me esquecer de ir ao centro da cidade! 



Ergueu os ombros e concluiu:  No costumo esquecer meus compromissos...  Graas a Deus!  exclamou Jeanne  Graas a Deus o senhor se esqueceu de ir a essa rua 
e foi parar ali na estao, como se estivesse  minha espera! 



Louis permaneceu em silncio por todo o resto do trajeto. Foi quando j estavam chegando  clareira onde se situava a casa de Gabrielle que Louis disse: 



 Exatamente... Parecia que eu estava ali _ espera de algum... Talvez...  sua espera, mocinha! 



******* Jeanne nem sequer prestou ateno s palavras de Louis, to maravilhada estava com o que via. 



A casa, um pequeno bangal construdo de pedras e madeira, com o telhado alto e um pequeno alpendre, tinha as janelas altas, enfeitadas com jardineiras floridas 
e cortinas. Um bem cuidado jardim circundava a moradia e podia- se ver em seus os menores detalhes, que quem nele habitava tinha como norma de vida o capricho. 



O bangal estava encravado no meio da floresta, ocupando uma clareira de no mais que um quarto de hectare cuja maior superfcie era formada por um gramado baixo 
e muito verde onde se destacavam, aqui e ali, canteiros redondos de flores. 



 Mas  muito bonito!  pensou Jeanne, entusiasmada  Parece que estou dentro de um conto de fadas! 



Nesse momento, quando ainda faltavam cerca de quinze passos para que Jeanne e Louis chegassem ao pequeno alpendre da casa, a porta da frente se abriu e uma mulher 
apareceu. 



 Fico feliz que tenha gostado de sua nova casa, Jeanne  falou a mulher, com uma voz que soou muito mais melodiosa do que a moa poderia esperar em vista de seu 
aspecto fsico. 



Jeanne sentiu seu corao bater mais depressa. Lembrou- se imediatamente das recomendaes de Louis para que no se assustasse com as esquisitices da velha mas... 



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Na verdade, aquilo j era demais... De que maneira aquela mulher sabia seu nome?! E como poderia ter adivinhado seus pensamentos? 



Para aumentar ainda mais a perplexidade de Jeanne, Gabrielle falou:  Eu estava  sua espera, minha querida... Tanto assim que at j preparei seu quarto e deixei 
pronto um ch com biscoitos para ns trs tomarmos antes de Louis voltar para a cidade... 



A moa arregalou os olhos, tentou dizer alguma coisa mas no conseguiu. 



Com um sorriso cheio de carinho, Gabrielle segurou- a pelo brao e disse: 



 Venha... Vamos entrar... No vamos deixar que o ch esfrie! Jeanne, como se fosse um autmato, obedeceu. Talvez, por vontade prpria, ela no tivesse querido passar 
por aquela porta, muito pelo contrrio, provavelmente teria sado em desabalada carreira de volta para a cidade, j ento sem se importar se existissem alemes ou 
marcianos em seu caminho. 



Mas, havia alguma coisa que a atraa, que a fazia vencer o medo e que a puxava para dentro da casa. 



Jeanne, acompanhando Gabrielle, viu pelo canto dos olhos que Louis, muito cheio de respeito, tirava o bon que estava usando e se mostrava tmido, arredio, como 
se fosse um grande pecador voltando a uma igreja depois de dezenas e dezenas de anos longe dos confessionrios. 



Olhando ao seu redor, Jeanne procurou prestar ateno  decorao da sala. 



Era um cmodo pequeno, alis como tudo o mais no bangal. A parede da direita tinha uma janela e um quadro a leo representando uma paisagem campestre. Imediatamente 
em frente  porta de entrada, ficava a lareira, grande demais para o tamanho da sala e, para espanto de Jeanne, em seu interior, apoiado num suporte de ferro fundido, 
estava um grande caldeiro com mais de vinte litros de capacidade. 



Um caldeiro exatamente igual aos que ela se cansara de ver nas gravuras de histrias de bruxas... 



Mais uma vez, ela sentiu suas pernas tremerem. Com uma expresso de bondade no rosto, Gabrielle falou:  Voc est impressionada  toa. No uso esse caldeiro para 
preparar filtros malignos ou para fazer encantamentos ruins... 



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Deu uma risada que soou um tanto quanto esganiada demais e completou: 



 Tampouco costumo transformar mocinhas grvidas em coelhas ou em galinhas... 



Jeanne forou um sorriso e, enquanto a velha ia  cozinha buscar a bandeja com o ch, aproveitou para continuar a examinar o ambiente. 



Os mveis eram rsticos mas muito confortveis, estofados em couro e incrivelmente conservados. No havia qualquer tapete no cho de pedras polidas pelo uso e Jeanne 
no pode deixar de pensar que, durante o inverno, aquela casa deveria ser muito fria. 



Olhando para cima, ela viu que no havia forro, as telhas aparentes estavam enegrecidas pela fuligem. Aquilo, apesar de dar um aspecto de extrema misria ao bangal, 
era pitoresco e romntico e ela pensou que um lugar como aquele deveria ser um maravilhoso ninho de amor. 



Gabrielle reapareceu na sala com o ch e, sentando- se diante de Jeanne, falou: 



 Voc ficar bem aqui comigo, querida... E pode acreditar que ningum vir incomod- la. 



Ficou subitamente sria e completou:  E quem aparecer para lhe tirar a paz, acabar muito mal... 



******* Jeanne olhou para a mulher. No poderia dizer que sua expresso, que seu rosto fosse cruel. Muito pelo contrrio. Seus olhos, cor de caramelo, eram bondosos, 
sua boca de lbios encarquilhados pareciam estar sempre sorrindo e seus cabelos, muito brancos, escapando por baixo de um leno de cor indefinida, emolduravam- lhe 
o rosto, transmitindo uma impresso de bondade e de delicadeza. 



Sim... Era uma velha bonita. Talvez, quando ainda estivesse na flor da idade, ela tivesse sido uma mulher linda e atraente, uma mulher que os homens desejaram e 
que, mais tarde, por razes que somente o Destino poderia explicar, acabara sozinha, numa casa no meio da floresta, falando coisas estranhas, cercada por objetos 
exticos e adivinhando os pensamentos das pessoas que chegavam at ali. 



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Gabrielle serviu ch para os trs e, dirigindo- se a Louis, falou:  Obrigada por ter atendido ao meu pedido... Obrigada por ter trazido Jeanne. 



Louis ia abrindo a boca para dizer que ela no lhe havia pedido coisa nenhuma, que nem sequer tinha se encontrado com Gabrielle havia mais de uma semana, porm achou 
melhor ficar quieto. Para aquela velha, qualquer coisa era perfeitamente possvel, por mais absurda que pudesse parecer. 



Assim, engoliu o ch, meteu na boca alguns biscoitos e, levantando- se, disse, afobado: 



 Tenho de ir... Se precisarem de alguma coisa... Ia dizer que bastaria chamar mas lembrou- se a tempo que ali, onde Gabrielle vivia, no havia qualquer sistema 
de comunicao que no fosse o telefone em Randan o que queria dizer uma distncia bem respeitvel. 



Gabrielle sorriu, agradeceu com um sinal de cabea e murmurou: 



 No se preocupe, Louis... Ns estaremos bem. E, de qual quer maneira, se precisarmos de algo, voc saber imediatamente... 



Louis esboou um sorriso  No sabia por que sempre ficava to impressionado com Gabrielle, j deveria estar mais do que acostumado com suas manias  despediu- se 
de Jeanne e, em passos apressados, voltou para onde deixara o caminho. 



Vendo- o se afastar, Gabrielle murmurou:   uma boa alma... Uma excelente pessoa... E, rindo, acrescentou:  Mas ainda no conseguiu se acostumar comigo! Conheceme 
desde que nasceu, ajudei- o a vir ao mundo... Mas, mesmo assim, ainda no se habituou com essas banalidades que ele chama de prodgios! 



Olhou intensamente para Jeanne e arrematou:  Mas com voc... Com voc, as coisas sero diferentes... Voc  forte, Jeanne... Muito mais forte do que pode imaginar 
e, se no tomar muito cuidado... 



Jeanne olhou para Gabrielle, cheia de interesse mas a velha nada mais disse a esse respeito. 



Limitou- se a sorrir e, servindo mais ch para Jeanne, falou:  Agora... Depois deste ch, trate de descansar... Amanh mesmo ns vamos comear... 



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Jeanne quis perguntar o que  que elas iriam comear mas alguma coisa fez com que, ao invs de dizer qualquer coisa, ela simplesmente bocejasse... 



E bocejou mais de vinte vezes at que, solcita, Gabrielle a acompanhou at o quarto, murmurando: 



Voc est cansada... V dormir... Quando despertar estar como nova e muito mais disposta... 



******* Jeanne dormiu como uma pedra durante todo o resto do dia e a noite inteira. 



Exatamente como Gabrielle dissera, quando acordou, estava bem disposta, sentindo- se como se fosse nova e, o que era mais estranho, com uma agradabilssima sensao 
de segurana. 



Procurou recordar tudo quanto lhe acontecera nas ltimas horas e surpreendeu- se ao perceber que a imagem de Jacob aparecia como que diluda em sua memria, sem 
a possibilidade de se lembrar exatamente nem mesmo das feies daquele homem. Parecia que Jacob tinha sido apenas um episdio em sua vida... Um degrau vencido, uma 
pgina virada de um livro qualquer. 



Olhou pela primeira vez o quarto em que se encontrava. Viu que o aposento tinha sido preparado com muito carinho, que os mveis, rsticos como todos os outros da 
casa, estavam limpos e bem conservados, viu que Gabrielle tinha deixado a um canto, sobre uma mesa feita de um tronco de rvore, uma bacia e uma grande jarra de 
gua, toalhas limpas sobre o encosto de uma cadeira e suas malas, j desarrumadas, estavam cuidadosamente guardadas sobre o armrio. 



Sorriu satisfeita por estar sendo to bem tratada e, levantandose da cama, caminhou at a janela que j se encontrava aberta, deixando entrar a luz do dia. 



Olhou para fora, viu os passarinhos voando pelo jardim, viu as flores, os canteiros de cravnias, as roseiras, algumas margaridas, a grama muito verde convidando 
a um passeio descala, sentindo o frescor da manh sob os ps... 



Era tudo muito bonito, muito agradvel, havia uma enorme sensao de paz e segurana naquele lugar. 



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 Nem parece que a Frana, que a Europa inteira est em guerra  pensou Jeanne. 



 Aqui no existe a guerra  falou Gabrielle entrando no quarto e pondo sobre a mesa que se encontrava prxima  janela, uma bandeja com ch, ovos mexidos, biscoitos 
e um prato de amoras. 



Jeanne sorriu, recebeu o beijo de bom- dia que a velha lhe dava e comentou: 



 Sempre lendo meus pensamentos... Ainda vou descobrir como consegue fazer isso... 



Gabrielle serviu o ch e murmurou:  Fico contente ao ver que pelo menos isso no a assusta mais... s vezes chego a me condenar por usar esse meu dom, sabia? 



Erguendo os olhos para Jeanne, explicou:  A maior parte das pessoas no  capaz de compreender essas coisas... No atingem a profundidade e a importncia desses 
fenmenos, Jeanne... 



Jeanne comeou a comer os ovos mexidos e Gabrielle prosseguiu: 



 Voc  diferente... Talvez no chegue a ler pensamentos mas eu sinto que possui um grande poder interior. 



Sentando- se na beirada da cama, falou:  S precisa saber us- lo, Jeanne... Saber distinguir a verdadeira felicidade da falsa, perceber que se pode ser feliz com 
pouca coisa, simplesmente ajudando os outros. A sim, os poderes extra- sensoriais que voc com certeza possui, estaro sendo bem usados. 



Respirou fundo e acrescentou, quase num fio de voz:  Mas tenho medo... Tenho muito medo de que no consiga... Ergueu os olhos, fitou Jeanne com intensidade e completou: 
 Voc ainda est presa s coisas materiais. Muito presa. Se conseguir se libertar de tudo isso, a sim, ter atingido o ponto mais alto de seus conhecimentos e 
de seus poderes. 



Jeanne franziu as sobrancelhas. As palavras de Gabrielle a impressionavam e assustavam. Jamais imaginara possuir qualquer espcie de poder a no ser o de fazer com 
que Jacob se sentisse realizado como homem. O que, no fundo, sempre fora uma espcie de frustrao para Jeanne uma vez que ela no conseguia sentir a mesma realizao... 



Gabrielle estava pondo  sua frente um horizonte novo, uma nova 



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viso de si mesma e isso,  claro, s poderia assust- la. Depois de engolir o que estava em sua boca, Jeanne reuniu coragem suficiente para perguntar: 



 Mas... Quem  voc, Gabrielle? Como  que consegue ler meus pensamentos, como  que conseguiu mandar Louis ir me buscar na estao sem nem mesmo falar com ele, 
sem nem mesmo saber que eu vinha para c? 



Gabrielle sorriu candidamente e respondeu:  Eu sempre soube que voc viria, Jeanne... At mais ou menos um ano atrs, no sabia seu nome ou como voc poderia ser. 
Apenas tinha a certeza que apareceria uma jovem que teria poderes suficientemente fortes e bem desenvolvidos para me substituir. Mas, como dizia, h mais ou menos 
um ano, fiquei sabendo seu nome, como voc  e em que situao chegaria aqui... 



Jeanne pousou a xcara sobre o pires e, com os olhos arregalados, perguntou: 



 Isso quer dizer que voc pode prever o futuro? E, antes que Gabrielle pudesse responder, muito excitada, acrescentou: 



 Quero saber se terei um menino ou uma menina... E quero saber se eu serei feliz... Se reencontrarei Jacob, se... 



Com um gesto da mo direita, Gabrielle a interrompeu, dizendo:  Essas suas perguntas podem ser respondidas sem a necessidade de se poder prever o futuro, minha 
querida... 



Sorriu, bondosa e continuou:  Posso dizer se o beb que est em sua barriga  homem ou mulher atravs de processos muito simples de radiestesia... J a sua segunda 
pergunta, sobre se vai reencontrar Jacob ou no, posso responder pelo conhecimento dos fatos polticos que esto gerenciando a vida europia na atualidade. 



Muito sria, olhou para Jeanne e arrematou:  Jacob  judeu. Foi preso pela Gestapo e enviado para um campo de prisioneiros. O que  que voc acha que vai acontecer 
com ele? 



Pousando a mo sobre o ombro de Jeanne, Gabrielle murmurou:  No tenha iluses, Jeanne... Jacob jamais voltar. E no  preciso ser adivinho para dizer isso. Basta 
ter bom senso. 



Jeanne apertou os lbios e, depois de alguns segundos, disse:  Mas... Se voc  capaz de dizer que a criana que estou esperando 



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 de determinado sexo, ento pode prever o futuro...  No  replicou Gabrielle  No posso prever o futuro. Posso, isso sim, sentir as vibraes emanadas por seu 
beb e dizer se  homem ou mulher. 



Jeanne baixou os olhos e, tmida, indagou:  Pode dizer o sexo de meu beb... agora? Gabrielle pousou a mo sobre o ventre de Jeanne, ficou assim por quase um minuto 
e respondeu, com segurana: 



 Voc est esperando um menino. E, antes que Jeanne pudesse perguntar como  que ela fazia isso, Gabrielle disse: 



 No duvide de mim... Se quiser, pode at escrever o que eu falei. Escrever voc mesma, que eu assinarei embaixo, Jeanne. 



Deu uma risada, aquela sua risada esganiada que chegava a arrepiar a moa, e acrescentou: 



 Pode ficar tranquila.  um menino mesmo. E eu no farei como aquele clebre mdico que cobrava uma fortuna de suas pacientes dizendo que adivinharia o sexo de 
seus bebs... Ele dizia um sexo e, na ficha clnica, marcava o oposto. Se na adivinhao ele acertasse, a me jamais viria reclamar, no  mesmo? Porm, se ele errasse 
e a cliente aparecesse para exigir de volta o seu dinheiro, ele lhe mostraria a ficha e diria que ela  que no entendera direito... 



Jeanne sorriu e, acariciando a prpria barriga, murmurou:  Um menino... Jacob gostaria de saber disso... Pobre homem... Ela tinha acabado de tomar o ch e, voltando 
os olhos de um azul intenso para Gabrielle, falou: 



 Ontem, quando vi que adivinhava os pensamentos, que era capaz de comandar  distncia as atitudes e a vontade de Louis, quando vi esta casa... 



Um pouco sem jeito, completou:  Achei que era uma feiticeira... Uma bruxa... Gabrielle riu alto e, balanando a cabea, disse:  No, Jeanne... No sou uma bruxa... 
Levantando- se, apanhou a bandeja e arrematou:  Sou considerada como uma feiticeira, minha querida... Mas como uma feiticeira branca. Aquela que usa seus poderes 
apenas para ajudar os outros e jamais para prejudicar quem quer que seja! 



******* 



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Jeanne no sabia o que dizer. Desde pequena, quando ouvia contar estrias de bruxas e de feiticeiras, ela se arrepiava inteira e chegava, s vezes, a perder o sono, 
to excitada e amedrontada ficava. Era, pois de esperar que ela estivesse apavorada com o que estava vendo, ouvindo e vivendo ali, com Gabrielle. 



Contudo, ela no estava com medo... Jeanne, para seu prprio espanto, estava aceitando tudo aquilo como se fosse natural, como se fosse uma conseqncia lgica de 
estar ali e, na realidade, parecia- lhe j conhecer a velha havia muitos e muitos anos. 



Passava pouco de dez horas da manh quando Gabrielle veio lhe dizer: 



 Daqui a pouco vo comear a chegar pessoas. So os que vm me procurar para que eu trate de suas mazelas, cure suas doenas que, na maior parte das vezes, so 
doenas da alma e no do corpo. Fique perto de mim e aprenda, Jeanne. Voc deve aprender comigo pois est dito que voc ser, provavelmente a minha substituta. 



Jeanne meneou a cabea em sinal de dvida e murmurou:  No acredito muito nisso, Gabrielle... Nunca vi uma feiticeira que fosse me... E eu serei me, no  verdade? 
Voc mesma disse que eu darei  luz um menino! 



Gabrielle deu de ombros, falando:  Eu tambm nunca vi uma feiticeira com um beb no colo... Mas os vapores de Netuno disseram que voc viria me substituir... Assim, 
 minha obrigao ensinar- lhe tudo o que sei. 



Com um sorriso, acrescentou:  Por isso, vamos comear pelo mais elementar: como arrumar as coisas de maneira a facilitar o nosso trabalho. 



Puxando Jeanne pela mo, a velha levou- a at a sala e, mostrando- lhe a mesa que ficava  esquerda da lareira, disse: 



 A mesa, ou seja, o local onde vamos atender a pessoa que nos procura,  muito importante.  necessrio que os objetos de que vamos precisar estejam perfeitamente 
arrumados, colocados em seus devidos lugares e sempre muito limpos. 



Riu e, mostrando uma bola de cristal, falou:  Voc pode imaginar como seria fazer qualquer tipo de adivinhao usando uma bola de cristal embaada... 



Jeanne olhou incrdula para Gabrielle e falou:  Sempre pensei que essa histria de bola de cristal fosse mentira... Sempre achei que fosse um imenso charlatanismo! 



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 H os que praticam o charlatanismo, Jeanne  explicou Gabrielle  Mas h tambm os que fazem as coisas seriamente. 



 Mas o que  que voc v na bola de cristal?  quis saber a moa  No  possvel que uma fumacinha aparea a dentro e que atravs dessa neblina voc consiga enxergar 
o futuro... Acho que ser preciso muito para me fazer acreditar em algo assim! 



 E voc nem deve acreditar, minha querida!  riu Gabrielle  No se l, ou melhor, no se adivinha coisa nenhuma em fumacinhas de bolas de cristal! 



Apanhando com delicadeza a bola, uma esfera transparente de cerca de quinze centmetros de dimetro e pesando quase trs quilos, Gabrielle mostrou- a para Jeanne, 
dizendo: 



 Voc vai ver imagens aqui dentro. Imagens que so produzidas pelo reflexo da luz que incide sobre a superfcie da bola de cristal. Ser a interpretao dessas 
imagens que voc vai dizer para as pessoas que a procurarem. 



Jeanne podia ser jovem e inexperiente porm, era dona de uma rapidez de raciocnio e de um senso de crtica fora do comum. 



Assim, ao ouvir as palavras da velha, ela protestou:  Mas isso no quer dizer nada! Essas imagens refletidas vo depender da posio de quem as v!  como se fosse 
um espelho curvo, nada mais do que isso! 



Gabrielle fez um sinal afirmativo com a cabea e disse:  Voc tem toda a razo, Jeanne... Na verdade, a bola de cristal  perfeitamente dispensvel. Pelo menos 
para ns, as feiticeiras... Ns fazemos as adivinhaes graas s nossas capacidades extra- sensoriais, graas a um poder perceptivo que as outras pessoas no possuem. 



Tomando flego, ela continuou:  E  justamente por isso, por que essas pessoas que vm nos procurar no dispem desse poder de percepo,  que ns usamos a bola 
de cristal e mais uma poro de outros truques que servem apenas para fazer com que elas vejam, sintam, imaginem que ns sejamos diferentes, que temos um conhecimento 
diferente e maior do que elas mesmas. 



Sorriu, apontou para fora atravs da janela e disse:  Mas vamos continuar nossa conversa mais tarde... J est chegando o primeiro cliente... E, pelo que posso 
sentir, ele vem trazendo um problema terrvel... 



******* 



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Jeanne, a pedido de Gabrielle, foi ficar na cozinha, escondida atrs da cortina que servia de diviso com a sala, numa posio em que poderia assistir tudo o que 
estava se passando sem que a sua presena fosse percebida. 



 Esse homem est com um problema muito srio  falou Gabrielle   melhor que, para ele, voc no aparea. 



A jovem no discutiu. De seu esconderijo, ela viu o indivduo entrar na sala e, muito nervoso, foi sentar  mesa, diante de Gabrielle. 



Era jovem ainda, teria seus quarenta anos no mximo, forte e vigoroso, com a barba muito espessa e os olhos tmidos, ariscos, parecendo os olhos de algum que procura 
a qualquer preo esconder alguma coisa. 



Quando ele entrou na sala, Jeanne se perguntou o que um homem como aquele, cheio de sade, estava fazendo longe das linhas de combate. 



Porm, assim que ele pousou as duas mos sobre a toalha da mesa, a pedido de Gabrielle, a moa compreendeu: faltavam- lhe trs dedos da mo direita, o polegar, o 
indicador e o mdio e esse defeito o invalidava para a guerra. 



 Como vai, Bertrand?  perguntou Gabrielle, com carinho.  Vou bem  respondeu ele, esquivo  At gostaria de estar na guerra... Mas com esta mo... 



Gabrielle fez algumas perguntas a respeito de seus carneiros, de sua horta, de seus ces, que sempre foram seu orgulho. 



E perguntou, depois de quase vinte minutos de uma conversa que nada tinha a ver com uma consulta parapsicolgica, como ia passando sua mulher: 



 E Michelle?  V- vai b- bem...  gaguejou Bertrand  Muito bem! A velha sorriu. Segurando a mo esquerda de Bertrand, ela falou:  No sei por que voc veio me 
procurar, Bertrand... Se era para me mentir, se era para querer me enganar... No precisaria perder todo esse tempo, no precisaria deixar seus afazeres para vir 
at aqui! 



Bertrand corou. Tentou balbuciar algumas palavras mas sua voz parecia estar presa na garganta. 



Mostrando a bola de cristal que estava bem  frente do homem, Gabrielle falou: 



 Estou vendo aqui, Bertrand... As coisas esto indo bem,  



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verdade. Com sua lavoura, com seus animais... Com voc mesmo, at... S no est indo nada bem o seu casamento com Michelle. E isso por que voc no est conseguindo 
mais... 



Bertrand balanou a cabea afirmativamente e choramingou:  No sou mais homem, Gabrielle! No consigo mais nem a menor ereo! Estou imprestvel! 



Gabrielle acariciou as costas da mo esquerda de Bertrand e disse:  Sim... Eu sei. A bola de cristal me disse. E me disse, tambm que voc est com medo de que 
sua mulher o traia por causa disso. 



Deu uma risada e acrescentou:  Na verdade, est achando que ela o est traindo, no  isso mesmo? 



Bertrand no respondeu. Nem era preciso que o fizesse pois sua fisionomia mostrava bem que Gabrielle acertara em cheio. 



 Pois no se preocupe  disse a velha  Em primeiro lugar, a boa Michelle no est enfeitando sua testa com um par de chifres... 



 Mas como posso ter certeza?  perguntou o homem, desesperado  Se eu no a satisfao mais... 



Muito sria, Gabrielle mostrou para Bertrand a bola de cristal, dizendo, com energia: 



 Se no acredita, veja voc mesmo! Veja como a pobre Michelle est quieta em sua casa! Veja sua expresso preocupada, certamente pensando no que poderia estar acontecendo 
com voc que no mais se interessa por ela! 



 Mas eu me interesso!  quase gritou Bertrand  Eu me interesso e muito! Mas o problema  que no consigo mais... No consigo fazer mais nada! 



 Pois vai conseguir  replicou Gabrielle. Assim dizendo, apanhou um leno que estava sobre seu colo e, com ele, esfregou as mos e as faces de Bertrand. Em seguida, 
com a ajuda de uma tesourinha, arrancou um dos botes de sua camisa e cortou um pequeno pedao da bainha de sua cala. Pregou o boto no pedao de tecido e embrulhou 
tudo com o leno, guardando o volume formado no bolso do palet de Bertrand. 



 Quando sair daqui, v at o Allier e jogue este pacotinho na gua  falou a velha  Sua potncia sexual voltar dentro de dez dias. 



Com severidade em sua voz, completou:  Mas neste intervalo, ou seja, de hoje a dez dias, fique longe de 



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sua mulher ou de qualquer outra, entendeu bem? Bertrand fez um sinal afirmativo com a cabea e, rpido, como se estivesse com vergonha de si mesmo, tratou de ir 
embora. 



******* Assim que Bertrand deixou a sala, Jeanne se apressou em ir perguntar para Gabrielle como  que ela tinha visto sua esposa na bola de cristal quando ela mesma 
acabara de dizer que o mximo que se poderia enxergar naquele objeto seriam reflexos do ambiente em que ele se encontrava e como  que o prprio Bertrand conseguira 
ver a mulher. 



 No vi ningum na bola  afirmou Gabrielle, com um sorriso  Mas era preciso que Bertrand acreditasse. Assim, mandei- o olhar. E ele, com toda a certeza, enxergou 
alguma coisa que lhe pareceu ser exatamente aquilo que queria ver, ou seja, sua mulher, Michelle, em casa, bem quietinha e preocupada com a sua sade. 



 Mas...  protestou Jeanne  Nesse caso, voc o enganou! Sorriu, um pouco sem jeito e corrigiu:  Melhor dizendo... Voc o induziu a ver o que no existia!  Voc 
pode considerar assim, se quiser  concordou Gabrielle  Mas a verdade  que ele vai sarar. Dentro de dez dias, quando for procurar a esposa para o amor, ele vai 
conseguir satisfazla e,  claro, vai conseguir se satisfazer tambm. 



 Com isso  murmurou Jeanne  voc est querendo dizer que aquele encantamento do boto tem, realmente algum efeito... 



Gabrielle riu.  Sim...  claro que tem... Da mesma maneira que a Liturgia da Missa ou o ritual de qualquer religio... 



Sem deixar que Jeanne continuasse a perguntar, ela completou:  No caso de Bertrand, eu no estou fazendo nada mais alm de lhe incutir um pouco de auto- confiana. 
Quem vai operar o milagre  ele mesmo! 



E, fazendo sinal para que Jeanne voltasse a se esconder, falou:  V se esconder. Est chegando mais um necessitado... Jeanne olhou pela janela, mas no viu ningum. 
J ia perguntar como ela sabia da aproximao de uma pessoa, quando uma jovem surgiu na orla da floresta, dirigindo- se para o bangal. 



******* 



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Anne Marie Lebrun era muito bonita. Teria seus trinta anos de idade mas, em hiptese alguma quem a visse diria ter ela mais do que vinte, tal era o frescor de sua 
pele e o vio de sua juventude. 



Porm, ela tinha os olhos tristes, a expresso do rosto de quem est cansada de tudo e de todos, o aspecto geral de quem no est bem dentro de si mesma. 



Ela entrou, sentou- se  mesa e mal respondeu ao cumprimento de Gabrielle, deixando ver que estava enfastiada, que achava que nada mais valia a pena. 



A velha ficou calada, simplesmente olhando para a moa por quase cinco minutos e, ento, falou: 



 O que voc quer fazer est errado... Pode ter certeza que vai se arrepender amargamente se insistir... 



Atrs da cortina, na cozinha, Jeanne franziu as sobrancelhas. Estava comeando a achar que Gabrielle no passava de uma impostora, de uma pessoa que tivesse no mximo 
um certo dom teleptico e que, por isso, conseguia adivinhar to bem os pensamentos das pessoas. No entanto, a maneira segura com que ela falava, a forma como estava, 
por exemplo, tratando aquela moa, era algo em que Jeanne tinha de pensar. 



Enquanto com Bertrand, Gabrielle fora carinhosa, com Anne Marie, ela estava sendo rspida e o seu tom de voz no deixava entender o menor sinal de amizade. 



 Voc no tem nada a ver com a minha vida  falou subitamente Anne Marie  Eu j estou cansada de tudo isso! 



Marcel no se decide! Cheguei  concluso que o nico caminho a seguir  esse! E voc vai me ajudar! 



 No sei para que veio aqui  disse Gabrielle, pondo- se de p  Sabe muito bem que eu no fao nada contra as pessoas. 



 Sim  replicou Anne Marie, ainda sentada e sem dar mostras de que considerava a entrevista finda  E no estou pedindo nada a voc. S quero que me diga se vai 
dar certo ou no. S quero que me diga se Lucille vai morrer. 



Gabrielle olhou intensamente para a moa e respondeu:  No direi nada, Anne Marie. Apenas fique sabendo que voc vai se arrepender. E no  preciso ser como eu 
para dizer isso. As pessoas que desejam o mal para as outras e aquelas que usam as foras espirituais para conseguir prejudicar seus semelhantes, jamais conseguem 
ser felizes. 



Um sorriso maldoso aflorou nos lbios de Anne Marie que, levantando- se, falou: 



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 O que est me dizendo  uma confirmao... Posso entender assim. Lucille morrer e eu ficarei com Marcel... 



Sem conseguir disfarar a ansiedade em sua voz, indagou:  No  isso o que vai acontecer? Quase gritando, acrescentou:  Sei que voc, como toda feiticeira branca, 
no pode mentir... Por isso, responda! No estou certa? 



Gabrielle suspirou. De repente, pareceu que ela envelhecera vinte anos, as costas curvando- se para a frente e a voz roufenha, como se estivesse com dificuldade 
de sair de sua garganta. 



  verdade...  disse ela  No posso mentir... Mas posso perfeitamente me omitir. 



Quase num grasnido, ela completou:  Descubra voc mesma... S que no se esquea, Anne Marie... Voc vai se arrepender muito! 



Assim dizendo, deixou a moa sozinha na sala. Anne Marie deu de ombros, soltou uma risada nervosa e, rapidamente, quase em fuga, saiu da casa. 



Gabrielle demorou quase meia hora para sair do quarto e, assim que reapareceu Jeanne tinha dzias de perguntas para lhe fazer. 



 Mas o que essa moa queria?  indagou ela  Pareceu- me que est tentando matar algum...! 



 No  bem isso  respondeu a velha  Anne Marie est apaixonada por um rapaz casado. Desde sempre ela o desejou mas Marcel casou- se com outra mulher. Anne Marie 
no se conformou e, depois de tentar de todas as maneiras envenenar essa unio, vendo que nada dava certo, achou de recorrer s foras do mal... Foi falar com uma 
feiticeira negra e esta fez um encantamento que ps a pobre Lucille tuberculosa. 



A velha respirou fundo e prosseguiu:  No est no meu alcance ajud- la, Jeanne. Lucille vai morrer e Anne Marie acabar conseguindo o que deseja. Mas isso vai 
lhe custar muito caro! 



Balanando, desalentada a cabea, Gabrielle finalizou:  No se deve apelar para as foras do mal. No h como evitar as desgraas que viro depois! 



Jeanne olhou intensamente para Gabrielle e comentou:  Voc disse que no  capaz de prever o futuro... Mas, no 



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entanto,  exatamente isso que est fazendo! Est dizendo o que vai acontecer a essa tuberculosa e o que vai acontecer para Anne Marie! 



Sorriu, maliciosa, e acrescentou:  Se isso no for predizer o futuro... Gabrielle segurou as mos de Jeanne e murmurou:  Qualquer um pode apanhar uma tuberculose, 
querida... E  uma doena grave, que mata a maior parte das pessoas que a contraem. E basta usar o bom senso para saber que aquele que deseja o mal para algum est, 
por sua vez, se pondo vulnervel a esse mesmo mal. O Demnio  capaz de provocar o mal, no  mesmo? S que, depois, ele vai cobrar a dvida... E sua cobrana normalmente 
no  nada delicada. 



 E o que vai acontecer a Anne Marie?  quis saber Jeanne.  Isso, no sei  respondeu Gabrielle  Como j lhe falei, no me  dado predizer o futuro muito embora 
todas as pessoas da regio achem que sim. 



Sorriu e acrescentou:  O que eu fao, no  mais do que dar a essas pessoas motivos e maneiras de terem esperanas no futuro. Num futuro que ser traado por elas 
mesmas. 



Sentou- se  mesa e disse:  Basta pensar um pouco, querida... Se voc souber como ser o seu futuro, se ele for desagradvel,  claro que h de lutar de todas as 
maneiras para escapar dos momentos difceis. E isso significaria mudar o Destino, mudar o futuro, o que  impossvel pois um futuro que se pode modificar, no  
mais um futuro, mas sim uma possibilidade. 



Depois de refletir por alguns instantes, Jeanne indagou:  Mas no h mesmo maneira de se modificar o futuro? Gabrielle deu de ombros e falou:  Voc ainda  muito 
jovem, minha querida... No queira saber demais, antes da hora. Por enquanto, voc est muito ansiosa. Acabou de passar por uma experincia ruim, est grvida e 
s isso faz com que fique muito mais sensvel e muito mais angustiada com relao ao futuro, especialmente no que diz respeito ao futuro de seu filho. Mais tarde, 
quando essa criana j tiver nascido, voc estar mais apta a esse tipo de revelao... 



Jeanne fez uma expresso de curiosidade e perguntou:  Mas de que revelaes est falando? Por acaso est realmente achando que eu vou me transformar numa feiticeira, 
que vou substitula e passar o resto de meus dias aqui? 



Gabrielle no respondeu. 



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Limitou- se a sorrir e, pela primeira vez, Jeanne julgou ver uma sombra de profunda tristeza em seu sorriso. 



Pondo- se de p, a velha disse:  Vamos preparar o almoo, Jeanne... No seu estado,  preciso uma boa alimentao. 



Caminhando para a cozinha, arrematou:  Deixe as perguntas para depois... Agora, venha aprender a cozinhar coisas boas com quase nada. 



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CAPTULO V 



As semanas passaram muito mais rapidamente do que Jeanne poderia imaginar num lugar to sossegado quanto aquele bosque nas cercanias de Randan. Ela esperava que, 
tanto por causa da gravidez quanto por causa da excessiva paz do local, as horas se escoassem com muita lentido, maantes, opressivas e tediosas. 



Porm, isso no aconteceu, muito pelo contrrio, e Jeanne estava o dia todo fazendo 



alguma coisa, trabalhando de alguma maneira e, principalmente, aprendendo algo novo e interessante. 



Ela sempre manifestara grande curiosidade a respeito de coisas espirituais e, ali na casa de Gabrielle, estava podendo presenciar e vivenciar fenmenos em que jamais 
acreditaria se lhe tivessem contado. 



Assim, teve oportunidade de ver Gabrielle curar feridas instantaneamente, pode assistir a dezenas de levitaes e teve como ajudar a velha no preparo de encantamentos, 
dos filtros e das poes que ela fazia, utilizando- se de ervas e de outras substncias estranhas que guardava em dzias e dzias de pequenos potes. 



Jeanne adorava ver Gabrielle usar o grande caldeiro da lareira para os seus preparados misteriosos. Parecia que ela estava vivendo um conto de fadas e o mais engraado 
era ver que aquelas misturas realmente funcionavam. 



Gabrielle ria do espanto de Jeanne e explicava:  Essas ervas e substncias que eu utilizo no so mais do que remdios. A arnica  boa para inflamaes, a infuso 
de ptalas de rosas misturada com glicerina  um excelente creme de beleza e assim por diante... Por isso voc v as pessoas sararem com as minhas poes. Por exemplo, 
no h bronquite que resista a um xarope feito com agrio e mel! Pode- se curar uma lcera na perna com a utilizao de banhos feitos com folhas adstringentes... 



Est certo  concordou Jeanne  Mas no  somente nisso que as suas poes e filtros funcionam... Voc as usa para curar muitas outras coisas e para resolver problemas 
que no tm nada a ver com doenas propriamente ditas. 



Gabrielle riu. 



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 Voc est falando dos filtros de amor, das poes para resolver negcios e coisas assim... 



Pousando carinhosamente a mo sobre o antebrao de Jeanne, ela disse, em voz baixa, como se estivesse com medo de que outras pessoas a pudessem escutar: 



 Essas poes tm apenas efeito psicolgico... Aumentam a confiana de quem as usa e, assim, torna as coisas mais fceis! 



Deu uma risada e completou:  Acredite que um homem que venha me procurar para que eu lhe faa uma poo que o possibilite encontrar um emprego, se ele no se esforar, 
vai continuar desempregado. No vai surgir um patro cado do cu para suprir suas necessidades! Ele tem de sair em campo, tem de batalhar para conseguir alguma 
coisa! S que, depois de usar o meu filtro ou a minha poo, ele ir  luta com mais vontade, com mais confiana e isso  importantssimo 



para se atingir qualquer objetivo! Aos poucos, Jeanne foi admitindo que a feitiaria branca, na realidade, no passava de uma srie de artifcios de que faziam uso 
as feiticeiras para impressionar e sugestionar as pessoas que as procuravam. No classificaria de charlatanismo mas... No fundo, no estava muito longe de s- lo, 
uma vez que as feiticeiras eram obrigadas a lanar mo de gestos cabalsticos, de palavras misteriosas, tudo isso com a inteno de forar as pessoas a acreditarem 
nelas e, com isso, adquirirem o mais importante, ou seja, a auto- confiana. 



Porm, era evidente que Gabrielle no era apenas um compndio ambulante de medicina natural... Ela tinha poderes, tinha uma grande capacidade teleptica e radiestsica, 
era capaz 



de sentir e de adivinhar coisas impossveis. E era essa faceta de Gabrielle que Jeanne queria conhecer melhor, que queria aprender. 



 Como  que voc faz para ler os pensamentos dos outros?  quis saber. 



Gabrielle suspirou e respondeu:  Uma pessoa como eu  chamada de feiticeira porque  capaz de realizar coisas e de provocar fenmenos que as mentes das pessoas 
comuns no conseguem explicar e, por isso, dizem ser sobrenaturais. No entanto, isso no  bem verdade. No fundo, uma feiticeira no  mais do que uma pessoa sensitiva, 
capaz de perceber energias invisveis e insensveis para as outras. 



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Impedindo, com um gesto, que Jeanne a interrompesse, Gabrielle prosseguiu: 



 No meu caso, por exemplo, sou capaz de perceber, sentir e ver a aura das pessoas. Assim, posso definir- lhes o carter apenas pela cor e pelo brilho da mesma. 
 como um invlucro luminoso que contorna a silhueta de uma pessoa quando a observo num lugar menos iluminado ou, ento, quando ela se encontra contra a luz. Dessa 
maneira, uma aura azulada significa uma pessoa de bom carter enquanto uma outra, com a cor tendendo ao esverdeado, mostra egosmo e inveja; j uma aura arroxeada 
indica uma pessoa de profundos princpios religiosos... As auras que apresentam tons do lils, so tpicas dos que esto apaixonados e que so correspondidos nessa 
paixo. O que, em resumo, traduz pessoas felizes. 



 Mas essa sua explicao no tem nada a ver com a capacidade de adivinhar os pensamentos  protestou Jeanne. 



 Como No?!  fez Gabrielle  A telepatia est diretamente ligada  aura! Principalmente quando existe uma proximidade. Fao com que minha aura interaja com a da 
outra pessoa e, assim, posso at mesmo dizer que me encontro no interior de seus pensamentos! 



 Mas nem sempre h essa proximidade  ponderou Jeanne.  De fato  admitiu a velha  Quando a pessoa est distante, a telepatia se torna mais fcil se a feiticeira 
puder dispor de algum objeto que ela use ou tenha usado com muita frequncia, ou ento de um pedao de seu corpo. 



Jeanne arregalou os olhos, horrorizada, quase gritando:  Um pedao do corpo?!  Sim  confirmou Gabrielle  Uma lasca de unha, uma mecha de cabelos, um dente que 
lhe tenha sido arrancado... 



Jeanne respirou aliviada vendo que a feiticeira no mencionara um brao, uma mo ou, quem sabe, outra parte ainda mais impressionante do corpo humano... 



  por isso que, em muitos encantamentos praticados por ns, principalmente os encantamentos de amor,  necessrio que se traga alguma coisa de quem vai ser encantado. 
Nesses casos, uma concentrao psquica direcionada enquanto estamos segurando um 



objeto pertencente a essa pessoa, praticamente faz com que ela escute uma ordem dada por ns. Para ser mais precisa, faz com que seja induzida a agir exatamente 
como queremos. 



Gabrielle sorriu e completou:  Mas no podemos usar esse dom para tirar proveitos prprios... 



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No podemos, por exemplo, tentar um encantamento que nos traga dinheiro, que faa algum aparecer aqui com uma mala de ouro e deix- la em nossa porta. Se isso fosse 
possvel, a vida das feiticeiras seria muito fcil! 



******* Depois de quatro meses em companhia de Gabrielle, a moa j conseguia fazer muitas coisas que, aos olhos dos leigos, passariam perfeitamente por atos de 
feitiaria. 



Assim, ela j sabia como efetuar uma poro de curas ditas milagrosas, sabia ler na bola de cristal, sabia distinguir entre problemas fsicos e meramente psquicos 
e, o que era muito importante segundo Gabrielle, Jeanne sabia preparar muito bem certos filtros de amor e de progresso material. 



Porm, as duas aptides que ela mais queria adquirir, no estavam ao seu alcance. 



Jeanne no tinha a capacidade de ler os pensamentos como Gabrielle, e no conseguia ver o futuro. 



 No pense nisso  disse a velha, quando Jeanne comentou com ela sobre o assunto  J lhe disse que no nos  dado, dentro da feitiaria branca, adivinhar o futuro. 
E, quanto a ler pensamentos, quanto  interpenetrao de auras... Falta- lhe ainda um pouco de preparo. Tenha calma e pacincia que voc chegar l. 



Com um acento de tristeza em sua voz, Gabrielle arrematou:  S que eu acho que no estarei aqui para vivenciar esse momento to importante em sua vida... 



Jeanne entendeu muito bem o que a velha estava querendo dizer. E entendeu, tambm que ela estava, na realidade, fazendo exatamente aquilo que vivia afirmando ser 
impossvel, ou seja, estava lendo o prprio futuro. 



A moa no pode esconder uma certa revolta. Gabrielle sabia alguma coisa que no estava querendo lhe transmitir e isso, no mnimo demonstrava falta de confiana 
em sua pessoa. 



 Voc no confia em mim...  queixou- se Jeanne fazendo beicinho, numa tentativa de se fazer de criana mimada para conseguir o que estava querendo. 



Gabrielle sorriu.  H certas coisas que, mesmo dentro da feitiaria branca, s podem ser transmitidas de uma feiticeira para outra. E voc ainda no  



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uma feiticeira. Na verdade, nem mesmo sei se ser uma de ns... Jeanne sentiu que corava. No fundo, sabia que Gabrielle estava certa... Apesar de entusiasmada com 
o que estava vendo e aprendendo, Jeanne no manifestava nenhuma inteno de se transformar numa feiticeira. 



Piscando o olho esquerdo para Jeanne, a velha completou:  Voc no consegue esconder de mim, querida... Voc no tem a menor vontade de continuar aqui pelo resto 
de seus dias, vivendo sem luxo nenhum, levando uma vida que ser marcada pela solido... Voc  ambiciosa demais, pensa demais nas coisas do mundo... E, enquanto 
voc tiver esse tipo de pensamento, no poder ser iniciada nos verdadeiros rituais da feitiaria! 



Com uma careta de despeito, Jeanne argumentou:  H alguma coisa errada... Voc disse que as feiticeiras brancas no podem mentir e, no entanto, voc est mentindo 
para mim! Diz que no pode ver o futuro mas soube dizer que aquela pobre mulher, Lucille, iria morrer e que sua rival, Anne Marie, haveria de ficar com Marcel! Isso, 
para mim, e no entender de qualquer pessoa, no  mais do que fazer uma profecia, ou seja, no  mais do que ver o futuro! 



 No, minha querida...  apenas deduo lgica, como j lhe expliquei  replicou a velha  No estou mentindo quando afirmo ser impossvel para uma feiticeira branca, 
ver o futuro. 



Em voz mais baixa, acrescentou, como que falando para si mesma:  Pelo menos, de uma maneira clara, ntida e confivel. H muita coisa que me aparece e que me d 
a impresso de estar vendo o futuro mas, na realidade, so apenas impresses subjetivas, no mximo, premonies! 



 No caso de Lucille...?  No caso de Lucille  respondeu Gabrielle  o que acontece  uma deduo lgica, quando muito, voc pode dizer que  um jogo com as probabilidades... 



******* Na semana seguinte, Lucille morreu e quando Jeanne foi  cidade fazer algumas compras, ficou sabendo que Marcel, de fato, j estava vivendo com Anne Marie. 



Assim, Gabrielle acertara. E, para Jeanne, apenas confirmara suas teorias de que a velha estava mentindo e era perfeitamente capaz de prever o futuro. 



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Isso fez com que crescesse dentro de si a ansiedade por aprender o mais possvel com a feiticeira e fez com que Jeanne tomasse a deciso de forar Gabrielle a lhe 
ensinar os truques necessrios para se tornar uma autntica pitonisa. 



Jeanne sofrera muito com a misria, passara necessidades terrveis quando pequena, enquanto morava na Rue de la Huchette. E no estava querendo que essa situao 
de penria se prolongasse pelo resto de seus dias. Ela estava grvida, iria ter um menino 



dentro de mais alguns meses e desejava uma vida melhor, que no fosse isolada numa cabana no meio da floresta, atendendo pessoas que viessem procur- la com problemas 
os mais variados, os mais idiotas do mundo. 



No... Ela no desejava esse tipo de vida! Mesmo porque era muito moa ainda, tinha a vida inteira pela frente, tinha suas ambies e seus desejos... Sonhos de voltar 
a ser plenamente feliz no meio de outras pessoas, numa cidade grande, onde houvesse... vida! 



Naquele dia, encontrou Gabrielle com uma profunda expresso de tristeza. 



Imediatamente ela soube  adivinhou  o que estava acontecendo. Gabrielle pressentira  distncia seus pensamentos. 



Sua suspeita se confirmou quando a velha lhe disse:  No pense assim, Jeanne. Uma feiticeira branca no pode usar seus dons extra- sensoriais para auferir lucros. 
Isso seria a pior coisa que voc poderia fazer pois estaria indo contra todos os princpios da verdadeira feitiaria e contra todos os seus objetivos. 



Jeanne no teve o que responder. Gabrielle acertara em cheio e a jovem, s pela expresso de desagrado da velha, j podia adivinhar que ela jamais lhe ensinaria 
o que estava querendo aprender. 



Um pouco mais tarde, menos aborrecida, Gabrielle veio lhe dizer:  Quando falei que voc ficaria em meu lugar, estava apenas contando um sonho que tive, Jeanne. 
No posso afirmar que isso seja uma profecia. Sonhei que voc estava chegando, que se chamava Jeanne e que estava enfrentando srias dificuldades mesmo porque estava 
grvida. Se quiser considerar isso como uma espcie de clarividncia, pode considerar. No discutirei. Mas no foi uma profecia. Para comear, aconteceu enquanto 
eu estava dormindo e as profecias so feitas com a vidente em plena e perfeita conscincia. Por isso, no pense que eu estou escondendo coisas de voc. Isso no 
 verdade. 



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Erguendo os olhos para Jeanne, acrescentou:  Alm disso, voc ficar no meu lugar... Isso pode querer significar to somente que voc ficar aqui, em minha casa, 
quando eu me for... No  obrigatrio que voc se transforme numa feiticeira, como eu! 



Essa frase de Gabrielle assustou ainda mais a jovem. Ficar naquela casa, isolada do mundo... Sem nenhum outro objetivo na vida a no ser esperar o tempo passar... 



No! Jamais! Jeanne no deixaria que acontecesse! Ficaria ali at ter seu filho e, depois... 



Bem... Depois, ela veria o que poderia fazer. De uma coisa, porm, ela tinha certeza... No ficaria naquele bangal mais do que o estritamente necessrio. Com um 
olhar cheio de carinho, Gabrielle murmurou:  Lembre- se, minha querida... A felicidade  diretamente proporcional quela que podemos transmitir para os outros... 



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CAPTULO VI 



Gabrielle era uma pessoa absolutamente incapaz de guardar rancor do que quer que fosse e, assim, o incidente com Jeanne passou em menos de vinte e quatro horas e 
as duas voltaram a conviver como me e filha, a feiticeira ensinando para ela tudo quanto lhe fosse permitido saber e nunca mais tocando no assunto que a entristecera. 



Foi numa sexta- feira pela manh que Gabrielle levantou da cama parecendo muito mais excitada e agitada do que o habitual. 



 O que aconteceu?  perguntou Jeanne   seu aniversrio, para estar assim to contente? 



Gabrielle sorriu e respondeu:  Posso ser uma feiticeira, querida... Mas no deixo de ser mulher... E ns, mulheres, no temos motivo algum para nos sentirmos felizes 
no dia de nosso aniversrio! Envelhecer no  das coisas mais agradveis do mundo para ningum. 



Sentando- se  mesa para o desjejum, ela continuou:  Minha felicidade, hoje, se deve ao fato de ser noite de lua cheia e, o que  mais importante,  a terceira 
sexta- feira do ms. 



Jeanne continuou a olhar para ela com expresso de quem no estava entendendo onde Gabrielle queria chegar e esta, servindo- se de ch, explicou: 



Teremos um coven, esta noite... A jovem franziu as sobrancelhas e indagou:  Coven? Mas o que  isso?   uma reunio de feiticeiras e de feiticeiros, Jeanne. Um 
encontro que, na maior parte das vezes,  alegre e festivo. Voc vai gostar... Estar l comigo e poder ver e aprender muitas coisas interessantes. 



Jeanne sentiu uma espcie de arrepio a lhe percorrer o corpo. Na verdade, no parecia muito atraente a idia de ir a um lugar onde fossem se reunir vrias pessoas 
dotadas de dons extra- sensoriais e capazes de realizar prodgios tais como ler os seus pensamentos... 



 No quero ir  disse Jeanne  Tenho medo... Gabrielle sorriu, acariciou as costas da mo de Jeanne e murmurou:  Mas voc ir... Ser obrigada a ir. E, no fundo, 
vai tirar um bom proveito desse acontecimento! 



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Porm, Jeanne fincou p. No quis ir de jeito nenhum, chegou a inventar a desculpa  muito embora tivesse conscincia de que no adiantava nada mentir para Gabrielle 
 de que no estava bem disposta. 



 Voc prefere ficar  falou a velha  Pois fique... Ver que dentro de poucas horas, voc estar l. 



******* Gabrielle foi sozinha ao coven. Comeava a escurecer quando ela se embrenhou na floresta depois de se despedir de Jeanne dizendo- lhe que ainda a veria naquela 
noite. 



Jeanne achou estranha a frase da velha pois era mais do que natural que as duas ainda se encontrassem, uma vez que moravam juntas e que a feiticeira voltaria para 
casa. 



 A menos que ela esteja pensando em dormir na floresta  murmurou Jeanne retomando seus afazeres domsticos  E, se era isso que Gabrielle estava tencionando fazer, 
a sim,  que eu tenho motivos muito fortes para no sair de casa! Eu jamais conseguiria dormir no meio do mato, num lugar onde pode haver de tudo, onde corro o 
risco de ser atacada por lobos ou por outros animais ferozes! 



Pela porta aberta, Jeanne ficou observando Gabrielle desaparecer por entre as rvores e, mais uma vez, aquele estranho e desagradvel arrepio percorreu sua coluna 
vertebral. 



Pareceu- lhe ouvir no interior de sua alma, algum que a recriminava por deixar a velha ir sozinha quela reunio de doidos. 



Sacudiu a cabea afastando de si esses pensamentos e, com um suspiro, voltou a arrumar os objetos cabalsticos de Gabrielle que tinham sido usados durante aquele 
dia. 



Mas Jeanne estava inquieta. No conseguia se concentrar no que fazia e, por duas vezes, quase deixou cair no cho a preciosa bola de cristal. 



Resolveu desistir de qualquer coisa e, sentando- se numa das poltronas diante da lareira, tentou bordar um pouco. 



Espetou- se com a agulha, errou os pontos, desistiu. Apanhou a cesta de tricot, afinal precisava se apressar um pouco com as roupinhas de seu filho. 



Mas nem isso conseguiu fazer. 



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Estava angustiada, mal dentro de sua prpria pele, parecia que, de repente, as paredes da casa a estavam oprimindo, abafando, dizendolhe, enfim que no deveria estar 
ali, mas sim no coven, ao lado de Gabrielle. 



Finalmente, cerca de trs horas depois que a velha deixara a casa, Jeanne se decidiu. 



Apanhou um xale, jogou- o sobre os ombros e saiu, seguindo a mesma direo que Gabrielle tomara ao entrar na floresta. 



Foi s quando j estava no meio do mato, na mais total e absoluta escurido, que ela se deu conta de que no tinha a menor idia do caminho a seguir. 



Olhou ao seu redor. Absolutamente em vo. No era capaz de enxergar um palmo diante do nariz e, muito naturalmente, Jeanne sentiu medo. 



Percebeu, j entrando em pnico, que no conseguiria voltar para o bangal e um soluo desesperado sacudiu seu corpo, as lgrimas comeando a surgir. 



Nesse momento, ouviu nitidamente uma voz que lhe dizia:  Siga em frente, Jeanne... Sempre em frente... E no tema. Gabrielle est esperando por voc. 



Assustada, a moa sentiu que, por ela, por sua vontade, no queria seguir. Seu desejo era ficar ali, pregada ao cho, com medo de dar um passo sequer, talvez esperar 
que o dia chegasse ou que acontecesse o milagre de algum surgir com uma lanterna e a levasse de volta para casa. 



Mas... Suas pernas criaram vontade prpria... Seus ps comearam a se movimentar cada vez mais depressa e logo ela estava correndo, ainda apavorada mas, ao mesmo 
tempo, surpresa por no esbarrar num s galho de rvore. 



E Jeanne j andara por aquele trecho da floresta  cata de morangos e amoras silvestres. Sabia muito bem o quanto ele era fechado e denso. 



Sem se cansar, sem nem ao menos modificar o ritmo respiratrio, Jeanne correu por quase quinze minutos. 



Quando seus ps decidiram diminuir a marcha, ela se viu na orla de uma clareira em cujo centro tinha sido feita uma grande fogueira. 



Ao redor das labaredas, doze vultos se agitavam numa estranha dana e, um pouco mais para trs, um grande caldeiro parecia apenas aguardar a hora de ser colocado 
sobre as chamas. 



Os vultos, vestidos de negro, com uma espcie de capa longa 



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que lhes chegava quase aos tornozelos, saltavam e corriam ao redor da fogueira, cantando alguma coisa que a moa no conseguia entender, fazendo gestos, baixando 
e levantando suas cabeas escondidas por capuzes como os dos frades capuchinhos. 



Jeanne estacou. Sabia que queria ir at l, sabia que deveria se aproximar mas... Tinha medo. De repente, a dana parou e um dos vultos, o mais alto deles, virou- 
se para onde ela se encontrava e disse: 



 Aproxime- se, irm Jeanne... Ns todos estamos esperando por voc! 



Ele fez um gesto em sua direo e Jeanne, apesar de estar lutando consigo mesma, comeou a caminhar na direo da fogueira. 



 Venha, irm  tornou a falar o vulto mais alto, a voz grave, uma voz de homem  Voc  a que estava faltando, a dcima terceira... Sem a sua presena, nossa reunio 
no far qualquer sentido! 



Jeanne engoliu em seco. Nesse momento, Jeanne reconheceu em outro vulto, a sua boa Gabrielle e, de sbito, criou coragem. 



Avanou com passo j firme para o centro da clareira e, cobrindo a cabea com o xale que trouxera, murmurou: 



 Se  assim que tem de ser... Gabrielle segurou sua mo e, olhando para o vulto  sua direita, que parecia ser o Mestre, falou: 



 Ainda h foras do mal agindo sobre esta criatura...  preciso expurg- las!  preciso expulsar o Demnio antes que ele tome conta de Jeanne! 



E, em uma voz alta e esganiada, acrescentou:  Temos de trabalhar depressa! Recebi hoje um aviso de que ele, o Prncipe do Mal, est prestes a possuir sua alma! 



Jeanne estremeceu. Ela estava consciente, sabia que no queria estremecer, achava um absurdo ter aquela tremedeira de repente bem como achava impossvel que sua 
mo, num gesto brusco e completamente contra sua vontade, se libertasse da mo de Gabrielle. 



Mas foi isso que aconteceu. Com um safano ela se afastou e, aterrorizada, ela viu a expresso de desespero nos rostos dos doze participantes da cerimnia. 



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Ouviu- se um trovo. Um estranho e longo relmpago aconteceu, sem no entanto iluminar mais do que as copas das rvores. 



Jeanne sentiu que suas pernas no a sustentariam e ela caiu no cho. Um outro relmpago, um outro trovo. Um repentino vendaval muito quente, varreu aquele pedao 
da floresta e um cheiro terrvel de enxofre se desprendeu de algum lugar que parecia ser as entranhas da Terra. 



Jeanne, apesar de ter cado, no desmaiara e, como mantinha os olhos bem abertos e todos os sentidos em alerta, pode assistir quele estranho fenmeno. 



Os doze vultos caram por terra como se tivessem sido atingidos por um raio e, novamente, um vento quente e ftido soprou, apagando a fogueira. 



Uma escurido opressiva baixou sobre a clareira e Jeanne, sem mais foras para resistir, mergulhou nas reconfortantes e aliviadoras trevas da inconscincia. 



******* Ela abriu os olhos sentindo que algum punha um pano mido sobre sua testa. 



Olhou ao seu redor e viu que estava no bangal, em sua cama e que era dia. 



Bertrand, com expresso preocupada, estava ao seu lado e, dedicado, tratava de esfregar- lhe os pulsos e as mos, tentando reanim- la. 



Abriu um sorriso sincero ao ver que Jeanne despertava e murmurou: 



 Oh... Graas a Deus voc acordou! J estava ficando com medo que no desse tempo de salv- la! 



 O que foi que aconteceu?  indagou a moa  Onde est Gabrielle? 



Jeanne fez essa pergunta meramente por fazer. Ela sabia, mesmo sem se lembrar direito do que ocorrera, que Gabrielle no existia mais... 



Lentamente, as imagens da tragdia foram se formando em seu crebro e, antes mesmo que Bertrand respondesse, Jeanne disse: 



 Ela morreu... No pensei que uma feiticeira pudesse morrer dessa maneira... 



Bertrand sorriu tristemente e falou: 



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 Sim... Gabrielle morreu... Houve uma emanao de gs na floresta e ela morreu. 



Olhando com intensidade para Jeanne, acrescentou:  No sei como  que voc conseguiu se salvar... Quando esse gs vulcnico escapa, no h o que lhe resista! 



Jeanne sentou- se na cama surpreendendo- se com o fato de estar se sentindo perfeitamente bem e perguntou: 



 E os outros? O que aconteceu com todos os outros? Bertrand franziu as sobrancelhas e indagou, intrigado:  Outros? Mas que outros? Por um momento, Jeanne quase 
falou que havia mais pessoas alm de Gabrielle na clareira. Porm, achou melhor esperar um pouco e Bertrand disse: 



 Voc s estavam sozinhas... No havia mais ningum, nem mesmo pegadas. 



 Mas havia um caldeiro...  insistiu Jeanne.  Uma cesta, voc quer dizer  retrucou Bertrand  Uma cesta cheia de cogumelos e de frutas silvestres. 



Jeanne suspirou. Tudo ainda estava muito confuso... Era preciso encontrar as explicaes e isso, justamente isso, seria muito difcil, uma vez que Gabrielle deixara 
de existir. 



 O corpo...?  balbuciou Jeanne  Onde est o corpo de Gabrielle? 



Bertrand sorriu, compreensivo.  Ela j foi enterrada, Jeanne... H dois dias. Faz hoje uma semana que voc est dormindo. 



A moa arregalou os olhos.  No  possvel!  exclamou  Uma semana! Como cheguei aqui? 



Bertrand respondeu:  Eu a trouxe. Ouvi a trovoada, senti o cheiro do gs e achei que voc s poderiam estar precisando de ajuda. Fui encontr- la no meio da floresta, 
numa clareira. Gabrielle estava morta... 



Jeanne preferiu nada dizer. Ps- se de p, surpreendentemente lpida e disse:  Estou bem... Nem acredito!  O que pretende fazer?  perguntou Bertrand. Jeanne ergueu 
os ombros, dizendo: 



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 Ainda no sei... Sem Gabrielle... No tenho a menor idia do que ser de mim daqui para a frente... 



Sentia- se confusa, queria refletir um pouco sobre tudo aquilo e, sem jeito, com medo de ofender Bertrand que, afinal, tinha sido to dedicado, ela murmurou: 



 Preciso pensar, Bertrand... Por isso, acho que gostaria de ficar sozinha... 



O homem fez um sinal afirmativo com a cabea e disse, j se dirigindo para a porta: 



 Compreendo... Irei para minha casa... Sorriu, fez um aceno com a mo e arrematou:  Se precisar de alguma coisa, faa como Gabrielle... Pense em mim! 



Jeanne teve vontade de rir. Ela jamais seria capaz desse tipo de coisa. e, pelo que pudera entender, segundo as palavras do Mestre e da prpria Gabrielle, estava 
prestes a ser possuda pelo Esprito do Mal! 



Sentiu um desagradvel mal estar e, erguendo os olhos para o teto, falou: 



Meu Deus... No deixe que isso acontea! No deixe! 



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CAPTULO VII 



No ms que se seguiu, Jeanne experimentou a solido. Ela j a conhecia da Rue de la Huchette mas l, por mais sozinha que estivesse, sempre havia o movimento de 
pessoas nas caladas, havia os gritos dos casais vizinhos brigando 



invariavelmente por causa de dinheiro  da falta de dinheiro  e havia, no mnimo, a existncia de Paris. 



Na Rue de la Huchette, Jeanne podia estar solitria, abandonada por seus pais, sem ningum para conversar, sem ningum com quem trocar uma emoo, um sentimento... 
Mas, apesar disso tudo, ela estava em Paris. 



E Paris era,  e sempre ser Paris, mesmo com os alemes, com os rabes, ou com os turistas japoneses... 



Em Paris no se est sozinho a menos que se queira e Jeanne jamais quis estar sem ningum... 



J ali, no meio da Floresta de Randan, no bangal que tinha sido de Gabrielle, ela estava absolutamente s. 



Era verdade que sempre aparecia algum, sempre surgia uma pessoa da cidade que desejava uma consulta, que pretendia um encantamento para ajud- la a resolver algum 
problema... Tambm Louis e Bertrand vinham com frequncia trazer- lhe mantimentos, um pedao de carne, um peixe... Coisas que naquela poca, em plena guerra, eram 
artigos de alto luxo e que eles levavam para Jeanne sem que ela tivesse que pagar um s tosto. 



Mas, apesar disso, ela continuava a se sentir a pessoa mais solitria e abandonada do mundo. 



Como se no bastasse, ela estava grvida, sua barriga cada vez maior e o beb, irrequieto, mexendo- se o tempo todo, dando- lhe chutes como se estivesse apressado, 
como se estivesse querendo vir ao mundo depressa para poder fazer companhia  me. 



A gravidez era outro ponto de desespero e pnico para Jeanne. Ela ficava horas a fio imaginando como faria no momento em que as contraes comeassem e ela tivesse 
que contar com a ajuda de algum para dar  luz seu filho. 



 No terei ningum...  lamentava- se  E no tenho a menor idia de como poderei fazer tudo sozinha! 



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Vrias vezes pensara que, se tivesse dinheiro, deixaria a Floresta de Randan e iria para Clermont- Ferrand onde, no mnimo, encontraria um mdico que a ajudasse. 



Mas.. No era apenas por causa do dinheiro que Jeanne no voltava para Clermont- Ferrand. 



Havia, e muito forte, o medo de ser apanhada pelos homens da Gestapo. Afinal, ela jamais poderia ter certeza de que Jacob nada dissera a respeito de Auvergne. 



 Estou amarrada aqui  gemeu  Terei de suportar... Terei de aguentar e, no fim, Gabrielle estava certa, mais uma vez... Ela disse que eu ficaria em seu lugar e 
 exatamente isso que est acontecendo! S que... Eu nem sequer sou uma feiticeira! 



******* Sem ter o que fazer e ainda muito pouco conhecida pelos moradores da regio, Jeanne tinha tempo de sobra para se dedicar  leitura. 



Encontrou, entre as coisas de Gabrielle, vrios livros sobre feitiaria e sobre magias e, assim, comeou a estudar. 



 No  possvel que uma feiticeira, uma pessoa com tanto poder, no consiga fazer alguma coisa no sentido de melhorar a prpria vida!  dizia ela enquanto folheava 
aqueles livros  Deve haver uma maneira, deve haver um mtodo mgico que me permita ter, ao menos, o suficiente para viver num lugar melhor, o suficiente para que 
eu possa ter meu filho com comodidade! 



Contudo, as coisas no eram nada simples. Os livros de Gabrielle estavam repletos de frmulas, de smbolos e de sinais que ela no conseguia entender e, o que era 
pior, os poucos trechos cujo teor conseguia compreender, diziam coisas pouco animadoras. 



Falavam das desgraas que caam sobre os que tentavam explorar a magia como fonte de renda, de maldies que perseguiam os que viam na feitiaria uma maneira de 
enriquecimento. 



 Tem de ser mentira!  exclamava Jeanne, irritada  Nunca ouvi dizer de feiticeiras ou bruxos que fossem pobres! Deve haver um encantamento sim, mas to secreto 
que nem sequer  mencionado na literatura! 



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 noite, Jeanne sonhava. No sonho, ela aparecia numa cidade grande, ensolarada, quente e muito bonita. Ela usava roupas leves e coloridas, estava sempre sorridente 
e os homens se desdobravam para agrad- la. Ela tinha dinheiro, muito dinheiro... E podia fazer compras, podia comer nos melhores restaurantes, podia ir a teatros, 
dar longos passeios de automvel... 



No sonho, Jeanne vivia a vida que desejava, a vida que pedira para ter. 



Mas... Era um sonho. Um sonho que ela sabia ser muito difcil de realizar, principalmente estando ali, prisioneira naquela floresta. 



Porm, Jeanne era persistente. Quando despertava e via que ainda estava no bangal e que aquelas ruas ensolaradas e cheias de gente feliz no tinham sido mais do 
que outro sonho, ela voltava a mergulhar nos livros de Gabrielle, ansiosa por encontrar o caminho de sua libertao. 



 Deve haver um meio!  dizia para si mesma  E, quando eu o encontrar... A sim, poderei dizer que sou verdadeiramente feliz! 



******* Um fim de tarde, quando Jeanne estava mais deprimida com a solido  nos ltimos trs dias no aparecera ningum na floresta e muito menos no bangal  revirando 
um velho ba que estava no quarto de Gabrielle, ela encontrou um livro que ainda no tinha visto. 



Era uma edio muito antiga, j meio carcomida pelo tempo e pelos carunchos, que tratava sobre um assunto que Gabrielle abominava: Magia Negra. 



Muito provavelmente foi a curiosidade que desperta aquilo que  proibido, que fez Jeanne lev- lo para a sala e comear a folhe- lo. 



Era preciso muito cuidado no manuseio pois as pginas, midas, emboloradas e praticamente apodrecidas, desfaziam- se ao mais suave toque. Assim, bem devagar para 
no destruir o livro, ela o folheou, detendo- se em alguns trechos mais interessantes e saltando outros sem nem ao menos passar- lhes os olhos em cima. 



No pode deixar de sorrir ao perceber que s se detinha em pargrafos de fato importantes e que os outros eram simplesmente 



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postos de lado, como se ela possusse um filtro mental formidvel, um filtro prcognitivo que lhe permitisse escolher o que interessava e o que poderia ser desprezado, 
antes mesmo de comear a ler. 



Quando, no dia seguinte, voltou a apanhar esse velho livro para rev- lo, percebeu que quando lia determinados pedaos do mesmo, escutava troves  distncia. Nas 
primeiras vezes, achou que era uma simples coincidncia. Afinal, no fazia qualquer sentido a ocorrncia de trovoadas s por que ela estava lendo um trabalho sobre 
Magia Negra. 



Chegou a sair de casa para olhar o cu e, surpresa, constatou que no havia uma s nuvem... 



Porm, o ribombar se repetiu vrias outras vezes e Jeanne notou que o fenmeno acontecia cada vez que ela lia as palavras Demnio, Sat, Prncipe das Trevas e Inferno. 



 No...  murmurou ela  Isso no pode ser coincidncia... Por incrvel que possa parecer, deve haver uma correlao com essas palavras... 



Para experimentar, disse, em voz alta:  Sat! Imediatamente, um trovo fortssimo ecoou e logo em seguida o mesmo vento quente e ftido que assolara a clareira 
na noite fatdica da morte de Gabrielle, varreu a o bangal. 



Jeanne empalideceu. Trmula, ela fechou depressa o livro e foi escond- lo debaixo do colcho, no quarto de Gabrielle. 



 Bom Deus!  exclamou, apavorada. E, mais uma vez, o trovo ribombou e o vento cheirando a enxofre levantou poeira e folhas secas no jardim. 



******* Naquela noite, Jeanne voltou a sonhar. Estava, desta vez numa grande cidade, dentro de uma loja muito requintada, fazendo compras. Tinha nas mos um grosso 
mao de dinheiro e, ao contar as cdulas viu que o dinheiro era muito diferente, no era dinheiro francs. Ao seu lado, havia um homem. Ela sabia que esse homem 
era seu marido mas, j pelo porte, podia dizer que no se tratava de Jacob. Este era mais baixo, mais troncudo e no tinha as maneiras refinadas do cavalheiro que 
a acompanhava naquela loja. 



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Fez um esforo sobre- humano para tentar ver o seu rosto mas, foi em vo... 



De repente, aparecia Gabrielle e a puxava, afastando- a do marido e, com um gesto raivoso, a velha apanhava todo o seu dinheiro e o atirava numa lareira que, misteriosamente, 
surgia numa das paredes da loja. O gordo mao de cdulas ardia e, ao mesmo tempo em que ele pegava fogo, Jeanne ouvia um grito aterrador e sentia um horrvel cheiro 
de enxofre... 



******* Esses sonhos comearam a incomodar seriamente Jeanne. Era mais do que evidente que ela gostaria de poder viv- los na realidade mas, ela sabia muito bem 
que isso seria completamente impossvel. Em primeiro lugar, ela estava na 



Frana, um pas em guerra e, o que era pior, um pas ocupado. Em segundo, suas possibilidades financeiras eram nulas, ainda mais metida ali, naquela floresta, naquele 
bangal. No havia como fazer dinheiro, no tinha de onde tir- lo visto que no conseguiria qualquer ocupao em Randan onde os habitantes tambm estavam reduzidos 
a um terrvel estado de penria. 



O nico lugar onde poderia tentar alguma coisa, seria em ClermontFerrand mas mesmo ali, os franceses estavam sem dinheiro, no poderiam pagar, por exemplo, uma empregada. 
E, como se no bastasse, ela estava grvida... Ningum quer uma mulher grvida para trabalhar. 



Jeanne passava o dia inteiro dando voltas  cabea na tentativa de encontrar uma soluo. E, quando chegava a noite, ela estava desesperada, angustiada, sem ter 
conseguido nem ao menos vislumbrar uma resposta para seu problema. 



Que, basicamente, estava reduzido  total impossibilidade de se mexer para onde quer que fosse. 



Para cmulo, ao adormecer, voltava a sonhar... Nesses momentos, ela se sentia feliz e realizada, sempre cheia de dinheiro, sempre desejada por todos os homens e, 
o que era melhor do que qualquer outra coisa, sempre com uma imensa facilidade de se locomover, uma deliciosa liberdade para fazer o que bem quisesse. 



De manh, ao despertar, a desiluso. Continuava no bangal, continuava rodeada de rvores e de solido... 



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Passou a odiar aquele local. No cuidava mais da casa, no tinha mais o menor interesse pelo jardim, pelos canteiros de cravnias, de rosas, de margaridas e de gladolos 
que tinham sido o orgulho de Gabrielle e que davam ao bangal uma aparncia de casa de bonecas. O mato cresceu tomando conta do gramado e as ervas daninhas dominaram 
as flores, cobrindo os canteiros e misturando- se num autntico caos. 



Bertrand e Louis, percebendo a pouca hospitalidade de Jeanne, espaaram mais suas visitas, limitando- se a ir at l de vez em quando, por uma questo de caridade, 
para levar- lhe alguns mantimentos e para saber se, por causa da gravidez j bem avanada, Jeanne no estaria precisando de alguma coisa. 



Numa de suas ltimas idas ao bangal, Bertrand chegou a comentar a respeito do estado do jardim. 



 No posso mais me abaixar  desculpou- se Jeanne. Bertrand, solcito, ofereceu- se para limpar tudo aquilo mas Jeanne, com um gesto de enfado, falou: 



 No vale a pena... De qualquer maneira, no pretendo ficar aqui por muito tempo mais. Vou apenas esperar meu filho nascer. Depois... 



Bertrand deu de ombros. Na verdade, para ele era excelente que Jeanne tivesse recusado seu oferecimento. Bertrand no conseguia explicar por que, mas ele no se 
sentia bem ao lado daquela moa que, embora com aparncia to meiga, irradiava alguma coisa que o deixava arrepiado. 



Com Louis acontecia a mesma coisa. O motorista no conseguia ficar perto de Jeanne mais do que cinco minutos e, uma manh, quando l chegara para levar- lhe um pouco 
de carne de coelho, notou que no havia um s passarinho nas rvores ao redor do bangal. 



 Estranho  pensou  Quando Gabrielle era viva, este jardim estava sempre cheio de passarinhos e eles at mesmo entravam dentro da casa! 



Esse fato no passou despercebido por Jeanne. Ela gostava dos passarinhos, ficava s vezes horas a fio olhando para eles, vendo- os fazer seus ninhos e caar insetos 
no gramado. Por isso, quando comeou a notar a ausncia das aves, ficou triste, imaginando logo que at mesmo os animais e as plantas estavam querendo deix- la 
sozinha. 



 Tenho apenas meu filho  disse ela, com as lgrimas a lavarlhe o rosto  E ele ainda nem nasceu... 



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Se o jardim estava abandonado, o interior do bangal no estava diferente. 



Jeanne, desanimada, no mais se incomodava nem mesmo com a limpeza da casa e, dessa maneira, a poeira e a fuligem acumulavam- se sobre os mveis, no cho e nas cortinas 
deixando tudo com um aspecto feio, com uma cor acinzentada e triste. Teias de aranha multiplicavamse pelos cantos e formavam desenhos os mais variados, mostrando 
o desleixo da moa. Batalhes de formigas iam e vinham pelo cho da cozinha, subiam pelas paredes e caminhavam por sobre os mveis em busca de restos de comida, 
refestelando- se na sujeira que ali reinava. 



At consigo mesma, Jeanne relaxara. No se preocupava mais em pentear os cabelos que, sujos, empoeirados, armavam- se como um imenso capacete cor de fogo sobre sua 
cabea. No lavava mais suas roupas, usando- as dias e dias seguidos, chegando a dormir com elas unicamente por preguia  ou falta de estmulo  de tir- las na 
hora de ir para a cama. 



Transformara- se numa mulher em decadncia. Moa demais para isso mas... Era o que estava acontecendo. Jeanne, sozinha, morria aos poucos enquanto formava uma nova 
vida em seu ventre. 



******* Todo o aspecto de desmazelo exterior refletia bem o que ia pela alma de Jeanne. 



Ela no se preocupava com mais nada, no tinha interesse em coisa nenhuma e, desde que aquele estranho trovo e aquele assustador vendaval mal cheiroso surgiram 
enquanto ela lia o velho livro de Magia Negra de Gabrielle, Jeanne no mais tivera coragem de tir- lo do lugar onde o escondera. 



Ficara suficientemente assustada com o que presenciara na clareira da floresta e, depois, com o que acontecera no bangal no instante em que pronunciara o nome do 
Prncipe das Trevas. 



At que, uma tarde, ao olhar para a mesa que Gabrielle costumava usar para atender aqueles que lhe pediam encantamentos e feitios, ela viu o livro ao lado da bola 
de cristal. 



Arrepiou- se inteira. 



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Aquilo no podia ser verdade, tinha de ser uma iluso de tica! Afinal, Jeanne ainda se lembrava muito bem de ter guardado a bola de cristal em seu estojo  uma 
caixa de madeira perfumada e trabalhada  mo por um arteso hindu  e sabia que no tirara o livro de seu esconderijo. 



Ressabiada, aproximou- se da mesa e viu que ele estava aberto justamente na pgina que dizia da conjurao do Demnio... 



Como se tivesse medo que seus olhos se escravizassem ao texto e que, lendo- o, ela pudesse acidentalmente conjurar o Prncipe das Trevas, desviou rapidamente o olhar 
para a bola de cristal. 



Perplexa, viu refletida em sua superfcie, uma cena que aparecia em quase todos os seus sonhos... 



Era ela, Jeanne, que ali estava. Muito bonita, muito bem vestida... Fazendo compras, gastando dinheiro, impressionando os homens que estavam ao seu redor... 



Sim... Era ela... E, de repente, Jeanne sentiu uma tontura. Sentou- se depressa para no cair no cho e, voltando a olhar para a bola de cristal, notou que esta 
crescia, aumentava de tamanho at tomar conta de toda a sala. 



Por sua cabea, imediatamente passou a idia de que alguma coisa estava errada pois se a bola ficara do tamanho da sala, no deveria haver mais espao para ela! 



Foi nesse momento que ela percebeu... Estava dentro da bola! De alguma maneira fantstica, ela tinha entrado l dentro e... Tomara o lugar de sua imagem. Jeanne 
olhou para suas roupas, olhou para o mao de notas que tinha na mo. 



Era aquele mesmo dinheiro diferente que j vira tantas e tantas vezes em seus sonhos. Era a mesma loja, uma loja grande e luxuosa, numa cidade quente e cheia de 
luz... 



Ao seu lado, aquele mesmo homem... E a mesma impossibilidade de ver seu rosto! Escutou uma risada... Uma risada horrvel, arrepiante, assustadora. 



Tudo comeou a girar ao seu redor, as prateleiras e mercadorias da loja misturando- se com a decorao da sala do bangal. 



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Jeanne, rodando junto com tudo o mais, passou por perto de um balco de bijuterias. Viu um anel e, involuntariamente, o apanhou. 



Tudo rodou mais depressa, as imagens perdendo paulatinamente a nitidez e Jeanne, de sbito, viu- se outra vez na sala da casa de Gabrielle, sentada numa poltrona. 



Atnita, notou que estava segurando na mo o anel que apanhara na loja. 



Olhou para o objeto, meteu- o no dedo surpresa ao ver que ele servia perfeitamente, parecia ter sido feito sob medida para ela. 



Escutou, ento um rudo, algo como se um pssaro muito grande estivesse batendo suas asas. 



Olhou pela janela, viu que j anoitecera, estava escuro l fora. Ela no acendera as lamparinas da sala e, no entanto, havia luz, uma luz avermelhada que Jeanne 
logo descobriu vir da lareira onde as labaredas parecia ter surgido do nada... 



Labaredas que estavam transformando em cinzas um grosso mao de dinheiro... 



******* Jeanne passou aquela noite em claro, com medo de dormir. Se aquilo tinha acontecido com ela acordada, no seria difcil que, se adormecesse, viesse a ser 
arrastada para o interior da bola de cristal para nunca mais voltar. 



Olhava para o anel em seu dedo, tinha muita vontade de tir- lo, de jog- lo para longe mas, alguma coisa a impedia de faz- lo, parecia que algum estava lhe dizendo 
que no se desfizesse daquela bijuteria pois ela seria uma espcie de vinculao com foras de ordem muito superior. 



Pensou, tambm em jogar fora, em espatifar a bola de cristal mas... Jeanne no podia negar que gostara de estar naquela loja... Mesmo que em uma alucinao. Se quebrasse 
a bola, possivelmente estaria quebrando a porta de entrada para um mundo fantstico onde ela era a rainha... 



Ou, talvez, estivesse mesmo fechando em definitivo uma sada daquele mundo, daquele bangal que passara a odiar com tanta fora. 



Sua alma estava dividida. Ao mesmo tempo em que queria voltar a viver aquela experincia, tinha medo. 



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Medo do desconhecido. De repente, em meio a esses pensamentos, lembrou- se que, quando estivera l, naquele mundo que no saberia dizer se era imaginrio ou no, 
ela no estava grvida. 



E, ento, veio- lhe a certeza de que aquilo ainda aconteceria... Depois que seu filho viesse ao mundo. 



 Mas ele no estava comigo!  exclamou  Ele no estava l, comigo! Nem sequer pensei em sua existncia! 



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CAPTULO VIII 



A noite insone, o nervosismo, a angstia de no se ter visto grvida em seu estranho sonho, o fato de nem sequer ter pensado no filho naquele instante e o desejo 
quase irracional de poder voltar quela loja, de poder reprisar os acontecimentos no interior da bola de cristal, misturavam- se na mente de Jeanne e faziam com 
que ela ficasse ainda mais nervosa e cheia de ansiedade. 



Seriam nove horas da manh quando ela decidiu voltar a ler o livro  o tal livro que surgira misteriosamente sobre a mesa, sem que ela o tivesse apanhado  deixando 
bem  sua frente a bola de cristal. 



Se tivesse sorte, tudo aconteceria novamente s que, desta feita, estaria preparada e daria um jeito de aproveitar e de sentir prazer com a viagem e no medo como 
na vspera. 



Respirou fundo, criou coragem e comeou a folhear o livro. Exatamente como acontecera antes, ela percebeu que era capaz de selecionar o que a pudesse interessar 
mesmo muito antes de comear a ler. Ela ia diretamente aos pargrafos importantes como se j conhecesse aquela obra a fundo, como se j tivesse lido e relido o livro 
mais de mil vezes. 



Ouviu as trovoadas, chegou, uma vez ou outra a sentir o vento e o mau cheiro que ele trazia mas, esforando- se para no se deixar impressionar, ela continuou a 
ler. 



Mais ou menos na metade do livro, encontrou o que estava procurando. 



Com toda a ateno, leu que era possvel, com a ajuda do Prncipe das Trevas, praticar o transporte da alma para outros corpos e at mesmo para outros lugares. Era, 
porm, necessrio que o Demnio assim o quisesse e, para for- lo a auxiliar a pessoa interessada nesse fenmeno, era preciso conjurar as foras do mal. 



E isso, Jeanne no sabia e nem sequer estava muito disposta a fazer... O medo ainda era maior do que o desejo. Havia ali um pargrafo que a ensinava como fazer para 
chamar Sat em sua ajuda e os olhos da moa pareciam terrivelmente atrados para aquele texto. Mas, Jeanne lutou consigo mesma, afastou o olhar do 



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livro e, involuntariamente, voltou- se para a bola de cristal. A princpio, pensou que ela estivesse empoeirada mas, prestando um pouco mais de ateno, viu que 
no, a bola no estava suja mas sim embaada. 



Instintivamente, com a ponta do xale que trazia sobre os ombros, Jeanne tentou limp- la e, ao contrrio do que esperava, a bola ficou ainda mais opaca, mostrando 
apenas um discreto brilho na parte do meio. 



Fixou o olhar naquele ponto e viu, maravilhada, que seu rosto se formava como que refletido em um espelho. 



S que seus cabelos estavam penteados, seus olhos estavam bem maquiados e seus lbios, muito finos por natureza, estavam pintados de uma maneira a aument- los, 
a torn- los mais sensuais. 



Jeanne parecia muito feliz ali dentro...  Quero ir para l!  exclamou, em voz alta  Quero sentir de perto essa felicidade! 



Seria a repetio do que acontecera na vspera, algo que ocorrera naturalmente, sem que Jeanne tivesse desejado, sem que ela tivesse pedido que sucedesse. 



Mas, naquele momento, ela apenas podia ver o seu rosto sorridente, sua expresso de felicidade e realizao. 



No conseguia voltar para o interior da bola, no conseguia se transportar para aquele mundo maravilhoso que parecia existir ali dentro. 



Aos poucos, a bola foi ficando mais embaada e a imagem em seu interior foi se desvanecendo em uma espcie de fumaa acinzentada e, em seu lugar, foi se formando 
uma outra figura. 



Desta vez, era um homem... Um homem que trazia sobre a cabea uma espcie de capuz a lhe esconder metade do rosto, permitindo a Jeanne que visse somente uma parte 
de seu nariz e a boca. 



Era uma boca de lbios finos, to bem feitos que pareciam ter sido desenhados por um pintor muito habilidoso que conseguira pr em seu desenho um tal realismo que 
fazia saltar aos olhos toda a sensualidade daquele ser, em apenas um pedao de rosto. 



O homem sorriu... Ao lado de sua cabea encapuzada, surgiu- lhe a mo direita fazendo para Jeanne um aceno que mais parecia um convite. 



 Mas  o que eu quero!  exclamou a moa, em desespero  Eu quero ir para l! Deixe- me entrar nessa bola! 



Porm, mais uma vez uma espcie de neblina se formou no interior 



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da bola e a figura desapareceu ao mesmo tempo em que Jeanne ouvia o barulho das rvores aoitadas pelo vento. 



Ela permaneceu ali, olhando para a bola e tentando ler mais alguma coisa no livro, por quase duas horas. 



Mas, nada mais aconteceu. A bola, limpssima, permanecia um autntico objeto inanimado e, quanto  leitura, Jeanne perdera a capacidade de selecionar precognitivamente, 
os trechos importantes. 



******* Durante todo o resto do dia, Jeanne no se sentiu bem. Tinha a impresso de estar sempre acompanhada, de haver algum ao seu lado como que vigiando seus 
passos e suas atitudes. 



Ao mesmo tempo, ansiava para que chegasse a noite para novamente poder sonhar, j que era nesses sonhos que ela tinha ao menos um espectro de felicidade. 



Estava com a razo. Mal encostou a cabea no travesseiro, adormeceu e... Sonhou. No entanto, ela no sonhou com a loja sofisticada que vira anteriormente e tampouco 
com o homem misterioso que parecia ser o seu marido e que ela no conseguia ver o rosto. 



Sonhou, isso sim, com um outro indivduo. Um homem de cabelos muito negros, de pele queimada e que sorria para ela. 



Era um sorriso atraente embora Jeanne pudesse detectar a existncia de muita maldade nele... Um sorriso que encantava e que ao mesmo tempo amedrontava. 



O homem a segurava pela mo e s o contato de seus dedos, fazia com que a moa sentisse uma estranha e deliciosa excitao, um desejo quase incontrolvel de fazer 
com que aquele contato se prolongasse e se ampliasse, tomando conta de todo o seu corpo, fazendo com que ela se sentisse transportada para o mundo onrico do xtase 
absoluto. 



Mas, isso no acontecia... O estranho homem limitava- se a segurar sua mo e a sorrir fugindo com o corpo quando Jeanne tentava abra- lo, em busca de uma aproximao 
maior. 



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Ela estava nua e mais uma vez, no estava grvida... Seu corpo pareceu- lhe mais perfeito e sedutor do que nunca e o homem, quando olhava para ela, no escondia 
o desejo que sentia. 



Mas... Ele continuava a fugir, ele no permitia que ela se aproximasse mais, no deixava que satisfizesse o ardente desejo que a acometia. 



Despertou com o corpo banhado de suor, sentindo dores no ventre, dores que ela no sabia dizer se eram contraes da gravidez ou se eram espasmos de um orgasmo frustrado. 



Completamente acordada, sentou- se na cama j com medo de que aquelas dores fossem um sinal do parto que, se acontecesse, estaria muito antecipado. 



Foi nesse momento que escutou uma voz masculina a lhe dizer:  Voc pode conseguir, Jeanne... E eu quero que consiga! Basta seguir  risca as recomendaes do livro... 



A voz silenciou e Jeanne, entre surpresa e assustada, permaneceu imvel, os olhos fixos na escurido do quarto, sem coragem de acender uma vela sequer pois temia 
que a claridade 



impedisse que aquele homem voltasse... Foi s depois de quase uma hora, que ela levantou, apanhou uma lamparina e foi para a sala, em busca do livro e da bola de 
cristal. 



******* O livro estava sobre a mesa da sala, exatamente onde ela o deixara, s que estava aberto numa outra pgina. 



J a bola de cristal, que ela no tirara de seu lugar, simplesmente desaparecera e, por mais que Jeanne a procurasse, no conseguiu encontr- la. 



Depois de revirar a sala, o quarto de Gabrielle, seu prprio quarto e at mesmo a cozinha, Jeanne desistiu e, sentando- se diante do livro, comeou a ler o que estava 
escrito ali, na pgina em que misteriosamente ele fora aberto. 



 medida que avanava na leitura, Jeanne ia, mesmo sem querer, se convencendo de que, se fizesse tudo aquilo, conseguiria ser transportada para o lugar com que vinha 
sonhando. 



As palavras estavam escritas de uma forma to clara, de uma maneira to convincente que Jeanne no podia deixar de lhes dar crdito e de achar que tudo daria certo. 



Havia um trecho em que o autor do livro dizia alguma coisa a respeito de um sacrifcio. Explicava que o sacrifcio tinha por finalidade 



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agradar o Demnio, dar- lhe prazer e, dessa maneira, propiciar a sua boa- vontade em interferir no Destino de quem o estava conjurando. 



Contudo, ele no dizia que espcie de sacrifcio seria necessrio e s no final do captulo  que ele deixava entender que seria o prprio Sat quem determinaria 
o que estava desejando que lhe fosse ofertado. 



 Isso quer dizer  murmurou Jeanne  que eu posso conjurlo e lhe perguntar, pessoalmente, o que deseja para me ajudar! 



Com uma ponta de desespero, ainda excessivamente presa a idias materialistas, lembrou- se que no possua nada de seu e que, assim, se o Prncipe das Trevas lhe 
pedisse algo de valor, jamais teria como satisfaz- lo. 



Bocejou e percebeu, quase com surpresa, que estava com sono e que estava muito mais tranquila do que antes, embora tivesse surgido em sua mente aquele novo problema, 
decorrente da penria em que estava vivendo. 



Alis, em que sempre vivera, com exceo dos poucos momentos em que tivera Jacob ao seu lado proporcionando- lhe praticamente toda a satisfao que desejava. 



Lembrou- se, por um breve instante, de Jacob. Sentia sua falta, sentia saudades de seus carinhos e de suas palavras doces quando voltava para casa e encontrava tudo 
bem limpo e arrumado. 



 Eu era diferente, naquela poca  disse Jeanne, levantandose e caminhando para o quarto  Mas eu tinha nimo. Tinha estmulo e um objetivo na vida. Queria conservar 
Jacob comigo pois sabia que ele era a representao viva de minha felicidade... 



Olhou para a sala em desordem e no meio da sujeira de muitas semanas... 



 Hoje... Jeanne ia dizendo que j no tinha mais nenhuma razo para se preocupar com a casa, consigo mesma ou com o que quer que fosse pois no tinha mais qualquer 
meta para alcanar mas... 



Interrompeu- se.  Mas eu estou errada!  exclamou, em voz alta  Estou completamente errada! 



Com animao e sentindo um sopro de esperana em sua alma, ela completou: 



 Eu tenho um objetivo, sim! Sair daqui! Ir para aquele lugar maravilhoso que tem aparecido em meus sonhos! 



Com determinao, acrescentou:  E eu hei de realizar esse sonho! Hei de conseguir atingir essa meta! Nem que, para isso, eu tenha de fazer um pacto com o Demnio! 



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CAPTULO IX 



O dia seguinte foi de grande atividade para Jeanne. Depois de concluir que tinha um objetivo na vida e que tinha no mnimo a obrigao de tentar alcan- lo, a moa 
se ps a trabalhar febrilmente, pesquisando o livro de Magia Negra do comeo ao fim, estudando a melhor maneira de conjurar Sat para uma conversa franca com ele. 



Para a proposio de um pacto com o Prncipe das Trevas. Lendo da melhor maneira que podia aquelas pginas umedecidas e quase podres, descobriu que necessitaria 
de vrios objetos e de um ambiente adequado para a cerimnia de conjurao. 



Precisaria, por exemplo, de uma faca pontuda ou de uma espada. Procurou pela casa inteira uma espada pois lembrava- se de ter visto Gabrielle com uma, poucos dias 
antes de sua morte e s depois que revirara tudo,  que conseguiu encontr- la, escondida sob o colcho da velha, bem perto de onde deixara o livro. 



Estranhou no t- la visto antes mas, depois de tudo o que estava acontecendo por ali e em sua vida, j muito pouca coisa chegava a impression- la. 



Alm da espada, ela precisaria de sete velas negras. Isso sim, seria um problema dos maiores pois Jeanne ouvira Gabrielle dizer muitas e muitas vezes que jamais 
usava velas dessa cor uma vez que a sua feitiaria era branca e que, no mximo, usava- as corde- rosa ou ento azuis. 



 Negras ou roxas, jamais  dissera Gabrielle  So as cores que Sat prefere e eu no quero absolutamente nada com o Demnio! 



Na falta desses objetos, Jeanne achou que o melhor a fazer seria improvisar. 



Com um pouco de carvo e bastante pacincia, ela fundiu velas brancas e transformou- as em negras. No estavam perfeitas e Jeanne, na verdade, duvidava muito que 
elas queimassem at o fim mas... 



No livro, no havia qualquer meno quanto  necessidade sequer de acend- las... Jeanne precisaria, tambm de duas braas de corda. 



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No havia nenhuma especificao quanto ao tipo de corda que deveria usar e assim, ela rasgou dois lenis e fabricou o que necessitava. 



Como se no bastassem as velas, a corda e a espada, no livro dizia que seria preciso uma camisa de homem manchada de sangue... 



 Isso, no h como conseguir!  concluiu Jeanne depois de dar voltas e mais voltas _ cabea tentando encontrar uma soluo para aquele problema  No h homem 
nenhum por aqui e muito menos com a camisa manchada de sangue... 



Comeou a se achar ridcula perdendo tempo com algo que jamais conseguiria e decidiu que faria a conjurao do Prncipe das Trevas com o que arrumara. 



 Se funcionar, melhor  falou para si mesma  E se no der certo,  por que tudo isso no passa de uma grande bobagem, de uma imensa mentira! 



Voltou a ler o livro, analisou com todo o cuidado o captulo que a interessava e viu que ali nada dizia a respeito de ser obrigatrio ter em mos todos os itens 
solicitados. Segundo o que o autor contava, seria o prprio Prncipe das Trevas a julgar se o que a pessoa levava era bastante ou no. 



Para preocupao de Jeanne, ali estava bem claro que Sat poderia simplesmente recusar tudo ou, ento, pedir outras coisas e ainda mais complicadas. 



Em compensao, o autor afirmava que no havia qualquer limite para o poder de Sat e este, se quisesse, poderia transformar radicalmente a vida de uma pessoa com 
apenas um gesto ou um estalar de dedos. 



E era isso o que Jeanne estava buscando. Uma transformao total em sua vida, o transporte para um mundo onde ela pudesse ter horizontes, onde pudesse sentir verdadeiramente 
prazer em estar viva e que fosse completamente diferente do que vira at ento... 



Mas, de tudo aquilo que lera, o que mais a assustava era ter de ir  clareira, no meio da floresta,  noite. 



A mesma clareira onde Gabrielle encontrara a morte...  Como vou fazer para chegar l?  perguntou- se  E como vou fazer para dominar o medo?! 



******* Quando a hora chegou, hora esta que estava no livro como sendo nove horas da noite, Jeanne arrumou os objetos que havia conseguido 



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e, com eles numa espcie de trouxa, rumou para a floresta. Entrou no mato utilizando o mesmo caminho de Gabrielle naquela noite fatdica e, logo depois dos primeiros 
passos, ainda trpegos no meio da escurido, levou o primeiro susto. 



Uma luz surgiu  sua frente, uma luz cor de fogo e que brilhava intensamente e que se deslocava, clere, para o centro da floresta. 



Alguma coisa disse para Jeanne que no deveria ter medo e que precisaria acompanhar aquela luz se, por acaso, estivesse interessada em levar avante o seu propsito. 



Jeanne no titubeou. Apressada, temendo a todo instante tropear e cair, muito embora soubesse que isso no iria acontecer, Jeanne continuou a caminhar, sempre seguindo 
a estranha luz. 



Cerca de meia hora depois, chegou  clareira e, estupefacta, viu que ali, exatamente no lugar onde a fogueira para o coven tinha sido acesa, havia uma espcie de 
altar. 



No foi preciso que lhe dissessem que deveria arrumar sobre esse altar os objetos que trouxera e, lembrando- se do que lera, apanhou a espada e traou com ela um 
crculo no cho, repetindo as palavras que aprendera com a leitura: 



Em nome de Sat, o Prncipe das Trevas, em nome de seu reino, em nome de sua fora superior a qualquer outra e em nome de todos aqueles que j pertencem ao Demnio, 
conjuro todas as foras do Universo e toda a energia csmica para que, junto comigo, faam vir, das profundezas do Inferno, o seu Rei e Senhor! 



Jeanne mal acabara de pronunciar as ltimas slabas, e o cho tremeu. Tremeu com um rudo surdo, com um barulho que parecia ser uma trovoada, s que ela no vinha 
do alto mas sim do cho, das entranhas da Terra... 



Mais uma vez, o vento quente e ftido soprou e a moa, apavorada, por pouco no ajoelhou, tremendo de medo. 



Porm, ela se dominou e prosseguiu com o ritual. Abaixando- se, apanhou um punhado de terra, jogou- o para cima e gritou: 



 Foras do Universo! Levai a Sat meu pedido! Fazei com que ele me atenda e trazei- o  minha presena! 



Nesse momento, as velas negras que Jeanne trouxera e arrumara sobre a mesa, sem que ningum tocasse nelas, acenderam- se. 



97 



 



A moa arregalou os olhos e, por um breve instante, pensou em fugir dali, em correr para longe daquele lugar e daquelas coisas que estava fazendo. 



Mas, Jeanne estava paralisada. Percebeu que, mesmo que quisesse, no se moveria dali pois suas pernas no a obedeceriam. 



O cho estremeceu mais uma vez e a corda, criando vida, comeou a se erguer da mesa como se fosse uma cobra encantada por um hindu... 



Uma exploso abafada se fez ouvir, um claro iluminou a mesa e Jeanne viu que um homem se materializava diante de seus olhos. Era o homem que lhe aparecera na bola 
de cristal e tinha os mesmos lbios finos e maldosos, o mesmo sorriso irnico e carregado de malcia. 



Desta vez, porm, Jeanne podia ver seus cabelos, muito negros e a cor de sua pele, de um moreno queimado. Pode ver seus olhos, muito vivos, escuros, rasgados e brilhantes, 
olhos que pareciam enxergar muito alm, que pareciam atravessar a sua alma e penetrar no mais oculto de seus pensamentos. 



Sentiu medo, muito medo... Achou que desmaiaria, seus joelhos balanavam e batiam um contra o outro como se fossem castanholas mas, mesmo assim, mesmo nesse estado 
de pavor, ela sentia que no deveria se afastar dali, percebia que se quisesse realmente mudar a sua vida, aquela era a nica e, possivelmente, a ltima oportunidade. 
E Jeanne no a perderia por nada neste mundo. 



******* Jeanne lutou contra o medo e venceu. Aos poucos, a tremedeira foi passando e ela comeou a perceber que readquiria a auto- confiana e que poderia enfrentar 
o que estava para vir. 



 Voc me chamou  disse o homem  E isso me faz muito contente! J faz algum tempo que desejo falar consigo. 



Antes que Jeanne pudesse abrir a boca, ele continuou:  Voc no est vestida adequadamente... Era um comentrio comum, o tipo de comentrio que um marido faz para 
a esposa quando ela se apronta para uma festa e veste algo de que ele no goste. A trivialidade das palavras de Sat deram mais coragem a Jeanne que, prontamente, 
replicou: 



98 



 



 No vi nada a respeito de roupas adequadas ou inadequadas para um encontro com voc. E, de mais a mais, como  que queria que eu me vestisse, com a barriga deste 
tamanho?! 



Sat ampliou o sorriso e disse:  Est certo... Mas no ser por muito tempo. Voc logo estar livre desse transtorno. 



Estendeu a mo para a frente e tocou o rosto de Jeanne. Ela sentiu o calor de sua pele, sentiu uma estranha e quase incontrolvel excitao. 



Teve medo de que lhe ocorresse o mesmo que no sonho, quando no conseguia se dominar e tentava a todo custo abraar Sat, tentava ser possuda por ele. 



Mas Sat retirou a mo e falou:  Voc conseguir o que est querendo. Eu a ajudarei. Olhou para a mesa, viu as velas, a corda que continuava em p como uma naja 
enfeitiada e acrescentou: 



 Est faltando a camisa...  No tinha como arrumar  tentou se desculpar Jeanne.  Compreendo...  murmurou Sat  No tem importncia... Quando chegar o momento 
certo, voc vai arranjar o que est faltando. 



Voltou a sorrir, um sorriso to cativante que Jeanne percebeu que, s por causa disso, ela o acompanharia onde quer que fosse. 



 Voc sabe que eu vou cobrar pelo que lhe fizer, no sabe?  indagou Sat. Sim  respondeu Jeanne com firmeza  Li naquele livro... E li tambm que voc no cobra 
nada barato... 



 Em compensao, o que eu posso lhe oferecer...  disse ele.  Tambm sei  retrucou a moa  E estou disposta a pagar... O que quer que seja. 



 Tem certeza?  perguntou o Prncipe das Trevas  Tem certeza que est disposta a me pagar o que eu quiser? E sabe que eu nem mesmo vou avisar o que estou cobrando? 



Jeanne refletiu por um instante e respondeu:  Quero saber o que vai me custar... Sat riu, sem fazer qualquer comentrio. Jeanne continuou em silncio e o Prncipe 
das Trevas, depois de alguns segundos, falou: 



  preciso que voc saiba que no h a menor possibilidade 



99 



 



de volta.  medida que for conseguindo o que deseja, dever ir pagando o que eu lhe pedir e, se quiser desistir, poder faz- lo mas... Dever arcar com as conseqncias 
de sua desistncia. 



Jeanne balanou a cabea afirmativamente e murmurou:  Est certo... Estou disposta a qualquer coisa para mudar de vida, para ir para aquele lugar que voc me mostrou 
em sonhos. Para que eu venha a ser muito rica e poderosa... 



Sat voltou a sorrir.  Muito bem  disse ele  Dentro de dois dias voc vai me trazer a camisa manchada de sangue... Camisa de homem e manchada com o sangue do 
prprio homem. A partir da, as coisas comearo a acontecer. 



Assim dizendo, ele fez um sinal com a mo esquerda, o indicador e o mnimo esticados e os demais dedos dobrados. 



Jeanne reconheceu nesse sinal a Marca do Demnio e no pode deixar de sentir um calafrio de pavor. 



Sat murmurou algumas palavras que a moa no conseguiu compreender e a corda, como se fosse uma autntica serpente, enrolouse na cintura de Jeanne, queimando- a 
como se fosse de fogo. 



Ela gritou e, logo em seguida, uma trovoada se ouviu, uma gargalhada ecoou e Jeanne viu Sat ser envolto por grandes labaredas muito vivas que, ao contrrio de consumi- 
lo, pareciam acariciar seu corpo e faz- lo fechar os olhos de prazer. 



Em seguida, ele desapareceu bem como os objetos que estavam sobre a mesa, inclusive a corda que se enrolara em torno do corpo da moa. 



Jeanne estranhou o fato de haver luminosidade ali no meio da floresta e s depois de alguns momentos  que percebeu que o dia j chegara, a noite terminara embora, 
pelo tempo que ela imaginava ter transcorrido, ainda deveria estar escuro. 



Sentiu, em sua mo esquerda alguma coisa diferente e, olhandoa, viu que estava usando uma aliana, ao invs do anel de bijuteria que, misteriosamente, trouxera de 
sua aventura na bola de cristal. 



No era uma aliana de ouro ou de brilhantes, era, isso sim, um simples e grosseiro anel de ferro, largo de cerca de meio centmetro, que estava no seu dedo anular. 



Jeanne achou- o anti- esttico e, por ela, o teria tirado no mesmo instante. Porm, intuitivamente sabia que isso no poderia fazer. 



Teria de us- lo, era o smbolo do pacto que fizera com Sat... 



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Lentamente, ela se deixou escorregar at o cho, sentindo uma terrvel canseira, uma vontade imensa de adormecer ali mesmo e deixar o tempo passar... Quem sabe, 
quando acordasse, j estaria naquele paraso, naquela terra maravilhosa que o Prncipe das Trevas fizera questo de lhe mostrar. 



Para atra- la... Sim... Tinha sido isso mesmo... Sat dera- lhe aqueles sonhos para que ficasse tentada, para que se visse desejosa de uma vida diferente! 



Sorriu consigo mesma... Talvez estivesse errada ao fazer um pacto com o Demnio... Tudo o que lera a respeito de pessoas que assim fizeram, mostrava que sempre elas 
acabavam tragicamente, que as coisas iam para trs e que o arrependimento era terrvel. 



Mas, com ela seria diferente. Ela seria mais esperta e saberia como controlar a ao de Sat... 



Tinha certeza disso e, como garantia, ela tinha aquele livro... Um livro que a ensinaria a lidar com as foras do mal, que lhe diria como fazer para dominar e usar 
Sat. 



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CAPTULO X 



Parecia que Jeanne renascera. Quando despertou, no meio da clareira, com o sol a lhe bater no rosto, descobriu que sua vida j estava mudando. 



Estava bem disposta, cheia de vontade de fazer alguma coisa, achando que encher o tempo era o mais importante at que Sat cumprisse a sua parte no pacto. 



Durante algumas horas, depois de voltar ao bangal, ela ainda tentou adivinhar, de que maneira ele a levaria para fora da Frana, no meio de uma guerra, com todos 
os portos bloqueados e sem a menor possibilidade de acesso a qualquer outro pas da Europa. 



Por mais que se esforasse, ela no conseguiu sequer fazer uma vaga idia do que Sat pretendia fazer. 



Tinha, apenas, uma certeza: o poder do Prncipe das Trevas era imenso e certamente ele conseguiria realizar mais aquele feito. 



Havia, contudo, um problema... Jeanne no imaginava de que maneira poderia fazer para levar, em dois dias, ou seja, no dia seguinte, uma vez que o pacto tinha sido 
efetuado na vspera, uma camisa de homem, manchada de sangue, para Sat. 



Se fosse algum tempo atrs, ela certamente suporia tratar- se da camisa de Bertrand ou de Louis mas... J estava fazendo vrias semanas que nenhum dos dois aparecia 
no bangal... 



A menos que Sat levasse qualquer um dos dois at ali... Contudo, ainda estaria faltando o sangue!  Ser possvel que ele quer que eu mate Bertrand ou Louis?!  
fez ela, incrdula e apavorada. 



Passou o resto do dia lendo o velho livro, copiando cuidadosamente as partes que a ajudavam a conhecer melhor o Demnio e, muito satisfeita, descobriu que Sat, 
com todos os seus poderes, no tem a capacidade de ler os pensamentos. Ele pode fazer at com que outras pessoas, sob seu domnio, venham a desenvolver esse dom... 
Mas ele, por si s, jamais consegue ler o que vai pelo interior da mente de algum... 



Mesmo que esse algum seja seu sdito. 



102 



 



 Preciso me habituar a no expressar em voz alta o que me vai pela mente  pensou Jeanne  E isso no ser nada fcil pois aps ficar tanto tempo sozinha, acabei 
acostumando a pensar alto! 



Mas Jeanne sabia que no pensar alto seria o mais simples. Se tudo o que estivesse naquele livro fosse verdade, lidar com Sat era muito mais complicado e delicado 
do que qualquer outra coisa... 



Principalmente quando se partia do princpio que o objetivo no era outro seno engan- lo. 



 Mas vou conseguir!  pensou a moa  No serei como todas as suas vtimas! Pagarei esta primeira parte do pacto e, depois... Sat pode fazer o que quiser, mas 
eu hei de me livrar dele! No vou deixar que ele me domine completamente! 



Com redobrada vontade e interesse, voltou ao livro, voltou s suas pesquisas e,  medida que ia compreendendo melhor o que ali estava escrito, Jeanne ia sorrindo, 
mais confiante em si mesma, acreditando piamente na realizao de seus anseios. 



Havia algumas pginas muito estragadas, pginas que ela no conseguia ler. Mas ela no se preocupou com esse detalhe. 



 O mais importante est a salvo  pensou  E Sat no conseguir mais nada comigo! Quero que ele me tire daqui e, depois... Quero que v para o Inferno! 



Riu consigo mesma da frase que tinha feito e, guardando o livro e suas anotaes, foi cuidar da cozinha. 



Pela primeira vez em muitas semanas, ela estava com fome e, alm disso, com disposio para preparar comida. 



Arrumou as panelas de que ia precisar e, no instante em que comeava a cortar uma cebola, sentiu a primeira contrao. 



Segurou o ventre com ambas as mos e, j cheia de medo, sentiu que a barriga se contraa mais uma vez, de uma maneira ainda mais dolorosa do que a anterior. 



Sentiu que alguma coisa escorria por entre suas pernas e, lembrandose do que muitas e muitas vezes ouvira dizer, achou que estava comeando a perder gua, achou 
que, de fato, a hora do parto se aproximava. 



Cambaleante, sentindo muitas dores, foi para o quarto e deitouse sobre a cama. 



Pareceu- lhe ouvir uma risada mas, como no se repetisse, achou que tinha sido impresso. 



As dores continuaram, passaram a se repetir com uma frequncia 



103 



 



cada vez maior at que Jeanne, esgotada, exausta, adormeceu. Despertou j bem depois de meia- noite e, com dificuldade, acendeu uma vela. 



No pode deixar de sentir um arrepio de horror ao ver que acendera uma das velas negras, a oitava que preparara, por engano, por erro de contas... 



 luz mortia da vela, ela se olhou. Apavorada, notou que no era gua o que estava saindo de dentro de seu corpo, mas sim, sangue... 



Um sangue vermelho vivo, quente, abundante... Instintivamente, ela estendeu a mo para a mesinha de cabeceira, em busca de um pano qualquer para se enxugar. 



Foi s depois de t- lo usado quase como um tampo, que Jeanne notou que usara uma camisinha que fizera, em croch, para seu filho. 



Seu filho homem... Uma camisa de homem, manchada com o sangue desse mesmo homem... 



Sentiu uma contrao mais forte e a criana nasceu. No chorou, no se mexeu. Estava morta. Ela dera  luz um menino morto... 



******* O dia j ia alto quando Jeanne conseguiu reunir foras para abrir novamente os olhos. 



Viu que estava ainda em seu quarto mas no se encontrava mais sozinha. Louis e uma mulher ali estavam, olhando para ela com expresso de piedade e comiserao. 



 Ela despertou  murmurou Louis  Finalmente! A mulher, que Jeanne jamais tinha visto antes, curvou- se sobre ela e disse: 



 Pobrezinha... Deve ter sofrido muito...  Meu filho...  balbuciou Jeanne  Ele nasceu...  Sim  confirmou a mulher  Mas nasceu morto, querida... Respirou fundo 
e completou:  Deus no quis que ele viesse para este mundo em guerra, cheio de infelicidade e de desgraas... 



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Jeanne se esforou para reprimir as lgrimas, para manter a boca fechada... 



Ela, melhor do que ningum, sabia que essa no era a verdade. No tinha sido Deus... Tinha sido, isso sim, Sat.  A camisinha dele  pediu  Eu a sujei de sangue... 
Onde est...? A mulher franziu as sobrancelhas.  Camisinha?  indagou  No havia camisinha nenhuma... Voc tentou se enxugar com o lenol! Mais uma vez, Jeanne 
apertou os lbios para se impedir de dizer o que estava pensando. 



Havia uma camisinha, sim... Ela sabia disso muito bem... E sabia, j quando perguntara, que no seria encontrada. 



 Vamos lev- la para a cidade, Jeanne  disse Louis  Voc precisa de cuidados mdicos e aqui... Est muito isolada, muito sozinha! 



Esboou um sorriso e acrescentou:  Gabrielle deve estar por trs disso, Jeanne... Eu no deveria estar aqui, agora... Sa com minha cunhada para fazer algumas compras 
e foi no caminho que resolvi vir at sua casa para ver como estava. 



Jeanne fechou os olhos e a mulher resmungou:  Pare de falar, Louis!... No v que a pobrezinha est exausta? Tomando a iniciativa, comeou a arrumar algumas coisas 
dentro de uma maleta e disse: 



 Vamos! Ajude- a a se levantar! Temos que lev- la para o hospital o mais depressa possvel! 



******* A recuperao de Jeanne foi rpida. Menos de uma semana depois de ter chegado, ela j estava andando pelos corredores do hospital e ajudando as enfermeiras 
em seus afazeres. 



Foi graas a esse trabalho voluntrio, que ela conheceu um rapaz que tinha sido ferido por uma patrulha alem e que estava ali no hospital em tratamento antes de 
ser transferido para um campo de prisioneiros. Diziam que ele era da Resistncia e que os alemes faziam questo que melhorasse para que pudessem interrog- lo melhor. 



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Essa expectativa estava pondo o pobre rapaz como louco. Sabia muito bem que mtodos os boches usariam para arrancar- lhe a verdade e sabia que, mesmo que quisesse 
ser um heri, no resistiria e acabaria contando coisas que prejudicariam enormemente o trabalho da Resistncia. 



Guy Lafonte, esse era seu nome, queria morrer. Queria que algum se compadecesse de seu triste destino e o matasse de alguma maneira. 



Porm, alm de no encontrar quem o fizesse, ele tinha em seu poder, bem gravadas em sua memria, algumas informaes importantssimas a respeito de aeroportos que 
os alemes estavam montando na regio de Carentan e que precisariam ser transmitidas aos ingleses. 



Ali no hospital de Clermont- Ferrand, ele no teria a menor possibilidade de encontrar algum da Resistncia pois, com certeza, os maquis no iriam se arriscar apenas 
para fazer- lhe uma visita e, o que era pior, ningum sabia que ele conseguira essas informaes. 



Foi por acaso que Jeanne veio lhe trazer a bandeja de comida e, quando Guy a viu, compreendeu imediatamente que ela seria a pessoa certa para desempenhar o papel 
de pombo- correio. 



Sem nem mesmo dar tempo para a moa protestar, ele enfiou em sua mo um papel com as informaes e um mao de dinheiro, dizendo: 



Tome... V procurar por Maurice Auvier... Entregue- lhe isso e ele saber o que fazer! 



Como Jeanne permanecesse olhando para ele sem se mover, ele falou:  Faa- o pela Frana, mocinha... Pelos filhos que h de ter aqui em sua Ptria! 



Jeanne jamais fora muito dada a patriotismos mas, naquele instante, alguma coisa lhe disse que deveria aceitar e deveria fazer exatamente o que Guy estava pedindo... 



Assim, naquela mesma noite, enquanto Guy Lafonte se enforcava com o lenol para escapar das torturas dos alemes, Jeanne procurava novamente Louis e lhe pedia que 
a levasse at o endereo que Guy marcara no pedao de papel. 



Trs semanas depois, sem nem mesmo compreender muito bem como, Jeanne estava a bordo de um barco de pesca, a caminho da Inglaterra, escondida entre uma montanha 
de peixes j meio apodrecidos e fedorentos... 



Seis meses mais tarde, ela desembarcava no porto de Santos, no Brasil, um pas quente e amistoso, onde havia muitas lojas idnticas quela que Sat lhe mostrara 
em sonhos. 



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CAPTULO XI 



Para quem estivera a vida inteira com os horizontes limitados a uma rua do centro de Paris e, depois, acostumada  solido e paz de uma floresta de Auvergne, a cidade 
de So Paulo, ainda que naqueles anos trgicos da II Guerra Mundial, era algo deslumbrante e assustador. 



Durante a viagem para o Brasil, Jeanne imaginara esta terra como sendo algo selvagem, onde ndios seminus andavam soltos pelas ruas e onde era preciso desembarcar 
de botas de cano alto para evitar as serpentes. 



Porm, o que ela viu era totalmente diferente e oposto ao que pensara. Viu o porto de Santos, movimentado e rico, viu a cidade, j bem maior do que sonhara e, quando 
chegou finalmente a So Paulo, ficou maravilhada. 



Ali sim, ela podia sentir o progresso, podia ver que os horizontes eram to ilimitados quanto as dimenses gigantescas do pas que decidira abraar como sendo a 
sua segunda Ptria. 



Tinha a certeza de vencer, era impossvel que num lugar assim ela no conseguisse alcanar, uma por uma, todas as suas metas. 



Principalmente porque estava chegando com algum dinheiro. Recebera, ainda na Inglaterra uma substancial importncia por ter ajudado a Resistncia e, no navio que 
a trouxera ao porto de Santos, Jeanne descobrira que a melhor, mais simples e mais rpida maneira de fazer fortuna no era outra seno exercendo a mais velha das 
profisses... 



A mesma profisso exercida por sua me, por Mariette e suas meninas, por uma poro de conhecidas suas na Rue de la Huchette. 



S que ela, mais esperta, sempre seria capaz de agir melhor do que todas as outras, sempre seria capaz de auferir os maiores lucros e, o que era muitssimo importante, 
de selecionar muito bem os seus... clientes. 



Foi exatamente isso o que aconteceu a bordo, quando aquele simptico rapaz comeou a olhar demais para ela. 



Era um homem com cerca de trinta anos de idade, vigoroso, bonito, viajante da primeira classe, o que significava ser possuidor de comodidade financeira. 



Com certeza, um homem que no mediria despesas para realizar um desejo e que no se deixaria vencer por barreiras materiais para alcanar o prazer. 



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Jeanne estava na segunda classe mas, por ser jovem, por ser bonita e comunicativa, no teve qualquer problema em freqentar a primeira e foi justamente isso que 
possibilitou o encontro. 



Toms Camargo viu- a, interessou- se por ela e, depois de algumas trocas de olhares bastante significativos, aproximou- se. 



Muito educado, falando um francs fluente e perfeito, ele a convidou para sua mesa e, depois do jantar, ficaram conversando no convs. 



Toms contou que tinha ido  Inglaterra para resolver um negcio muito importante e que significava um ganho de dinheiro simplesmente extraordinrio. 



 O mundo pode estar em guerra  disse ele  Mas o mundo dos negcios internacionais continua em atividade. Pode ser que haja uma diminuio de valores e de nmero 
de transaes mas, isso no significa uma paralisao total. Mesmo em guerra, os pases continuam a precisar de matria s primas para suas indstrias e, em determinados 
casos, a necessidade aumenta de modo assustador. 



Sorriu e acrescentou:  No meu caso, por exemplo, as coisas melhoraram muito depois que a guerra comeou. 



Jeanne percebeu que poderia tirar um bom proveito de todo aquele otimismo e de toda aquela demonstrao de poder econmico. 



Comeou contando uma histria triste, que tinha enviuvado e que resolvera tentar a sorte no Brasil. 



 Estou disposta a qualquer coisa  falou ela  Tenho a impresso que uma moa cheia de boa vontade e de desejo de progredir, ter sua chance no Brasil. Pelo menos, 
 um pas novo, onde h possibilidade de trabalho mesmo para quem tenha, como eu, alguma dificuldade com a lngua. 



 Isso no ser dificuldade  replicou Toms  Muito pelo contrrio, voc vai ver que  uma imensa vantagem. 



Com um sorriso carregado de malcia, explicou:  As francesas, principalmente as francesas jovens e bonitas, so muito requisitadas para determinada espcie de trabalho... 



Jeanne compreendeu muito bem o que ele estava querendo dizer mas, fazendo- se de desentendida, indagou: 



 De que trabalho est falando? Olhando para Toms com intensa brejeirice, acrescentou:  Preciso saber de que se trata pois pode ser que eu no tenha a menor aptido 
para ele... 



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Toms riu. Segurando o queixo de Jeanne entre o polegar e o indicador, aproximando- se do rosto dela, disse: 



 No se preocupe... Tenho certeza que voc  muito mais do que capaz! E tenho certeza que conseguir vencer com muita facilidade, bastando para isso que olhe para 
seus futuros... consumidores... da mesma maneira que est me olhando agora! 



Jeanne fechou os olhos. Entreabriu os lbios, midos, sedutores. Era um convite a que Toms jamais resistiria e, inclinando- se um pouco mais, ele a beijou. 



Foi um beijo delicado a princpio mas que, aos poucos, foi se transformando numa erupo de volpia enquanto Jeanne fazia evolues com a lngua dentro de sua boca. 



As mos do homem comearam a percorrer o corpo de Jeanne, acariciando seus seios, tentando se insinuar por baixo de sua saia, procurando achar e tocar os pontos 
mais sensveis do corpo da mulher. 



Jeanne recuou, afastou- se um pouco de Toms e murmurou: No, meu querido... Assim, no... Forando- o a retirar a mo de sob sua saia, ela acrescentou: No costumo 
distribuir amostras grtis... Toms compreendeu. Com um sorriso, ergueu- se, puxou Jeanne pela mo e, guiandoa para seu camarote, falou: 



 Voc est certa, mocinha... H mercadorias que no admitem a distribuio de amostras... E, pelo visto, voc  uma excelente vendedora! 



******* A madrugada ia alta quando Toms a despertou, dizendo:  Acorde, Jeanne... No convm voc ficar aqui at o amanhecer... 



Jeanne abriu os olhos e ele, sorrindo, murmurou:  Voc foi formidvel, Jeanne. Tenho certeza que, se continuar assim, ser capaz de dominar So Paulo... Jamais 
conheci uma mulher como voc! 



Jeanne sorriu, levantou- se e, enquanto estava se vestindo, Toms entregou- lhe um mao de dinheiro, falando: 



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 Tome. No sei quanto voc costuma cobrar... Mas posso garantir que no vai se queixar dessa quantia. 



Jeanne sorriu, beijou- o rapidamente agradecendo a sua generosidade e deixou o camarote de Toms. 



Ele tinha sido o primeiro. Depois, durante todo o resto da viagem, Jeanne no dormiu uma s noite inteira em sua prpria cabina, passando em revista os lenis de 
at trs cavalheiros diferentes em um s dia: logo depois do almoo, um jovem e rico engenheiro; aps o jantar, um prspero homem de negcios e, depois de meia- 
noite, um poltico importante e to corrupto como os que existem hoje em dia... 



Por isso, Jeanne estava chegando a So Paulo com dinheiro suficiente para iniciar um negcio que lhe permitisse ganhar a vida. 



Havia, porm, um problema. Jeanne era uma mulher inculta, sem quase nenhuma escolaridade e, embora francesa, era originria de um nvel social baixo, insuficiente 
para o convvio normal na alta sociedade paulista, sabidamente requintada e, por vezes, excessivamente esnobe. 



Ela no tinha muita noo de moda, no conhecia nada sobre artes, no tinha preparo suficiente para ser uma conhecedora de pratos finos... 



Aos poucos, no correr dos seis primeiros meses em So Paulo, percebeu que as coisas no seriam to fceis assim. 



Era mais do que claro que poderia recorrer  profisso que exercera no navio e que lhe tinha sido to bem sugerida por Toms. 



Mas, Jeanne no queria isso. No achava que a prostituio a pudesse levar ao cume da sociedade e, alm do mais, ela no sentia nenhum prazer com os homens. Muito 
pelo contrrio, sentia uma profunda depresso quando de uma relao sexual pois, alm de no chegar ao orgasmo, apenas ficava com o desejo reprimido, com a sensao 
desagradvel de, mais uma vez, ter sido frustrada. 



O que ela queria era se impor na alta roda, partilhar de jantares, de festas, de reunies que tanto podiam ser culturais como fteis, queria ter amigas, pessoas 
com quem pudesse passar horas conversando, comentando sobre compras, sobre decorao, sobre seus amantes... 



Mas, nada disso lhe era possvel. Jeanne no tinha o acesso que gostaria de ter junto a essas pessoas, era sempre considerada como uma intrusa, como uma penetra 
nas festas em que ia mesmo que convidada, e muitas vezes, em rodas de conversa, ela era ostensivamente posta de lado, as outras mulheres 



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falando bem depressa pois sabiam que, dessa maneira, no seriam compreendidas por Jeanne, ainda com muita dificuldade para o idioma. 



Restava para ela passar horas e horas fazendo compras, andando pelas lojas, realizando ao menos essa parte de seus sonhos. 



Mas era muito pouco... Jeanne queria mais, muito mais! Evidentemente, uma mulher jovem e bonita, dona de um corpo escultural, com cabelos cor de fogo e olhos muito 
azuis, chamava a ateno dos homens. 



Estes sim, faziam de tudo para agrad- la, moviam cus e terra para conseguir- lhe os favores de uma noite, para terem o direito de levla a restaurantes finos, 
a lugares onde seus pares os pudessem invejar. 



Isso, contudo, no satisfazia a francesa. Em primeiro lugar, por que ela sabia muito bem quais eram as verdadeiras intenes desses cavalheiros e, quando chegava 
a hora em que Jeanne deveria retribuir todo aquele interesse e generosidade, as coisas se complicavam. 



Ela tinha que fingir o prazer... Tinha de mostrar para seu parceiro e amante de poucas horas, que ele era um verdadeiro super- homem, que a satisfizera plena e absolutamente, 
que no poderia mais viver sem ter outra vez seus carinhos... 



E, no entanto, no havia chegado a nada, no sentira nada e, ao ficar novamente sozinha, sentia raiva de si mesma, sentia pior do que jamais a frustrao de no 
lhe ser possvel sentir prazer. 



 claro que esse obstculo no chegava a ser um empecilho. Jeanne estava consciente de que aquela era a nica maneira de conseguir ao menos ter uma vaga idia da 
boa vida que lhe fora mostrada em sonhos. E sabia que deveria aceitar os presentes que lhe ofereciam esses cavalheiros, mesmo que isso lhe cheirasse a prostituio, 
um pouco menos srdida do que se recebesse dinheiro como fizera no navio mas... 



Jamais deixaria de ser prostituio. O que a fazia viver permanentemente preocupada. Ela era desejada e chegava a ser disputada pelos homens mas, isso no seria 
assim para sempre. 



Os anos passariam para ela como passavam para qualquer outra mulher. Ela envelheceria e os homens deixariam de procur- la, deixariam de lhe dar presentes e, consequentemente, 
de sustent- la. 



Assim, Jeanne precisava encontrar a estabilidade com algum que a fizesse ficar tranquila com relao ao futuro. 



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Evidentemente, seria timo se conseguisse encontrar um marido, um homem que tivesse meios materiais de mant- la em um bom nvel econmico e social e que pudesse, 
alm disso, satisfaz- la na cama de maneira a no sentir a necessidade de continuar aquela 



busca do prazer, de cama em cama, achando que o prximo poderia ser aquele que a transportaria aos pncaros do xtase, que a faria viver as delcias da verdadeira 
materializao do amor, que a levaria a se sentir realizada como mulher. 



******* Com essa idia em mente, achou que ser mais exigente e menos promscua, poderia ser o caminho. 



Comeou a aceitar convites apenas de homens solteiros ou que fossem declaradamente liberados, que no dessem muita importncia  vida matrimonial e que, se fosse 
o caso, poderiam trocar a famlia e a estabilidade conjugal por ela. 



Achava- se bonita e atraente o bastante para abalar as emoes de qualquer um e, assim, muito mais facilmente conseguiria conquistar algum cuja vida matrimonial 
j no estivesse l grande coisa. 



Mas... No era to simples assim. Os homens solteiros que dispunham de posses suficientes para contentar e satisfazer Jeanne, eram raros e, os que existiam com essas 
caractersticas, no estavam dispostos a partilhar a vida com mulher nenhuma, mesmo que fosse a mais linda da Terra. No se prenderiam, no perderiam a liberdade 
para ficar com quem quer que fosse, ainda mais com uma mulher que ele e outros j tinham levado para a cama e que, sabiam muito bem, no teriam que despender muito 
esforo para uma reprise da aventura. 



Os casados que sofriam as conseqncias de um matrimnio pouco feliz, estavam desejosos de se verem livres daquela carga e com certeza no haveriam de querer correr 
o risco de repetir uma experincia desastrosa. 



Dessa maneira, Jeanne estava sendo obrigada a ser no mais que uma amante eventual para cada um daqueles com que dividia suas noites. 



Ora... Com o aumento de suas exigncias e com a seleo que passou a fazer, Jeanne conseguiu muito rapidamente notar que sua receita mensal diminura consideravelmente 
e isso, no mnimo, era preocupador... 



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Pelo que estava vendo, dentro de muito pouco tempo, ela no mais conseguiria freqentar as lojas de que tanto gostava, no mais poderia tentar comprar suas amizades 
com presentes caros e, o que era ainda mais assustador, sabia muito bem que, no instante em que entrasse definitivamente em dificuldades financeiras, no encontraria 
uma s pessoa que lhe estendesse a mo. 



Em So Paulo, como em qualquer outro lugar do mundo, os valores bancrios de algum eram to importantes ou mais do que seu 



pedigree ou seu grau de instruo. Era, pois, imperativo que Jeanne arrumasse com a maior rapidez possvel, uma maneira estvel de ter dinheiro. 



Mas... Era a que estava o problema. Que poderia fazer, j que no sabia fazer nada a no ser satisfazer os homens e, ainda assim, de uma maneira bastante hipcrita? 



Se ao menos tivesse algum que pudesse aconselh- la, algum com quem pudesse se abrir e contar- lhe suas dvidas, suas angstias... 



Mas nem isso, ela tinha. No poderia jamais confiar nas outras mulheres, em primeiro lugar por que sabia que elas no eram suas amigas. Em segundo, no poderia dizer 
para elas que no tinha o menor grau de instruo, que no tinha idia de coisa nenhuma, nem mesmo de arte culinria! 



Quanto aos homens... Tambm jamais serviriam como conselheiros pois para eles, para aqueles que se relacionavam com Jeanne, era muitssimo cmodo que ela continuasse 
a enfrentar problemas financeiros j que assim, no seria to exigente, acabaria por se contentar com o que eles quisessem lhe dar e... Isso seria o bastante para 
mant- la amarrada  vida de cortes. 



Cheia de angstias, comeando a duvidar de si prpria e tornandose pessimista em relao ao futuro, Jeanne via passar o tempo sem que sua vida mostrasse sinais de 
melhora, sem que se acendesse, de maneira definitiva, uma luz no final do tnel. 



Havia dias em que essas crises existenciais e depressivas se mostravam mais fortes. Isso acontecia quando, desde cedo, ao levantar da cama, tudo dava errado. No 
conseguia marcar um encontro lucrativo com qualquer de seus clientes, percebia que algum de suas relaes dera uma festa e no a convidara ou, ainda, quando simplesmente 
sentia que, por mais que fizesse, jamais deixaria de ser uma intrusa e aventureira, no conceito de todos. 



113 



 



Nesses dias, Jeanne ficava de mau humor, sentia- se a mais miservel e abandonada pessoa do mundo, achava- se o exemplo tpico da solido... 



Quando, ainda por cima, num dia como esse, um homem a levava para a cama e, mais uma vez ela era obrigada a fingir um intenso e extremo prazer, a sim, que ficava 
muito mal e, quando se via sozinha em seu quarto, enfiava o rosto no travesseiro e chorava horas seguidas, tentando lavar, com lgrimas, toda a sua frustrao e 
todo o seu desespero. 



Foi numa noite assim, depois de chorar por muito tempo e adormecer de exausto, que ela sonhou... 



******* Sonhou que estava na sala do bangal de Gabrielle e que fazia muito frio. 



Ela acendera a lareira e estava olhando para o fogo, muito triste e desanimada, pensando que seu futuro jamais seria sequer uma sombra daquele que imaginava, daquele 
que desejava. 



 Para viver assim  disse  seria melhor morrer! Nesse instante, sem que ela fizesse o menor movimento, sem que Jeanne pusesse mais lenha na lareira, o fogo aumentou, 
as labaredas cresceram e uma luz avermelhada, intensa e muito 



estranha, iluminou todo o ambiente. Fascinada pelo brilho das chamas, Jeanne fixou o olhar na lareira e viu que ali se formava o rosto de um homem. 



Reconheceu imediatamente aqueles lbios finos, os olhos muito vivos e maldosos... 



 Voc se esqueceu de mim  disse ele  Esqueceu que eu e somente eu posso lhe dar o prazer que est desejando, que est lhe fazendo falta. 



Jeanne ia dizer alguma coisa mas, no sonho, sua voz no saa e, por mais que se esforasse, no podia emitir o menor som. 



 Preste mais ateno ao seu redor, Jeanne... Ver que eu estou presente e que estou sendo desprezado...  continuou ele  E no se esquea que eu tenho a soluo 
para todos os seus problemas! 



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CAPTULO XII 



Jeanne despertou no meio da noite, trmula e cheia de raiva. Aquele sonho trouxera  sua memria cenas que ela fazia questo de esquecer, dores que no desejava 
recordar e que jamais queria enfrentar outra vez. 



Lembrou- se do parto, do sangue em sua cama, do menino morto... Recordou- se, com um dio extremo, do pacto que fizera com Sat e que julgava terminado uma vez que 
ele a pusera no Brasil e, como no poderia deixar de ser, cobrara e recebera o seu preo. 



Ela lhe entregara o filho e com isso, resgatara a sua liberdade. Por isso, no se via com a obrigao de lembrar de Sat, muito pelo contrrio. Pelo seu prprio 
bem estar mental, Jeanne queria esquecer tudo quanto passara na Frana, queria esquecer aquele bangal de Auvergne e nunca mais lembrar da fisionomia bondosa de 
Gabrielle ou do olhar torvo de Louis e de Bertrand. 



Para ela, tudo aquilo tinha de ser relegado ao esquecimento, tinha que ser apagado de sua memria e,  claro, Sat tambm no mais deveria esperar o que quer que 
fosse de sua pessoa. 



Ou de sua alma... O sonho que tivera, porm, mostrava que o Prncipe das Trevas no concordava com a sua opinio e, de alguma maneira, estava influenciando em sua 
vida para que ela no o deixasse de lado e continuasse eternamente a ser sua escrava e a satisfazer suas vontades. 



Sempre tomando muito cuidado para no pensar em voz alta, ela tomou a deciso de no ligar para o que acontecera naquela noite. 



Um sonho era apenas um sonho e deveria ser encarado como tal, sem se deixar levar por qualquer tipo de influncia. 



Tentou adormecer novamente mas no conseguiu. Passou o resto da noite revirando- se na cama, ansiosa e inquieta, assustada por estar sentindo o mesmo que naquele 
dia em que, ainda na Floresta de Randan, decidira conjurar o Demnio para que ele viesse ajud- la a mudar de situao. 



Alguma coisa estava lhe dizendo que deveria repetir o feito e era isso o que mais a enraivecia. 



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 No!  pensou  Vou resistir... Hei de vencer sozinha, sem ter de dever nada a ningum, muito menos a Sat! 



Porm, quando o dia amanheceu, ela soube logo nas primeiras horas, que seria muito difcil ficar afastada de seu Mestre... 



Levantando- se, apanhou o jornal que o entregador deixava todos os dias de manh na porta de seu apartamento. 



Jeanne assinava o jornal no por que estivesse interessada nas notcias polticas, econmicas ou mesmo policiais... O que ela queria ver era a pgina de notas sociais, 
onde suas amigas apareciam e onde ela mesma desejava ardentemente figurar. Como uma imensa poro de mulheres fteis e vazias, Jeanne achava que ter seu nome e sua 
fotografia nas colunas sociais dos jornais paulistanos, era a consagrao, a realizao mxima de quem almeja um lugar ao sol na alta roda. 



Na alta e ftil sociedade... Mas, ao abrir o jornal, seus olhos bateram numa notcia da pgina sobre economia que a fez empalidecer. 



Ali dizia- se que o Banco de Crdito e Comrcio, fechara suas portas. E que todo o dinheiro que nele estava depositado, encontrava- se bloqueado at segunda ordem. 



Era o Banco em que Jeanne deixara seu dinheiro... Aquela notcia significava que, de repente, ela estava reduzida apenas  exgua importncia que tinha dentro de 
casa e que, no mximo, daria para ela se sustentar, com muita economia, por mais duas ou trs semanas. 



Era a falncia, a runa, a queda para a sarjeta. Uma situao que Jeanne no estava preparada para enfrentar de maneira nenhuma. 



Desesperada, grudou- se ao telefone para tentar falar com algum, para tentar entrar em contato com seus clientes banqueiros e homens de negcios que, certamente, 
conheceriam uma maneira de salvar seu dinheiro, saberiam como agir em um momento desses de maneira a no morrer de fome apesar de ter uma fortuna num Banco. 



Uma fortuna que j vinha minguando desde algum tempo e que, de repente, se vira bloqueada. 



Mas, para seu horror, no conseguia uma s ligao, um s contato. Todos os seus conhecidos, certamente enfrentando o mesmo problema, estavam ocupados demais para 
atend- la e, assim, Jeanne se viu perdida, rf de pai e me no meio de um caos econmico que poderia significar uma dramtica reviravolta em sua vida. 



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 Estou acabada!  exclamou  Dentro de um ms no terei o que comer, nem sequer terei como pagar o aluguel deste apartamento ou o salrio da empregada! 



Foi nesse momento que ela se lembrou de Sat. ******* Imediatamente, Jeanne relacionou o sonho que tivera durante a noite com o que acontecera e chegou  concluso 
de que tudo aquilo podia muito bem ser obra do Prncipe das Trevas, unicamente para obrig- la a ir procur- lo. 



Sacudiu a cabea negativamente e disse, sabendo que, uma vez que ela estava falando em voz alta, Sat poderia ouvi- la: 



No! No vou procur- lo! No quero ser sua escrava e nem mesmo sua discpula! 



Assim dizendo, foi para o banheiro tomar uma ducha, imaginando que isso seria um timo remdio para o nervosismo que a possua. 



Se Jeanne pensava que depois do banho iria se sentir bem e com disposio para sair  rua e tentar conseguir alguma coisa junto  diretoria do Banco ou, que fosse, 
atravs de advogados, estava muito enganada. 



Continuou a se sentir muito mal, andando de um lado para o outro pelo apartamento, atrapalhando o servio da empregada e fazendo com que esta, por sua vez, ficasse 
preocupada com a sua estabilidade no emprego. 



Ouvira a patroa dizer que estava sem dinheiro, ouvira no rdio da cozinha a notcia sobre o Banco e, sem muito esforo concluiu que o melhor que teria a fazer era 
tratar de ir embora, era aceitar aquele emprego que uma conhecida de Jeanne lhe oferecera s escondidas e... 



Pelo menos garantiria o salrio do ms. A patroa, com certeza, ainda tinha algum dinheiro em casa, pelo menos o suficiente para lhe pagar os dias trabalhados e, 
depois do almoo, ela se faria ao largo, em busca de portos mais seguros e mais garantidos contra essas intempries financeiras. 



Falou para Jeanne suas intenes e chegou a ficar surpresa ao ver que a francesa, muito ao contrrio do que esperava, nada disse. Pareceu- lhe at que Jeanne ficara 
satisfeita com a notcia. 



 Sem dvida  pensou a empregada  a situao deve estar muito ruim... Para uma mulher como Jeanne resolver que  melhor ficar sem empregada...  sinal de que no 
est podendo pagar nada, mesmo! 



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O restante do dia foi um acmulo de reveses assustador. Perdeu o relgio, um automvel respingou- lhe gua no vestido, discutiu com o zelador do edifcio, no conseguiu 
falar com ningum e, para culminar,  noitinha, quando ligou para Regina, uma jovem senhora que considerava como sendo sua amiga, teve o desprazer de ouvi- la dizer, 
ao lhe contar suas desventuras: 



 Isso no me espanta... As andorinhas aventureiras sempre acabam do mesmo jeito... Quando chega o inverno, as que no se mudam para climas melhores e mais propcios, 
acabam sucumbindo de fome e de frio... 



 O que est querendo dizer com isso, Regina?  perguntou Jeanne, chocada  Est insinuando que eu seja... 



 Uma aventureira?  interrompeu a outra com uma risada  No, Jeanne... No estou insinuando. Estou, simplesmente dizendo, afirmando... Voc  uma aventureira que 
no mede esforos para vencer... Isso at seria muito bonito e muito louvvel se voc fizesse uso de mtodos decentes! Mas  justamente o contrrio! Voc no est 
se incomodando com nada, no liga para a moral, no se preocupa com a felicidade das outras pessoas, principalmente com a daquelas que voc precisa massacrar para 
poder subir um degrau. 



Antes que Jeanne tivesse tempo de contestar, Regina prosseguiu:  Eu aprendi a conhec- la, Jeanne... E no pense que sou uma ingnua para no perceber como voc 
se insinuou para o meu marido... Aproveitou que uma tarde, quando eu ainda no imaginava a vbora que se esconde por trs desse seu sorriso e desses seus olhos azuis 
cheios de falsa meiguice, em que lhe contei que minha vida conjugal no estava indo s mil maravilhas... Aproveitou- se de minha fraqueza e, imediatamente, comeou 
a procurar Roberto em seu trabalho... Como quem no quer nada, como se fosse mera coincidncia voc aparecer l  hora do almoo comentando que detesta ser obrigada 
a almoar sozinha... Voc tentou, Jeanne... S no conseguiu por que se esqueceu que os casamentos tm crises como qualquer outro relacionamento interhumano... Mas, 
no casamento, quanto ele  verdadeiro, existe algo mais. Existe o amor. E  esse amor que faz com que os matrimnios perdurem, venam dificuldades e obstculos  
felicidade como voc! 



E, com um tom irnico na voz, ela completou:  Fico muito feliz sabendo que voc est quebrada. Assim, voc ter de ir embora de So Paulo ou, ento, o que ser 
mais fcil de acontecer, ser obrigada a ocupar a sua verdadeira posio na sociedade: 



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rodando as chaves numa esquina qualquer da Avenida So Joo! Assim dizendo, Regina bateu o telefone e deixou Jeanne olhando abismada para o aparelho mudo em suas 
mos. 



Ela demorou cerca de quinze minutos para se recuperar da surpresa. No conseguia entender como Regina ficara sabendo de sua aventura com Roberto, uma aventura que 
tinha sido muito mais do que secreta e em que ele mesmo tomara tantos cuidados para no ser visto por pessoas conhecidas... 



Era bem verdade que a inteno de Jeanne era conquistar o marido de Regina de uma forma definitiva mas, percebera muito rapidamente que seria impossvel. Roberto 
jurara- lhe o mais intenso amor mas... Estava impedido de se separar de Regina mesmo porque o dinheiro de que dispunha para investir em seus negcios vinha da famlia 
dela e ele no estava disposto a comear tudo de novo s por causa de um outro amor. 



Por sua vez, quando soube que a fortuna de Roberto era muito mais de Regina do que dele prprio, perdera completamente o interesse. 



Encontrara- se com ele trs vezes e, depois... nunca mais.  Aquele idiota!  exclamou ela  Com certeza a mulher desconfiou de alguma coisa e, pressionado, acabou 
contando tudo! No passa de um imaturo, de um moleque incapaz de arcar com a responsabilidade de seus atos e, no fundo, de um pobreto que vive s custas de Regina! 



Com um gesto irado, arrematou:  E eu no preciso de um pobreto! Muito pelo contrrio, preciso de um homem rico, de um homem que tenha como sustentar os meus caprichos! 



******* Sozinha em seu apartamento, a noite parecia interminvel para Jeanne. Pela primeira vez desde que chegara ao Brasil, ela sentia o mesmo que quando ainda 
estava em Auvergne, absolutamente s e sem perspectivas, no bangal de Gabrielle. 



 No vou suportar tudo outra vez!  gemeu  No quero passar por tudo aquilo de novo! 



Inquieta, andando de um lado para o outro como uma leoa enjaulada, percebeu que enlouqueceria se continuasse ali. Precisava tomar ar, ver outras pessoas, mostrar 
a si mesma que ainda estava viva e que, afinal de contas, tinha de haver esperana. 



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Olhou o relgio, constatou que passava pouco de oito horas da noite, portanto, ainda era bem cedo. 



Resolveu sair um pouco, caminhar pela rua, sentir o ar da noite. Talvez isso lhe trouxesse alguma idia, talvez encontrasse uma maneira de resolver a sua situao. 



Nessa poca, seu apartamento era em Santa Ceclia, na rua das Palmeiras e bem em frente  Igreja. Dali, a p, Jeanne poderia ter seguido para o largo do Arouche 
onde havia mais movimento ou para a Praa Marechal Deodoro onde algumas sorveterias famosas ficavam sempre cheias de gente. 



Mas no... Por alguma razo que ela mesma no saberia explicar, Jeanne subiu a Frederico Abranches e, depois de caminhar por quase um quarto de hora sem rumo e sem 
destino, dobrando esquinas e atravessando ruas, parou diante do porto da residncia de Prsio de Arruda, uma casa enorme, com o terreno ocupando quase um quarteiro 
inteiro da Alameda Barros e a construo, alta e imponente, fazendo Jeanne imaginar a formidvel quantia de dinheiro que aquele homem deveria possuir. 



 Para algum assim no h crise  pensou, admirando os entalhes do porto, iluminado por uma lmpada maior e mais forte que as da rua. 



Nesse momento, notou que havia um homem ao seu lado. Chegou a se assustar pois no notara que ele estivesse ali quando parara diante do porto e nem sequer ouvira 
passos pela calada indicando que ele estivesse se aproximando. 



O homem se encontrava a menos de dois metros de distncia e, como o lugar em que estava fosse mais escuro, Jeanne no conseguia ver suas feies. Podia dizer, apenas, 
que parecia ser elegante, estava bem vestido e tinha o porte altivo, o porte de um indivduo fino e bem educado. 



Ouviu- o dizer:  Voc poderia ter dez casas iguais a essa, se quisesse... Mais uma vez, Jeanne se assustou. O homem tinha falado em francs. E era impossvel que 
ele soubesse a sua nacionalidade! Atnita, olhou para ele e, com a voz parecendo presa em sua garganta, indagou: 



 Mas como descobriu que eu sou francesa?  Ora!  respondeu ele com uma risada e chegando mais perto dela  Eu a conheo muito bem! 



Com um timbre de reprovao na voz, acrescentou:  Voc  que no conhece mais os amigos... 



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Jeanne pode, ento, ver o seu rosto. Sentiu um calafrio a lhe percorrer todo o corpo ao reconhecer os olhos cheios de maldade, os lbios finos, a pele morena... 



Ele estendeu a mo e tocou o rosto de Jeanne. Era a mesma mo quente, suave, sensual... Jeanne sentiu que flutuava, sentiu que aquele toque a excitava de uma tal 
maneira que, quando deu conta de si, estava abraada ao homem, dizendo: 



 Toque- me mais... Possua- me! Possua- me aqui! Quero ser sua! Sei que com voc eu vou conseguir...! 



Escutou uma risada. Era aquela mesma risada, assustadora e ao mesmo tempo inebriante.  Com que ento, voc precisa de mim, no  mesmo, Jeanne?  Sim!  disse ela, 
aflita  Estou precisando de voc! Tentando agarrar- se a ele, acrescentou:  Na realidade, acho que sempre precisei de voc... Pelo menos para isso! 



Sat afastou- a com brutalidade e falou:  Pois no merece ter o que eu posso lhe dar, Jeanne! Voc se esqueceu de mim! Achou que poderia me preterir! Agora... 



Jeanne balanou a cabea negativamente e gemeu:  No! Eu no o desprezei! Tampouco o esqueci! Tentando em vo se aproximar pois a cada passo que dava em sua direo 
parecia que Sat flutuava para mais longe, ela completou: 



 Voc sabe que estou em dificuldades... Precisa me ajudar! Recuperando um pouco de seu controle, disse:  J me ajudou uma vez. Recebeu o que quis. Sabe, portanto, 
que sou boa pagadora. Ajude- me de novo! Pea o que quiser e ajude- me! 



Sat ficou em silncio por alguns instantes. No foi mais do que alguns segundos mas para Jeanne pareceram sculos que se escorriam lenta e preguiosamente, to 
ansiosa ela estava. 



 Est bem  disse o Prncipe das Trevas  Vou ajud- la. Mas, para comear, eu devo, lhe dizer que o que voc mais quer agora, ou seja, poder sentir prazer com 
um homem, jamais vai acontecer. Voc s sentir prazer comigo... E eu s lhe darei prazer quando eu quiser. 



Olhou para Jeanne e seus olhos pareceram atravessar sua alma quando ele falou: 



 Sua situao vai se resolver... Mas antes...  preciso que voc me d a alma de um padre... 



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Assim dizendo, ele riu outra vez e, fazendo um gesto com as mos, foi envolto por uma labareda fulgurante antes de desaparecer. 



Jeanne voltou para seu apartamento cambaleando como se tivesse bebido um litro de aguardente. 



Por alguns momentos, tentou se convencer de que tinha tido uma viso, de que tudo no passara de uma iluso, de uma brincadeira de mau gosto que sua mente lhe tinha 
pregado por causa de todos os aborrecimentos do dia. 



Porm, ela sentia o anel de ferro em seu dedo, a aliana do pacto com o Demnio e, parecia- lhe que ele estava mais quente, parecia- lhe que o anel estava apertando 
um pouco seu dedo como que a lembr- la de que tudo tinha sido real e que ela deveria seguir  risca o que Sat lhe dissera. 



Olhou ao seu redor, os mveis que tinha comprado, os objetos, o apartamento de que tanto se orgulhava... 



Teve medo de perder aquela comodidade, de no mais poder usufruir de todo aquele conforto. 



Apavorou- se com a idia de que talvez fosse obrigada a mudar para um lugar mais pobre e, com certeza, acabaria tendo de cair na baixa prostituio para poder sobreviver. 



No!  exclamou  No vou sofrer essa humilhao! Se tudo o que ele quer  a alma de um padre, amanh mesmo ele a ter! 



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CAPTULO XIII 



Jeanne acordou, na manh seguinte cheia de disposio, apesar de ter dormido mal, pois perdera uma boa parte da noite tentando encontrar em sua memria o padre mais 
adequado para lhe roubar a alma... 



A resposta lhe veio pela manh, naquele momento mgico que precede o despertar, quando ainda se est imerso no mundo dos sonhos mas ao mesmo tempo se comea a tomar 
conscincia da realidade. 



Jeanne ergueu a cabea do travesseiro e disse, com um sorriso de satisfao: 



 Padre Rafael! Ele  o mais indicado! Sem perda de tempo, levantou- se, tomou um bom banho e, quando estava se enxugando, a campainha da porta soou. 



Intrigada, pois no era nem um pouco habitual ser incomodada no perodo da manh, ela foi atender. 



Ficou surpresa ao ver Serafina, a empregada que se despedira na vspera. 



Se a senhora ainda me aceitar...  falou ela, com humildade. Jeanne, por um instante, pensou em dizer que no, que j tinha arrumado outra. Achara o cmulo da deslealdade 
Serafina ir embora s por que a situao financeira da casa balanara. Porm, ela sabia que no era das tarefas mais fceis encontrar uma moa de confiana para 
ficar em seu apartamento e, alm do mais, Serafina j conhecia a casa, j sabia de suas manias e... 



Era discreta... Isso era muito importante pois muitas e muitas vezes, Jeanne recebia... visitas... durante a tarde. Visitas que no poderiam ser identificadas, que 
no poderiam correr o risco de serem denunciadas por uma empregada que as tivesse visto e reconhecido na hora de servir o caf. 



Est certo  falou a mulher  Pode ficar. E, com uma expresso maldosa, acrescentou:  Mas  a ltima vez que voc faz o papel de rato de navio... Serafina olhou 
para Jeanne sem entender o que ela estava querendo dizer e esta explicou: 



 Os ratos  que se comportam como voc, Serafina. Abandonam o navio quando este vai afundar... 



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Serafina riu, foi para a cozinha comear a cuidar de seus afazeres, atrasados de um dia inteiro pois a patroa no tivera nimo nem mesmo para lavar o coador de caf. 



Balanando a cabea aprovadoramente, Jeanne pensou:  De fato... O Prncipe das Trevas est trabalhando a meu favor... Serafina de volta... Daqui a pouco as coisas 
vo melhorar, vo entrar nos eixos e tudo voltar a ser como antes! 



Em voz alta, entrando em seu quarto, ela exclamou:  Como antes, no! Sero muito melhores! De frente para o grande espelho em que passava horas a se arrumar, Jeanne 
deixou cair no cho a toalha que lhe envolvia o corpo. 



Sorriu, satisfeita, para a imagem que o espelho lhe devolvia. Sim... Ela era muito bonita, muito desejvel. Na verdade, a gravidez no fizera mais do que amadurecer 
seu corpo e transform- lo num autntico monumento ao Belo. 



 Ningum poder me resistir  disse ela passando as mos pela curva dos quadris  Nem mesmo um padre, por mais santo que seja e... 



Riu, acrescentando:  Sei muito bem que o Padre Rafael no  propriamente um santo... J notei muito bem como ele olha para mim, de vez em quando! 



******* Vestida, perfumada e fresca como uma alface recm- colhida, Jeanne saiu de casa. 



Com passos apressados, atravessou a Rua das Palmeiras e entrou na Igreja de Santa Ceclia onde, com certeza, encontraria o padre. 



Caminhou pela nave central do templo, olhando para as imagens de santos que havia nos altares laterais e, como sempre acontecia, sentiu um calafrio. 



No gostava de igrejas, no conseguia olhar por muito tempo para um crucifixo ou mesmo para uma imagem de um santo qualquer. 



Era engraado... Quando ainda na Rue de la Huchette, muitas e muitas vezes, ela fora  Catedral de Notre Dame apenas para ficar l, sentada num dos muitos bancos, 
gozando da paz que reinava no interior da igreja. 



E, no entanto, no podia mais permanecer no interior de um templo mais do que o estritamente necessrio. Muitas vezes, em 



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casamentos e em outras ocasies em que era imperativo comparecer a uma Missa, Jeanne tinha de fazer um esforo de abstrao muito 



grande para se imaginar longe dali, em qualquer outro lugar e cercada por outra espcie de pessoas. Se no fizesse isso, sentia que poderia passar mal, que poderia 
at desmaiar 



Jeanne deu a volta ao altar- mor da igreja sentindo mais forte do que nunca o calafrio, chegando a escutar um desagradvel zumbido nos ouvidos e com a impresso 
de que, se se descuidasse, poderia at cair no cho. 



Alcanou a porta da sacristia e, sem bater, entrou. Padre Rafael ali estava, sentado a uma escrivaninha, passando a limpo algumas anotaes. 



Ergueu os olhos do trabalho quando percebeu que algum entrara e, ao ver Jeanne, sorriu. 



Como vai, Jeanne?  perguntou  Veio se confessar? Ela sacudiu negativamente a cabea e, sentindo- se tmida e vulnervel, balbuciou: 



 Preciso conversar com o senhor, Padre... Mas no se trata de uma confisso... 



Padre Rafael pousou a caneta sobre o grande caderno em que estava escrevendo e, fixando em Jeanne seus olhos de um verde acinzentado muito vivos, disse: 



 Pois sou todo ouvidos, Jeanne... Voc sabe que os problemas de meus paroquianos so tambm meus problemas. Mesmo que venham de ovelhas meio desgarradas como voc 
que jamais vm  Missa, embora faam questo de contribuir com gordas somas para as obras de caridade da Parquia... 



Jeanne esboou um sorriso sem graa. Aquele homem a incomodava... Era jovem, teria no mximo trinta e cinco anos de idade, era msculo e bonito, com os cabelos muito 
louros um pouco mais compridos do que normalmente os padres costumavam usar. Como se no bastasse a sua estampa, era um homem inteligente, sempre com as respostas 
na ponta da lngua e... 



Bem... Padre Rafael possua um olhar penetrante, quente, cheio de sensualidade e de segundos significados. 



Quando ele a olhava, parecia estar despindo suas roupas e entrando em seu corpo, em busca da alma mas, ao mesmo tempo, aproveitando cada infinitsimo de instante 
desse contato extra- sensorial... 



 O que tenho para lhe dizer no pode ser dito aqui, padre  falou Jeanne. 



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Padre Rafael ergueu as sobrancelhas e indagou, com um sorriso onde no conseguia  ou no queria  esconder a malcia: 



 No pode ser na Igreja? Mas o que ser to grave que no possa ser comentado na Casa do Pai? 



Abriu um sorriso e perguntou:  O que sugere, ento? Jeanne respirou fundo. Dominando- se, armou o seu melhor sorriso e respondeu:  Achei que o senhor poderia aceitar 
um copo de vinho esta noite, em minha casa... Ainda devo ter uma ou duas garrafas de Chteau Lombard, aquele vinho lions que  considerado o melhor do mundo pelos 
que realmente conhecem enologia. 



Padre Rafael ficou calado por um breve momento e, depois, balanou a cabea, dizendo: 



 Acho que nunca tomei esse vinho, Jeanne... E vou sentir muito prazer em visit- la esta noite... 



Sorriu e acrescentou:  Mas fao questo de levar o queijo e o po... 



******* Seriam nove horas da noite quando o padre Rafael chegou  casa de Jeanne. 



Estava sorridente e trazia um embrulho com um grande queijo do Reino e uma bengala de po. 



 Desculpe- me por trazer este queijo, Jeanne  falou ele  Gostaria de ter conseguido um pedao de menthal mas foi impossvel. 



Erguendo os ombros, explicou:  Voc compreende... As coisas esto difceis, hoje em dia. Minha tentativa de faz- la lembrar da Frana com um pedao de queijo, 
foi por gua abaixo! 



Jeanne sorriu e tomando das mos do padre o pacote, disse:  No era preciso se incomodar. Para mim, o importante  a sua presena. 



E, falando baixo, ela acrescentou:  Alm do mais, padre... No tenho muitas saudades da Frana.  um pas velho, mofado, cheio de histrias de assombrao. Eu fico 
toda arrepiada quando me lembro das coisas horrveis que me contavam quando eu era pequena e morava em Paris... 



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Padre Rafael sentou- se numa ponta do sof e comentou:  Eu tambm sei algumas histrias arrepiantes... Jeanne olhou para ele com expresso interessada e curiosa. 
O padre, com uma risada, indagou:  Mas voc no disse que ficava arrepiada quando escuta esse tipo de coisa? Como  que faz essa cara de quem quer ouvir? 



 No creio que um caso assombroso contado por um padre possa me arrepiar  respondeu ela. 



Apanhando a garrafa de vinho e servindo- o, completou:  De mais a mais, acho que se eu me arrepiar ou se tiver medo, com a sua presena aqui em casa, terei como 
me acalmar... 



Padre Rafael voltou a fitar Jeanne com aqueles olhos penetrantes e ela no pode deixar de sentir um certo mal estar. 



Parecia que ele estava sabendo perfeitamente o que Jeanne pretendia e, como o gato que brinca com o rato antes de mat- lo, o padre estava apenas brincando com ela 
para ver at onde teria coragem de chegar. 



Respirando fundo e tomando um gole de vinho, o sacerdote falou:  Voc estava com a razo, Jeanne... Este vinho  realmente formidvel... E, quando tomado em companhia 
de uma bela mulher... 



Antes que Jeanne pudesse manifestar o seu espanto por aquela frase, o padre prosseguiu: 



 O vinho precisa de alguns requisitos para ser completo. Assim, no se pode saborear um bom vinho sem um acompanhamento e, para que o seu esprito, para que o esprito 
do vinho seja de fato realado,  indispensvel que nesse acompanhamento haja uma mulher, a obra prima do Criador. 



 No me considero nenhuma obra prima  replicou Jeanne com um trejeito e sentando- se ao lado do padre. 



 Mas   disse ele prontamente  Voc  uma mulher linda e  muito estranho que ainda no tenha se casado... 



 Sou viva  murmurou Jeanne  Meu marido morreu nas mos dos alemes logo no comeo da guerra. 



 Pois deveria se casar outra vez  ponderou o sacerdote  Uma mulher bonita no deve ficar sozinha. Alm de fazer mal  sade,  um verdadeiro desperdcio e Deus 
condena o desperdcio, sabia? 



Jeanne riu. Pousando a mo sobre o antebrao do padre, ela falou:  Nesse caso, o senhor deve viver em pecado. Tambm acho que seja um desperdcio muito grande um 
homem to msculo, bonito e inteligente ficar assim, celibatrio... 



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Padre Rafael ia dizendo que o celibato clerical era uma opo de vida que os padres faziam quando decidiam abraar o sacerdcio mas, Jeanne no o deixou. 



Apressada, temendo que aquele assunto desse incio a uma discusso estril sobre vocaes sacerdotais e outras coisas congneres, ela disse: 



 Mas eu no o convidei para ficarmos conversando sobre um tema que s serve para levantar a discrdia... 



Ficando subitamente sria, Jeanne falou:  Estou muito preocupada, padre. Muito preocupada com o meu futuro. 



O sacerdote sorriu e replicou:  No vejo como voc possa estar preocupada, Jeanne... Voc  rica, bonita, jovem... No tem nenhuma razo de se preocupar com o futuro 
material. 



Fitando- a com intensidade, acrescentou:  A menos que esteja falando de seu futuro espiritual e, nesse caso, talvez eu possa ajudar em alguma coisa... 



Jeanne balanou a cabea negativamente e murmurou:  No, padre... No estou preocupada com o meu futuro espiritual. No tenho como me preocupar com ele. Mas, em 
compensao, materialmente, as coisas no andam nem um pouco bem para mim. E isso, no presente, no momento atual. Imagine como vai ficar no futuro, a minha vida, 
sem ningum para me ajudar, sem ter uma s pessoa para me apoiar! Sem ter um ombro onde encostar a minha fronte em momentos de aflio como os que tenho passado 
nas ltimas horas! 



Torcendo as mos nervosamente, ela disse:  O senhor sabe que o Banco de Crdito e Comrcio fechou... Meu dinheiro estava l e, agora... 



Suspirou doloridamente e concluiu:  Fiquei sem dinheiro, padre... Completamente sem dinheiro! No sei, simplesmente, se terei como comer amanh... 



Padre Rafael balanou a cabea para a frente e para trs, mostrando que compreendia a situao de Jeanne. Depois de refletir alguns momentos, ele murmurou: 



 De qualquer maneira, no acredito que voc morra de fome... Alis, pode ter certeza que sempre encontrar alguma coisa na sacristia em que eu estiver! 



Jeanne inclinou- se para o padre, encostando a cabea em seu ombro, aproximando- se mais dele de maneira a faz- lo sentir suas 



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formas, especialmente o contorno de seus seios. Notou instantaneamente que o sacerdote se contraa e, insistindo na proximidade, ela falou: 



 Eu sempre soube disso, padre... E no me preocupo por causa de um prato de comida, de um dinheirinho para pagar a conta de luz ou at mesmo para ajudar a pagar 
o aluguel... Sempre soube que poderia contar com o senhor num momento assim. 



Afastou- se um pouco e, olhando de frente para o sacerdote, seu rosto ainda bem perto do dele, Jeanne murmurou: 



 H outras coisas que uma mulher de minha posio precisa ter para no se considerar a mais infeliz pessoa do mundo... Coisas como roupas ntimas finas, coisas 
como perfumes... 



Virou um pouco de lado, mostrando o pescoo perfeito para o padre enquanto dizia: 



 Perfumes como este que estou usando... Sinta como  agradvel, como  inebriante... 



O padre hesitou. Ele estava comeando a tremer, estava vermelho como um pimento e em sua testa comeavam a aparecer gotas de suor. 



Nervoso, serviu- se de mais um clice de vinho, tomou- o de um s gole e voltou a ench- lo, com um suspiro que, para Jeanne, pareceu mais ser um gemido. 



Impiedosa, ela continuou:  Pena que esses perfumes custem to caro, padre. E pena que eu no possa mais comprar minhas roupas de baixo como vinha fazendo at hoje. 



Antes que o padre pudesse reagir, pudesse protestar ou simplesmente se levantar para ir embora, ela abriu a blusa, mostrandolhe o suti, enquanto dizia: 



 Veja, padre... No  bonito? No  uma pena que eu no possa mais comprar outros assim? 



O pobre sacerdote estava petrificado. No sabia se fechava os olhos ou se os mantinha abertos, no sabia sequer se conseguiria juntar foras suficientes para se 
erguer daquele sof e sair dali em desabalada carreira. 



Como se no bastasse, Jeanne soltou a presilha do suti, deixando os seios livres, lindos, os mamilos castanhos pontudos, como se quisessem furar os olhos do padre 
Rafael. 



 Ou ser que os prefere assim, padre...? Livres... Soltos... Rebeldes e tentadores...? 



Era demais para o pobre homem... 



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Depois de mais de quinze anos de abstinncia absoluta, ele pensava que j estivesse imune a esse tipo de tentao... Porm, descobriu da maneira mais dolorosa que 
o instinto animal no  to facilmente debelado. 



Sentiu aumentar o tremor que j o vinha acometendo, sentiu algo semelhante a um fogo subindo de suas entranhas e querendo explodir de dentro de seu corpo. 



Agarrou Jeanne, acariciou seus seios e, alucinado, completamente fora de si, tentou livr- la do restante das roupas. 



Mas Jeanne fugiu. Com um repelo, afastou- se do padre e, com um sorriso maldoso, disse: 



 No, meu amigo... No por uma bengala de po e uma bola de queijo... 



Padre Rafael compreendeu o que ela estava querendo dizer. Envergonhado, revoltado contra si mesmo, ele respirou fundo e, em passos apressados, dirigiu- se para a 
porta. 



Talvez quisesse dizer uma poro de coisas para aquela mulher, talvez at a esbofeteasse mas... 



A culpa era muito mais dele mesmo... Sabia que a provocara, que usara muitas e muitas vezes palavras de duplo sentido quando se dirigira a Jeanne. 



Era o seu jeito, o que poderia fazer?! Ali estava o resultado... Com certeza, aquela mulher pensara que ele, como proco, tivesse acesso ao dinheiro da igreja... 



Padre Rafael segurou a maaneta da porta, tentou em vo abri- la... Estava trancada e Jeanne, segurando a chave, falou: 



 Pode ir, padre... Mas sei que vai para sua cama pensando no que aconteceu... Pensando no que perdeu... 



******* Seria pouco mais de uma hora da madrugada e padre Rafael ainda no tinha ido para a cama. 



Chegara  casa paroquial, ajoelhara- se para rezar, para pedir perdo a Deus por ter sucumbido  tentao mas nem mesmo isso conseguiu fazer. Seus pensamentos no 
se afastavam daquela imagem, no lograva tirar da mente a lembrana do contato de seus lbios com aqueles mamilos trgidos, com aqueles seios palpitantes, frementes 
de 



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desejo, prometendo um prazer indizvel... Um prazer que ele pensava j ter esquecido mas que, de repente, ressurgia em sua memria e em seu corpo to vvido, to 
concreto. 



Levantou- se, como um autmato, caminhou at sua escrivaninha e apanhou de uma das gavetas o envelope onde guardava o dinheiro da parquia. 



Segurando com as duas mos o envelope, atravessou o Largo de Santa Ceclia e entrou no prdio de Jeanne. 



Da janela da sala, ela presenciou a cena e sorriu. Mais uma vez, Sat tinha vencido. O padre cara na armadilha e Jeanne apenas se surpreendia com a facilidade com 
que isso acontecera. 



Abriu a porta para receb- lo vestida num neglig to leve que era quase transparente, deixando entrever suas curvas, mostrando toda a sua sensualidade... 



 Eu sabia que voc iria voltar, Rafael  falou ela, beijando- o  Sabia que no deixaria uma mulher a ver navios... 



 Eu a quero  falou o padre  Eu a quero como jamais quis qualquer outra coisa em minha vida... 



Jeanne apanhou o envelope e guardou- o numa gaveta de sua mesa de cabeceira, trancando- a em seguida. 



Depois, puxando o padre para a cama, ela disse:  Vamos... Tire essa batina... Acho que no fica bem estar usando roupas para o que vamos fazer agora... E, ainda 
mais quando so roupas clericais, no acha? 



******* Padre Rafael deixou o apartamento de Jeanne um pouco antes do amanhecer. 



Ele no se sentia bem... Sabia o que fizera, sabia que pecara mas, o pior de tudo era ter a certeza de que jamais poderia continuar a viver sem aquela mulher. 



No voltou para a casa paroquial. Como um sonmbulo, ele caminhou ao longo da Rua das Palmeiras, atravessou o Largo do Arouche e foi para a Praa da Repblica. 



Sentou num banco em frente ao Caetano de Campos, ali se deixou ficar por quase uma hora e, depois, caminhou ao longo da Baro de Itapetininga at o Viaduto do Ch. 



Olhou para baixo. Ergueu a cabea para o cu e, em seguida, saltou. 



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CAPTULO XIV 



Jeanne no deixou de ficar impressionada com a morte do padre, publicada em todos os jornais, assunto obrigatrio em todas as conversas. 



Porm, para ela, era apenas a confirmao de que, mais uma vez, havia quitado sua dvida com o Prncipe das Trevas. 



 Agora  pensou Jeanne  S tenho de esperar que ele cumpra a sua parte no pacto... 



No precisou esperar muito. Naquela mesma tarde, um senhor veio procur- la com uma pasta de couro na mo, dizendo- lhe que recebera ordens para lhe trazer algumas 
coisas. 



Desconfiada, Jeanne no quis deix- lo entrar mas o homem, com um sorriso, mostrou suas credenciais e explicou: 



 Foi o doutor Toms Camargo que me enviou aqui. Jeanne franziu as sobrancelhas e, depois de um esforo de memria, lembrou- se do empresrio que tinha sido o seu 
primeiro cliente 



a bordo do navio que a trouxera para o Brasil. Abriu um sorriso e afastou- se da porta para que o visitante pudesse entrar, enquanto este dizia: 



 O doutor Toms acaba de ser nomeado pelo Governo como interventor no Banco de Crdito e Comrcio. E, como sabia que a senhora tinha conta l, achou que ficaria 
contente em ser a primeira a receber a devoluo de suas economias... 



Baixando a voz, acrescentou:  A primeira e provavelmente a ltima... Logo depois de ter assinado a ordem de pagamento, o Governo mandou paralisar todas as operaes 
do banco... Ningum mais vai receber um s tosto por um bom tempo! 



Jeanne olhou maravilhada para as cdulas novas que o homem tirava de dentro da pasta e, depois de contar e conferir tudo, ele disse: 



 O doutor Toms pediu- me para avis- la que vir esta noite fazer uma visita para a senhora. Pediu- me que lhe dissesse para esper- lo. 



Jeanne fez um sinal afirmativo com a cabea e falou:  Pois diga ao senhor Toms que eu estarei  sua espera... Esta noite ou qualquer outra que ele queira. 



Depois que o emissrio de Toms Camargo foi embora, Jeanne sentiu vontade de danar de alegria. 



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Parecia mentira o que estava acontecendo! As luzes se acendiam de repente, tudo ficava claro... E ela se enchia de esperanas. 



 Realmente  disse Jeanne em voz alta  O Prncipe das Trevas  muito poderoso! 



Nesse instante, Jeanne escutou uma risada e no momento seguinte, uma voz lhe disse: 



  muito bom que voc saiba disso, Jeanne! Assim, jamais vai tentar me passar para trs! Sabe que se eu quiser... 



Dominando o susto e o medo que sempre sentia quando esses fenmenos ocorriam, Jeanne falou: 



 No pretendo pass- lo para trs, Prncipe das Trevas! Mas pode deixar que eu fao questo que voc cumpra tudo o que me prometeu. E, por enquanto, apenas recebi 
o meu dinheiro de volta. Isso no  tudo, no  verdade? 



Mais uma vez, Sat riu. Ao mesmo tempo que um horrvel cheiro de enxofre invadia a sala, ele falou: 



 No, Jeanne... Isso no  tudo. Voc ainda ter, daqui a pouco, provas concretas de meu poder. 



Jeanne lembrou, de repente, da conversa que tivera com Regina ao telefone. Mais uma vez, sentiu um dio mortal por ela e disse: 



 H uma mulher que me magoou... Que me humilhou! E eu quero que voc a castigue! Creio que ela merece uma punio para aprender a no se fazer de superior aos outros! 



Sat respondeu, a voz muito profunda:  Voc mesma far isso, Jeanne. J se esqueceu que tem poderes? J esqueceu que pode fazer muita coisa com a Magia Negra? 



 Mas eu no sei nada sobre isso!  protestou ela  Nem sequer cheguei a ser iniciada como feiticeira! 



A voz de Sat soou, severa:  Voc tem um pacto com o Prncipe das Trevas, Jeanne.  mais do que natural que faa alguns... feitios! E voc sabe muito bem como 
fazlos... Basta que apanhe aquele livro velho que trouxe do bangal de Gabrielle! 



Assim dizendo, Sat riu mais uma vez e silenciou. Nesse momento, Serafina surgiu na sala perguntando:  Com quem a senhora estava falando, dona Jeanne? Jeanne olhou 
espantada para a empregada e disse:  Com ningum, ora essa! Ficou louca? Est ouvindo vozes? Serafina fez uma expresso de dvida e, farejando o ar como um co 
sabujo, comentou: 



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 Mas que cheiro de enxofre... At parece que um Exu baixou nesta sala! 



Jeanne no entendeu muito bem o que a empregada queria dizer com aquilo mas percebeu que o melhor a fazer era mudar rapidamente de assunto e, quase rspida, disse: 



 Terei uma visita importante esta noite, Serafina... Por isso, gostaria que preparasse uns salgadinhos e uma torta de mas... Se no me engano era esse doce que 
Toms disse preferir. 



****** Enquanto esperava a chegada de Toms Camargo, Jeanne resolveu seguir o conselho de Sat e, apanhando entre seus guardados o velho livro de Gabrielle, abriu- 
o ao acaso, sem a menor idia de onde comear a procurar os feitios que poderia fazer para prejudicar Regina. 



Sorriu ao ver que a mo do Prncipe das Trevas estava presente: o livro se abriu exatamente na pgina certa. Leu o texto com toda a ateno e, com um sorriso maldoso 
nos lbios, ps- se em ao. 



Trancou- se em seu quarto pois no queria que a empregada aparecesse e a apanhasse com a mo na massa, apanhou uma folha de papel e uma tesoura e recortou um boneco 
de saias, mentalizando enquanto realizava esse trabalho, o nome e a fisionomia de Regina. Em seguida, acendeu uma vela e aproximou o boneco da chama. Quando ele 
comeou a queimar, ela disse: 



 A ele que castiga, a ele que tem o poder, a ele que  o Senhor do Mal, a ele e a todos os seus sditos... Levai a dor para essa maldita! 



Precisamente nesse instante, Jeanne escutou um trovo. Ergueu a cabea e olhou pela janela, para o dia que terminava, claro, lmpido, sem uma s nuvem no cu. 



Sorriu. Sabia que no tinha sido um trovo, mas to somente o sinal enviado por Sat para lhe dizer que estaria propiciando o castigo para Regina. 



Jeanne recolheu as cinzas que restaram do boneco, apagou a vela e atirou tudo pela janela. 



Poderia dormir tranquila, aquela noite... Tinha a certeza de que pela manh, receberia notcias da mulher. E era mais do que evidente que no seriam notcia s das 
melhores. 



Com toda a calma, comeou a se despir. Queria tomar um banho e se perfumar, queria estar linda e 



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desejvel para quando Toms chegasse. Jeanne achava que, depois do Prncipe das Trevas, se havia algum que merecesse um prmio, um sinal de gratido, esse algum 
tinha de ser Toms Camargo. 



E ela tinha certeza de poder premi- lo em grande estilo, sabia muito bem que poderia faz- lo ficar mais do que satisfeito. 



******* J passava de dez horas da noite quando Toms chegou. Estava sorridente, parecia extremamente feliz e, depois de beijar Jeanne como somente os apaixonados 
sabem fazer, ele perguntou: 



 E ento? Ficou satisfeita com a surpresa?  Mas  claro, querido  respondeu a mulher  Se voc soubesse como eu me afligi desde que o Banco fechou... 



Ajudando- o a tirar o palet, Jeanne completou:  Mas eu teria ficado tranquila se soubesse que voc seria nomeado interventor... Tenho certeza que jamais me deixaria 
na mo! 



Aceitando o drinque que Jeanne preparara para ele, Toms falou:  Nem eu mesmo sabia dessa deciso do Governo. Fui apanhado de surpresa com essa nomeao. 



Abriu um sorriso, apanhou um salgadinho que Serafina viera servir e murmurou: 



 So coisas inexplicveis, Jeanne... Quando cheguei ao Banco, pela manh, nem tinha idia do que deveria fazer. Tudo estava uma confuso infernal, ningum entendia 
ningum, o povo querendo entrar ainda que  fora e a Polcia contendo as pessoas  custa de cassetetes. 



Tomou um gole da bebida e continuou:  E eu estava ali dentro, sem jamais ter sido banqueiro, sem ter a menor experincia de administrao de uma casa bancria, 
ainda por cima, uma casa bancria falida. 



Sorriu e disse:  Mais para no ficar sem fazer nada, mais para dar uma satisfao aos funcionrios que ali estavam, aflitos e ansiosos, pedi para que me levassem 
ao arquivo de fichas de correntistas. Abri uma gaveta e a primeira ficha que apanhei, foi justamente a sua... 



Ergueu os ombros e arrematou:   claro que mandei devolver seu dinheiro. Encontrei a desculpa perfeita, ali na ficha estava escrito que voc no tem emprego e  
viva. No poderia ser mais perfeito! 



Jeanne franziu as sobrancelhas, intrigada. Ela se lembrava muito 



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bem de ter marcado como profisso, artista plstica e que assinalara solteira como estado civil... 



 Mas eu...  comeou a dizer. Nesse momento, olhou para Toms... Empalideceu... Toms tinha os lbios finos, maldosos... Os olhos, de repente tinham se transformado 
em duas brasas, quentes, penetrantes... 



Ele riu.  Como eu lhe disse, Jeanne... O Prncipe das Trevas pode qualquer coisa... At mesmo tomar o lugar de seu amante! 



Tocou o brao de Jeanne... Ela sentiu o calor de sua mo, sentiu um contato que transcendia o simples toque fsico. 



Jeanne tinha certeza de que Sat a tocava dentro da alma, que no era apenas seu corpo que o sentia, mas todo o seu ser, fsico e metafsico, corporal e espiritual. 



Foi dominada por uma excitao incontrolvel, por um desejo to violento que ela aceitaria morrer naquele instante apenas para poder se satisfazer... 



O Prncipe das Trevas ergueu- a nos braos como se ela fosse uma pluma e, flutuando no ar, sem tocar o cho  e Jeanne podia ter certeza disso pois no sentia os 
passos que ele dava  levou- a para o quarto. 



Lenta e calmamente, ele comeou a despi- la. Depois, com um gesto, sem tocar no comutador, ele apagou a luz. 



Contudo, o quarto continuava claro, iluminado por uma luz avermelhada que parecia emanar do prprio Sat... 



Ele estava nu... Jeanne no o vira se despir, mas ele estava nu. Era maravilhoso, ela jamais vira um corpo to perfeito, to bonito, to bem proporcionado. 



 No pensei que o Demnio pudesse ser to belo  murmurou, enquanto sentia suas mos ardentes deslizarem por seu corpo  Sempre pensei que o Demnio fosse a expresso 
do horror...! 



Com uma risada, Sat replicou:  Voc se esquece que no Gnesis, eu era um anjo chamado Lcifer... E que era o mais belo dos anjos! Foi por isso que Ele me expulsou 
do Cu. Por medo e inveja de minha beleza! 



Mas Jeanne no estava preocupada com explicaes. Ela queria que ele a possusse, j comeava a sentir o prazer, j comeava a experimentar as delcias do prazer 
absoluto e queria chegar ao fim... 



Sim... Dessa vez ela sabia que conseguiria. Com Sat, ela teria a satisfao que lhe era negada com qualquer outro... 



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CAPTULO XV 



Jeanne acordou e viu, ao seu lado, Toms Camargo dormindo como um anjo. 



Sorriu. Lembrava- se muito bem do momento em que Sat deixara seu corpo, a iluminao avermelhada desaparecendo e o quarto mergulhando na mais perfeita escurido 
enquanto Jeanne ainda sentia os espasmos provocados pelo prazer intenso que tivera. 



Olhou o relgio sobre a mesinha de cabeceira e constatou que j passava muito de quatro horas da madrugada. 



Hesitou entre acordar Toms ou no. Ele estava dormindo to bem, to relaxado e satisfeito que sentiu pena de interromper- lhe o sono. Com todo o cuidado, levantou- 
se e foi at a cozinha pois, aps tudo o que sentira durante a noite, seus lbios estavam ressequidos e Jeanne estava com muita sede. 



Lembrou- se j com saudades e novamente cheia de desejo, das delcias que Sat lhe proporcionara e no pode deixar de pensar que haveria de querer muitas outras 
noites como aquela. 



Tomou quase uma jarra de gua e foi para a sala onde se deixou cair no sof, sentindo as pernas bambas, os joelhos quase se dobrando tal o estado de exausto em 
que se encontrava. 



Reclinando a cabea para trs, murmurou:  At que Sat no foi muito exigente... O que senti hoje, apenas pela alma de um padre... 



Sorriu consigo mesma, pensando:  Poderia entregar- lhe um convento inteiro... Olhou para fora, para o Largo de Santa Ceclia  luz mortia da madrugada e perguntou- 
se: 



 E agora? Que eu vou fazer? O que ser que Sat reservou para mim? 



Nesse momento, ela ouviu a voz do Prncipe das Trevas bem junto ao seu ouvido: 



 Voc ficar com Toms... Ele poder lhe dar tudo o que deseja 



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e, por sua vez, voc ficar devendo alguma coisa para mim. Alguma coisa que eu vou cobrar mais tarde e, ento, voc ficar sabendo de que se trata... 



Sat estava to perto dela que podia sentir o seu hlito quente no pescoo, causando- lhe nova onda de desejo. 



Voltou a cabea vivamente para ver o Prncipe das Trevas mas... No havia ningum ali.  No, Jeanne  disse o Demnio  Por hoje, chega... Para ter mais, voc ter 
de fazer outras coisas, ter de se desincumbir de novas tarefas. 



 Mas isso no est certo!  protestou ela  Preciso de voc! Sabe muito bem que s em seus braos  que eu consigo... 



Sat interrompeu- a, dizendo com energia:  Ter de aceitar as minhas condies, Jeanne... A menos que queira voltar a ficar sem nada e sem ningum! 



Jeanne balanou a cabea negativamente e murmurou, com medo:  No... Isso No... No quero passar outra vez por uma aflio igual! 



Sat riu aquela sua gargalhada sarcstica e apavorante.  Isso no acontecer, Jeanne  falou  Desde que faa as coisas como eu mandar. E desde que seja uma verdadeira 
discpula do Prncipe das Trevas! 



 Isso, eu j sou, no acha?  protestou Jeanne com irritao  E creio que j provei o suficiente... 



Sat ignorou o comentrio e disse:  Quando o dia amanhecer voc ter mais uma prova de meu poder. E quando a noite chegar, ter outra. Ver com seus prprios olhos 
que o poder do Prncipe das Trevas  ilimitado! 



Riu, mais uma vez e concluiu:  Hoje,  meia- noite, voc render uma homenagem a mim. Ir a um endereo que eu deixarei para voc e, uma vez l, saber exatamente 
o que fazer. 



Ele ficou em silncio por alguns instantes mas Jeanne sabia que no tinha ido embora. Sentia- o ali, bem prximo, tinha conscincia de que ele ainda tinha o que 
dizer. 



Estava certa. O Prncipe das Trevas sussurrou ao seu ouvido:  No ser muito fcil, Jeanne. Voc ter de passar por muitas provas... Mas, quando chegar a ser uma 
autntica discpula de Sat, com certeza ter tantos poderes que poder at dominar o mundo...
Jeanne ia dizendo que sua ambio no chegava a esse ponto mas no conseguiu. Com um rudo surdo e exalando um horrvel cheiro cido que ela no conseguiu definir
o que poderia ser, Sat desapareceu.



Jeanne se viu outra vez sozinha, olhando pela janela, vendo o dia que comeava a clarear. 



Ouviu um rudo atrs de si e, voltando- se, encontrou Toms que a olhava com um sorriso. 



 Acho que foi definitivo  murmurou ele  Voc  a mulher perfeita para mim... 



Jeanne caminhou at onde o homem estava e, enlaando- o com seus braos, falou: 



 Voc foi maravilhoso, querido... Fitando- o nos olhos, acrescentou:  E no estou dizendo isso apenas para agrad- lo, como talvez fizesse em outra ocasio. Voc 
realmente me fez sentir coisas que eu jamais havia sentido antes! 



Toms Camargo balanou a cabea em sinal de dvida e, depois de alguns instantes, falou: 



 No quero saber se voc est sendo sincera ou no, Jeanne. Sei que eu jamais fui to feliz quanto esta noite. E acho que no serei mais capaz de me deitar com 
outra mulher sem me lembrar de voc, sem lamentar o fato de no ser voc a estar comigo... 



Jeanne lembrou das palavras de Sat e sorriu consigo mesma enquanto dizia: 



 H uma maneira muito simples para que isso no acontea, Toms... Basta que fique comigo... 



Toms no respondeu. Olhando o relgio, falou:  Nem vou voltar para casa, hoje... No teria o que dizer para explicar minha ausncia durante toda a noite... Ser 
melhor dizer que tive de viajar. 



Ergueu os ombros e acrescentou:  De qualquer maneira, ser uma desculpa meramente formal. H muito que eu e Beatriz no temos mais nada em comum. Principalmente 
a cama! 



******* 



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Era pouco mais de nove horas da manh quando o telefone de Jeanne tocou. 



 Jeanne... Voc sabe me dizer o que aconteceu?  perguntou a voz de Hilda, uma senhora da alta sociedade e que j deixara muitas vezes bem claro que no conseguia 
suportar a presena de Jeanne  Ser que tem mais detalhes? 



A francesa no respondeu de imediato, to surpresa estava por receber aquele telefonema. Afinal, quando as duas se encontraram cerca de duas semanas atrs, Hilda 
fora at mesmo grosseira, dando as costas para a francesa vrias vezes durante uma reunio na manso dos Almeida Prado... 



 No, Hilda  disse Jeanne, em tom frio e seco  No sei o que aconteceu e nem sequer desconfio do que voc est falando. 



 Ora!  exclamou Hilda  Estou falando de Regina! E estou ligando para voc por que, como de ns era a que estava mais perto dela, a que estava encontrando com 
ela e com Roberto com mais frequncia, talvez soubesse de mais detalhes a respeito dessa tragdia... 



Imediatamente, Jeanne lembrou do que lhe dissera Sat e do que fizera com o boneco de papel. 



 Mas eu no estou sabendo de nada!  protestou  Ningum me disse coisa nenhuma! 



Fazendo voz ansiosa, tentando mostrar que se preocupava, que estava angustiada, indagou: 



 O que aconteceu com Regina? Diga- me, por favor! Houve uma pequena pausa do outro lado da linha e, ento, Hilda respondeu: 



 O casal morreu... Regina e Roberto esto mortos!  Mortos?!  fez Jeanne, sentindo um arrepio e com sincera surpresa pois no imaginava que o castigo imposto por 
Sat pudesse ser to violento  Mas como foi isso?! 



 Foram atropelados esta manh  explicou Hilda  Eles saram de casa bem cedo, foram juntos  farmcia pois Roberto estava, desde ontem  noite, um pouco doente. 
No viram o caminho de entregas... Foram alcanados j quando estavam a menos de dois metros da calada. Morreram na hora. Esmagamento de crnio, falou o mdico... 



Hilda ainda disse mais algumas coisas, mais algumas das banalidades que costumam conversar as cocotas da sociedade. Banalidades que no tm hora e nem lugar para 
serem discutidas e que surgem na conversa mesmo depois de uma notcia como aquela. Jeanne nem mesmo prestou ateno s palavras da amiga. Estava impressionada 



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com o que acabara de acontecer e comeava sinceramente a ter medo do que poderia fazer com a ajuda de Sat. Porm, sua mente ambiciosa e objetivam, enquanto Hilda 
matraqueava do outro lado a respeito de um novo cabeleireiro que tinha surgido na cidade e a respeito de um escndalo qualquer que movimentava os altos crculos, 
j estava pensando na melhor maneira de tirar proveito de tudo aquilo. 



E, quando finalmente Hilda desligou o aparelho, ela j tinha uma boa idia do que fazer para se afirmar na sociedade, e no apenas como uma mulher bonita, casada 
ou amasiada com um homem rico... 



No... Ela seria famosa... Seria respeitada tambm por ela mesma, seria procurada por muitos e, evidentemente, receberia muito dinheiro... Faria uma fortuna respeitvel 
e slida! 



Mal se afastara do telefone, este tocou novamente. Era Toms que ligava do Banco, dizendo que ainda no se convencera de que a noite tinha sido real, de que no 
tinha sido apenas um sonho. 



 Vou precisar ter certeza  disse ele  Vou querer tudo outra vez... 



 Sua mulher vai desconfiar...  replicou Jeanne com um tom de malcia na voz. 



 No estou me incomodando mais, querida  falou Toms  Inclusive, j falei com um amigo advogado. Ele vai comear a tomar as providncias necessrias para a minha 
separao. Nem vou voltar para casa, hoje... 



Jeanne no teve o que dizer e Toms, com uma risada, arrematou:  Por isso, hoje estarei sem teto para me abrigar. Creio que  no mnimo uma obrigao de amiga voc 
me dar pousada em sua casa... 



Jeanne riu, disse- lhe que estaria esperando por ele com ansiedade e, desligando o telefone, lembrou- se que,  meia- noite, teria que ir a algum lugar... 



 Mas onde?  perguntou- se  O Prncipe das Trevas no me disse onde deveria ir... 



Afastou- se em direo  cozinha e, ao passar pela mesa da sala de jantar, viu sobre ela, um pedao de papel. 



Era um papel estranho, amarelado, grosso, parecendo um pedao de uma pgina de livro velho. 



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Apanhou- o e sentiu que ele estava quente, como se sado do forno naquele instante. 



No era preciso mais do que isso para que Jeanne adivinhasse que era o endereo que Sat mencionara. 



As palavras estavam escritas com uma caligrafia rebuscada, com uma tinta acastanhada que Jeanne, imediatamente, percebeu tratar- se de sangue. 



Com horror, ela segurou o pedao de papel pelas beiradas de maneira a no tocar nas letras que ali havia, e leu: 



 Avenida Anglica, 1876... Balanando afirmativamente a cabea, murmurou:  Ento  esse o lugar... No  muito longe daqui. O nico problema  que Toms estar 
em casa e, com certeza, no vai achar graa nenhuma em me ver sair a essa hora... 



Dando de ombros, finalizou:  Ora... No tem importncia nenhuma. Afinal,  ele que est querendo... E Sat disse que eu ficaria com Toms. No  necessrio, ento, 
que eu me preocupe! 



******* Toms chegou muito mais cedo do que Jeanne poderia imaginar. 



Ainda no soara as seis horas da tarde e ele j estava  porta do apartamento, com um ramalhete de flores e uma caixa de bombons, sorrindo para a mulher e dizendo: 



 Ns vamos jantar fora, querida. Iremos a um restaurante bem bonito, comeremos alguma coisa bem gostosa e, depois... 



Riu, beijou os lbios de Jeanne e completou:  Depois, a sobremesa, eu terei aqui em casa. Jeanne sorriu, recebeu as flores e os bombons, retribuiu com um beijo 
sobre os lbios de Toms e falou: 



 Voc est me acostumando mal... E alm disso, essa histria de vir aqui duas noites seguidas... Eu posso no deix- lo ir embora, sabia? 



 Pois  isso mesmo que eu estou querendo, Jeanne  retrucou Toms, muito srio  E preciso saber se voc me aceita... Como seu companheiro de vida! 



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Jeanne nem podia acreditar que fosse verdade. Era certo que ela tinha sido avisada e estava sabendo que isso fatalmente aconteceria uma vez que Sat assim o dissera. 
Mas, a rapidez com que os fatos estavam se desenrolando, estava deixando a mulher at mesmo temerosa. 



Como, ainda recolhida aos seus pensamentos e muda pelo espanto, Jeanne no dissesse nada, Toms insistiu: 



 Por favor, Jeanne... Diga que me aceita! No me rejeite! E, segurando as mos da francesa, acrescentou:  Sei que voc no me ama... Isso  mais do que natural, 
afinal de contas ns nos conhecemos numa situao at um certo ponto constrangedora. Admito que lhe seja difcil dizer que me ama e acho mesmo que voc tem todo 
o direito de imaginar que eu esteja mentindo... 



Abraou- a, respirou aliviado ao sentir que ela retribua o carinho e continuou: 



 Mas eu a amo, Jeanne! Tenho certeza de que a amo e sei que faria qualquer coisa por voc! Deixe- me tentar! Serei capaz de faz- la feliz e acredito sinceramente 
que voc vai, com o tempo, aprender a me amar e no vai se arrepender por me dar esta chance! 



Para Jeanne, o que Toms Camargo estava dizendo era a confirmao dos poderes de Sat e o degrau que lhe faltava galgar para que fosse finalmente aceita no seio 
da sociedade de So 



Paulo. O casamento, mesmo que apenas de fato e no de direito, com um homem da posio de Toms, seria a consagrao e era mais do que evidente que ela no perderia 
essa oportunidade. Ainda mais que seu Mestre dissera que assim seria! Porm, por experincia, Jeanne sabia que  sempre conveniente se fazer de difcil e, afastando- 
se de Toms, murmurou: 



 No sei, querido... Sinceramente... No sei! Toms fez uma expresso de desespero e, antes que ele pudesse dizer alguma coisa, Jeanne continuou: 



 Uma vida a dois  um pouco diferente de encontros fortuitos, no concorda? Ns teremos de partilhar tudo, cada momento de nossa existncia e isso no poder ser 
apenas por algum tempo. No quero me prender a um homem que, dentro de alguns meses ou talvez mesmo dentro de um ou dois anos, resolva ir embora com outra, deixando- 
me a ver navios. 



Com um sorriso frio, ela acrescentou:  Voc sabe muito bem como eu sou, o que espero da vida e de que maneira sou capaz de lutar para atingir meus objetivos... 
Sabe 



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tambm que eu tenho que aproveitar agora, enquanto sou moa e bonita. Daqui a dez anos, muito provavelmente j no mais 



despertarei nos homens os mesmos arroubos de desejo e, ento, terei de estar estabilizada economicamente para no ter de depender da caridade de ningum. 



 Mas o que voc est dizendo  um absurdo!  protestou Toms  Da maneira como fala, at parece que eu vou abandon- la dentro de uma semana, o que no  absolutamente 
verdade! 



 No digo dentro de uma semana, Toms  replicou Jeanne com firmeza  Mas no h nada que me garanta que voc no me vai dar um pontap quando eu estiver mais velha 
e quando o seu interesse por mim tiver diminudo. 



Toms refletiu. Comeava a compreender o que ela estava querendo dizer e isso at poderia ser considerado como natural. As mulheres so, por excelncia, inseguras 
e, quando o relacionamento com um homem  um tanto quanto instvel ou mesmo frivel, como no caso de um simples amasiamento, elas se tornam ainda mais receosas e 
desconfiadas. 



Confirmando as suposies de Toms, Jeanne disse:  Voc  um homem casado. A lei brasileira no admite que voc se case novamente a menos que sua esposa venha a 
falecer. E eu no estou querendo me unir a ningum nessas condies. 



 Podemos nos casar, Jeanne  tornou Toms, angustiado  No  obrigatrio que casemos no Brasil! Poderemos nos casar em qualquer outro pas do mundo onde o desquite 
brasileiro seja reconhecido! 



Impaciente, ele acrescentou:  E no sei que segurana esse casamento possa lhe trazer, Jeanne... Sou casado com a Beatriz no civil e no religioso e nem por isso, 
vou continuar com ela! 



Pelo tom de voz de Toms, Jeanne percebeu que era chegada a hora de mostrar que cedia um pouco e que estava disposta a lhe dar alguma esperana. Assim, abrindo um 
sorriso e beijando- o, ela sussurrou: 



 J sofri tanto, querido... Tenho medo de sofrer outra vez! Por isso estou to desconfiada... 



Era o que Toms estava querendo ouvir. Apertando- a contra si, ele disse:  Juro que voc no vai se arrepender, Jeanne... Muito pelo contrrio, vai ganhar muito 
me aceitando! 



Obrigou- a a sentar ao seu lado no sof e prosseguiu: 



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 Para comear, voc ser s minha... E eu farei de tudo para tornar a sua vida um verdadeiro mar de rosas! 



 Sem espinhos?  perguntou Jeanne, beijando- o.  Sem espinhos!  exclamou Toms  Juro que no haver um s espinho! 



 Nesse caso  falou Jeanne, muito sria  Voc vai ter de comear assumindo a sua nova situao. Vai sair de sua casa em definitivo, agora mesmo! 



Toms olhou para ela espantado e Jeanne arrematou:  Voc ir buscar suas coisas e vir para c de maneira definitiva, est bem? Se est dizendo que no medir esforos 
e nem sacrifcio s para me contentar e para poder me ter, comece por a... Quero as coisas bem feitas desde o incio. No quero que voc passe uma noite aqui comigo 
e depois volte para sua casa ficar alguns dias at que a situao com Beatriz se resolva! Se decidiu que vai abandon- la, ento, abandone- a de uma vez! 



Toms suspirou.  Pensei que fosse pedir alguma coisa mais difcil... Mas, se  s isso... E se voc no se incomoda de esperar at perto de uma e meia ou duas horas 
da manh... 



Era o que Jeanne precisava. Se Toms levasse tanto tempo assim para ir at sua casa e voltar, ela teria mais do que tempo para ir ao endereo que o Prncipe das 
Trevas lhe dera... 



 No se preocupe comigo, querido... Eu estarei esperando por voc e aproveitarei para fazer uma visita. Fao questo de dizer para essa amiga que finalmente encontrei 
a minha segunda metade... 



******* Toms seguiu para sua casa depois de deixar Jeanne na Avenida Anglica, um pouco antes do nmero 1876 onde ela teria de ir. 



O endereo que lhe fora deixado por Sat, era um casaro meio abandonado de cerca de vinte anos atrs e que, pelo mau uso e pela falta de conservao, estava em 
petio de misria, com um assustador aspecto de mal- assombrado. 



Por sorte, havia um poste de iluminao bem em frente  casa mas, mesmo assim, Jeanne no conseguiu evitar um calafrio ao passar o porto enferrujado e, enquanto 
caminhava por uma pequena alameda de azalas que se misturavam com o mato do jardim, ela pensou: 



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 Eu nunca entraria num lugar assim por minha prpria vontade... Ainda mais  meia- noite! 



Caminhou cerca de vinte passos e estacou diante de uma grande porta envidraada. 



Jeanne pode ver que havia luz no interior do casaro, uma luz muito avermelhada para ser proveniente de uma lmpada eltrica mas, ao mesmo tempo, fixa e brilhante 
demais para ser de uma vela ou lamparina. 



Levou a mo  maaneta, uma maaneta de metal amarelo que combinava bem com os desenhos das ferragens da porta e com os do vidro martelado, espesso e bisot, com 
que ela era guarnecida. 



Ela podia ver que aquela casa tinha sido muito bem construda, o capricho do primeiro proprietrio estava presente nos menores detalhes como por exemplo, nos entalhes 
feitos nas duas colunatas em estilo gtico que ornamentavam os lados do portal. 



Jeanne j ia abrindo a porta quando esta, sem que ningum a tocasse, escancarou- se. 



A francesa deu um passo para trs, cheia de medo. Controlandose, a mulher avanou, passou pela porta e se viu no interior de uma sala ampla, sem nenhum mvel, sem 
nenhuma lmpada acesa  Jeanne podia ver os bocais vazios  e que, no entanto, estava clara, perfeitamente iluminada por uma luz avermelhada que parecia pairar no 
ambiente sem ter uma fonte determinada. 



Andou mais um pouco, atravessou outra porta, esta de madeira entalhada e surpreendeu- se ao ver que os entalhes formavam uma cena de feitiaria de alguma tribo indgena 
ou africana. Havia um grande caldeiro e homens vestidos com tangas e usando mscaras, danavam ao redor de uma fogueira gigantesca. Do outro lado dessa porta entalhada, 
havia uma outra sala, um pouco menor do que a primeira e em cujo centro Jeanne viu uma mesa redonda coberta com uma toalha de duas cores: o centro em negro e as 
beiradas em vermelho vivo. Sobre a mesa, um gato absolutamente preto movimentava o rabo incessantemente enquanto olhava para Jeanne com olhos que no escondiam a 
maldade e a desconfiana. 



Jeanne, mais uma vez, sentiu um calafrio e teve vontade de dar as costas ao gato e sair correndo daquele lugar ttrico. 



Mas... Ela sabia que precisava resistir. Sat avisara- a de que no seria fcil e, talvez, exatamente aquele tipo de cenrio fosse o teste que teria de vencer. 



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O gato se espreguiou, abriu a boca num bocejo indolente e, de um salto, foi para o cho, desaparecendo sem que Jeanne escutasse o menor som. 



Ela ficou ali, imvel feito uma esttua, sozinha, esperando que o Mestre lhe desse um sinal qualquer, uma vez que ele dissera que ela saberia o que fazer. 



Notou que, aos poucos, a luminosidade avermelhada que reinava em toda a sala, ia ficando mais fraca e, ao mesmo tempo, ia se concentrando no lugar onde estava a 
mesa. 



No momento em que todo o ambiente ficou s escuras com exceo da mesa, Jeanne escutou um barulho que parecia o arrastar de correntes. 



O som se repetiu, incessantemente, por quase cinco minutos e, ento, transformou- se no ruflar de tambores e no rudo cadenciado da marcha de soldados. 



Sim... Era uma marcha de soldados... Durante a guerra, j que Jeanne podia distinguir claramente o ribombar dos canhes  distncia. 



Franziu as sobrancelhas, sem entender. O que Sat estava querendo dizer com aquela demonstrao? 



Ainda muito assustada, ela disse, em voz alta:  Prncipe das Trevas! O que quer de mim? Falou- me para vir aqui prestar- lhe uma homenagem e aqui estou! O que significam 
esses sons? A guerra est muito longe daqui! 



Nesse momento, o som da marcha militar cessou e a voz de Sat se fez ouvir: 



 A homenagem voc j prestou vindo at aqui, Jeanne... Era importante que aparecesse pois eu precisava de voc como modelo... Para que nosso pacto ficasse gravado 
em definitivo e num lugar onde jamais voc pudesse esquec- lo! 



Jeanne no entendeu o que as palavras de Sat estavam querendo dizer e ia abrindo a boca para perguntar- lhe alguma coisa sobre isso, quando o Demnio a interrompeu 
para falar: 



 Voc ouviu a marcha dos soldados. Esta  a primeira grande oportunidade que eu lhe dou. Voc vai poder falar ao seu companheiro que o Brasil entrar na guerra. 
Vai enviar tropas para l e, no navio americano General Mann, que dever deixar o Rio de Janeiro no dia 22 de setembro de 1944, viajar o soldado Augusto Santos, 
filho de Heitor Santos, scio de Toms. Esse rapaz vai morrer no navio, antes de chegar  Itlia e Heitor receber a notcia um ms depois. Ele ficar desesperado 
e ter um ataque cardaco. 



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Jeanne balanou a cabea afirmativamente e disse:  Devemos fazer alguma coisa para evitar que Augusto embarque, nesse caso... 



A voz de Sat soou irritada:  No! Muito pelo contrrio! Voc no deve comentar isso com ningum! Deve, isso sim, falar com Toms e induzi- lo a fazer um negcio 
com Heitor de maneira a poder ficar sozinho com a empresa. E este negcio aparecer nas mos de Toms por estes dias. Ele vacilar, dir que no deve faz- lo por 
uma questo de amizade mas, ser justamente a que voc dever interferir. Dever obrig- lo a realizar a transao e, depois, quando tudo der certo, ver que Toms 
vai se mostrar muito grato... 



Jeanne balbuciou algumas palavras concordando e, com voz trmula, indagou: 



 E o que vai querer em troca dessa oportunidade? Sat riu.  Voc saber mais tarde, Jeanne. Por enquanto, no se preocupe com isso. Quero, apenas que diga para 
Toms o que eu falei e quero que o mande instalar a porta de madeira desta casa em algum lugar de seu apartamento. 



No instante seguinte, Jeanne estava outra vez sozinha, s que na outra sala, olhando para a grande porta de madeira em que havia o entalhe da cena de feitiaria. 



Alguma coisa chamou sua ateno e ela observou com mais cuidado o desenho. No notara antes mas, no fundo do quadro entalhado na madeira, havia uma figura de mulher. 
Era uma figura lindssima e o seu rosto aparecia muito nitidamente. 



E era exatamente isso. Era o seu rosto! O rosto de Jeanne, maravilhosamente bem entalhado! Saindo para a rua, j entrando no automvel de Toms que, solcito, segurava 
a porta para que ela entrasse, ela precisou fechar os olhos por alguns instantes, procurando se acalmar. 



Tudo aquilo era to fantstico que Jeanne ainda no conseguira se acostumar direito. Para ela, s vezes, tudo parecia um sonho e tinha a impresso de que acordaria 
de um instante para o outro, ainda no bangal de Gabrielle em Auvergne ou, o que seria ainda pior, no quarto srdido que ocupara na casa de seus pais, na Rue de 
la Huchette... 



 E ento?  perguntou Toms  Como foi a visita? Jeanne respirou fundo antes de responder: 



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 Muito bem... Matilde ficou felicssima com a notcia de que ns dois vamos nos casar... 



Toms segurou a mo da mulher e, puxando- a mais para perto de si, falou: 



 Sim, querida... Ns vamos nos casar muito antes do que est imaginando. Mesmo porque no h a necessidade de um pedao de papel para que nos sintamos efetivamente 
casados! 



E, sem conseguir esconder uma certa decepo, finalizou:  Engraado... Beatriz aceitou com tanta naturalidade a notcia de nossa separao que chego at a pensar 
que era isso, justamente, o que ela estava querendo! 



******* No dia seguinte, depois de contar para Toms uma histria comprida a respeito de casas em demolio, Jeanne conseguiu convenclo de que uma certa porta era 
muitssimo bonita e ela gostaria de t- la ali no apartamento, fazendo a diviso entre a sala de jantar e o living. 



Toms concordou mas, com um sorriso, disse:  No vale a pena fazer reformas em um apartamento alugado, querida. Voc faria bem se fosse escolher um outro, para 
comprar... Quando tiver tomado a deciso, basta me telefonar e eu depositarei o dinheiro em sua conta. Depois, ns dois faremos a decorao, est bem assim? 



Antes que Jeanne pudesse protestar, ele acrescentou:  E  claro que voc far a compra em seu nome. Ser o meu presente de... noivado! 



Jeanne abriu um imenso sorriso. Beijou Toms com paixo e disse, ao seu ouvido:  Voc  maravilhoso, querido... Maravilhoso em todos os sentidos! E a cada momento 
que passo ao seu lado, mais e mais tenho certeza de que sou a mulher mais feliz deste mundo! 



Na semana seguinte Jeanne estava pessoalmente vendo dois pedreiros colocarem a porta entalhada entre a sala de estar e a biblioteca de um imenso apartamento que 
ela comprara  pagando  vista com o dinheiro de Toms  na rua Veiga Filho. 



 A senhora vai se assustar todos os dias com essas figuras...  comentou um dos pedreiros quando terminou o servio  So diablicas! 



 Voc est me ofendendo!  exclamou Jeanne  No v que eu estou a? 



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Um pouco sem jeito, o pedreiro olhou para o entalhe na madeira e, depois, sacudiu a cabea, dizendo: 



 No senhora... No h ningum aqui que se parea com uma mulher to bonita! 



Jeanne ia discutir, porm, achou melhor ficar quieta, fingir que tinha brincado. Afinal, a reao de Toms quando vira a figura, tinha sido exatamente a mesma... 
Ele no a achara entre as dezenas de pessoas entalhadas na madeira e, mesmo quando Jeanne apontara com o dedo a sua imagem, ele rira, dizendo que se ela fosse aquele 
ndio, com certeza, no estaria ali em sua companhia. 



 Vai ver, s eu  que me vejo... Eu e Sat e  isso o que interessa  pensou ela. 



******* Mudaram- se para o apartamento novo e, menos de um ms depois, quando Toms chegou do trabalho, Jeanne notou que alguma coisa no ia bem. 



 Voc est preocupado  disse ela ajudando- o a tirar o palet como sempre fazia  Quer que eu lhe prepare uma bebida? 



 Sim  respondeu Toms  Acho que preciso de uma boa dose para poder pensar melhor... 



Observando Jeanne pegar os copos e a garrafa, Toms falou:  Heitor veio me propor um negcio. E eu no sei o que fazer... Jeanne teve um breve e quase imperceptvel 
estremecimento e, curiosa, ergueu os olhos para ele, indagando: 



 Heitor? O seu scio?  Ele mesmo  respondeu Toms  Somos amigos h muito tempo, desde que eu me formei no ginsio. Heitor  quase um pai para mim e eu acho que 
no devo aceitar a proposta... 



Sorrindo, sentando- se ao lado de Toms, Jeanne murmurou:  Bem, querido... Se voc me contar de que se trata e se achar que minha opinio vale alguma coisa, talvez 
eu possa ajud- lo... 



Toms beijou os lbios de Jeanne e disse:   claro que sua opinio tem valor, Jeanne... E  justamente por achar isso que eu estou comentando com voc. 



Tomou um gole de bebida e continuou:  Heitor  vivo, como sabe. J comentei isso com voc inmeras vezes. E tem um filho que adora a vida no campo. Augusto  filho 
nico e est acostumado a ter todas as suas 



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vontades satisfeitas pelo pai. E sua ltima idia  uma fazenda. Quer porque quer que o pai lhe compre uma fazenda na regio de Bauru. 



Deu uma risadinha e falou:  Heitor no sabe dizer no ao filho e autorizou- o a fechar um determinado negcio. S que Augusto, muito mais ambicioso do que cauteloso, 
comprou uma fazenda cerca de trs vezes maior e, portanto, mais cara do que o dinheiro de que Heitor poderia dispor agora... 



Jeanne o interrompeu, adivinhando:  E ele quer que voc empreste...  Isso mesmo!  exclamou Toms  Ele veio me pedir uma verdadeira fortuna emprestado! 



 Acha que ele poder pagar?  quis saber Jeanne.  Sem dvida. Heitor  um homem honesto e jamais deixaria de saldar um seu compromisso. 



Jeanne ergueu os ombros com fingida indiferena e murmurou:  Se tem confiana nele, empreste... Sorriu, beijou Toms e acrescentou:   claro... Se essa importncia 
no lhe fizer falta e se Heitor puder lhe dar alguma coisa como garantia. 



Toms olhou espantado para Jeanne e esta explicou:  Ns no somos imortais, querido... Como seres humanos, estamos sujeitos a uma poro de coisas... At mesmo 
 morte. No h nada que lhe diga que eu estarei viva daqui a meia hora, no  mesmo? 



Toms baixou a cabea, pensativo. Depois de esvaziar o copo, ele disse: 



 Foi isso mesmo que Heitor me falou. E chegou a trazer, j assinada a transferncia de suas quotas na empresa para mim. Disse- me que assim que liquidasse a dvida, 
eu poderia rasgar esse papel. 



Jeanne arregalou os olhos e ponderou:  Ora! Se ele mesmo tomou essa iniciativa... Por que voc no aceitaria? 



Impedindo Toms de contestar, ela arrematou:  Acho muito bonita essa histria de lealdade e de amizade... Mas, se voc pode responder por si prprio e at mesmo 
pelas atitudes de Heitor, ser que pode falar por Augusto? Por um menino mimado que pode, na falta do pai, resolver no pagar a dvida, simplesmente? 



Toms no teve o que dizer. Sabia que Jeanne estava com a razo e sabia que qualquer pessoa de bom senso diria que ele jamais deveria dar 



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o dinheiro  na realidade uma fortuna  sem a menor garantia. Sorriu, beijou carinhosamente Jeanne e, levantando- se foi at o telefone para avisar Heitor de que 
aceitava o negcio e que ele podia contar com a importncia que estava querendo na manh seguinte. 



Jeanne assistiu tudo aquilo com um sorriso nos lbios. Sabedora do desfecho final daquele episdio, ela no poderia fazer mais nada alm de sorrir. 



J tinha uma boa idia de como funcionava a empresa de Toms e de Heitor e sabia que a renda que ela proporcionava era assombrosa. Assim, se tudo acontecesse como 
previra Sat, dentro de pouco tempo Toms estaria ainda mais rico do que j era e, consequentemente, ela tambm. 



Em resumo, estaria realizando mais uma das metas que se impusera: ficar milionria. E, para isso, para conseguir chegar a esse objetivo, no poderia se incomodar 
com absolutamente nada! Se precisasse passar por cima de todos como uma verdadeira panzer de Rommel, ela no hesitaria. Mesmo que precisasse sempre da ajuda do Prncipe 
das Trevas e de seus poderes fabulosos. 



******* As previses de Sat estavam absolutamente corretas. O filho de Heitor foi convocado pela FEB e embarcou no General Mann, um dos navios americanos que deveriam 
levar os pracinhas brasileiros para a Itlia. 



Cerca de um ms depois que Augusto partira para a Europa, um telegrama chegou s mos do j deprimido Heitor dando conta de que seu filho morrera a bordo do General 
Mann, vtima de um acidente durante o treinamento para naufrgio. 



Heitor ficou abaladssimo. Durante trs dias, ele no conseguia dizer o que quer que fosse que tivesse nexo e, na manh do quarto dia, os empregados de sua casa 
encontraram- no morto na biblioteca, a cabea pendida para a frente, a lngua para fora, arroxeada, enorme.... 



 Foi um infarto  explicou Toms  O pobre Heitor no suportou o desgosto causado pela morte do filho... 



Toms ficou com a empresa, os parentes de Heitor ficaram com a fazenda que ele comprara para o filho e Jeanne ficou com fama de ser a mais sensata e sbia de todas 
as mulheres. 



******* 



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Uma semana depois de regularizada a situao da firma, Toms precisou viajar para o Rio de Janeiro a negcios e Jeanne no quis ir. Ela mesma no saberia explicar 
porque recusara o convite para acompanhar Toms, dera a desculpa de que no se encontrava bem disposta e que a viagem de avio acabaria por faz- la piorar. 



 Mas vou ficar mais de vinte dias fora  protestou Toms  Voc est querendo me matar de saudades... 



 Voc no morrer de saudades, querido... E eu, por minha vez, tambm no. aproveitarei para fazer algumas visitas pois voc no me deixa tempo para nada... E, 
quando voltar, ns dois estaremos ansiosos, cheios de saudades e de desejos... 



Maliciosa, arrematou:  Ser muito bom... s vezes, uma pequena separao s pode fazer bem... 



Muito sria, ela falou:  Tome cuidado... No me traia... Pode estar certo de que eu saberei se voc me traiu ou no! 



Toms nada disse. Com a sua experincia de vida, com tudo que j fizera e j passara, ele sabia muito bem que jamais encontraria uma mulher como Jeanne. Tinha perfeita 
conscincia de que nenhuma outra seria capaz de satisfaz- lo e, por isso, no estava com a menor inteno de tra- la. 



Porm... Toms se conhecia muito bem. Da mesma forma que tinha certeza de jamais poder ficar sem o amor de Jeanne, ele tambm sabia que no conseguiria ficar tanto 
tempo sem ir para a cama com uma mulher... 



Seria pedir demais para um homem de sangue quente como ele e, ainda mais, no Rio de Janeiro, uma cidade que procurava vencer Paris em termos de oportunidades para 
o amor. 



******* Jeanne ficou novamente sozinha. Se, por um lado, era desagradvel a ausncia de Toms durante a noite, naquele apartamento imenso, por outro, ela at que 
estava achando muito bom que ele se afastasse um pouco. 



Desde que decidiram ficar juntos, ela s experimentara o xtase naquela primeira noite... 



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Ou seja, quando Sat, por artimanhas s a ele permitidas, ocupara o corpo de Toms e a possura. 



Depois disso, ela simplesmente fingira todas as vezes, mostrara para Toms um prazer que no estava sentindo. 



E isso era terrvel. Bem que Jeanne gostaria de poder chegar ao xtase como via acontecer todas as noites com Toms... Bem que ela gostaria de poder virar para o 
lado, exausta e satisfeita, realizada em sua plenitude e, ento, se abandonar ao sono. 



Mas, no era isso o que acontecia com ela. Ao contrrio, depois que Toms adormecia, ela ainda ficava horas seguidas rolando na cama de um lado para o outro, sem 
conseguir conciliar o sono, remoendo a frustrao, enraivecida com sua incapacidade. 



Com Toms viajando, Jeanne pelo menos no teria de fingir. E, quem sabe, talvez o Prncipe das Trevas viesse fazer uma visita  sua sdita... 



Foi quando esse pensamento passou por sua cabea que ela se lembrou que, na realidade, depois que passara a viver com Toms, em nenhum momento ela fizera o menor 
esforo para conjurar Sat. 



 Mas ento...  murmurou  Pode ser que seja isso! Pode ser que o Mestre esteja ofendido comigo! 



Sem perda de tempo, foi buscar no fundo de seu armrio, entre roupas que j no mais usava, o velho livro de Magia Negra. 



 No se preocupe, Mestre  falou ela, j excitada, j imaginando o que aconteceria se conseguisse trazer o Prncipe das Trevas para sua casa, naquela noite  Daqui 
a pouco eu o estarei chamando! 



******* Como j acontecera outras vezes, Jeanne notou que ao abrir o livro, seus olhos caam diretamente nos pargrafos que tinham alguma relao com o que estava 
pretendendo fazer. Sorriu percebendo que nem sequer tinha a necessidade de procurar os rituais que deveria executar pois parecia que o Prncipe das Trevas a dirigia 
para os textos mais adequados e fazia- a fixar a leitura naquele que seria o necessrio para a conjurao. 



Para Jeanne isso era um bom sinal, mostrava que Sat tambm estava interessado naquele encontro. 



 Ele tambm quer!  exclamou  Sat tambm est com vontade de me possuir! 



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Estudou com toda a ateno o ritual em que seus olhos, parecendo de fato comandados por uma fora superior, se fixaram e, quando o relgio da sala marcava onze horas 
da noite, Jeanne comeou a preparar o ambiente para o encontro amoroso com o Mestre. 



J dispensara a empregada dizendo- lhe que aproveitasse a ausncia de Toms para ir fazer aquela visita a uma tia no interior que havia tanto tempo ela desejava 
fazer e, sozinha no grande apartamento, tinha total liberdade para o que bem entendesse. 



Foi para a cozinha, apanhou uma velha panela de barro que jamais era usada e que Serafina mais de mil vezes sugerira que fosse jogada fora, colocou- a sobre o fogo 
e deixou- a aquecer sem nada dentro. 



 E a Serafina que queria jogar essa panela  riu Jeanne  Tive de inventar que ela  uma lembrana de minha av...! 



Quando a panela estava bem quente, Jeanne despejou quase uma lata inteira de azeite em seu interior. 



A temperatura excessiva fez com que o azeite fervesse e liberasse uma fumaa azulada com o enjoativo cheiro que lhe  caracterstico. 



Jeanne tampou a panela e, depois de alguns minutos, quando a cozinha inteira estava cheia de fumaa, jogou no azeite quente quatro tocos de vela que se derreteram 
imediatamente fazendo espuma e respingando leo para todos os lados. 



Em seguida, ela apanhou de um dos vasos da sacada, um punhado de terra, jogando- o na panela. 



Mais uma vez, o rudo de fritura se fez ouvir, o azeite espirrou e um cheiro horrvel se espalhou pela cozinha. 



Jeanne voltou a tampar a panela e, depois de se concentrar um pouco na imagem de Sat, foi para seu quarto. Despiu- se completamente e, embrulhada apenas num xale 
negro que comprara havia poucos dias e de que Toms no gostava dizendo que lhe dava um aspecto diablico, voltou para a cozinha trazendo na mo esquerda um frasco 
com iodo metlico. 



Despejou na panela o contedo do frasco e alguns segundos depois, uma fumaa arroxeada se desprendeu da panela. 



Nesse momento, Jeanne ergueu as mos acima da cabea e, mais uma vez se concentrando na figura do Prncipe das Trevas, disse: 



 Vinde, Mestre! Sua serva est pronta para receb- lo! Vinde mostrar o seu poder! 



A fumaa parou de sair da panela e Jeanne, seguindo o que lera no livro, tirou- a do fogo, despejando o seu contedo na pia. 



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Mal tinha acabado de fazer isso, sentiu a presena de algum s suas costas. 



Voltou- se vivamente, j com um sorriso nos lbios e com a certeza de que estaria frente a frente com Sat. 



******* Assustou- se ao ver que Toms estava ali. Empalideceu...  T- Toms...!  gaguejou  Mas o que est fazendo aqui?! Ele estava nu e sorriu... E foi quando 
sorriu que Jeanne percebeu tudo. Aqueles lbios finos, os olhos maliciosos e cheios de maldade, de uma maldade que a inebriava, que a apaixonava... 



 Mas  voc!  exclamou, abrindo os braos e adiantandose para abra- lo. 



Sentiu o calor de seu corpo, sentiu- se imediatamente transportada para um tal estado de excitao que mal podia se controlar. 



 Voc poderia aparecer em sua forma normal  reclamou  _Assim, levei um susto! Pensei que Toms tivesse voltado e me tivesse visto preparando o ritual! 



Sat balanou a cabea negativamente e disse:  Preciso aparecer em formas conhecidas, Jeanne. Sempre pode acontecer de surgir algum e  melhor que voc esteja 
com seu marido, no  verdade? Evita a necessidade de muitas explicaes. Alm disso, duvido muito que voc goste de me ver ao natural... 



Com brutalidade, ele a beijou e Jeanne pode sentir toda a fora de seu desejo. 



 Venha  disse ela em um murmrio  Venha... Eu o quero, j no agento mais! 



Ouviu uma risada, sentiu- se levada para a sala e, no instante seguinte j estava sendo arrebatada para as delcias que Sat, e somente Sat, podia lhe proporcionar. 



Naquela noite o Demnio parecia estar melhor do que nunca... Jeanne adormeceu depois de algumas horas de intenso xtase e nem sequer percebeu quando o Mestre se 
fora. 



Quando despertou, o sol j entrava pelas grandes vidraas da sala e ela se surpreendeu ao se ver vestida com as mesmas roupas que usara quando Toms se despedira 
e mais surpresa ficou ao constatar 



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que, na cozinha, no havia nada fora do lugar e tudo se encontrava absolutamente limpo, como se ela no tivesse feito nada na vspera. 



 Ser que desta vez foi apenas um sonho?  perguntou- se, j revoltada com a idia de nada daquilo ter, de fato, acontecido. 



J estava comeando a ficar com raiva de si e do prprio Sat, quando seus olhos se dirigiram involuntariamente para o entalhe da porta da biblioteca. 



Como sempre, ela estava l... Chegou a sorrir com a lembrana de que somente ela era capaz de ver o seu rosto, maravilhosamente esculpido na madeira, com uma fidelidade 
to grande que at parecia real. 



Sim, Jeanne estava ali... S que mostrava aquele sorriso de satisfao que caracteriza as mulheres bem amadas e bem possudas e, ao seu lado, segurando- a pelos 
ombros, aparecia a figura de um homem nu que jamais estivera entalhada naquela porta. 



Jeanne no podia distinguir suas feies mas, para uma mulher como ela, no  preciso ver o rosto de um homem para reconhecer o amante. 



Era Sat... Era a prova de que no sonhara mas que, muito pelo contrrio, o encontro tinha sido real. 



Jeanne acariciou o entalhe tentando sentir nas pontas dos dedos a mesma textura da pele do Prncipe das Trevas. O entalhe estava quente como o corpo dele e a mulher, 
instintivamente, tirou a mo, assustada. 



Sorriu de si mesma e voltou a acariciar a figura, dizendo:  Ento aconteceu... Ele esteve aqui! Olhando- se no espelho, viu que tinha olheiras at o meio da cara 
e que seu aspecto mostrava claramente que ela passara as ltimas horas fazendo qualquer coisa, menos dormindo... 



E era justamente esse aspecto que Jeanne no queria que as amigas e conhecidas vissem pois  ela sabia muito bem  as ms lnguas no a perdoariam e no seria nem 
um pouco difcil que algum comentrio maldoso pusesse a perder a sua unio com Toms. 



O que era um risco que Jeanne no poderia correr. Toms era um homem bom, um marido dedicado e que no media esforos para satisfazer os seus menores caprichos. 
E isso,  claro, sem contar que a cada dia ele ficava mais rico, tinha mais dinheiro em suas contas bancrias. Com isso, Jeanne podia ser cada vez mais exigente. 



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E ela adorava pedir coisas para Toms pois sabia que, no importando o que fosse, acabaria ganhando. 



Era bem certo que ele no deixava de cobrar essa sua generosidade e,  noite, Jeanne tinha de satisfaz- lo, tinha de fingir que era arrebatada para o stimo cu. 



Riu lembrando- se que para o marido ela dizia que ficava no cu aps uma relao e, com Sat, tinha a sensao oposta... Ela diria que tinha sido aquecida como se 
estivesse no fogo do Inferno...! 



 At que deve ser muito melhor estar no Inferno com Sat...  pensou  Pelo menos o prazer  intenso! 



Nesse ponto de suas reflexes, o telefone tocou. Atendeu, imaginando que fosse Toms mas, estava enganada. A voz de Hilda, parecendo aflita, perguntou:  Jeanne, 
voc pode me receber agora de manh? Tenho um assunto muito srio para conversar e acho que voc  a nica pessoa que poderia me ajudar... 



Jeanne estranhou o telefonema da mulher. Em primeiro lugar, Hilda na realidade nunca fora sua amiga, bem pelo contrrio. Tinha acontecido uma certa aproximao quando 
da morte de Regina e Roberto mas, depois disso, elas limitaram seu relacionamento a encontros fortuitos em reunies ou festas em que ambas tinham sido convidadas. 
Jamais chegaram a trocar confidncias, jamais chegaram a se convidarem mutuamente para suas casas. Jeanne, inclusive, j realizara duas ou trs festas em seu apartamento 
e Hilda no tinha sido convidada mesmo porque a francesa soubera de algumas reunies que Hilda fizera e em cuja lista de convidados o seu nome no figurara. Em segundo 
lugar, no podia imaginar de que maneira ela poderia ser a nica pessoa a trazer alguma ajuda para Hilda, uma mulher biliardria, eternamente rodeada por muitas 
pessoas que fariam de tudo para lhe serem agradveis. 



Mas... J que Hilda estava pedindo e como isso a punha numa posio de superioridade em relao a ela, Jeanne no vacilou mais. 



 Venha  hora que quiser, querida  falou  E pode estar certa de que fico sensibilizada com a sua lembrana. Farei o que estiver ao meu alcance... 



******* 



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Jeanne abriu a porta para Hilda com o corao batendo mais depressa e ardendo de curiosidade para saber o que aquela mulher queria para lhe telefonar to cedo. 



Realmente, Hilda parecia muito perturbada. Teria, na poca, cerca de quarenta anos de idade, era uma balzaqueana bonita e, algumas ms lnguas j tinham dito para 
Jeanne que ela era fogosa demais para o marido, doze anos mais velho e com aparncia de estar bem mais rodado e muito mais sofrido do que a esposa. 



Jeanne fez Hilda entrar, levou- a at a sala de estar e, indicandolhe uma das poltronas, disse: 



 Sente- se, Hilda. Vou preparar um ch. Voc me parece muito nervosa... 



 No se preocupe com o ch  replicou a visita  Se no se incomodar, prefiro um conhaque, um usque ou qualquer outra coisa alcolica e forte! 



Jeanne arregalou os olhos, espantada. No poderia jamais imaginar que Hilda, aquele exemplo de estoicismo e de boa educao, pudesse pedir, em casa de uma quase 
estranha, uma bebida forte... E ainda mais quela hora da manh! 



 Mas isso  coisa de alcolatra!  exclamou, sem conseguir ou, quem sabe, sem querer reprimir suas palavras. 



 Sei disso  murmurou Hilda, baixando os olhos  Mas ultimamente no tenho podido fazer outra coisa a no ser beber... Tenho bebido muito,  verdade... Mas s encontro 
algum alvio quando j comeo a ficar tonta. 



Jeanne foi at a cozinha, apanhou um copo com gua gelada, ps dentro dele duas colheres de sopa de mel, misturou algumas gotas de conhaque e outras de melissa. 
Deu- o para Hilda e falou: 



 Tome isto. Tem um leve perfume de conhaque e  um bom calmante para os nervos. Vai lhe fazer bem e voc, depois que me explicar tudo, depois que me disser onde 
eu a poderei 



ajudar, vai se sentir muito melhor. Hilda obedeceu, tomou um grande gole da bebida e, olhando para Jeanne com desespero, falou: 



 Meu marido est indiferente, comigo! Em relao a mim, est completamente incapacitado, ficou impotente! De um momento para o outro, ele no conseguiu fazer mais 
nada comigo, no me procura mais e, quando tentei for- lo, disse que no estava disposto, que no queria nada... E ele est assim h mais de seis meses! No entanto, 
j 



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chegaram aos meus ouvidos, notcias de que ele continua o mesmo homem maravilhoso de sempre com as meninas dos inferninhos e cabars que deu de freqentar! 



Jeanne franziu as sobrancelhas. Com dificuldade e com um tom de incredulidade em sua voz, ela indagou: 



 Mas... Por que diabos voc achou que eu seria capaz de resolver esse problema? De que maneira espera que eu possa ajud- la ou ao seu marido?! 



Hilda baixou os olhos e, depois de um silncio constrangedor de mais de um minuto de durao, ela disse: 



 Oua, Jeanne... Pelo amor de Deus, no se ofenda... Jeanne interrompeu- a para dizer:  No me pea nada por Deus, Hilda... Ele no tem nada a ver com isso! 



Olhando para a visitante com curiosidade, pediu:  Mas prossiga. Diga o que est pensando. Hilda ergueu os olhos, tmida e murmurou:  Todos sabem de seu passado, 
Jeanne... No h quem no saiba, na sociedade de So Paulo, de que maneira voc chegou ao Brasil e de que meios lanou mo para sobreviver e progredir at se unir 
a Toms Camargo... 



Jeanne sentiu o corao falhar. No podia acreditar no que estava ouvindo! Aquela mulher tinha tido o desplante de ir  sua casa, quela hora da manh para lhe dizer 
dessa maneira que ela no passava de uma prostituta e que todos em So Paulo sabiam disso?! 



Jeanne arregalou muito os olhos e ia abrindo a boca para falar, para protestar e, em seguida por para fora aquela desaforada, quando Hilda, com as lgrimas escorrendo 
por suas faces, pediu: 



 Ajude- me, Jeanne! Sei que voc  a nica que pode me ajudar! No quero perder meu marido! No quero que ele me substitua por uma dessas mocinhas aventureiras 
que s esto de olho na fortuna de homens mais velhos! 



Jeanne fitou com intensidade os olhos de Hilda. Pareceu- lhe que aquela mulher estava sendo sincera e que, de fato, estava sofrendo muito com o comportamento e com 
a atitude do marido. 



Hilda tomou mais um gole da bebida e disse, a voz baixa, arredia:  Achei que voc talvez pudesse me ensinar alguns truques... 



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Algumas dessas artimanhas que as... profissionais... sabem usar para encantar um homem e para amarr- lo ao p de sua cama! 



Olhou preocupada para Jeanne e repetiu:  Por favor, Jeanne... No fique ofendida comigo! Eu sei que voc tem mil motivos para me detestar... Mas compreenda... Ns 
ficamos sabendo de sua escalada, das maneiras e dos mtodos que usou para subir. Pense bem e ver que  mais do que natural que ns tenhamos tentado nos defender! 



Criando um pouco mais de auto- confiana, Hilda continuou:  Veja o que aconteceu com Beatriz... Voc a derrotou, voc acabou ficando com Toms! 



 O casamento deles j estava mal das pernas  defendeu- se Jeanne  E isso, muito antes de eu aparecer em cena! 



 Tem razo  admitiu Hilda  E  justamente o que est acontecendo com o meu casamento! Eu no quero passar pela mesma experincia de Beatriz! No quero que depois 
digam que era lgico que acontecesse isso pois o meu relacionamento com o Ribeiro j estava indo muito mal! 



Jeanne respirou fundo e, ia dizer para Hilda que no poderia fazer nada e que se ela no queria perder o marido que tratasse de se modificar, de fazer com que ele 
voltasse a ter interesse por ela mas, em prantos, a mulher a interrompeu mais uma vez, pondo- se de p diante da francesa e falando: 



 Veja, Jeanne... Sei que no sou mais uma criana mas meu corpo ainda  melhor do que o de muitos brotinhos de dezoito anos! De mais a mais, a minha experincia 
 muito maior e eu tenho certeza que um homem que durma comigo uma noite, no vai deixar de querer uma reprise... 



Voltou a sentar e soluou: Mas eu no quero outro homem! Eu quero o Ribeiro, quero o meu marido! E voc  a nica pessoa que pode me ajudar! 



Jeanne ficou em silncio, olhando distrada para as pontas dos sapatos. 



Depois, ainda pensando nas palavras de Hilda, ergueu os olhos e, involuntariamente, eles se fixaram no entalhe da porta da biblioteca, distante quase seis metros 
de onde ela estava sentada. 



Apesar da distncia, as imagens entalhadas pareceram saltar aos olhos de Jeanne e, ao mesmo tempo em que ela via aquelas figuras criando vida e danando em volta 
do caldeiro, escutou a voz de Sat, dizendo ao seu ouvido: 



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 Voc vai ajud- la, Jeanne... Vai ajud- la com a sua magia e isso far com que seja respeitada e temida no apenas por ela, mas por muitas outras que a procuraro. 



A voz de Sat se calou, as figuras pararam de danar e Jeanne, de repente, sentiu uma imensa paz interior e uma grande segurana em si mesma. 



Voltando o rosto para Hilda, falou:  Est certo, Hilda. Eu vou ajud- la. Mas em troca, voc no dever comentar com ningum o que vai acontecer e o que vai fazer... 



Lembrando- se das palavras de Sat quando ele dissera que outras a viriam procurar, Jeanne acrescentou: 



 Voc e s voc poder trazer a mim outras amigas ou amigos que precisem... de meu talento. 



Hilda olhou espantada para Jeanne e esta, com uma risada que lhe soou estranhamente diablica, fez um gesto com a mo direita. 



No mesmo instante, o copo que a francesa servira para a outra e que j estava vazio, se encheu, ergueu- se da mesinha em que se encontrava e foi parar a poucos centmetros 
da mo de Hilda. 



A mulher se ps de p com um grito e Jeanne, segurando- a pelo brao, disse: 



 No se assuste... Voc veio me pedir ajuda, no  verdade? E vai me prometer que manter segredo e s revelar o que aconteceu para pessoas que realmente estejam 
precisando de mim.. Alm disso, antes de falar com essas pessoas, voc vir me perguntar se eu posso atend- las, est bem assim? 



Hilda, trmula, assustada, fez um sinal afirmativo com a cabea e Jeanne, fechando os olhos, concentrou- se. 



Procurou transportar seu pensamento para o livro de Gabrielle e para aqueles momentos no bangal, quando a assistia em seus encantamentos de amor. 



 Voc vai trazer para mim algumas coisas... Em primeiro lugar, um leno de seu marido. Alm disso, uma de suas gravatas e, por ltimo, um conjunto de roupas ntimas 
que voc s tenha usado uma vez. 



Hilda no respondeu. Apressada, ela deixou a casa de Jeanne e, menos de quinze minutos depois, estava de volta com tudo quanto a francesa lhe pedira. 



 Muito bem  falou Jeanne  Agora, voc ir para casa e, esta noite, ver que as coisas vo mudar... 



******* 



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No dia seguinte, antes de oito horas da manh, o telefone de Jeanne soou. 



Ela riu enquanto caminhava para atend- lo pois j sabia que era Hilda, ligando para dar notcia s sobre o resultado de seu encantamento. 



 No fao a menor idia do que foi que voc fez, Jeanne  disse a outra  Mas o fato  que funcionou! Ribeiro parecia ter voltado aos vinte anos de idade, nunca 
o vi to ativo, to cheio de energia e de desejo! 



Riu, feliz, do outro lado da linha e completou:  E o melhor  que eu tambm estava com toda a energia! Acho que nunca... 



Interrompeu- se, o pudor de repente voltando, e arrematou:  Bem... Hoje eu estou arrebentada... Parece que levei uma surra daquelas... Mas, em compensao, estou 
feliz, realizada e satisfeita. 



 E no ser apenas desta vez  disse Jeanne  A partir de hoje, Ribeiro no conseguir mais nada com qualquer outra mulher e chegar  concluso que foi feito para 
voc. 



Hilda ficou calada por um instante e, um pouco sem jeito, murmurou: 



 Gostaria de demonstrar meu agradecimento de uma maneira material, Jeanne... O que voc aceitaria como presente? 



Jeanne riu e respondeu:  No se preocupe com isso, Hilda. No quero nada. J estarei satisfeita sabendo que voc se considera minha devedora... 



Houve uma pausa e Jeanne acrescentou:  Apenas saiba que, da mesma maneira que o Ribeiro voltou para voc por minha causa, ele poder se afastar em definitivo... 
Basta que voc no cumpra a sua parte no nosso trato, entendeu? 



 Sim  balbuciou Hilda  Pode ficar descansada... Acho que, depois do que aconteceu, voc est na posio de minha melhor amiga... Uma amiga alm de tudo, muito 
poderosa! Acho que estou em suas mos, Jeanne... E s espero que voc no judie de mim! 



Jeanne no respondeu. Preferiu deixar a outra na dvida pois assim poderia ter certeza de que cumpriria sua parte e jamais tentaria pass- la para trs. 



Voltando para seu quarto, ela riu. Sim, estava mostrando que era mesmo uma boa discpula de Sat. Pelo menos, em seus pactos, estava mantendo a teoria do Mestre 
de conservar sempre as pessoas sob seu jugo. 



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O sorriso desapareceu de seus lbios quando ela se lembrou que isso apenas provava, mais uma vez, que ela tambm, estava sob o jugo do Prncipe das Trevas... 



E com a desvantagem de s encontrar a satisfao quando ele queria e no todas as noites como tinha feito acontecer com Hilda. 



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CAPTULO XVI 



Toms chegara ao Rio de Janeiro j morrendo de saudades de Jeanne. Gostaria de estar com ela ali ao seu lado, gostaria de lev- la para conhecer uma poro de lugares 
interessantes mas... 



Estava sozinho. Pensou muito seriamente em tentar resolver todos os seus negcios o mais rapidamente possvel e regressar dentro de trs ou quatro dias para junto 
da mulher mas ele sabia que isso seria uma loucura. Transaes importantes no podem ser efetuadas s pressas e, ainda mais naquele clima de guerra, na incerteza 
e insegurana que reinava em relao ao futuro. 



 Terei tempo, depois, para descontar  disse ele para si mesmo  Quando voltar, Jeanne tambm estar ansiosa por amor e nosso reencontro ser simplesmente demolidor! 



Mas, o Destino estava pensando de maneira diferente... Assim que Toms comeou a agir, marcando pelo telefone um importante encontro com um americano importador 
de menta, ele assumiu a posio e a personalidade de homem de negcios, esquecendose de Jeanne, esquecendo- se de So Paulo e passando a pensar unicamente em seu 
trabalho. 



Foi ao encontro do importador e, quando chegou ao seu escritrio, num imponente edifcio perto da Candelria, surpreendeu- se com a beleza e a candura da moa que 
estava sentada  mesa da recepo. 



Era uma jovem morena, com pouco mais de vinte anos de idade, muito bonita e cujo rosto irradiava simpatia e meiguice. 



No pode deixar de desej- la, como animal predador que  o homem... 



 Tenho uma reunio marcada com o senhor Hennessy  disse ele para a recepcionista. 



Sempre sorrindo, ela consultou a sua agenda e falou:  Pois no, doutor Camargo. O senhor Hennessy est  sua espera. Queira aguardar um momentinho que vou avis- 
lo de sua chegada. 



Ela deixou a mesa e dirigiu- se para a porta do gabinete do patro meneando as cadeiras de maneira provocante. 



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Ficou l dentro por alguns momentos e em seguida voltou a abrir a porta, dizendo: 



 Faa o favor de entrar, doutor... Toms passou por ela, esbarrou de leve em seu corpo e pode sentir suas formas suaves e sensuais em uma rpida frao de segundo. 



Rpida... Mas demorada o suficiente para despertar nele um intenso e quase irreprimvel desejo. 



******* A reunio com Hennessy transcorreu com normalidade, os dois homens tentando negociar a melhor posio, cada um procurando tirar o mximo possvel de vantagem 
no negcio. Houve acordo em praticamente tudo, exceto por um pequeno detalhe quanto  quantidade de menta que poderia ser entregue num determinado prazo. Hennessy 
queria que a mercadoria estivesse no porto de Nova York quinze dias antes do que Toms achava possvel. 



 Terei de consultar meus fornecedores  disse Toms  Serei obrigado a lhe trazer uma resposta mais tarde. 



Hennessy concordou e Toms, ao deixar seu gabinete, sorriu para a recepcionista, dizendo: 



 Voltarei mais tarde. Mas telefonarei antes, se houver algum imprevisto. 



 Estarei esperando, doutor. Mas, se por acaso eu no estiver por aqui por ser hora do almoo ou por eu ter de fazer alguma coisa para o senhor Hennessy na rua, 
pode deixar o 



recado. Meu nome  Sylvia. Toms sorriu, despediu- se da moa e saiu. Uma vez na rua, no pode deixar de se surpreender consigo mesmo. Ele sabia muito bem que poderia 
efetuar a entrega da menta da maneira como queria Hennessy. Porm, criara aquela dificuldade de graa... Unicamente para ter um pretexto para voltar ali, para rever 
Sylvia. 



Mesmo que fosse apenas para v- la mais uma vez e daquela maneira fugaz e incua, ele de p e ela sentada atrs de uma escrivaninha de recepo. 



Distrado, tentando explicar para si mesmo a razo daquele comportamento to pueril, Toms entrou num caf logo em frente ao edifcio de Hennessy. 



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Estava comeando a levar a xcara aos lbios, quando viu Sylvia deixar o prdio e caminhar pela calada com aquele andar sedutor, fazendo com que todos os homens 
olhassem para ela cheios de admirao e desejo. 



Sentiu cimes. Inexplicavelmente, inadmissivelmente, descabidamente, sentiu cimes. Pagou s pressas o caf e, em passos apressados, seguiu Sylvia pela rua, alcanando- 
a quando ela j estava entrando numa farmcia. 



 Mas que coincidncia!  disse ele, ao seu lado  Que surpresa agradvel! 



Sylvia sorriu e, olhando para Toms de uma maneira que deixava bem claro que ela percebera no se tratar de um acaso aquele encontro, falou: 



 Desci para comprar um comprimido. Estou com um pouco de dor de cabea... 



E, com uma careta, acrescentou:  No  muito fcil trabalhar com o senhor Hennessy... Ele  muito exigente e quando me pede para bater uma carta em ingls, fica 
furioso quando cometo algum erro, por mais insignificante que seja! 



Entraram na farmcia e, antes de chegar ao balco, Sylvia disse:  Hoje  tarde, sei que minha dor de cabea vai aumentar... Ele quer um relatrio completo sobre 
a transao que os senhores esto fazendo... E em ingls! 



Toms sorriu e falou, em tom de brincadeira:  No quero lhe dar trabalho e muito menos dor de cabea, Sylvia. Acho que vou voltar l e dizer para o gringo que no 
farei mais o negcio... 



 Isso no vai adiantar nada. Alis, s vai servir para piorar a minha situao  replicou a moa  Se o negcio no sair, ele vai querer o relatrio do mesmo jeito 
e, o que  pior, vai montar uma explicao complicada e comprida para os seus chefes l nos Estados Unidos... E serei eu a bater tudo isso! 



Comprou o remdio e, com um suspiro, finalizou:  Por isso, j sei que o meu destino, hoje,  ficar a tarde inteira em cima da mquina. No tenho escapatria e acho 
que os comprimidos no vo me ajudar muito... 



Toms, acompanhando- a at a porta, falou:  Bem... Se me permite, tenho uma sugesto para alivi- la... Sylvia olhou para ele com expresso curiosa e Toms continuou: 
 Poderia convid- la para jantar em meu hotel... Ao menos serviria para relaxar um pouco e... 



Com um tom de splica em sua voz, arrematou: 



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 Eu ficaria muito feliz em poder contar com a sua companhia para o jantar... Detesto fazer minhas refeies sozinho... 



Sylvia sorriu. Toms pode perceber a malcia que havia naquele sorriso e, encorajado, murmurou: 



Eu a pegarei no fim da tarde, est bem? Poderemos nos encontrar aqui nesta farmcia que  para no haver a possibilidade de se criar uma situao constrangedora. 



A moa ficou em silncio por alguns instantes e, depois, ampliando mais o sorriso, falou: 



 Est certo. Estarei aqui por volta de seis horas. ******* Toms passou o resto do dia trabalhando. Foi a diversas reparties, foi a Bancos, encontrou- se com 
importadores de diversas mercadorias que, naquela poca, tinham imenso valor de mercado e que, por isso mesmo, faziam a fortuna daqueles que tinham a sorte de lidar 
com elas. 



Esteve, perto de cinco horas da tarde, no escritrio de Hennessy mas Sylvia no se encontrava l. 



Uma outra moa, feiosa e sem sal, disse- lhe que ela pedira para sair mais cedo pois no estava se sentindo muito bem. 



A notcia deixou Toms um tanto quanto decepcionado pois se Sylvia no estava bem, era de supor que ela faltaria ao encontro marcado. 



Erguendo os ombros, procurando se conformar com a idia de jantar sozinho depois de j ter planejado e imaginado a companhia de Sylvia, ele disse: 



 Bem... Espero que ela melhore depressa... Falou rapidamente com Hennessy, disse- lhe que o negcio poderia ser realizado nos termos que ele estava pretendendo 
e, ao passar pela mesa da recepo, viu a outra moa bufando de raiva, debruada sobre a mquina de escrever e resmungando que Sylvia tinha sido muito esperta de 
ficar doente logo num dia em que havia tanto servio para fazer. 



Ganhando a rua, Toms estava desapontado. Apressara- se o mais possvel para resolver todos os problemas do dia at aquela hora pois tinha a esperana de sair do 
escritrio de Hennessy e j se encontrar com Sylvia mas, pelo visto, seus projetos tinham ido por gua abaixo. 



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Sem ter o que fazer, ele hesitou entre voltar para o hotel ou ficar perambulando  toa pelas ruas do Centro do Rio, vendo vitrinas, comprando alguma coisa para Jeanne. 



Jeanne! Com uma pontada no corao, percebeu que era a primeira vez, desde que comeara a trabalhar ali no Rio de Janeiro, que lembrava da mulher. 



Justificou- se dizendo para si mesmo que tivera muito o que fazer durante o dia mas, em seu ntimo, ele sabia muito bem que a substitura, pelo menos durante aquelas 
ltimas horas, pela imagem de Sylvia. 



Procurou explicar para si mesmo porque Sylvia o impressionara tanto. Era bem verdade que possua uma beleza indiscutvel mas... 



Jeanne tambm era bela e, na verdade, chamava ainda mais a ateno com seus olhos muito azuis e com seus cabelos cor de fogo. 



Os olhos... Sim, talvez fosse isso mesmo! Nem tanto os olhos, muito mais o olhar... Sylvia irradiava meiguice enquanto Jeanne... Toms no podia dizer que Jeanne 
no fosse meiga. Ela o era, alis, sabia s- lo! 



Mas... Sylvia era naturalmente meiga... Havia bondade em seus olhos, ela parecia dcil, compreensiva... E Jeanne era exatamente o contrrio. Toms, como todos os 
que lidavam com ela, sabia que as cartas estavam em suas mos, tinha conscincia de que Jeanne era a comandante indiscutvel, de que era ela quem diria a ltima 
palavra, ela seria capaz at mesmo de definir o destino das pessoas... 



Jeanne era dominadora. E amedrontadora quando olhava para Toms e deixava transparecer naqueles dois blocos de gelo em que se transformavam seus olhos, a determinao 
fria e calculista de quem tem um objetivo pela frente, objetivo este muito maior do que qualquer sentimento. 



Pela primeira vez, Toms admitiu a realidade. Ele estava sendo dominado e controlado por Jeanne, ela estava fazendo dele nada mais do que um vassalo e tudo isso 
apenas por que sabia como fazer para realiz- lo como homem, como satisfaz- lo por entre os lenis. 



Teve uma sensao de frustrao e revolta, um estremecimento de raiva passou por seu corpo. 



Entrando num bar para tomar um caf, ele pensou: 



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 Se as coisas so assim agora, imagino como sero depois que tivermos filhos! 



Fechou os olhos e sacudiu a cabea procurando afastar da mente esse pensamento. 



Com Beatriz, com quem fora legalmente casado, ele no quisera filhos... 



No haveria de quer- los com Jeanne! Seria o mesmo que se meter dentro de uma cela de priso, fechar a porta e jogar a chave pela janela... 



E Jeanne vinha falando de filhos havia dois meses...  No!  exclamou em voz alta, fazendo com que um senhor que estava ao seu lado levasse um susto. 



Toms sorriu, sem jeito e murmurou, mostrando a xcara de caf:  No tem acar... O senhor, solcito, sorriu e passou- lhe o aucareiro, muito embora tivesse certeza 
de o ter visto adoar o caf. 



Tomando o melado que se vira obrigado a fazer, Toms pensou:  Sei que estou apaixonado por Jeanne... Sei que ela  a mulher mais formidvel na cama que j conheci... 
Mas, nem por causa disso, vou deixar que ela me tenha como se fosse um cachorrinho, como se fosse um autntico boi de prespio! 



Deixando o dinheiro trocado sobre o balco, deixou o bar e, caminhando devagar, flanou at a Candelria pensando que aquele encontro com Sylvia seria excelente para 
sua alma pois ajudaria a provar para si mesmo, que Jeanne no era a nica mulher no mundo. 



Com raiva, chutou uma caixa de fsforos vazia que estava no cho e murmurou: 



 Mas ela no vir... Vai me dar o bolo. E eu terei de ficar sozinho, apenas remoendo a falta que Jeanne est me fazendo e a frustrao de ter levado um fora de 
Sylvia! 



Olhou para o relgio, viu que j passava bastante de seis horas da tarde e, sacudindo os ombros com despeito, pensou: 



 Bem... De qualquer maneira, no perderei a noite. O Rio de Janeiro est cheio de mulheres fceis, est repleto de moas que at vo me agradecer muito por eu lhes 
proporcionar um bom jantar e algumas horas agradveis em meu quarto de hotel... 



Notou que, inadvertidamente, caminhara at a farmcia onde combinara se encontrar com Sylvia. 



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Quase que contra a prpria vontade, olhou para seu interior. Abriu um sorriso... Sylvia estava ali. Ela olhava em sua direo e sorria, um sorriso que, naquele momento, 
no tinha nada de angelical... Muito pelo contrrio, era quase um sorriso de perdio... 



******* Sylvia tinha o corpo perfeito. Suas curvas, menos ousadas que as de Jeanne, eram talvez por isso mesmo, ainda mais sedutoras e a ingenuidade e inocncia 
que cercavam a sua pouca experincia na arte do amor, faziam com que Toms se sentisse ainda mais arrebatado, mais responsvel pelo sucesso daquele encontro. 



Nenhum dos dois teve do que se queixar... Quando o dia amanheceu, o sol que entrava pelas janelas abertas do quarto de Toms, veio beijar o casal ainda abraado 
sobre a cama, ambos exaustos e satisfeitos. 



Tomaram o desjejum juntos e Sylvia estava ao lado de Toms quando ele ligou para Jeanne dizendo que estava trabalhando muito, que estava morrendo de saudades e que 
no tinha uma previso do dia em que poderia voltar. 



Desligando o telefone, Toms riu.  Voc no presta  disse Sylvia, muito sria  Isso no  papel que se faa! 



Toms ergueu os ombros com indiferena e, abraando Sylvia, puxou- a novamente para si, dizendo: 



 No venha me dizer que no gostou... E no venha me dizer que estava esperando que eu telefonasse para minha mulher dizendolhe que aprontasse suas malas e fosse 
embora pois estaria levando para So Paulo uma substituta. 



Sylvia riu, beijou com volpia os lbios de Toms e murmurou:  Na verdade, bem que eu gostaria... Mas... Fitando- o com olhos tristes, acrescentou:  Sei que voc 
tem uma outra vida e que pertence a um mundo completamente diferente do meu... No tenho o direito de atrapalh- lo e, muito menos de critic- lo. 



Toms acariciou seu corpo detendo- se nos pontos mais sensveis e arrancando- lhe gemidos e suspiros de prazer, enquanto dizia: 



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 Voc  sbia, Sylvia... E as mulheres sbias jamais tm do que se arrepender. 



Sylvia sorriu, fechando os olhos como uma gata no cio, procurando aproveitar ao mximo aqueles carinhos. 



Sim, ela sabia muito bem que no poderia contar com aquele homem para o resto de seus dias. Mas, pelo menos enquanto ele estivesse no Rio de Janeiro... 



Ela saberia como fazer para que Toms nem mesmo pensasse em outra mulher. 



******* E foi justamente o que aconteceu. Durante todo o tempo que Toms Camargo esteve trabalhando no Rio de Janeiro, onde quer que ele estivesse, ali estava tambm, 
Sylvia. 



Iam a restaurantes de braos dados, saam abraados do hotel pela manh, no se preocupavam em absoluto com a remota possibilidade de algum os ver, reconhec- los 
e... Armazenar matria para um escndalo dos maiores na sociedade. 



 At parece que voc quer que sua mulher saiba  disse Sylvia, preocupada. 



 No quero...  retrucou Toms  Mas no vou bloquear ou limitar o nosso prazer unicamente por causa dela. 



E, com um erguer de ombros, acrescentou:  Jeanne no  idiota. Sabe muito bem que se achar muito ruim, corre o risco de sair de minha vida... E, se isso acontecer, 
ela no ser ningum em So Paulo! No  o que ela deseja e, por isso, pode estar certa que ela engoliria qualquer sapo s para no ter de ficar sozinha novamente, 
s para no correr o risco de se ver abandonada e sem o respaldo de minha empresa. 



******* Sylvia no alimentava nenhuma pretenso quanto a roubar Toms de Jeanne ou, sequer de transform- lo em seu amante. Como dissera para ele, sabia seu lugar 
na sociedade, sabia que no passava de uma recepcionista e que dificilmente poderia se adaptar a um ritmo de vida agitado e sofisticado como deveria ser o de Toms 
ou de qualquer outro desse nvel. 



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Assim, ela se limitava a aceitar os pequenos presentes que ele lhe oferecia, a adorar os jantares em restaurantes finos e a se achar a rainha de sua vida nos momentos 
que sucediam o amor, quando Toms, exaurido, virava para o outro lado e dormia como um guerreiro cansado. 



Como um guerreiro cansado e derrotado... Era nesse momento que Sylvia, como qualquer mulher, sentia o gosto da vitria da fmea sobre o macho. Ela, no fim, era a 
vencedora, ele estava ali, esgotado, derrubado, incapaz de fazer o que quer que fosse a no ser dormir, enquanto ela... 



Bem... Ela tambm estava satisfeita mas... Se mais houvera, mais tivera... Sylvia, no entanto, no tripudiava sobre sua vantagem. Bem ao contrrio, quando Toms 
despertava, s vezes no meio da noite, com sede, os lbios ressequidos, os msculos doloridos de toda a ginstica desenvolvida em busca do prazer mximo, ela fazia 
questo de se levantar, de servi- lo, de acarici- lo outra vez at que adormecesse ou, ento, at que o desejo, qual chama rebelde, voltasse a se acender. 



Sylvia soube conquistar Toms. No que ela o quisesse e no que pretendesse o seu amor, a exclusividade ou, que fosse, um lugar como a amante estvel, teda e manteda 
do milionrio. 



ganhou um lugar de respeito e de admirao no corao de Toms e isso tornava o seu relacionamento muito mais natural e agradvel do que a unio com Jeanne. 



Mesmo porque, por alguma razo que Toms no conseguia explicar muito bem, Jeanne lhe punha um certo medo e Sylvia, ao contrrio, fazia com que ele se sentisse o 
seu verdadeiro protetor, o brao que poderia defend- la de qualquer perigo, de qualquer situao desagradvel. 



Por tudo isso, quando os dois se despediram, Sylvia chorou sinceramente, recusou o gordo envelope que Toms queria que aceitasse e, em tom ofendido, falou: 



 Estive com voc esses dias todos por que quis, Toms. Voc me fez viver dias e noites de sonho, me fez sentir uma princesa bem amada... Para mim  mais do que 
suficiente. No quero seu dinheiro, no sou uma profissional! 



Toms ficou sem jeito, abraou Sylvia e disse, ao seu ouvido:  Voc no tem um amante, Sylvia... Tem um amigo. Para o que for, no dia em que precisar, conte comigo. 
Jamais ter uma negativa minha. 



173 



 



CAPTULO XVII 



A partir desse dia, Jeanne passou a ser conhecida como uma pessoa mstica, que sabia coisas e truques incrveis como, por exemplo, ler as cartas, ler as mos e... 
Sabia como ningum preparar pequenos encantamentos para se conseguir xitos sentimentais. 



Hilda cumprira a sua promessa de s revelar o segredo de Jeanne para pessoas escolhidas e de consult- la a cada vez. E Jeanne, por seu lado, consultava Sat que 
lhe dizia para atender ou no determinada pessoa. 



A francesa notou, curiosa, que Sat jamais a fazia recusar um atendimento e que a proibia de cobrar o que quer que fosse. 



Perguntou- lhe a razo dessa atitude e o Prncipe das Trevas respondeu:  Se voc cobrar dinheiro ou mesmo favores, essas pessoas passaro a achar que tm direitos 
sobre voc e sobre seu trabalho. E isso no  bom.  muito melhor que todos estejam sempre devendo algo, sem jamais saberem o que seja. 



Sat riu e acrescentou:   como voc... Sabe que me deve e que um dia eu hei de cobrar. S que no tem a menor idia do valor dessa dvida e nem quando vou resolver 
pedir que a resgate! 



 Isso no  justo  protestou Jeanne pela milsima vez  At hoje, acho que voc no tem motivos para se queixar de mim... 



Sat riu outra vez e desapareceu. Essa conversa tinha sido cerca de quinze dias depois de Toms ter ido para o Rio de Janeiro e de mais uma noite de delcias com 
o seu Mestre. 



Assim, quando ele partiu, Jeanne ainda ficou acordada por alguns minutos, lembrando- se das sensaes que tivera e procurando reviver cada uma delas... 



Quando o sono comeou a alcan- la, lembrou do marido, lembrou que durante aqueles dias Toms tinha ligado apenas trs vezes para dar notcias... 



 Ele deve estar muito ocupado  pensou  Deve estar trabalhando um bocado... 



Foi com esse pensamento que ela adormeceu, procurando sonhar mais um pouco com Sat pois essa era a maneira mais simples de conseguir ao menos um simulacro de prazer... 



******* 



174 



 



Dois dias depois, Hilda telefonou.  Jeanne, tenho um problema que voc pode resolver mas  claro que voc vai me dizer primeiro se quer ou no atender essa pessoa... 



Jeanne encorajou a amiga a falar e ela continuou:  Trata- se de um industrial. Um homem que lida com latas e que est com uma dvida muito grande... Conversou ontem 
com o Ribeiro e este comentou comigo a respeito do assunto. 



Hilda deixou escapar uma risadinha e falou:  Eu o conheo muito bem... At mesmo bem demais. Por isso, eu me senti muito  vontade para telefonar para esse... amigo... 
e perguntar- lhe se queria alguma sugesto... 



 Voc est querendo que eu d a sugesto, no  isso?  indagou Jeanne. 



 Na realidade  respondeu Hilda, depois de uma pausa  Estou querendo que voc oriente o pobre homem... 



Jeanne se concentrou um pouco e, depois de um pequeno silncio, perguntou: 



 Mas de que se trata? Quem  esse indivduo? Foi a vez de Hilda ficar calada por alguns segundos e, com voz relutante, ela murmurou: 



 Nildo Fernandes... Voc j deve ter ouvido falar dele. Jeanne levou um susto. Naquela poca no havia quem no conhecesse Nildo Fernandes, um dos homens mais ricos 
do pas e,  claro, um dos mais requisitados pelas mulheres da alta roda, fossem elas jovens ou j maduras... 



Sem dar tempo a Jeanne de qualquer reao, Hilda prosseguiu:  Nildo est em dificuldades, querida. Ele fez um investimento enorme e... 



Nesse momento, Jeanne escutou a voz do Prncipe das Trevas dizendo: 



 Ele jogou uma verdadeira fortuna na continuidade da guerra, Jeanne. Investiu em coisas que s podero ter mercado se a guerra continuar no Pacfico e se Hitler 
no for derrubado! Mas nada disso vai acontecer e esse homem ter de perder tudo. Vai ficar na mais negra misria, em resumo, vai ser um dos grandes estouros do 
mundo financeiro do Brasil. Recuse. No o atenda e explique por que. Diga que no h o que fazer e que ele j pode contar como certa a sua derrota. 



Jeanne suspirou. 



175 



 



Uma a uma, ela repetiu as palavras do Mestre para Hilda e finalizou dizendo: 



 No quero v- lo. No vai adiantar nada pois ele j est perdido. Hilda ainda tentou demov- la dessa idia mas, no o conseguiu. Jeanne foi inflexvel e, quando 
Hilda disse que Nildo poderia at se suicidar, Jeanne riu, falando: 



 Talvez seja mesmo o melhor. Pode estar certa que gente como Nildo Fernandes  bom material para povoar o Inferno. O Demnio vai gostar de t- lo por l! 



No foi preciso mais do que um dia. Nildo Fernandes ps uma bala nos miolos depois de deixar uma carta onde explicava que assim agia por saber que no poderia suportar 
a vergonha de uma falncia, principalmente em se tratando de uma falncia onde mais da metade do dinheiro que ele usara era de amigos seus, de empresas em que ele 
tinha participao e que nele tinham confiado na expectativa de grandes e substanciais lucros. 



******* Com a notcia, mais do que nunca Jeanne teve o seu nome respeitado. Todos, quela altura, j tinham tido notcias de que ela era capaz de feitos exticos 
e miraculosos, de adivinhaes muito estranhas e precisas. 



E isso, se por um lado era desagradvel pois no parava de aparecer gente em sua casa para pedir conselhos e para tentar ver o futuro, por outro, fazia com que Jeanne 
tivesse abertas para si todas as portas da sociedade. 



Porm, Jeanne estava comeando a se cansar daquilo tudo... Seu marido deveria chegar em breve e ela queria um pouco de paz e de privacidade. 



Com aquela multido desfilando em sua porta, isso seria impossvel. De mais a mais, aquilo no lhe rendia mais nada. Fama, j a tinha e dinheiro era o tipo da coisa 
de que no precisava, uma vez que Toms se encarregava de ganh- lo para que ela pudesse gastar a rodo, sem a menor necessidade de fazer qualquer espcie de economia. 



Assim, logo depois da morte de Nildo Fernandes, quando as hostes de curiosos e de desesperados mais se aglomeravam em frente ao seu edifcio, Jeanne resolveu pedir 
auxlio ao Demnio. 



 No quero mais essa histria  disse ela para o Prncipe das Trevas  No  assim que eu pretendo me impor  sociedade! 



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Sat riu, deixando Jeanne irritada. Por que ele tinha de rir sempre que ela lhe pedia alguma coisa? 



 No se preocupe. O que eu queria com a sua capacidade de prever o futuro, com a sua clarividncia e clariaudincia, j consegui atingir  disse ele  Voc est 
respeitada e famosa, agora... precisa ser temida. 



Passou as mos ao longo dos braos de Jeanne e falou:  Quando o dia amanhecer, voc vai atender os trs primeiros que aparecerem aqui. Estaro acompanhados e sero 
pessoas saudveis que estaro procurando por voc para resolver assuntos que nada tm a ver com a sade. Porm, voc vai predizer- lhes a morte... E do resto, cuido 
eu! 



Jeanne estremeceu e, horrorizada, perguntou:  Mas voc vai matar essas pessoas?! Sat soltou uma gargalhada.  Matar?  fez ele  Mas o que  isso? O que  morrer 
ou viver? Ser que vocs, reles mortais ainda no compreenderam que isso a que chamam Vida, no  mais do que uma muito breve transio do estado natural das coisas 
que  a Morte? J procurou pensar que os espritos, estejam onde estiverem, tm a eternidade pela frente e que o perodo em que eles permaneceram aqui na Terra  
por demais curto para ser valorizado? 



Com essas palavras, Sat desapareceu, deixando Jeanne frustrada pois ela tinha a esperana de que, naquela noite, eles ainda teriam tempo para uma sesso de amor... 



******* Na manh seguinte, as palavras de Sat ainda estavam ecoando nos ouvidos de Jeanne quando Serafina disse que havia uma poro de gente querendo conversar 
com ela. 



 A senhora faria bem se montasse um terreiro, dona Jeanne  falou a empregada  Poderia at ganhar muito dinheiro... 



 No estou incomodada com dinheiro, Serafina  replicou ela com enfado  O que eu quero  paz... Paz para poder usufruir do que eu j tenho. E esse povo todo no 
me deixa um segundo s de sossego. 



Jeanne abriu a porta e olhou para as trs primeiras pessoas. Com gestos teatrais, cobriu o rosto com as mos e disse:  No! No vou atender ningum! Vejo a Morte 
rondando... Vejo tragdia para estas trs pessoas! 



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Assim dizendo, fechou a porta e foi para a janela ver o que iria acontecer. 



 No precisou esperar muito. Os trs primeiros da fila que, certamente ali estavam havia horas, saram do prdio reclamando, pisando duro, dizendo que era um absurdo 
serem tratados daquela maneira. 



Juntos  dois homens e uma mulher  comearam a atravessar a rua... 



Jeanne viu antes de todos pois, como estava  janela do apartamento, tinha um campo de viso muito mais amplo. 



O caminho dos bombeiros virou, apressado, vindo da Avenida Anglica. 



No houve tempo nem mesmo de brecar... Os trs foram colhidos em cheio, arremessados  distncia e, quando caram no cho, j estavam, mortos. 



******* Uma a uma, as pessoas que ali estavam esperando para falar com a francesa, foram indo embora. 



Jeanne sorriu e no pode deixar de pensar que o ser humano  de fato muito engraado... Todos querem saber o futuro, todos querem saber o que o Destino est- lhes 
reservando. Porm, no momento em que descobrem, que isso pode de fato acontecer, preferem ficar na ignorncia, sem saber de coisa nenhuma, sem ter de conviver com 
o conhecimento de fatos desagradveis que lhes sero impossveis modificar. 



Jeanne conseguiu a paz que estava desejando. Hilda ainda telefonou mais algumas vezes tentando faz- la atender algumas amigas mas Jeanne perguntou se ela queria 
que as amigas soubessem de coisas desagradveis e trgicas. 



 Coisas como por exemplo o nome da amante de seus maridos...  disse Jeanne. 



Ora... Uma das amantes em questo no era outra seno a prpria Hilda... Assim, ela acabou desistindo. E Jeanne pode se dedicar a esperar a chegada de Toms j sabendo 
que ele viria ansioso, carente de amor e disposto a simplesmente arrebent- la com a sua paixo. 



******* 



178 



 



Toms chegou, finalmente, depois de uma ausncia que pareceu um sculo para Jeanne. 



Na verdade, ela no estava sentindo falta de Toms como homem, como companheiro ou, que fosse, como o pagador de suas contas. Ela tivera o Mestre como amante por 
diversas vezes, no ficara sozinha em nenhum instante  tivera at de tomar providncias para que no ficasse com companhia demais  e quanto a dinheiro, Toms, 
antes de partir para o Rio de Janeiro, deixara com ela uma gorda importncia e isso sem contar que ela poderia  hora que bem quisesse, lanar mo das contas bancrias 
que tinha em seu prprio nome, devidamente sustentadas pelo marido. 



Porm, Jeanne sentiu a ausncia de Toms. Havia alguma coisa, uma sensao estranha que deixava a mulher ansiosa e um pouco angustiada. Parecia que lhe faltara um 
pedao durante aquelas semanas que Toms no estivera ao seu lado. 



Depois que ele voltou para casa, quando os dois estavam sozinhos na sala, ele contando a respeito dos negcios que realizara na capital e ela falando a respeito 
das ltimas novidades na sociedade paulistana, Jeanne comentou com Toms a respeito dessa sensao de falta que a aborrecera durante a sua ausncia. 



Com uma expresso sarcstica, ela murmurou:  No imaginava que pudesse am- lo tanto... Beijou- o, mostrando- lhe que estava disposta a matar essas saudades de 
uma maneira muito especial e Toms, srio, replicou: 



 No  amor, Jeanne. Voc apenas sentiu falta de seu escravo... Assim dizendo, Toms levantou do sof e saiu da sala. Jeanne ficou olhando para ele, atnita. Sentira 
em sua aura algo de diferente, notara que o interesse que Toms sempre tivera por ela estava um pouco modificado... 



Um pouco?! No! Estava muito modificado pois ele apenas a beijara, at rapidamente demais e, mesmo que Jeanne tivesse posto esse desinteresse na conta do cansao 
da viagem do Rio de Janeiro at So Paulo, ainda assim era estranho. 



Em outras ocasies, mesmo muito mais cansado, ele ainda tivera energia e interesse bastante para passar a metade da noite em claro, em alucinantes ginsticas amorosas! 



179 



 



Por um momento, Jeanne pensou em tomar satisfaes. Mas, pensando um pouco melhor, ela chegou  concluso que no teria o menor cabimento. Ele, de fato, deveria 
estar esgotado pela viagem e, ainda por cima, bastante preocupado. 



Afinal de contas, no dia seguinte e provavelmente no restante da semana, teria ainda muito trabalho para pr em dia tudo o que ficara para trs por causa da sua 
ida ao Rio de Janeiro e isso, sem contar que teria de viabilizar todas as transaes que engatilhara na Capital Federal. 



Para um homem do nvel de responsabilidade de Toms, essas preocupaes contavam muito, inclusive em sua maneira de se relacionar com as pessoas. Assim, o melhor 
que ela faria era esperar um pouco e, se fosse o caso, conjurar Sat... 



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CAPTULO XIII 



Durante o ano e meio que se seguiu, Jeanne esteve muito ocupada com sua agenda de obrigaes sociais, com visitas, festas, reunies e atividades as mais diversas. 



Desde que ela fizera aquelas poucas sesses de profecias e desde que acertara de uma maneira to impressionante em suas predies, ela passou a ser, como dissera 
o Prncipe das Trevas, no apenas respeitada, mas principalmente temida. E isso fazia com que as pessoas jamais deixassem de convid- la para qualquer coisa que 
inventassem. 



E como na verdade Jeanne no desejava outra coisa, sentia- se feliz e realizada recebendo telefonemas, convites, chamadas para comparecer a palestras e toda sorte 
de futilidades que as madames da alta sociedade que no tm o que fazer, costumam inventar. 



As atividades sociais da francesa eram tantas, que ela nem sequer teve tempo para reparar que o marido estava cada vez mais distante e que nem sequer a procurava 
com a mesma frequncia de antes. 



Jeanne chegava em casa tarde, no encontrava Toms que, segundo o recado de Serafina, telefonara dizendo que tivera uma reunio e por isso, no jantaria com a esposa. 



Recado, na realidade, intil pois Jeanne j jantara fora, ela tambm... S que,  claro, no tivera a delicadeza de avisar. 



Da mesma maneira que se esquecera de Toms, Jeanne tambm no se lembrou do Mestre. 



Estava ocupada, tinha muito em que pensar e no se lembrara nem mesmo de conjur- lo para perguntar o por qu do comportamento de Toms no dia em que chegara. 



Parecia que nada mais tinha qualquer importncia para ela... O que a interessava era a sua projeo social, a certeza de uma slida conta bancria e os olhares de 
respeito, admirao e temor que despertava quando aparecia em algum lugar... 



Toms, por sua vez, estava muito satisfeito com a situao. Desde que percebera que Jeanne era a dominadora, era aquela que fazia e desfazia ao seu bel prazer, comeara 
a nutrir uma certa raiva da mulher e... Por vezes, chegou a pensar em separao. 



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Porm, tudo se sabe na sociedade... E Toms logo ficou sabendo do que acontecera em sua casa enquanto estivera no Rio de Janeiro. 



No comeo, foi difcil acreditar que Jeanne pudesse ter esse tipo de dom, essa tendncia a ser clarividente mas, se contra a voz da maioria j  quase impossvel 
ter argumentos, contra provas... 



E havia provas. O caso de Nildo, por exemplo, a morte das trs pessoas que tinham sido praticamente expulsas da casa de Jeanne... E isso, sem falar dos inmeros 
casos de impotncia sexual, de frigidez, de traio que sua mulher tinha resolvido. 



De posse dessas informaes e vendo- as comprovadas, Toms achou melhor no mexer com Jeanne pelo menos por enquanto... 



No que ele acreditasse piamente nessas coisas mas, como bom quatrocento, tinha sido criado por uma empregada negra, filha de escravos e que lhe contara tantas 
e tantas coisas a respeito de espiritismo, de bruxarias e de feitiarias as mais diversas, que ele, por uma questo at de reflexo condicionado, tinha medo de mexer 
com qualquer coisa que lhe cheirasse a sobrenatural. 



Dessa maneira, se ele j tinha uma certa reserva em relao  parte espiritual de sua esposa, era mais do que claro que passasse a tem- la e, algumas vezes, surpreendeu- 
se a se persignar depois de cruzar com ela no corredor do apartamento pela manh... 



 Nada de separao  dizia para si mesmo  De repente, ela me roga uma praga e meus negcios vo para o belelu...! 



Era prefervel aguentar, engolir mais alguns sapos e, depois... Bem... Um dia, a corda haveria de estourar. Provavelmente quando ele tivesse de voltar ao Rio de 
Janeiro e reencontrasse Sylvia. 



******* A vida do casal seguia nesse ritmo, sem que nenhum dos dois se decidisse a parar para pensar e interpelar o outro embora houvesse razes de sobra para tanto 
quando, numa manh de segunda- feira, Toms entrou no escritrio, na Praa Patriarca, e surpreendeu- se ao ver Sylvia  sua espera. 



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Ela estava mais bonita do que nunca, um pouco mais cheia de carnes, o busto parecendo maior e mais generoso, os cabelos arrumados num penteado elegante. 



Toms no pode deixar de notar que ela estava vestida com simplicidade o que contrastava um bocado com a maneira como a moa se trajava l no Rio de Janeiro. 



E... Sylvia trazia no colo uma criana de pouco menos de um ano de idade. Um pouco perturbado pela surpresa e intrigado com o fato de ela ter vindo procur- lo em 
So Paulo aps mais de ano e meio, Toms convidou- a a entrar em sua sala, dizendo: 



 Mas  uma surpresa extremamente agradvel, Sylvia! Vamos entrar... Acho que depois de tanto tempo... 



Sylvia, sempre carregando a criana, passou para o interior do gabinete de Toms e disse, assim que ele fechou a porta: 



 Sim, Toms... Depois de todo esse tempo,  claro que ns temos muito o que conversar. 



Sorriu e acrescentou:  Alis, ns trs... E, mostrando a criana para Toms, disse:   pena que sua filha, Simone, ainda no saiba falar... Toms sentiu, de repente, 
que o cho faltava sob suas pernas. Sentou- se, depressa, na poltrona ao lado de Sylvia e balbuciou:  No entendi direito... Voc disse... que essa criana... Sylvia 
o ajudou:  Isso mesmo, Toms... Simone  sua filha. Toms balanou a cabea negativamente e murmurou, quase em pnico: 



 No... Isso no  possvel...  um pesadelo... No pode estar acontecendo comigo! 



Muito sria, Sylvia falou:  Eu estava esperando por isso, Toms. Assim, seu comportamento e sua reao, no me chocam... No est sendo nem um pouco diferente do 
que imaginava. 



Toms olhou para a menina nos braos da me. Ele vira muitas e muitas fotografias suas quando beb... E era mais do que evidente a extrema semelhana. 



  a sua cara  sorriu Sylvia, nervosa. 



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Toms no conseguiu deixar de sorrir e, num gesto involuntrio, estendeu a mo acariciando o queixo de Simone. 



A menina sorriu, Toms teve, de repente, uma estranha sensao... Olhou para Sylvia e perguntou:  Mas... Tem certeza de que  minha filha?  Sim  respondeu a mulher, 
com calma e segurana  Depois de voc, no houve outro homem em minha vida e antes... 



Deu um sorriso e murmurou:  Acho que voc se lembra como eu estava... Deve se lembrar que eu parecia uma louca, no  mesmo? 



Toms fez um sinal afirmativo com a cabea e sorriu. Era mais do que vvida em sua memria a lembrana daqueles dias, a excitao de Sylvia e a nsia que mostrava 
em encontrar e gozar o prazer 



 Fazia mais de um ano que eu no tinha nada com homem nenhum...  disse ela. 



Toms respirou fundo, voltou a olhar para a menina. Sim... Ela era linda. Linda e sorridente, parecendo at reconheclo, parecendo que sabia ser ele o seu pai. 



 O que quer de mim?  indagou Toms  Dinheiro para no fazer um escndalo? 



Sylvia olhou torvamente para ele e disse, com uma expresso de profunda tristeza em seu rosto: 



 No quero seu dinheiro, Toms... No pretendo fazer escndalo nenhum. 



Esboou um sorriso nervoso e falou:  No posso negar que gostaria muito de t- lo ao meu lado, de ser sua esposa e de v- lo como o pai de nossa filha... Mas sei 
que isso  um sonho impossvel. Voc tem a sua vida, o seu mundo, a sua sociedade  qual eu jamais conseguiria pertencer. 



Tomando flego, Sylvia disse:  No  nada disso o que eu quero.  ... ento...?  fez Toms, ansioso. Sylvia fitou- o com intensidade.  Quero que minha filha tenha 
um pai... Nada mais que isso. No quero que ela cresa com uma certido de nascimento onde aparea em branco a linha onde deveria figurar o nome de seu pai.  isso 
o que eu quero e  isso que hei de conseguir. Se for preciso, lutarei e, ento sim,  muito provvel que acontea um escndalo. 



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Toms suspirou. Sylvia tinha razo. Se ela entrasse na Justia com um processo de investigao de paternidade, com certeza ele conseguiria provar que no era o pai. 
Melhor dizendo, muito dificilmente, ela conseguiria convencer o Juiz de que ele era o pai. Especialmente em se 



levando em conta que a Justia sempre tem uma certa tendncia para facilitar as coisas para os que tm mais posses, mais recursos para lutar e, consequentemente, 
mais armas. 



O dinheiro  a arma da sociedade... Mas, haveria o escndalo... E um escndalo no faria bem para a posio de Toms Camargo. Depois... Aquela menina era to bonitinha... 
Sorria tanto para ele... Toms, num gesto instintivo, involuntrio, apanhou Simone das mos da me. 



Simone ampliou o sorriso, estendeu as mozinhas para tocar o rosto dele... 



Era incrvel... Mas, de repente, Toms achou que sua menor obrigao era reconhecer aquela criana como sendo sua filha. 



 Voc no vai criar mais casos no futuro?  indagou ele para Sylvia sabendo muito bem que era uma pergunta intil. 



 Voc tem a minha palavra  falou ela  No quero mais nada alm de voc assumir a paternidade. 



Toms, ainda segurando a criana nos braos, murmurou:   uma garantia muito frgil, no acha? Sylvia sorriu. Pegando de volta Simone, ela falou, com determinao: 
 Tem razo.  frgil e abstrata. Apenas uma promessa minha, ser sempre ancorada somente por minha palavra. Mas, voc tem a garantia slida e concreta de que eu 
vou lutar para conseguir provar que voc  o pai, se isso for necessrio. 



Devolvendo Simone para Toms pois esta se agitava querendo ir para o colo do pai, acrescentou: 



 Eu poderia t- lo procurado logo que soube da gravidez. Poderia ter feito um escndalo dos maiores e poderia ter vindo falar com voc logo que Simone nasceu. Mas 
no. Quis esperar pois achei que o tempo seria um bom conselheiro tanto para mim quanto para voc. 



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A menina estava brincando com o queixo de Toms, emitindo alguns sons ininteligveis e sorrindo muito. 



 Voc foi muito esperta  disse ele, rindo  Sabia que eu no conseguiria resistir a esse rostinho... 



Sylvia permaneceu em silncio, sentindo o corao bater mais depressa.  Est certo  disse Toms  Vou reconhecer Simone. Ela levar meu sobrenome mas... 



Sylvia ergueu os olhos para ele e Toms arrematou:  Mas voc ter de aceitar uma ajuda de custos pois eu no quero que minha filha passe por dificuldades. Alm 
disso, ter de manter segredo. A existncia de Simone s dever ser posta  tona no momento que eu decidir. 



Sylvia concordou. Ela no tinha muita escolha e a proposta de uma ajuda de custos no era nada ruim pois Sylvia estava desempregada desde o incio da gravidez, vivendo 
de pequenos servio s e enfrentando enormes necessidades. 



Ela tinha ido a So Paulo apenas com a inteno de convencer Toms a reconhecer a filha. Mas, se ele estava disposto a outras coisas alm disso, ela s tinha que 
agradecer aos bons espritos que lhe estavam proporcionando essa chance. 



Emotiva, Sylvia sentiu as lgrimas escorrerem por suas faces enquanto, em sua memria, aparecia a cena que vivera dezesseis meses atrs, num terreiro de Umbanda... 



******* A Me- de- Santo, uma negra enorme, usando um vestido branco e rendado, com um colar de conchas e de contas no pescoo, inclinouse para a frente e soprou 
no rosto de Sylvia a fumaa ftida do charuto que estava fumando. 



A moa, j nervosa, tensa e sensvel, sentindo a cada vinte minutos os enjos da gravidez de dois meses, surpreendeu- se por no vomitar com aquele cheiro. 



 Voc est grvida  disse a Me- de- Santo  E vai ter essa criana. 



Sylvia queria dizer que no era isso que estava pretendendo, que, muito pelo contrrio, queria dar um jeito de tir- la, mesmo sabendo que correria um enorme risco 
de vida. 



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Porm, no o conseguiu. Sua voz estava presa na garganta, parecia- lhe no ter foras 



para solt- la ou, ainda, parecia no ter condies materiais e fsicas de pronunciar uma s palavra. 



A Me- de- Santo continuou:  Essa criana significa muito para voc e h de significar muito mais para outras pessoas. Vai despertar o amor e tambm vai despertar 
o dio. Ser protegida e ser atacada. Passar por momentos ruins e por momentos muito bons... 



Sylvia, ouvindo- a dizer essas frases, no pode deixar de pensar que na vida de todos essas situaes inevitavelmente ocorrem. Todos tm momentos bons e momentos 
ruins, todos 



despertam o amor e tambm o dio... O que a Me- de- Santo estava dizendo no era novidade nenhuma... 



A preta, esboou com dificuldades alguns passos de uma estranha dana e, afastando- se de Sylvia apanhou sobre a mesa baixa que lhe servia de altar, um ramo de arruda. 



Agitou- o sobre o ventre da moa enquanto pronunciava uma orao de que Sylvia no conseguiu entender uma s palavra. 



Depois, com um estremecimento, a Me- de- Santo falou:  O pai dessa menina  muito rico e importante mas voc no ir incomod- lo at a criana estar com nove 
meses. Depois de nascida... A sim, ir procur- lo e ir fazer com que ele a reconhea como filha. Mas no exija mais nada alm disso, mocinha... E, depois, tome 
muito cuidado... Muitas foras do mal sero chamadas para acabar com voc e com sua menina... 



 Mas  uma menina?  indagou Sylvia.  Sim  respondeu a Me- de- Santo   uma menina. E ser muito bonita, ainda mais bonita do que voc... 



Pousou ambas as mos sobre a cabea de Sylvia, fechou os olhos e ficou assim, imvel e em silncio por quase dois minutos. Depois, falou: 



 Ela vai se chamar Simone. Vai estar protegida quando encontrar o seu homem mas, at l, tanto ela quanto voc estaro  merc das foras do mal. Ser preciso tomar 
muito cuidado. Mas muito cuidado mesmo, pois Exu pode aparecer e querer tom- la de voc. 



Sylvia estremeceu. Ela conhecia muito bem os poderes de Exu e sabia que as palavras da Me Antnia significavam que ela e sua filha estavam sujeitas a muitos perigos, 
at mesmo a perigos de vida. 



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 O que eu devo fazer, Me Antnia?  perguntou Sylvia, aflita.  Por enquanto, nada  respondeu a Me- de- Santo  Mas, quando voc encontrar outra vez com o pai 
de Simone, receber o sinal de proteo. 



A preta sorriu e Sylvia percebeu que jamais poderia esquecer a candura que havia em seu olhar. 



 Agora v, minha filha  falou ela  V e cuide muito bem de voc e de Simone. Lembre- se sempre que a vida  muito curta para tudo o que se tem para fazer nesta 
Terra e, assim,  muito importante que se tenha a continuidade de voc mesma em sua filha... 



Sylvia deixou o terreiro de Umbanda com uma agradvel sensao de alvio. 



Sabia que teria uma menina, que ela seria muito bonita e que, de qualquer maneira, no deveria procurar Toms antes que ela completasse nove meses... 



 claro que Sylvia ficara preocupada com algumas das coisas que Me Antnia dissera... 



 Tomarei cuidado  pensou  E nada de ruim h de acontecer, seja para Simone, seja para mim. 



Simone...! Era um bonito nome e possivelmente, mesmo que no tivesse conversado com a Me- de- Santo, seria um dos que Sylvia teria para escolher. 



Perguntou- se por que deveria esperar tanto tempo antes de procurar Toms. Ela bem que gostaria de lhe dar a notcia mas, por outro lado, tinha conscincia de que 
ele no gostaria de saber que Sylvia estava grvida. 



Percebeu que as palavras de Me Antnia, mais uma vez, eram carregadas de sabedoria. 



Sim, seria muito melhor que Toms soubesse da existncia da filha mais tarde, quando no houvesse a menor possibilidade de Sylvia ser pressionada a abortar ou, ainda, 
a dar a criana para adoo. 



Sorriu consigo mesma, descendo o morro em direo  sua casa e pensou: 



 O melhor que eu fao  seguir direitinho as recomendaes de Me Antnia... E  isso mesmo o que farei! 



******* 



188 



 



Sylvia estava maravilhada... Deixaram o Cartrio do Registro Civil perto da hora do almoo, ela j segurando a Certido de Nascimento da filha onde figurava, como 
pai, o nome de Toms Camargo. 



A primeira parte de seu sonho estava realizada. Sua filha tinha um pai, no era mais fruto de um amor desconhecido, ela no teria necessidade de explicar, mais tarde, 
com palavras dbias e difceis, a sua origem. 



Era filha de Toms Camargo e isso era o bastante.  Onde voc est, aqui em So Paulo?  perguntou Toms.  Na casa de uma tia  respondeu Sylvia  Devo voltar para 
o Rio de Janeiro amanh. 



Sorriu e acrescentou:  J consegui o que estava querendo, Toms. Nada mais me resta a fazer aqui em So Paulo. 



Toms ficou em silncio por alguns momentos e, entrando numa joalharia, comprou uma correntinha para Simone e uma outra para Sylvia. 



 Escolha as medalhas  disse Toms, com um sorriso  Acho que durante a gravidez e mesmo durante o parto, voc deve ter rezado para algum santo, no  mesmo? 



Sylvia no respondeu. No podia dizer a ele que rezara, sim... Rezara muito, pedindo a Santa Rita de Cssia e a So Jorge que a ajudassem a realizar o sonho de convencer 
Toms. 



Assim, com esses dois santos na cabea, ela procurou entre as muitas medalhas que havia no mostrurio da joalharia, uma que representasse Santa Rita e outra, So 
Jorge. 



Em menos de trinta segundos, ela encontrou o que queria. Na verdade, era at mais do que esperava pois as medalhas que apanhara tinham de um lado Santa Rita de Cssia 
e do outro, So Jorge matando o drago. 



Toms ps as correntinhas pessoalmente no pescoo de Sylvia e de Simone e, saindo da joalharia, disse: 



 Estou abrindo um escritrio de representaes aqui em So Paulo.  claro que vou precisar de uma pessoa responsvel e que possa cuidar de tudo. Se voc quiser, 
ser a melhor maneira de poder lhe dar uma penso sem que isso venha chamar muita ateno na contabilidade de minha firma. 



Sylvia assentiu com um sinal de cabea, querendo dizer de viva voz o quanto estava agradecida mas, a emoo embargou- lhe a voz. Foi s depois de alguns momentos 
que ela conseguiu dizer: 



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 Muito obrigada, Toms... No esperava que voc fosse to bom... Toms no retrucou. Limitou- se a beijar a testa de Sylvia e a fazer um carinho no rosto de Simone. 



Fez sinal para um txi e, pondo um mao de dinheiro na mo de Sylvia, acrescentou, ele tambm com a voz embargada: 



 Volte aqui amanh. Deixe Simone com sua tia e volte para que possamos regularizar a sua situao e para que tudo possa ficar bem acertado, sem riscos para mim 
e sem desvantagens para voc. 



Viu o carro se afastar e, acenando em despedida para Sylvia, respirou fundo. Era engraado. Mas fazia muito tempo que ele no se sentia to bem... 



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CAPTULO XIX 



Se a vida de Sylvia sofrera uma modificao radical, a de Toms tambm mudara e muito. 



De repente, ele se conscientizara de que tinha uma filha e de que isso era muitssimo importante em sua existncia, talvez o fato mais importante de todos. 



Seu relacionamento com Jeanne, que j estava muito diferente do que era no incio, parecia se deteriorar a cada dia, os dois discutindo com frequncia e no conseguindo 
chegar a nenhum entendimento em quase todos os aspectos da vida quotidiana. 



Provavelmente, num relacionamento normal, com uma mulher normal, as coisas tivessem estourado desde que Toms voltara do Rio de Janeiro. Porm, Jeanne estava longe 
de poder ser considerada como normal. Para ela, o que interessava era o dinheiro, a posio conquistada, o respeito  e por que no dizer?  o temor que inspirava 
em todas as outras pessoas. 



Assim, ela foi se distanciando de Toms, foi mostrando claramente quais eram os seus verdadeiros interesses naquele relacionamento e... 



Chegou ao ponto em que passaram a dormir em quartos separados. No houve uma briga, uma discusso mais sria que a forasse a tomar essa deciso. Tampouco o casal 
teve uma longa conversa em que se chegasse  concluso que, para o bem da unio entre os dois e para o bem da convivncia pacfica naquela casa, o ideal seria cada 
um fazer a sua vida e, logicamente, passarem a dormir em quartos separados. Nada disso aconteceu. Foi algo natural. Fazia j alguns meses que eles j nem se encontravam 
mais, Toms sempre com muitas coisas para fazer e Jeanne, por sua vez, ocupadssima com suas atividades sociais. Muitas noites, chegando tarde em casa, Toms dormira 
no quarto de hspedes no apenas para no incomodar a mulher com a sua entrada tardia no quarto do casal, mas principalmente para no correr o risco de ter de conversar 
com ela, ou de ter de arrumar explicaes que lhe seriam penosas. E mentirosas. 



Sim... Muitas dessas noites que Toms chegara tarde, ele no estivera em outro lugar seno no apartamento de Sylvia, conversando com ela e vendo sua filhinha, tendo 
o prazer de p- la para dormir, de v- la adormecer como 



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um anjinho, a chupeta na boca, a mozinha segurando uma ponta de fralda...  Ela s dorme assim  dizia a me  Se no estiver segurando uma fralda, no consegue 
adormecer... 



Depois que Simone dormia, os dois ficavam conversando na sala, falando sobre as atividades do dia. Toms sentia- se bem ali, naquele apartamento pequeno, com mveis 
simples e sem nenhum requinte. 



Muitas e muitas noites ele teve vontade de dizer para Sylvia que se mudaria em definitivo para sua casa, que mandaria Jeanne para o inferno e que se danasse o inevitvel 
escndalo. 



Mas, o comportamento de Sylvia o impedia. Ela o tratava muito bem, era carinhosa, meiga, sempre tinha um prato de bolo ou de salgadinhos para ele mas... 



No permitia a menor aproximao. Certa vez, quando ele tentara, Sylvia se afastou, dizendo:  No, Toms. No quero. No quero voltar a me apaixonar e no quero 
alimentar qualquer esperana. No fui feita para voc. Deixeme em paz com a minha filha, continue a ser como tem sido, por favor... Imagine que voc e eu somos um 
casal separado. Nada mais do que isso. 



No era exatamente o que Toms gostaria de ter ouvido mas, raciocinando mais friamente, ele chegou  concluso que Sylvia estava com a razo. Os dois podiam se dar 
muito bem na cama mas, Sylvia jamais se adaptaria  vida de sociedade que seria obrigada a ter se estivesse casada com ele. 



Alm disso, havia Jeanne... Jeanne o intimidava... Tinha certeza que, com Jeanne, as coisas no seriam to simples quanto foram com Beatriz. A francesa faria o diabo 
para no perd- lo pois sabia que toda a sua posio e influncia era decorrente de estar casada com ele. E Jeanne no estava disposta a abdicar de nada daquilo. 



 melhor deixar as coisas como esto  disse para si mesmo  Sylvia e Simone esto bem, esto perfeitamente assistidas, tm a vida garantida... O resto... H de 
ser sempre e to somente o resto. 



Assim dizendo, Toms se dedicava ao trabalho com toda a vontade, vivia em funo de suas atividades profissionais e,  claro, isso s fazia com que sua fortuna aumentasse 
a cada dia. Tinha, sempre, uma sombra de tristeza por no poder comentar que tinha uma filha, uma certa frustrao por no estar com Sylvia e uma raiva intensa de 
si mesmo por continuar com Jeanne, partilhando uma vida sem no entanto, de fato reparti- la. 



Esses sentimentos se manifestavam com mais intensidade quando, no final do expediente, ele e alguns amigos se reuniam em um 



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bar da moda para um aperitivo antes de voltar para casa. Nesses momentos, era proibido falar de trabalho e assim, o assunto invariavelmente girava em torno da vida 
domstica de cada um. Toms ouvia, com inveja e tristeza, os colegas comentarem a respeito de suas famlias, de seus filhos, dos planos e dos sonhos que faziam... 



Ele, apesar de casado, no tinha o que comentar. Falar o qu? Que Jeanne estava, nas ltimas trs semanas ocupadssima com palestras sobre espiritualismo? Ou que 
Jeanne tinha mandado reformar a cozinha do apartamento? Ou que fazia j um bom tempo que ele no se deitava com a mulher? Ou ser que ele poderia falar que tinha, 
tambm uma filha, que ela estava crescendo linda e que passava s vezes, horas seguidas conversando com ela? Ou, ainda, que muitas tardes, quando dizia no escritrio 
que precisava ir a Santos para resolver algum negcio importante, ele tinha era ido para a casa de Sylvia, apenas para poder ir buscar Simone no Jardim de Infncia? 



Mas ele no podia falar nada disso. Tinha de manter silncio, guardar esse segredo. Tinha de se mortificar, abafar um sentimento que ele no sabia que poderia ter: 
o amor paterno. 



******* Por sua vez, Jeanne continuava a sua vida. Normalmente, como se o mundo girasse ao seu redor, como se nada a pudesse abalar e agindo como se tivesse o indiscutvel 
direito de dominar todos, de exigir de todos e de fazer com que quem quer que dela se aproximasse, ficasse numa posio de inferioridade absoluta. 



Evidentemente, ela percebera que Toms mudara... J pelo seu desinteresse em procur- la, Toms estava diferente e qualquer mulher logo imaginaria que ele estava 
mantendo uma amante ou que, na melhor das hipteses, estava doente, sem qualquer libido. 



Porm, para Jeanne, isso no interessava muito. O que ela queria, era que Toms no a abandonasse de repente, deixando- a sozinha e desamparada do ponto de vista 
da sociedade. Jeanne sabia muito bem que, sem Toms, ela no seria ningum, por mais dinheiro que tivesse, por mais poder que pudesse demonstrar. 



Sim, mesmo sendo considerada por muitos como uma autntica feiticeira, ela no mais seria respeitada. Passaria a ser simplesmente temida mas, respeitada, requisitada 
para festas e reunies, convidada para participar de todas as atividades sociais da cidade, isso, ela sabia que no seria mais. 



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Assim, Jeanne preferiu calar e no fazer perguntas ao marido. O que,  claro, no a impediu de conjurar Sat  afinal, se Toms no tinha a menor necessidade de 
mulher, ela tinha necessidade de seu Mestre  para lhe perguntar, antes do prazer, por que razo o marido estava se comportando daquela maneira. 



 Voc ainda no precisa saber, Jeanne  disse o Prncipe das Trevas  Mas fique tranquila... Minha mo est por trs de tudo e Toms no conseguir se libertar 
de voc at o seu ltimo instante de vida. 



Essa informao tranqilizou Jeanne. Se Sat estava dizendo que as coisas seriam assim, ento no havia o que temer. E se ele dissera que no precisaria saber de 
nada por enquanto, nesse caso, para que o desgaste de uma discusso em busca de explicaes que muito provavelmente seriam mentirosas? 



O melhor a fazer era deixar passar o tempo, procurar aproveitar o mais possvel o dinheiro de Toms e, todas as vezes que pudesse, faz- lo comprar alguma coisa 
de valor para ela de maneira a ir formando um patrimnio particular pois... 



 Nunca se sabe...  pensava  Sat pode estar enganado... Pelo que li, ele no  infalvel e pode perfeitamente, errar em suas predies! 



******* Para Sylvia, a vida parecia sorrir. Simone crescia bem, cheia de sade e de energia, esperta, alegre e inteligente. 



Seu relacionamento com Toms era excelente e, quando Sylvia a via nos braos do pai, tinha certeza de que ali havia amor e, principalmente, identidade. Muitas vezes, 
Toms dissera que, por ele, viria de imediato morar com elas mas... 



Havia empecilhos muito srios... Sylvia sorria e falava que no daria certo, explicava que ela no tinha sido feita para um homem como ele e que o melhor era deixar 
as coisas como elas estavam. 



E, assim dizendo, ela se lembrava das palavras de Me Antnia quando voltara ao Rio de Janeiro para agradecer  Me- de- Santo e aos Orixs todas as graas recebidas. 



 No queira esse homem como marido  dissera Me Antnia  Fique satisfeita com o fato de ele ter assumido sua filha. 



 Mas por que?  indagara Sylvia que, durante a viagem, 



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alimentara a esperana de voltar a ter Toms dentro de casa, como seu homem, seu marido e pai de sua filha, formando eles trs uma famlia normalmente constituda. 



 H muita maldade ao redor dele, minha filha  respondera a preta  E se ele estiver definitivamente em sua casa, o perigo que o cerca poder recair sobre voc 
s duas! Simone ainda  pequena demais para se defender e, assim, cabe a voc evitar que ela seja mais ameaada do que j est sendo! 



E, com voz preocupada, acrescentara:  H um Exu muito perto de Simone... Um Exu muito poderoso e que eu no conseguirei mand- lo embora. Esse trabalho no pode 
ser feito, pelo menos, no pode ser feito agora. O mximo a fazer  defender e proteger Simone, minha filha. E isso ser mais fcil se Toms no estiver morando 
com vocs. Caso contrrio, apesar de tudo parecer muito bom, as duas estaro correndo um grande perigo! 



Durante semanas, j de volta a So Paulo e comeando a trabalhar para Toms, Sylvia pensou nas palavras de Me Antnia. Chegou a pensar que ela estivesse enganada 
pois no conseguia enxergar de que maneira pudesse haver maldade ao redor de Toms. 



Era um homem bonssimo, bom patro, excelente negociante... Parecia que onde quer que ele pusesse as mos, o dinheiro brotaria, farto, abundante... 



E, no entanto, Me Antnia jamais se enganara... ******* Um dia, Sylvia conheceu Jeanne. A francesa precisara de uma assinatura do marido e fora atrs dele no escritrio. 



Ficou impressionada com a beleza de Jeanne, achou- a linda, perfeita, at mesmo simptica... 



Porm, havia alguma coisa nela que a amedrontava e que a fez sentir um desejo imenso de fugir dali. 



No soube dizer, de imediato, o que a impressionava to negativamente mas, quando Jeanne saiu da sala de Toms e, ao passar por sua mesa olhou- a, Sylvia teve certeza 
de que havia uma aura de negatividade e de maldade ao redor de seu corpo. 



Uma aura que explicava muito bem por que Me Antnia dissera para tomar cuidado e que mostrava por que Toms deixava ver que sentia tanto medo da mulher. 



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CAPTULO XX 



E, de fato, Jeanne fazia medo a todas as pessoas que, de uma maneira ou de outra, tinham contato com ela. 



Ao contrrio do que acontece na maioria das vezes, o amadurecimento no pusera em Jeanne o menor trao de compreenso, o menor resqucio de entendimento ou, que 
fosse, de cumplicidade com a vida. Muito pelo contrrio, ela estava cada vez mais dura e mais fria, seu olhar mais calculista e seus lbios, j muito finos por natureza, 
estavam transformados em apenas duas linhas delimitando a boca, o que lhe dava um aspecto de extrema maldade. 



 claro que ela conservara suas linhas, que mantivera o corpo em excelente forma e, assim, sua sensualidade aparecia e saltava aos olhos, exacerbada pelos cabelos 
muito vermelhos que lhe emprestavam uma aparncia diablica, exatamente aquela aparncia de seduo e de tentao que se v nas gravuras da Renascena quando os 
grandes mestres queriam representar o Inferno e as almas que ali penavam. 



Em conversas  meia voz, os homens que a conheciam eram obrigados a admitir que era uma mulher bonita, desejvel e que teria todo o potencial de transformar uma 
noite de amor em algo inesquecvel. Mas, todos eles concordavam que havia em Jeanne, alguma coisa que os intimidava e que os fazia nem mesmo tentar uma aproximao 
maior. 



 Acho que so aqueles olhos  diziam uns  Eles me amedrontam!  So seus lbios  afirmavam outros  No seria capaz de beij- los! 



  a sua aura  falavam os mais msticos  No  uma aura boa! Jeanne exala maldade, recende perversidade! 



Talvez estes estivessem mais certos. Jeanne, de fato, mostrava por todos os poros, em todos os seus movimentos, que era m, perversa, ambiciosa e, acima de tudo, 
egosta. Para ela, s existia a sua pessoa, s existia a sua satisfao e mais nada. No estava preocupada se, para atingir um seu objetivo, era obrigada a aniquilar 
com meia dzia ou uma centena de outros. O que importava era ela poder dizer que tinha vencido. 



E Jeanne dispunha de recursos para conseguir o que bem quisesse. Recursos materiais e intelectuais pois, apesar de no ter tido quase 



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nenhuma escola, ela era suficientemente esperta e inteligente para aprender, por conta prpria, o mnimo necessrio para se impor aos outros. 



 claro que, no dia- a- dia, sempre h de aparecer, para quem quer que seja, algum com mais capacidade e com mais valor... 



Isso tambm ocorria com Jeanne. E era nessas ocasies que ela mostrava exatamente quem era e de que era capaz para derrotar o adversrio. 



Adversrio! Jeanne considerava como inimigo, como adversrio, todo aquele que no concordasse com sua opinio e que no abaixasse a Cabea enquanto ela estivesse 
falando. Afinal, ela era a rainha e tinha de ser tratada como tal. 



Mas... Havia aqueles que no se deixavam dobrar e que insistiam em ter sua opinio prpria. Ou, ento, que tentavam desmoraliz- la, mostrando que Jeanne estava 
falando coisas que no sabia ou simplesmente, fazendo ver que ela no era a infalvel que fazia questo de mostrar. 



Contra esses, a fria e a ira de Jeanne eram terrveis. Com muita classe, com muita superioridade, ela fazia questo de no discutir em pblico, de no contradizer 
ningum e, assim, no dar margem a que a conversa se esticasse. Deixava que aquele que a contradissera pensasse ter saboreado a vitria. 



E, ento, quando ela chegava em casa, trancava- se em seu quarto e comeava a fazer seus encantamentos. 



Escrevia num pedao de papel o nome da pessoa que a aborrecera, dobrava- o em quatro e deixava- o sobre a mesinha de cabeceira. Em seguida, com uma faca de ponta, 
desenhava no ar um crculo ligando- o a um outro desenho que fazia, um oito deitado, o smbolo matemtico do infinito. Jogava a faca no cho e, com os ps, arrastando- 
os sobre o tapete, traava um outro crculo e sentava- se no centro do mesmo,  maneira hindu. Apanhava o papel, punha- o  sua frente e se concentrava em alguma 
coisa ruim para acontecer a essa pessoa. 



No era preciso mais... No dia seguinte, quando no no mesmo dia, ela tinha notcias de seu desafeto. Normalmente, as piores possveis. 



Na verdade, era muito raro ela no conseguir causar mal s pessoas que quisesse prejudicar. 



Contudo, ela no era infalvel e, s vezes, seus poderes pareciam ser insuficientes para atingir um determinado indivduo. 



Nesses casos, Jeanne recorria ao seu Mestre. 



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Invocava o Prncipe das Trevas e pedia- lhe que a ajudasse com algum feitio mais forte e mais eficaz. 



Sat jamais se recusou. Ela pedia, ele a ensinava como fazer e, em poucas horas, a vtima era atingida. 



Na maioria das vezes, de modo fulminante. Como aconteceu com o marido de uma sua amiga, um homem que ostensivamente no apreciava Jeanne e que no gostava nem um 
pouco de ver sua mulher andando para baixo e para cima com a francesa. 



******* Norberto j tinha dito para Leila que no achava graa nenhuma naquela amizade. 



 Jeanne no  como ns  dissera ele  Ela pertence a um mundo diferente, tem uma cultura e uma educao que no combinam nem um pouquinho com a nossa maneira de 
viver e de ver as coisas. 



E, com uma expresso sombria, acrescentava:  Alm do mais, o olhar dessa mulher... Ela me faz medo! Ela me lembra as histrias que minha av contava quando eu era 
pequeno, sobre as bruxas que comiam criancinhas! 



Leila ria dos temores de seu marido e, teimosa, continuava a andar com Jeanne, a ir para todos os lugares com ela, fazendo- lhe todas as vontades, chegando s vezes 
a parecer sua empregada. 



 No est percebendo que essa mulher est usando a sua boa vontade?  perguntou, irritado o marido, uma vez que Leila tinha sido obrigada a ir at o Embu com Jeanne 
pois esta ouvira dizer que l havia um hbil entalhador de madeira. 



 Eu fui por que quis  retrucou Leila, j aborrecida com as maneiras de Norberto  E pode estar certo que gostei muito de ter ido! 



Norberto olhou furioso para a mulher e rosnou:  Gostou... Certamente gostou! Na certa essa francesa est apresentando homens para voc! 



E, antes que Leila pudesse reclamar, ele arrematou:  Ou ser que voc no sabe como foi que Jeanne conseguiu chegar  posio que ocupa hoje? 



Leila sabia e, como toda mulher criada sob o jugo dos pais e depois, o do marido, ela tinha uma certa inveja de Jeanne, da liberdade que ela pudera usufruir at 
se casar com Toms Camargo. 



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Evidentemente, Leila no teria gostado de se prostituir, no teria achado graa nenhuma em ter de dormir com homens para poder comer. Mas, a prpria Jeanne lhe contara, 
nem sempre tinha sido assim... Muitas e muitas vezes, ela fora para a cama por amor, simplesmente por prazer e, nessas ocasies, era ela quem escolhia o parceiro... 



Leila teria gostado dessa liberdade, teria gostado de no se ver obrigada a casar com Norberto por imposio de seus pais. Para eles, Norberto era o homem feito 
para a filha, herdeiro de uma imensa fortuna em caf e em terras, educado, trabalhador e, o que era mais importante, com conceitos rgidos de moral e de religio. 



Foi justamente por causa desses conceitos que Norberto, ao perceber que de nada adiantava conversar com a esposa, resolveu falar com Jeanne, pedir- lhe para no 
procurar mais por Leila. 



Foi sincero. Ingenuamente sincero. Disse para a francesa que ele no aprovava o seu comportamento no passado e que achava estar ela influenciando de maneira perniciosa 
sua jovem e incauta esposa. 



No tenho nada com sua vida  disse ele  Tampouco sou dos que dependem de alguma maneira da posio de Toms. Por isso, eu me sinto perfeitamente  vontade para 
lhe pedir esse favor. Deixe de procurar Leila. Ser melhor que faa o que estou pedindo para evitar dissabores maiores e para que eu no precise simplesmente proibir 
Leila de sair de casa. 



Jeanne sorriu. Por dentro, ela estava furiosa e, talvez se Norberto no fosse to grande de corpo, ela tivesse lhe dado uma bofetada. Mas Norberto era um autntico 
cavalo e, alm do mais, Leila j lhe falara diversas vezes a respeito de seu gnio explosivo e da facilidade com que ele decidia distribuir sopapos. 



Sopapos que deveriam ter a mesma fora e o mesmo efeito de um coice de mula... 



 No se preocupe, doutor Norberto  falou Jeanne  O senhor nunca mais vai precisar ficar preocupado com Leila. 



Norberto voltou para casa satisfeito, achando at que tinha sido fcil demais e que Jeanne, afinal de contas, no era a pessoa dura e m que lhe tinham falado. 



Com um sorriso, convidou Leila para jantar fora e arrematou:  Conversei com Jeanne... E ela no mais ser motivo de briga entre ns dois... 



******* 



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Assim que Norberto deixou o apartamento, Jeanne comeou a trabalhar. Sentiu logo no incio da cerimnia do crculo que sua fora no seria suficiente para derrubar 
aquele homem. Ele era dono de uma personalidade muito firme, tinha a proteo de alguns santos e, o que era muito importante, ela estava com raiva e dio demais 
para poder se concentrar convenientemente. 



Assim, desistiu e, conjurando Sat, Jeanne pediu:  Faa com que ele nunca mais me aborrea! Sat deu uma risada e, no meio de uma nuvem de fumaa amarelada e horrivelmente 
mal- cheirosa, desapareceu. 



Jeanne ficou sem saber o que pensar. Normalmente, o Prncipe das Trevas manifestava de alguma forma que iria ajud- la. Mas, desta vez, ele simplesmente desaparecera, 
apenas rira... 



Cheia de raiva, Jeanne estava se dispondo a conjur- lo novamente, quando sentiu uma espcie de tontura. 



Sentou- se na beirada de sua cama para no cair e, nesse momento, o quarto inteiro comeou a girar, a girar cada vez mais depressa. Aos poucos, as imagens borradas 
em que tudo se tinha transformado, foram tomando novamente forma e sentido e Jeanne se viu na sala de estar da casa de Leila e Norberto. Percebeu que no estava 
ali fisicamente mas sim espiritualmente e que o casal no podia v- la. 



Norberto estava de p e Leila, sentada em uma ponta do sof, parecendo muito nervosa e irada. 



Mas como?!  fez a moa  Voc teve a coragem de ir procurar Jeanne e pedir- lhe para no mais se encontrar comigo?! 



Balanando a cabea negativamente, exclamou:  No! Eu no posso acreditar que voc tenha feito uma coisa dessas!  Mas fiz!  falou Norberto  E fiz pensando em 
voc, pensando em nosso casamento, pensando em preservar nossa unio e nossa famlia! 



Leila ficou calada, olhando longamente para o marido. Por fim, depois de quase um minuto, durante o qual Jeanne pode sentir toda a raiva e toda a tenso que havia 
entre os dois, ela disse: 



 Pois voc fez muito mal. Errou redondamente... Separando bem as slabas, completou:  No sou sua escrava. Voc est enganado se achou que poderia mandar at mesmo 
nas minhas amizades... Vou me separar de voc e agora mesmo! 



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Leila se levantou e caminhou, com passo decidido, para o quarto do casal. 



Norberto, atnito por um instante, seguiu- a, perguntando, com voz aflita: 



 Mas o que vai fazer? O que est pensando, desgraada?! Leila tirou de um armrio uma grande mala de viagem e comeou a arrumar suas roupas. 



 Pare com isso!  quase gritou Norberto  No seja idiota! Leila olhou para ele de maneira desafiadora e replicou:  Pois  por no ser uma idiota... Exatamente 
por isso que eu vou embora! J estou farta de ser dominada, mandada, de no ter vontade prpria! Para mim chega! Vou embora e vou procurar um advogado amanh de 
manh! 



Norberto perdeu a cabea. Abrindo a gaveta do criado- mudo, apanhou o revlver e disse: 



 Voc vai pr essas roupas no armrio... e j! Leila olhou com desprezo para o marido e continuou a arrumar a mala. 



Norberto engatilhou a arma.  Vou cometer uma loucura!  disse ele  Pelo amor de Deus, pare com isso! 



Leila no respondeu. Continuando a dobrar suas roupas e a metlas na mala, ela 



voltou para o armrio para apanhar outros vestidos. Norberto se ps  sua frente. Leila o empurrou. O dedo, no gatilho da arma, resvalou... Ouviu- se um estampido, 
a cabea de Leila foi chicoteada para trs e a moa caiu no cho, j morta, a testa perfurada pela bala de calibre trinta e oito... 



Norberto olhou para o corpo da mulher estendido sobre o tapete do quarto, o sangue saindo pelo ferimento... 



Esbugalhou os olhos e balbuciou:  Meu Deus... Eu a matei... Alucinado, ergueu novamente a mo armada, desta vez apontando o revlver para o ouvido direito. 



Puxou o gatilho... O quarto comeou novamente a girar e, quando Jeanne se deu conta, ela estava outra vez em sua casa. 



Era de manh e o telefone soava. 



201 



 



Ouviu Serafina atender e, momentos depois, a empregada batia  porta do quarto. 



Jeanne no precisaria nem mesmo ouvir o que ela tinha para falar pois j o sabia... 



 Dona Jeanne...  disse Serafina  Aconteceu uma tragdia com a dona Leila... 



E, enquanto Serafina contava para Jeanne o que lhe havia dito a empregada do casal que encontrara os dois mortos quando entrara no quarto de manh cedo, Jeanne fazia, 
mentalmente, a reconstituio da cena que vivenciara... 



******* Com relao a Toms, Jeanne era absolutamente indiferente. No se incomodava mais se ele chegava cedo ou tarde, no fazia perguntas, nem sequer o convidava 
a participar de sua 



intensa e movimentada agenda social. Fazia apenas questo que ele comparecesse com ela a 



determinados eventos que tinham importncia para ela e estava muito pouco incomodada se o marido tinha ou no tinha vontade de ir. 



 Voc ir comigo a uma reunio na casa do Francisco, amanh  noite  dizia. 



E Toms, como um boi de prespio, balanava afirmativamente a cabea, concordando com tudo o que ela dizia e com tudo o que lhe era ordenado. 



A princpio, ele nem sequer percebeu mas Jeanne, aos poucos, foi se enfronhando em seus negcios, foi tomando conhecimento de tudo e com uma tal eficincia que, 
de repente, era ela quem dava as cartas e que determinava as transaes que deveriam ser realizadas. 



Quando Toms abriu os olhos, j era tarde demais. Jeanne estava com tudo nas mos, ele no poderia fazer mais nada sem o seu consentimento e, incrdulo, quando quis 
tomar uma providncia mais sria a esse respeito, descobriu que ela era dona da maior parte da firma e que ele, no fim, tinha transferido tudo para o seu nome. 



 Voc continuar a administrar  disse ela, fria e dura como o ao de um punhal  Mas no poder fazer coisa nenhuma sem me consultar. 



Toms consentiu. No tinha outra alternativa e, de mais a mais, ele no queria brigas com Jeanne... 



202 



 



Por uma questo de precauo, afastou Sylvia da empresa e, com o dinheiro que tinha numa conta escondida, conseguiu dar- lhe uma renda que permitia uma vida tranquila 
e sem grandes preocupaes financeiras. 



Porm, para Toms, tinha sido um golpe rude. Ele comeou a definhar a olhos vistos e, completamente desanimado, passava a maior parte de seu tempo sem fazer nada, 
apenas esperando chegar alguma coisa que ele mesmo no sabia o que poderia ser. 



Comeou a beber mais do que devia e, em pouco tempo, os amigos se afastaram dele, passaram a no mais respeitar sua opinio nos negcios e todos diziam que ele, 
Toms Camargo, era um homem acabado. 



  pena  falavam  To moo... Ainda no tem idade para estar desse jeito! 



 Isso  culpa da mulher!  falavam os que o conheciam melhor  Aquela vbora acabou com a vida dele! Imaginem! Tir- lo da empresa que ele mesmo fundou! Deix- 
lo como um simples administrador! 



Todos eram obrigados a admitir que Jeanne jogara muito bem e, no correr de um pouco mais de quinze anos, ela se tornara a proprietria da empresa do marido com um 
poder 



econmico incomensurvel. Toms, apesar dos vapores etlicos que passaram a encher sua cabea a maior parte do dia, estava consciente disso e, aconselhado por dois 
amigos advogados, as nicas duas pessoas que sabiam da existncia de Simone, tomara algumas providncias. 



Para comear, passara a no gastar mais consigo mesmo, a usar apenas o dinheiro da empresa para os seus gastos pessoais e, assim, o dinheiro que vinha parar em suas 
mos, era imediatamente investido, posto a salvo da ganncia sem limites de Jeanne. Alm disso, esses dois amigos, sem sequer muito apoio de Toms, comearam, aos 
poucos, a providenciar a anulao da transferncia de quotas da empresa que Toms fizera para a mulher. 



E Toms, bebendo cada vez mais, no tomava conhecimento de nada que fosse realmente importante para sua vida futura a no ser algumas reservas que conseguia desviar 
na contabilidade e depositar em sua conta. 



  a minha nica salvao  dizia Toms para si mesmo, entre um usque e outro  E o lcool  o meu nico consolo. 



Toms bebeu... Bebeu desbragadamente at que um dia os amigos encontraramno muito mal, num bar da Avenida Ipiranga. 



203 



 



Pensaram em lev- lo para casa mas, lembrando- se de Jeanne, desistiram da idia. 



 Para onde vamos levar esse desgraado?  perguntou um deles. Foi nesse momento que Toms, recobrando parcialmente a conscincia, balbuciou um nome e um endereo... 



******* Sylvia levou um susto quando aqueles trs homens deixaram sobre o sof de sua sala, o pobre Toms, cheirando a lcool, cheio de vmito e com um aspecto deplorvel. 



 Ele pediu para ser trazido para c  explicou um dos senhores que o estavam acompanhando. 



Sylvia fez um sinal afirmativo com a cabea e, agradecendo muito, despediu- se deles. 



 Graas a Deus Simone no est em casa!  exclamou ela, lembrando- se que a filha tinha ido passar o final de semana na fazenda de uma amiga  Seria lamentvel 
se ela visse o pai nesse estado! 



Com todo o carinho, Sylvia ajudou Toms a se levantar e, com uma dificuldade imensa, levou- o at o banheiro. Lavou- o, deixou- o embrulhado num cobertor e tratou 
de limpar suas roupas. 



Desistiu logo, visto o estado em que elas se encontravam e, tomando uma deciso, meteu- as no tanque, dizendo para si mesma: 



 Vou lav- las. Com o tempo que est fazendo, vai demorar trs dias para secar... Mas no tem importncia! No posso deixar o pai de minha filha nesse estado e, 
muito menos, desamparado! 



Por cima do ombro, olhou para Toms que a observava com expresso triste e envergonhada. 



 Voc vai ficar aqui at melhorar, Toms. No tem cabimento isso que est acontecendo! Voc no pode deixar sua vida se destruir dessa maneira! H pessoas que o 
amam! Sua filha, por exemplo! 



Aproximando- se dele, acrescentou:  E eu! Pensa que no sinto mais nada por voc? 



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CAPTULO XXI 



 No posso acreditar no que voc est me dizendo, Marly!  exclamou Jeanne  Simplesmente no posso acreditar! 



Marly sorriu com superioridade. Era extremamente agradvel para ela poder falar assim com Jeanne, poder olh- la de cima, pela primeira vez vendo aquela fortaleza 
toda em vias de ruir. A francesa tinha feito a mesma coisa tantas vezes, com tantas delas! Tripudiara sobre os sentimentos de quase todas as amigas, aproveitara- 
se de seus momentos de fragilidade... 



Agora, chegara a sua vez... Marly lembrou com amargura o dia em que Jeanne fora  sua casa para provar que Paulo, seu marido, mantinha um caso com a secretria. 



Era verdade que a prpria Marly j desconfiava disso. Mas, por comodismo, por conformismo, preferira nada dizer a Paulo e nem a ningum. Mas Jeanne descobrira. Descobrira 
e, como um paladino dos direitos femininos e feministas, ela fizera questo de mostrar para Marly as provas, fizera questo de falar sobre o caso diante de todas 
as outras e com uma tal fora de opinio que Marly acabou obrigada a assumir uma posio. 



O resultado fora trgico... Paulo, acuado, pressionado, preferira a separao e, a despeito da gorda penso e da partilha de bens que a favorecera, Marly ficara 
sem o marido, fora relegada ao clube das mulheres desquitadas. 



Pior que isso, das mulheres que tinham sido trocadas pelas secretrias de seus maridos. 



Um clube com muitas scias, todas elas amargas, revoltadas, frustradas. Jeanne tinha sido a culpada... Mas... Nada melhor do que o tempo! Ali estava a francesa, 
todo o seu sarcasmo deixado de lado, todo o seu orgulho derrubado... 



Sim... Jeanne era a prxima candidata a uma cadeira no clube.  Se no quer acreditar, minha querida  insistiu Marly  No acredite... Mas fique sabendo que eu 
no costumo inventar coisas e, quando as conto, tenho sempre uma fonte de informaes de altssima credibilidade! 



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Jeanne respirou fundo.  Conte outra vez  pediu ela  Talvez eu no tenha entendido direito. Marly sorriu, tomou mais um gole de ch e, com voz pausada, falou: 
 Voc mesma comentou que Toms no aparece em casa h vrios dias... Pelo que me falou, ele estaria viajando para o Paran, com algum negcio a respeito de exportao 
de caf. Pois no  nada disso. H trs semanas atrs, Toms estava bbado e foi encontrado, quase desmaiado num bar na Avenida Ipiranga, por trs de seus antigos 
amigos. Tenho certeza dos nomes, se quiser, poderemos averiguar... Nelson, Sidney e Max, acharam- no nesse estado deplorvel e quiseram lev- lo para casa. 



Marly fez uma pausa proposital para que Jeanne absorvesse bem suas palavras e para que desse maior valor ao que vinha em seguida. Tomando flego, ela continuou: 



 Parece que Toms recobrou um pouco de sua conscincia e disse que no queria vir para c. No queria mais voltar para este apartamento. 



Marly fixou os olhos de Jeanne e notou que, pela primeira vez, conseguia sustentar o seu olhar. Com um sorriso que no conseguiu disfarar, ela disse: 



 Toms lhes deu um endereo e pediu que o levassem para l. Era a casa de uma antiga funcionria de sua empresa. Uma certa Sylvia... Ela pareceu um pouco assustada 
quando viu que era Toms que estava sendo carregado para o interior da sala mas recebeu- o com naturalidade, como se ela soubesse que o lugar dele sempre fora ali. 



Jeanne fez uma careta e Marly, desta vez, conseguiu esconder o sorriso. 



 Foi Sidney que notou  disse ela  Sobre a mesa de canto havia um porta- retratos... Nele, uma fotografia. Era de Toms, abraado a essa Sylvia e a uma mocinha. 
Uma mocinha extremamente parecida com ele e muito bonita... 



Os lbios de Jeanne ficaram ainda mais finos do que o habitual e seus olhos despediram chamas de dio. Com voz esganiada, ela perguntou: 



 E porque no me contou antes?  Porque s ontem  noite  que Sidney falou sobre isso. Ele e os outros dois tinham calado. Acho que alguma combinao entre eles, 
alguma coisa com relao ao imbecil conceito de lealdade que impera entre os maridos prevaricadores...  disse Marly. 



E, com um sorriso em que transparecia um brilho de vitria, completou: 



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 O que mostra que todos os homens so absolutamente iguais, nenhum presta e nenhum se salva! 



Jeanne refletiu por alguns instantes e, ignorando o ltimo comentrio da amiga, falou: 



 Voc est querendo me dizer que a mocinha da fotografia  filha de Toms com essa tal de Sylvia,  isso? 



 Pelo menos  murmurou Marly   o que tudo indica. As duas ficaram em silncio por um breve instante e Marly disse, depois de acender um cigarro: 



 Se no fosse assim, a troco de que Toms haveria de pedir para ser levado para l? E o que estaria fazendo ele abraado com uma moa que  a cara dele, numa fotografia? 



Soprando uma baforada de fumaa para a frente, sem nem mesmo se incomodar com o fato de que a fumaa estava indo diretamente para o rosto de Jeanne, Marly finalizou: 



 S no v quem no quer enxergar. Seu marido tem uma vida dupla, Jeanne. E na outra famlia, ao contrrio do que acontece aqui, h pelo menos uma filha! 



Jeanne ficou em silncio, olhando com raiva para as pontas de seus sapatos. 



Ela no estava chocada com o fato de Toms ter outra mulher. Isso no a incomodava nem um pouco pois, afinal de contas, em matria de vida conjugal, ela estava ciente 
de que a deles deixava muito a desejar. 



O que a enfurecia era a existncia dessa mocinha... Isso sim, atrapalhava muito. Significava que Toms tinha uma herdeira... E uma herdeira de que ela, Jeanne, no 
conseguiria se livrar utilizando apenas seus mtodos de persuaso ou, ainda, algum truque jurdico que a pusesse em vantagem frente  filha de seu marido. 



 O que pretende fazer?  perguntou Marly. Jeanne ergueu os olhos para a amiga.  Por enquanto, nada  respondeu, mostrando que era dona de um auto- controle de 
fazer inveja a qualquer monge budista. 



Marly franziu as sobrancelhas. Estava a ponto de dizer que quando essa tragdia acontecera com ela, Jeanne fizera questo que Marly assumisse uma posio, e ela 
achava injusto que a francesa no fizesse a mesma coisa... 



 Mas como?  perguntou  Como, no vai fazer nada por enquanto?! Ser que no entendeu? Toms tem uma outra famlia, tem 



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filhos e o pior  que ele est l! Provavelmente no vai voltar! Jeanne sacudiu os ombros e respondeu:  Isso nem me interessa. No estou preocupada com Toms... 
Se ele tem uma outra famlia e se sente melhor l, pode ficar e eu at acho que  muito bom... 



Ps- se de p, mostrando sem a menor cortesia que a visita terminara e disse: 



 Ns j no estvamos vivendo bem h muitos anos. Isso serve apenas para precipitar os acontecimentos, Marly... E pode acreditar que at fico contente com isso. 



Ergueu os ombros, num gesto de indiferena e completou:  Fiquei surpresa, a princpio pois jamais pensei que Toms fosse conseguir juntar coragem para fazer uma 
coisa assim. Muito pelo contrrio, ele sempre me pareceu pacato demais, caseiro demais... 



Sorriu, estendeu a mo para a amiga e murmurou:  Ora... Se  assim que ele quer, se isso o faz feliz... No tenho nenhum direito de interferir em sua felicidade. 
O mximo que poderei fazer ser ajud- lo. E a melhor ajuda, num momento como este, acho que  mostrar que sou compreensiva e nem um pouco rancorosa! 



Marly deixou o apartamento de Jeanne intrigada e frustrada. Intrigada, por que no acreditara em nenhum momento que aquela reao da francesa pudesse ser autntica 
e frustrada por que gostaria de ter visto Jeanne se descabelar, se desesperar... 



E isso no acontecera... Muito pelo contrrio, com exceo dos primeiros momentos, quando Jeanne ainda no compreendera bem o que  que tinha acontecido, a francesa 
se portara com uma altivez e dignidade tpicas de uma rainha. 



 No tem importncia, Jeanne...  murmurou Marly quando j estava na calada  Um dia, toda essa sua arrogncia vai desaparecer... Um dia voc h de levar o seu 
tombo! Todo pinheiro tem seu dia de machado! 



******* Mas Marly estava enganada. Jeanne ficara muitssimo abalada com aquela notcia no apenas por que ela trazia em seu bojo a comprovao de que Toms possua 
uma herdeira mas, tambm, porque ela no tinha sido avisada de nada. 



Avisada por Sat,  claro! 



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Jeanne estava muito mais furiosa com o Prncipe das Trevas do que com o marido prevaricador. Para ela a traio no tinha sido de Toms, mas sim de Sat que, segundo 
o que a francesa entendia, teria tido a obrigao de alert- la quanto  existncia no apenas da outra mulher mas principalmente, quanto  existncia da filha! 
Isso sim, era terrvel! 



 Ele pode no ter reconhecido a menina...  murmurou. Era uma possibilidade. E a maneira mais simples de verificar, era indo at Toms e perguntando. 



Marly dissera o nome da mulher, Sylvia... Dissera que ela era uma antiga funcionria da empresa e, com um esforo de memria, Jeanne conseguiu lembrar dela. 



 Toms no tem mau gosto  disse a francesa quando arrancou da memria o rosto de Sylvia  Mas em compensao, faz tudo errado... Ele jamais deveria ter arrumado 
uma filha com quem quer que fosse! 



Com raiva, acrescentou:  S se tivesse sido comigo... Mas... Ela no engravidara. Jamais tomara qualquer precauo e na verdade houve uma poca em que Jeanne quis 
muito ter um filho de Toms, logo no incio de seu relacionamento. 



Mas ela no engravidara... E Jeanne sabia porqu. Fora Sat... O Prncipe das Trevas no a deixara engravidar novamente desde que levara seu filho, ainda l na Frana, 
naquele bangal de Auvergne... 



Sacudiu com energia a cabea tentando afastar para longe essas lembranas ruins e, apanhando o telefone ligou, pelo telefone direto, para o escritrio do marido. 



A voz grave de Toms atendeu:  Toms Camargo... Jeanne respirou fundo, contou at sete e falou:  Fico muito feliz em saber que voc est bem... E acho que deve 
estar melhor do que nunca, ao lado de sua amante e de sua filha... 



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CAPTULO XXII 



Sylvia cuidou de Toms como se este fosse um adolescente recm- chegado de seu primeiro porre. Depois de um bom banho frio e de vrias xcaras de caf forte e amargo, 
ela o ps na cama dizendo: 



 Agora, Toms... Voc vai dormir. Vai descansar e quando estiver melhor, ns vamos pensar em sua vida. Por enquanto, sua nica obrigao  ficar bom antes que sua 
filha volte para casa pois eu no vou gostar nem um pouquinho que ela o veja nesse estado. 



Toms dormiu rapidamente. Dormiu sentindo pela primeira vez em muitos anos, que estava bem, que estava sendo tratado com carinho e que... estava em sua casa, com 
algum que realmente o queria bem. 



Despertou na metade do dia seguinte, com uma fome de lobo e uma deciso tomada. 



 No vou voltar para l  disse ele para Sylvia  Vou ficar aqui, custe o que custar, queira voc ou no. 



Sylvia ficou preocupada e dividida. Ter Toms em casa era a realizao de um velho sonho, um sonho que j durava mais de dezoito anos e que ela nem sequer tinha 
esperanas de que viesse a se tornar possvel. Por outro lado, ela ainda se lembrava muito bem das palavras de Me Antnia dizendo- lhe que no deveria nem mesmo 
desejar que aquele homem se tornasse seu marido... 



Mas... Tantos anos depois... Teria ainda alguma importncia tudo aquilo? No teria perdido o efeito a maldio que ela desconfiava haver sobre sua vida? 



De mais a mais, Me Antnia dissera naquela ocasio, que Simone era muito pequena para se defender. E Simone j completara seus dezoito anos! Era uma moa bonita, 
inteligente e que j demonstrara de muitas maneiras ser absolutamente capaz de fazer sua vida sozinha, sem depender de mais ningum. 



 O que foi?  indagou Toms  No quer que eu venha para c? Sylvia forou um sorriso e disse:  No se trata disso, Toms. Voc sabe muito bem que eu sempre 



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quis que isso acontecesse. Mas... Tambm sempre soube que voc e eu no fazemos parte do mesmo mundo... 



 No fazamos  corrigiu Toms  De uns tempos para c, Jeanne conseguiu me excluir desse universo de que voc est falando. 



Sorriu e arrematou:  E acho que eu ajudei um bocado... Olhando com intensidade para Sylvia, ele falou:  Minha vida est sendo destruda, Sylvia... E a nica chance 
que eu tenho  ficar aqui. Poderei lutar outra vez, acho que ainda tenho sade para isso e, com a sua ajuda, tenho certeza de conseguir reconstruir tudo outra vez. 



Segurando as mos de Sylvia, ele murmurou:  Por favor, querida... Voc sabe que ns temos todas as possibilidades de sermos felizes e Simone vai adorar a idia 
de ter o pai dentro de casa... 



Disso, Sylvia no tinha a menor dvida. Sua filha acharia a coisa mais maravilhosa do mundo e, se por acaso ela no deixasse Toms ficar e Simone viesse a descobrir 
que tinha sido por sua causa que o pai fora embora, jamais a perdoaria. 



 Bem...  disse ela  Acho que no tenho escolha, no  mesmo...? Toms puxou- a para si e disse, beijando- lhe a testa:  Posso garantir que voc no vai se arrepender... 
Sylvia sentiu o beijo, sentiu aquela mesma vibrao que, dezenove anos atrs, o contato de Toms lhe provocara. Apertou- se contra ele, ergueu o rosto, os lbios 
entreabertos e murmurou: 



 Eu sempre sonhei com esse momento, querido... Sempre sonhei e sempre tive medo... Muito medo! 



Toms beijou- a nos lbios, um beijo apaixonado, um beijo que deixava transparecer uma saudade imensa, um louco desejo de se ver novamente arrebatado por aquela 
mulher, a nica que, no correr de toda sua vida realmente demonstrara ter amor por ele. 



 Ns seremos felizes, Sylvia  repetiu  E voc, bem como Simone, tero muito orgulho de mim... 



 Ns j temos...  murmurou ela  Sabemos que voc tem seus defeitos, mas sabemos que tem muito valor. 



Sorriu e acrescentou:  E, o que  melhor, tem um bom corao, incapaz de qualquer maldade... 



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Encostando a cabea no peito de Toms, Sylvia arrematou:  Basta ver o que fez por ns duas... Se fosse um outro qualquer, poderia no ter assumido a paternidade 
de Simone ou, se assumisse, poderia ter se limitado a nos dar uma mesada e pronto... Mas no... Voc fez questo de participar da vida da menina, proporcionou- lhe 
estudos, ajudou- nos em todos os momentos difceis... 



Afastando- se um pouco, disse:  Sim, Toms... Tenho certeza que ns trs seremos muito, mas muito felizes! 



 No vou falar nada para Jeanne ou para qualquer outra pessoa, por enquanto  falou Toms  Continuarei a trabalhar normalmente e, quando o escndalo estourar, 
todos ns estaremos mais preparados para suportar o baque. 



******* Sylvia no contestou. Ela estava muito feliz com a deciso de Toms porm, ao mesmo tempo, estava muito preocupada. 



 Vou precisar ir ao Rio de Janeiro, querido  disse ela, um pouco mais tarde, enquanto servia o prato de Toms  E quanto antes eu puder ir, melhor... 



 Nesse caso  falou ele  Podemos ir amanh. Levaremos Simone e, enquanto voc faz o que tem que fazer, levarei minha filha para conhecer a cidade. 



 Nossa filha  corrigiu Sylvia, com um sorriso  Simone no  s sua, Toms...  minha tambm. 



Beijou a testa de Toms e este indagou:  Mas... O que voc precisa fazer l? Faz tanto tempo que saiu de l e, pelo que sei, no tem famlia no Rio de Janeiro... 



 So assuntos particulares, Toms... Depois que eu os resolver, pode deixar que ser o primeiro a ficar sabendo... 



Com expresso preocupada, Toms indagou:  H outro homem? Sylvia riu.  Voc...!  fez ela  Com cimes de mim?! Abraando Toms, ela disse:  Sabe que me fez bem 
saber que voc sente cimes de mim? Antes que ele pudesse repetir a pergunta, ela explicou: 



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 No h nenhum outro homem, meu amor... Eu tenho de ir ao Rio para dar a notcia de que voc voltou para mim. H uma pessoa l, uma velha senhora, que eu quero 
muito bem e fao questo de lhe dizer pessoalmente que voc est em casa comigo. 



Como Toms a olhasse com expresso de quem no est acreditando muito na histria, Sylvia completou: 



 Posso provar, se voc fizer muita questo... ******* Sylvia entrou no terreiro de Me Antnia ressabiada, sentindose at mesmo envergonhada por voltar l somente 
depois de tantos anos. 



Me Antnia estava l, a cabea inteiramente branca, mais gorda do que nunca, rodeada por uma dzia de moas vestidas de baianas, as suas filhasde- santo e mais 
algumas pessoas que ali tinham ido para lhe pedir conselhos. 



Assim que Sylvia entrou, apesar de ter certeza de que Me Antnia no a podia ter visto, pois estava de costas para a porta, ouviu a preta velha dizer: 



 Seja benvinda, minha filha Sylvia!  Depois de tantos anos, voc voltou... 



Virou o rosto para a recm- chegada, sorriu com toda a bondade que lhe transparecia das feies lustrosas e falou: 



 E voc est com uma dvida muito grande... Mas muito grande mesmo, no ? No sabe se quer ou se no quer o seu homem de volta... 



Sylvia estremeceu. Quando freqentara o terreiro e chegara a ser uma filha- desanto, muitos anos atrs, ela vira e ouvira Me Antnia realizar muitas proezas e muitas 
predies... Porm, isso nunca acontecera assim, diretamente com ela. 



Me Antnia estendeu as mos para Sylvia e, abraando- a segundo o ritual, murmurou: 



 Voc precisa fazer um trabalho de proteo, minha filha. E ter de ser um trabalho muito forte pois as foras do mal que estaro agindo sobre todos vocs so terrivelmente 
perigosas... So foras que vm diretamente de Exu e disso... 



Persignou- se e completou:  Disso eu tenho muito medo!  Mas o que devo fazer, Me Antnia?  perguntou Sylvia, com desespero na voz. 



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 Voc precisar rezar muito, minha filha  disse a preta  Precisar rezar para So Jorge e dever acender, na Capela dos Enforcados, trs dzias de velas... 



 Mas por que no fecha o meu corpo?  quis saber Sylvia  No  muito mais seguro? 



Me Antnia balanou negativamente a cabea e disse:  No posso, minha filha. No adiantaria nada e at acho que pioraria a sua situao. H um Exu muito forte 
atazanando a sua vida. Ele est apenas esperando a oportunidade para agir. Com muita orao, talvez voc consiga evitar que o mal se faa. 



Pousou as mos sobre a cabea de Sylvia e murmurou:  H coisas em que no podemos interferir... H provaes que Deus quer que aconteam e que no temos o direito 
e nem mesmo o poder de modificar.  a nossa misso nesta Terra, minha filha. Por vezes, no entendemos a Vontade Divina e nos revoltamos... Tentamos mudar o nosso 
destino mas a, tudo fica muito pior. Por isso, reze... Apenas reze para que tudo acontea de acordo com a Vontade de Deus. 



Beijou- a em ambas as faces e, despedindo- se, falou:  Estarei com Simone dentro de alguns anos. Fique tranquila em relao  sua filha. Ela est bem protegida 
desde o dia em que foi concebida. 



Sorriu aquele sorriso bondoso que a caracterizava e disse:  Ela sim, eu pude proteger...  E eu, Me Antnia? E Toms? Ns no estamos protegidos? A preta balanou 
a cabea em sinal de dvida e repetiu:  H coisas em que no podemos interferir... Sorriu, e Sylvia pode ver que havia muita tristeza nesse seu sorriso...  Mas 
v sossegada, minha filha... A Vontade de Deus  soberana... E ns devemos respeit- la! 



******* Sylvia deixou o terreiro de Me Antnia muito impressionada com suas palavras. Pelo que pudera entender, havia alguma coisa de muito ruim e muito grave escrita 
em seu Livro de Destino, to grave que nem mesmo Me Antnia tinha poderes para resolver. 



 Tenho de me fiar em So Jorge e em oraes  disse ela  E no estou gostando nada disso! 



De fato, Sylvia no podia mesmo estar gostando do resultado daquela visita. Ela esperava que Me Antnia dissesse que, depois de 



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tantos anos, j no havia mais perigo nenhum para ela, para Toms e para Simone. Porm, no lhe tinha sido dito nada disso, muito pelo contrrio. 



Havia algo ttrico... E Sylvia precisaria rezar muito... Caminhando pelas ruas do Centro em direo  Capela dos Enforcados, Sylvia lembrou que Simone, pelo menos, 
estava bem protegida. Isso era bom... 



 Ao menos ela  disse  Minha filha no precisar se preocupar tanto... 



Recordou as palavras de Me Antnia, quando ela dissera que estaria com Simone dentro de alguns anos. 



 O que ser que ela quis dizer com isso?  perguntou- se, entrando na ala de queima de velas da capela  Ser que Simone vir ao Rio de Janeiro para procurar por 
ela? Ou ser que Me Antnia est achando que vai morrer e, assim, poder proteger melhor minha filha? 



Esse pensamento a assustou e, fazendo meia- volta, Sylvia quis retornar ao terreiro para perguntar  Me- de- Santo o que ela estava tentando dizer com aquela afirmao. 



Porm, no instante em que ia saindo da capela, a voz de Me Antnia sussurrou em seu ouvido: 



 No queira saber coisas que eu no posso explicar, minha filha... Acenda suas velas, reze um pouco e v se encontrar com os seus. No  hora de voc querer saber 
mais do que deve. 



Sylvia estremeceu. No estava, de maneira nenhuma, acostumada quele tipo de coisa e teve medo. 



Acendeu apressadamente as velas e, rumando para a nave central da capela, ajoelhou- se diante do altar e, por mais de dez minutos, rezou. 



Rezou com fervor, pedindo a So Jorge para proteg- la, para proteger Toms e Simone... Pediu proteo tambm para Me Antnia e para todos os que participavam de 
seu terreiro e, quando terminou, parecia estar muito mais aliviada, como se lhe tivessem tirado um peso enorme de cima dos ombros. 



 Devo me conformar com a Vontade de Deus  pensou  E eu acho que a vontade Dele  que ns sejamos felizes aqui na Terra... No preciso, portanto, ter tanto medo, 
ficar to preocupada. 



******* 



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Encontrou Toms e Simone no hotel e, sorridente, perguntou para a filha: 



 E ento, querida? Est feliz?  Muito mais do que feliz, mame  respondeu ela  Tudo isto parece, para mim, a realizao de um sonho... Estar com vocs dois, 
v- los alegres e felizes como dois adolescentes... Isso  simplesmente formidvel! 



Ficando subitamente sria, ela comentou:  Papai estava me contando a respeito de Jeanne... Disse que ela parece at ter poderes sobrenaturais! 



Olhando com intensidade para a me, Simone indagou:  Voc acredita nisso? Sylvia respirou fundo. Precisava tomar muito cuidado com a resposta pois conhecia 



bem a filha, sabia que ela possua uma tendncia muito grande para o misticismo, poderia ficar impressionada demais e Sylvia, melhor do que ningum, sabia que o 
pior que pode acontecer a uma pessoa  comear a dirigir a sua vida em funo de misticismo excessivo. 



 Acredito na maldade, Simone  disse ela, por fim  Uma pessoa m, mas muito m mesmo, pode perfeitamente atrapalhar a vida de outras pessoas apenas com o pensamento... 
E eu acho que Jeanne, pelo que seu pai j me contou, faz parte desse tipo de gente... 



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CAPTULO XXIII 



Toms sentiu um frio no estmago e seu corao bateu mais depressa.  E ento?  perguntou Jeanne com sarcasmo  No est feliz? Ou ser que perdeu a voz...? 



Antes que ele pudesse falar alguma coisa, Jeanne prosseguiu:  Voc me enganou, Toms... E no pense que estou falando a respeito dessa outra mulher. Para mim tanto 
faz. Desde sempre meu interesse por voc foi meramente material. Jamais senti qualquer espcie de prazer fsico e quando voc parou de me procurar eu achei muito 
bom... Pelo menos, no precisava mais fingir. 



 Voc...  comeou a dizer Toms. No conseguiu continuar pois Jeanne, erguendo um pouco mais a voz, falou: 



 Voc me enganou com essa filha. Jamais me falou de sua existncia. Isso sim,  muito grave. E voc h de pagar muito caro! Voc, depois de todo estes anos comigo, 
j devia pelo menos ter idia do que eu sou capaz de fazer... 



 Voc no far nada  disse Toms, enrgico  Ns nos separaremos como duas pessoas civilizadas e posso garantir que no ter do que se queixar... 



Jeanne riu alto.  Mas  claro que no terei de que me queixar, idiota!  exclamou ela  Voc j transferiu as quotas da empresa para mim. Na realidade, voc no 
tem mais nada a... Alis, nem sei o que est fazendo a, no escritrio! 



Fez uma pausa e completou:  A primeira providncia que vou tomar, ser demiti- lo. Por isso, pode ir limpando as gavetas pois no momento em que eu chegar a, voc 
ser posto para fora a pontaps! 



Toms riu interiormente. Jeanne, desta vez, estava enganada. As notcia s que seus dois amigos advogados, Figueira e Bueno, lhe deram na vspera, era de que o processo 
de anulao estava em andamento e Jeanne j perdera, judicialmente, a tutela das quotas. Restava ainda a anulao da transferncia propriamente dita mas, no mnimo 
metade da ao j estava ganha. Era bvio que ele teria que indeniz- la mas, pelo menos a empresa estaria salva. 



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Do outro lado da linha, Jeanne continuava a deblaterar, a dizer que era um verdadeiro absurdo, se ele queria ter tido filhos que os tivesse com ela e no com uma 
qualquer. 



 Escolher uma reles funcionria do escritrio...  falou a francesa  Mas isso  um absurdo! Pr uma criana no mundo para qu? 



Toms ouvia em silncio. Quando a mulher fez uma pausa para tomar flego, ele disse:  Oua... No adianta voc ficar falando todas essas coisas para mim. Minha 
deciso j foi tomada h mais de trs semanas e eu no vou voltar atrs. Espero apenas que voc seja compreensiva e civilizada e receba com cortesia os meus advogados. 



Sorriu e arrematou:  Eu estava apenas esperando que voc descobrisse tudo, Jeanne... E estou com tudo pronto para o acordo de separao. Quando voc assinar, estaremos 
definitivamente separados e cada um poder fazer a vida que quiser. E,  claro, voc estar mais do que amparada do ponto de vista financeiro. 



Jeanne pensou em bater- lhe o telefone, em dizer- lhe que no receberia ningum. 



Mas Jeanne refletiu. Ela queria vingana. Porm, muito mais do que vingana, ela queria humilhar Toms, queria reduzi- lo a nada pois tinha a certeza que, sem um 
s centavo no bolso, na mais negra misria, ele seria abandonado por aquela mulher e, muito provavelmente, tambm pela filha. Para Jeanne, justamente por ela ser 
assim, seria mais do que normal que a filha de Toms s tivesse interesse no pai por causa de seu dinheiro. 



E, sem um s tosto... Sem um s tosto, no haveria herana para a filha de Toms. Este passara a ser, de repente, o objetivo maior de Jeanne: deixar a menina 



sem nada. No dividir nada com ningum!  Mande seus advogados  disse ela  Eu os receberei e, depois de conversar com eles, verei o que ns vamos fazer. 



Toms sorriu mais uma vez. Ela jamais mudaria... Mesmo numa situao de desvantagem, Jeanne fazia questo de mostrar que estava por cima. Verei o que ns vamos 
fazer..., dissera ela. Como se ainda desta vez, todas as cartas estivessem em sua mo e 



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fosse ela quem decidiria o que ele, Toms Camargo, teria de fazer...  Ns no vamos fazer nada, Jeanne  disse ele  Os advogados esto com a minuta do contrato 
j pronta. Voc s ter e assin- lo. No ter de discuti- lo. 



E, antes que Jeanne pudesse protestar, ele acrescentou:  Talvez voc no saiba, Jeanne... Mas estamos no Brasil, em So Paulo mais precisamente. E em So Paulo, 
pode ter certeza que o meu sobrenome pesa muito mais do que o seu, de solteira. Na eventualidade de no querer assinar, eu tomarei providncias para que todas as 
portas lhe sejam fechadas. Isolada de tudo e de todos, voc ter de voltar para Frana ou, ento, explicar para muita gente por que sempre assinou Jeanne Camargo 
ao invs de assinar Jeanne Hoche, como deveria ser. 



******* Jeanne desligou o telefone furiosa. Nos ltimos anos, ela se acostumara a ver Toms ceder em tudo e no discutir ou contestar suas decises. Por isso, ela 
estava achando muito estranho que ele estivesse agindo assim, de maneira to... independente. No lhe passou pela cabea que Toms sempre fora dessa maneira, um 
homem ativo, independente em seus atos e capaz de tomar decises por si s, sem a necessidade de consultar ningum e muito menos ela, Jeanne, que no fundo no tinha 
conhecimento de nada e que agia por impulso, movida por uma intuio sem dvida bastante acurada mas que, no frigir dos ovos, carecia por completo de qualquer embasamento. 



Para Jeanne, em sua mente doentia de tanta ambio pelo poder, Toms tinha sido transformado por ela num fantoche e deveria continuar como tal at o final dos tempos... 



Era por isso que no compreendia e no aceitava o novo comportamento do marido e v- lo hastear com tamanha galhardia a sua bandeira da liberdade, a irritava. Mas, 
se ficava irritada com isso, o fato de no ter sido avisada por Sat a enfurecia. 



 Ele no podia ter feito isso comigo!  exclamou em voz alta  No tinha o direito de me enganar dessa forma! 



Um pouco contra seus hbitos, ela se dirigiu ao barzinho da sala e serviu- se de uma generosa dose de usque, achando que um pouco de lcool poderia acalm- la. 



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J mais controlada e novamente dona de sua capacidade de raciocnio, Jeanne comeou a refletir sobre tudo o que lhe estava acontecendo nos ltimos meses. 



Em primeiro lugar, ela foi obrigada a reconhecer que sua vida no estava indo to bem assim. Havia muitas coisas que ela tinha desejado e no conseguira, como por 
exemplo, ser eleita presidente daquela sociedade de assistncia a crianas excepcionais. No que ela estivesse lutando por essas pobres crianas. Na verdade, a sorte 
e o destino delas em nada tocavam o corao empedernido de Jeanne. Ela ambicionava o cargo pura e simplesmente por que ele lhe daria mais respeitabilidade, mais 
status junto s outras senhoras da sociedade paulistana e, o que era melhor, faria com que, com mais frequncia, ela aparecesse nas colunas sociais. Ela no conseguira 
nem sequer ser indicada como candidata... E, quando pedira a Sat para que a ajudasse, ele simplesmente rira, desaparecera em uma nuvem ftida de fumaa e nada fizera. 



Em segundo lugar, havia a preocupao com a diminuio sensvel das visitas amorosas do Prncipe das Trevas... 



Antes, quase que semanalmente, Sat aparecia para satisfazer seus desejos, para deix- la derreada de tanto prazer. Mas, isso tambm parara de acontecer e, nos ltimos 
trs ou quatro anos, Jeanne podia contar nos dedos as vezes que ele se dignara satisfaz- la. 



Com uma ruga de preocupao na testa, levantou- se da poltrona em que estava sentada e foi at o grande espelho de seu quarto. 



Olhou- se com ateno e esprito crtico. De fato, ela no podia dizer que a imagem lhe causava o mesmo efeito de dez anos atrs... 



Seu rosto estava mais crispado, seus lbios muito mais finos e comeando a mostrar pequenas ruga. Os olhos, muito mais frios, no conseguiam, mesmo que ela quisesse, 
dar a impresso de meiguice e de compreenso que antigamente Jeanne sabia to bem fingir... 



Com a ponta dos dedos, ela esticou um pouco a pele das plpebras tentando fazer desaparecer as rugas que j se faziam desagradavelmente presentes. O nariz tambm 
parecia mais afilado, talvez at um pouco mais adunco... 



Passou a mo pelos cabelos. Sim... Eles ainda eram bem ruivos e no havia nem um s fio encanecido. Porm, aquele brilho que possuam e que lhes dava um aspecto 
quase inebriante de fogo, desaparecera e eles pareciam palha 



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seca e envelhecida. Da cor de fogo, eles passaram  de ferrugem... Lentamente, soltou os botes do vestido que usava. Seu corpo continuava belo, era bem verdade... 
As curvas dos seios permaneciam, eles eram ainda firmes e provocantes, os mamilos pontudos e acastanhados. Os quadris, bem acentuados por uma cintura mantida nas 
medidas por horas e horas de ginstica, ainda seriam capazes de chamar a ateno de qualquer homem que se considerasse normal... 



Mas... Tambm era verdade que aquele frescor de antigamente, aquele vio e aquele aspecto permanente de desejo mal contido, tinham desaparecido. 



Com uma contrao no estmago, Jeanne pensou:  Mas ser possvel...? Ser possvel que o Prncipe das Trevas esteja me preterindo?! 



Sacudiu a cabea tentando afastar de si essa idia e, esboando um sorriso, perguntou- se: 



 Ou ser que ele est ofendido por que eu no o tenho chamado com a mesma frequncia de antes? 



O sorriso se transformou num esgar quando ela lembrou que, para Sat, o fator beleza no era nada importante pois ele tinha condies de transformar a bruxa mais 
horrorosa na princesa mais bela e mais desejvel, no momento em que quisesse e apenas para o seu prazer. 



 No...  murmurou  No se trata disso... O Prncipe das Trevas me traiu e isso, ele no podia fazer... 



Lembrou- se com mgoa e rancor que ela sempre cumprira sua parte no pacto. Sat no poderia ter queixas... Todas as vezes que ele exigira alguma coisa, ela o fizera. 



Lembrou- se, de repente que ela tinha o livro... O livro que a ensinava como controlar o poder malfico e como poderia fazer para que Sat trabalhasse em seu favor. 



  isso!  exclamou  Eu nunca utilizei certas partes daquele livro! As partes que ensinam como fazer para que o Prncipe das Trevas me respeite mais e acabe satisfazendo 
as minhas vontades! 



Com um sorriso triunfante, ela voltou a se vestir e pensou, j tomando cuidado para no murmurar as palavras de maneira que Sat pudesse ouvi- la ou, quem sabe, 
ler em seus lbios o que estava indo em sua mente: 



 Posso domin- lo! Posso t- lo a meu servio! E  isso mesmo que vou fazer! Vou me vingar de Toms, dessa sua leviandade de pr uma filha no mundo para competir 
comigo em sua fortuna e, o que ser melhor, vou me vingar de Sat fazendo- o trabalhar para mim na destruio de Toms, de Sylvia e de sua filha! 



Abrindo o armrio, comeou a remexer entre seus guardados, em busca do livro. 



 Minha vingana ser terrvel!  pensou  E todos os que se puserem em meu caminho, pagaro muito caro por essa ousadia! At mesmo o Prncipe das Trevas! 



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CAPTULO XIV 



 No gosto disso  murmurou Sylvia  No acho que seja bom brigar por causa de dinheiro... 



 No se trata apenas de dinheiro, querida  falou Toms  No acho justo o que Jeanne fez para mim e acho menos justo ainda que ela se aposse de tudo o que eu levei 
a vida inteira para construir, lesando, em ltima anlise, voc e Simone! 



 Ns no precisamos de mais, Toms  replicou Sylvia  Temos tudo o que queremos, voc tem um bom rendimento todos os meses... No h necessidade de ambicionar 
mais alm disso tudo que j possumos! 



Toms sorriu, acariciou os cabelos de Sylvia e disse:   uma questo de direito, Sylvia. Jeanne viveu comigo, melhor dizendo, s custas de meu dinheiro, durante 
todos estes anos. Conseguiu montar, que eu sei, um respeitvel patrimnio particular ao qual eu nem sequer desejo ter acesso muito embora eu saiba que ele foi construdo 
graas a desvios de dinheiro que ela, muito habilmente sempre fez. 



Apertando um pouco os olhos, como se aquele assunto lhe desse raiva, Toms explicou: 



 Ela pensava que podia me enganar, imaginava que eu no estava percebendo o que fazia. Mas eu no sou to ingnuo assim! No foi com ingenuidade que eu constru 
toda a minha fortuna, Sylvia! E eu percebia muito bem que Jeanne pegava dinheiro de minhas mos dizendo que era para obras de caridade, que era para ajudar uma amiga 
em dificuldades e mais uma poro de outras desculpas esfarrapadas que de maneira nenhuma me convenciam. 



 Se voc sabia  argumentou Sylvia  porque no impediu?  Simplesmente porque eu nunca quis briga com Jeanne  respondeu Toms  E, tambm, porque eu achava justo 
que ela se defendesse... Afinal de contas, de uma maneira ou de outra, alguma coisa eu lhe devia, no  verdade? 



Sylvia preferiu no responder. Se o tivesse feito seria para dizer que as colegas de 



profisso de Jeanne costumam cobrar bem menos por uma noitada... Se fosse para dizer alguma coisa quanto a esse assunto, ela 



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teria falado que Jeanne fora a prostituta mais cara que j havia passado pela vida de Toms ou de qualquer outro homem. 



Toms continuou:  Eu vou lutar, Sylvia... Vou lutar para recuperar tudo quanto Jeanne tirou de mim.  um volume de dinheiro bem considervel e eu acho que Simone 
e voc merecem que eu deixe, quando me for para o outro mundo, alguma coisa que de fato garanta a sua sobrevivncia e o seu progresso! 



Sylvia olhou zangada para ele e resmungou:  Detesto quando voc comea a falar essas bobagens...  No  bobagem  protestou Toms   uma realidade. Uma certeza 
e, diga- se de passagem.  a nica certeza que podemos ter na vida. Todos ns morreremos, um dia ou outro! E eu quero que, quando chegar a minha vez, aqueles que 
ficarem no tenham o 



menor motivo de queixa! Os dois calaram- se por alguns instantes e Toms, olhando para o vazio  sua frente, disse: 



 As coisas esto indo bem. Meus advogados j fizeram o contrato que Jeanne dever assinar ainda hoje e, depois que tudo estiver resolvido, ns dois iremos viajar. 



Voltando a fitar Sylvia, murmurou:  Alis... Acho que o melhor a fazer  deixar tudo isso nas mos dos meus advogados. No h nenhuma razo para eu me aborrecer! 
Iremos para o Rio de Janeiro, ns trs, ficaremos por l at que as coisas com Jeanne se acalmem um pouco e, depois, quando a poeira toda baixar, poderei voltar 
e trabalhar em paz. Por enquanto est muito difcil fazer qualquer coisa com Jeanne por trs, com seu esprito de vingana contra mim... 



Deu um sorriso e acrescentou:  Voc sabe, Sylvia... No h nada pior do que uma mulher que se sente trada e que deseja se vingar do homem e de sua nova companheira 
de vida! 



******* Toms estava redondamente enganado. Jeanne no estava visando mago- los, no havia na verdade nenhuma conotao de vingana nos sentimentos da mulher, embora 
ela fizesse questo de dizer, at para ela mesma, que o que estava desejando era se vingar de 



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Toms e de sua irresponsabilidade ao fazer nascer uma filha. O que a francesa estava querendo era ficar com tudo o que Toms possua. 



Absolutamente tudo. Sua ganncia e ambio no permitiam que ela aceitasse a metade ou trs quartas partes. Ela queria tudo... Sem deixar escapar um s centavo. 
Toms tinha razo quando dizia que ela poderia muito bem assinar o acordo e se contentar com o que j tinha conseguido. Era dinheiro suficiente para ela poder viver 
o resto de seus dias como uma verdadeira rainha. 



Mas, para Jeanne, era muito pouco.  Ele tem a nova mulher e a filha  disse para a sua imagem, no espelho  J  mais do que suficiente. Por isso, o restante todo 
ter de ser meu! 



Visando esse objetivo, o primeiro passo, naturalmente, era no assinar nenhum acordo e, ao contrrio, brigar e espernear dizendo que Toms a estava deixando na misria, 
que ele estava sendo um crpula e que no estava levando em considerao todo o tempo que viveram juntos, tudo quanto ela lhe dedicara. 



 Minha juventude!  lamentava- se  Ele sugou minha juventude, acabou com minha vida e agora... Agora... 



Com um gemido, completava:  Agora, ele encontrou uma mulher mais jovem e mais bonita... Fez uma filha ilegtima... Abandonou- me... Jogou- me pela janela como se 
eu fosse um chinelo velho, um jornal j lido! E, como se no bastasse, quer me deixar na mais completa misria, sem dinheiro nem mesmo para comer, para meus gastos 
mnimos... 



Porm, essas lamrias de Jeanne no chegavam a impressionar ningum. Depois de tantos anos, todos sabiam muito bem como ela era e sabiam que tudo quanto estava dizendo 
era mentira. Calavam- se, no a contradiziam pois sabiam, tambm, o quanto eram terrveis os seus acessos de fria e no havia quem quisesse enfrent- los. 



Jeanne chorava, lamentava- se, falava mal  vontade de Toms, de Sylvia e de Simone, todos a consolavam e, assim que ela saa, no faltava quem dissesse: 



 Mas  muito bem feito! Jeanne, agora, est colhendo exatamente o que plantou! 



Durante pouco mais de um ms, Jeanne conseguiu escapar dos advogados, mandando sempre dizer que no estava, que estava viajando ou que, simplesmente, estava tomando 
banho e que no poderia atender 



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ningum. Sua inteno era ganhar tempo e exasperar Toms a um ponto tal que ele acabasse desistindo. 



Por incrvel que isso pudesse parecer, era a verdade. Jeanne estava certa de que poderia contar com a desistncia de Toms, achava que ele deixaria para trs toda 
a sua fortuna a troco de paz de esprito. 



Alis, uma paz que ela no tinha a menor inteno de lhe proporcionar. 



Era seu plano, assim que ele transferisse para ela todos os bens e todas as quotas da empresa, comear algum tipo de encantamento que o pusesse, de preferncia, 
numa cadeira de rodas pelo resto de seus dias. 



Assim, ela continuou a fazer visitas, a falar horrores de Toms e a chorar... 



Em sua mente doentia, egosta e egocntrica, ela no percebia que as pessoas simplesmente a ouviam e... mais nada. Nenhuma se dignava a transmitir de boca a ouvido 
para as outras, as maledicncias de Jeanne e as que chegavam a comentar alguma coisa com Toms, mostravam claramente que no davam o menor valor s barbaridades 
que a mulher andava espalhando pela sociedade paulistana. 



Por sua vez, Toms ria... Ele estava seguro, tinha a Lei a escorar suas intenes e sabia que, mais cedo ou mais tarde, Jeanne seria obrigada a ceder. 



 Ela no tem direito nenhum  disse  Talvez, se brigar muito, possa conseguir uma partilha baseada na lei que protege a concubina. Mas, quanto a qualquer outra 
coisa... Isso no! Ela no pode me obrigar a nada! E, no acordo que eu estou propondo, ela ficar com muito mais do que vai lhe dar qualquer juiz numa contenda judicial! 



Com o passar das semanas, Jeanne acabou por se exasperar com o que estava acontecendo. 



No havia, mesmo jeito de se livrar dos advogados de Toms e um outro causdico que acabara tendo de consultar, explicara- lhe muito claramente quais eram os seus 
direitos e quais eram as suas possibilidades. 



 Assine o acordo  aconselhou  Ser mais lucrativo e, com toda a certeza, ser mais rpido. 



Mostrando para Jeanne a minuta do contrato que lera, minuta esta que os advogados de Toms tinham deixado em sua casa logo na primeira vez que l estiveram, ele 
completou: 



 Veja que Toms no est tirando nada do que voc j 



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conseguiu e que est em seu nome. Somente as quotas da empresa e, ainda assim, est pagando bem caro por elas! 



Com um sorriso, disse, em tom confidencial:  Voc no ter todas essas vantagens na eventualidade de precisar chegar ao Juiz... 



******** Depois da consulta a esse advogado, Jeanne ficou ainda mais furiosa. 



No  possvel!  exclamou, ao chegar em casa  No  possvel que eu no consiga encontrar um jeito! 



Lembrou- se, ento do livro de Magia Negra.  Mas  isso!  exclamou  Como eu no pensei nisso antes?! Mais uma vez, ela foi buscar o velho livro no fundo do armrio 
e, trancada em seu quarto para evitar que Serafina aparecesse para bisbilhotar, comeou a consult- lo. 



Irritou- se em menos de cinco minutos. Jeanne no conseguia se concentrar na leitura e, o pior, era no conseguir ler pargrafo nenhum que no fosse de conjurao 
do Demnio. 



 Sat no est me deixando fazer o que quero  pensou, cheia de raiva  Ele est querendo que eu o chame... 



Balanou negativamente a cabea e disse, em voz alta:  Pois no vou satisfaz- lo, desta vez! No o chamarei! Resolverei este meu problema sozinha pois tenho certeza 
de ter tanto poder quanto ele! 



Nesse momento, Jeanne escutou um trovo. E imediatamente, um cheiro horrvel de enxofre queimado invadiu o quarto. 



Ela dissera aquilo em voz alta! Cometera o erro de falar, ao invs de pensar! E o Prncipe das Trevas a escutara... 



*******  Com que ento, voc acha que tem tanto poder quanto eu?  perguntou Sat com um sorriso mau a lhe repuxar os lbios. 



Por um momento, Jeanne sentiu suas pernas tremerem. Ela conhecia muito bem Sat e sua fria... 



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Porm, ela lera naquele livro, junto ao pargrafo que dizia ser impossvel ao Demnio ler os pensamentos dos seres humanos, que era preciso, quando numa confrontao, 
mostrar fora e firmeza. Segundo o livro, Sat tinha sido, quando de sua expulso do Cu, amaldioado por Deus e nele tinham sido postos todos os defeitos e ms 
qualidades. A covardia era uma delas... Assim, Sat seria covarde e, frente a uma situao em que a fora lhe fosse mostrada, ele recuaria. 



Claro... O livro no especificava que espcie de fora era a mais adequada no caso. 



Jeanne resolveu jogar... Esforando- se ao mximo, ela fitou o Prncipe das Trevas e falou:  No sei se tenho mais poderes do que voc. Mas sei que tenho todo o 
direito de no querer conjur- lo! Voc me abandonou, deixou que as coisas acontecessem sem me avisar, sem me prevenir! Na verdade, voc est aqui por que quis aparecer! 
Eu no o chamei e no vou cham- lo mais! 



Sat sorriu malevolamente e disse:  Voc est errada, Jeanne...  Como assim, estou errada?!  explodiu Jeanne  ento acha que eu tinha de ficar muito satisfeita 
com o surgimento dessa filha de Toms?! Acha que eu haveria de gostar?! 



Tomou flego e continuou, os olhos muito azuis despedindo fascas de dio: 



 Voc sabia...  impossvel que no soubesse! E no me avisou da existncia dessa menina! 



Baixando um pouco a voz, acrescentou:   lgico que tudo seria mais fcil se eu soubesse desde o comeo... Teria feito as coisas de maneira a Toms obrigar Sylvia 
a abortar ou, se isso fosse impossvel, ns dois juntos, voc e eu, teramos dado um jeito de elimin- la! 



Sat balanou a cabea negativamente e Jeanne pode notar um brilho de raiva e de frustrao em seu olhar. 



 Nem sempre as coisas acontecem como se quer ou como se gostaria, Jeanne  disse ele  Essa menina, Simone, est fora do meu alcance... Por enquanto! 



Era uma confisso que Jeanne no esperava ouvir de Sat, do poderoso Prncipe das Trevas, daquele que era chamado Senhor do Mal. Para ela, no que dizia respeito 
a coisas ruins, o poder de Sat seria 



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imbatvel, ilimitado e terrvel. No entanto, ali estava ele, diante de uma sdita, confessando que no tinha condies de atingir uma indefesa menina de pouco mais 
de dezoito anos de idade... 



 Mas no  possvel...  murmurou Jeanne  Simone ainda  uma menina inexperiente e at certo ponto, indefesa! Basta, por exemplo, que dois malandros a apanhem 
na rua, a currem e, depois, metam- lhe uma faca nas costelas... O problema estar resolvido! 



 Isso jamais aconteceria atravs de mim ou atravs de voc, Jeanne  replicou o Demnio  Como eu disse, Simone est fora do meu alcance, por enquanto... 



Foi quando ouviu Sat repetir o por enquanto, que Jeanne se deu conta de que havia uma possibilidade. 



 O que est querendo dizer com isso?  perguntou. Sat riu e Jeanne notou que ele estava recuperando o seu humor normal, ou seja, um humor sardnico, sarcstico 
e custico. 



 Simone est protegida. H foras que impedem que eu me aproxime dela pois foram direcionadas especificamente contra mim e contra qualquer coisa que venha de mim. 
Isso quer dizer que os ensinamentos que eu lhe transmiti sobre como fazer para destruir algum, de nada adiantam contra ela. 



 Mas h o livro  ponderou Jeanne  E nesse livro h mtodos que voc no me 



O Prncipe das Trevas soltou uma gargalhada bem diferente das que costumava dar. 



Nessa, havia um timbre de dio profundo e o despeito transparecia como se estivesse em alto- relevo. 



 No seja tola!  exclamou  Onde voc acha que o autor desse livro foi encontrar esses ensinamentos? 



Jeanne arregalou os olhos.  Foi... voc?  indagou.  E quem mais acha que pode ter sido?  Mas  to antigo...  Sou mais velho do que a Bblia, j se esqueceu? 
Quando Moiss comeou a escrever o Antigo Testamento, eu j existia h muito tempo! 



Baixando um pouco a voz, acrescentou:  Se  que se pode falar em Tempo quando se est falando em Eternidade e em conceitos de Infinito... 



Os dois ficaram em silncio por alguns momentos e, depois de se acalmar um pouco, Jeanne disse: 



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 Mas eu preciso destruir esses trs... No quero ter de partilhar minhas coisas com ningum! 



 Suas coisas ou coisas de Toms?  riu Sat.  Minhas  insistiu Jeanne  Tenho mais direito a elas do que qualquer outra pessoa. Ajudei a construir esse patrimnio 
e... 



Sat a interrompeu com um gesto, dizendo com desprezo:  Voc ajudou... No foi bem assim. Voc apenas transmitiu para Toms as informaes que eu lhe dei! 



Com uma risada sarcstica, falou:  Assim sendo, quem ajudou no foi propriamente voc, Jeanne... A mulher ia abrindo a boca para protestar mas Sat no a deixou 
falar. 



 Voc est ciente de que eu posso tirar de voc o que eu quiser da mesma maneira que permiti que ficasse na boa posio de hoje, no  mesmo? 



Jeanne engoliu em seco. O que o Prncipe das Trevas estava dizendo, era mais do que 



verdade. Ele poderia simplesmente desejar que ela no tivesse nada e, da... Jeanne estaria na mais negra misria, sem dinheiro nem mesmo para comer e sem possibilidades 
de trabalhar. 



Sentiu raiva de Sat, de si mesma. Sentiu- se miservel e frustrada... Mas, Jeanne era uma mulher teimosa. Teimosa e determinada. Ela dissera que no mais conjuraria 
Sat e cumpriria a sua promessa. Dissera que estava ofendida com ele e arrumaria uma maneira de demonstr- lo. 



 Voc precisa de mim para atingir seus objetivos  falou o Demnio  Se quer destruir esses trs, vai precisar de mim. No adianta nada tentar me enfrentar pois 
eu sou mais forte. 



Riu alto e disse:  Lembre- se que fui eu que praticamente ditei as palavras desse livro. Seria muito estpido de minha parte falar todos os meus truques e todas 
as minhas falhas. 



Com um sorriso vitorioso, Jeanne deixou escapar:  Mas voc no pode ler os pensamentos... E isso est no livro!  No  novidade nenhuma  ponderou o Demnio  
Os japoneses sempre souberam disso. H milnios... a mo no ombro de Jeanne. 



O contato com o Prncipe das Trevas, mais uma vez, operou em Jeanne uma transformao. Ela comeou a se sentir excitada, excitada 



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como nunca, com um desejo intenso de ser novamente possuda por Sat. Tentou, em vo, lutar contra esse desejo. Sabia que estava sendo arrastada pelo Demnio, sabia 
que se acontecesse a conjuno, ela estaria dominada e acabaria fazendo o que ele quisesse. 



 No...  murmurou  No faa isso... Eu no quero... Sat riu. Sua mo comeou a percorrer o corpo de Jeanne. Fazia tanto tempo... Ela fechou os olhos e gemeu 
de prazer ao contato quente daquela mo que conseguia correr por todo seu corpo, detendo- se naqueles pontos mais sensveis, fazendo- a respirar mais depressa e 
sentir o corao bater fora de compasso. 



 Venha  disse Sat  Sei o que voc est precisando... Jeanne sentiu que estava sendo carregada para a cama. Sentiu o peso de um corpo sobre o seu, um calor que 
no podia ser humano, que no podia ser de um homem comum. Depois, ela comeou a ter aquelas sensaes que ela sabia no serem naturais... 



Mas, sensaes que ela jamais deixaria de querer. Amaldioou- se por ter se deixado levar por Sat, ao mesmo tempo em que se via transportada para o xtase absoluto... 



No fundo, desta vez, todo o prazer que sentia trazia em seu bojo uma ponta de revolta, de dio de si mesma. 



Sat tinha vencido, mais uma vez... ******* Jeanne acordou muito mais tarde do que o habitual, sentindo o corpo terrivelmente dolorido mas, ao mesmo tempo, sentindo- 
se satisfeita, realizada e... revoltada. 



Levantou- se da cama com dificuldade e caminhou at o espelho para se olhar por inteiro, nua... 



Como sempre, o Prncipe das Trevas no tinha deixado marcas em seu corpo. Tinha deixado apenas sensaes e recordaes... 



O sorriso de felicidade que estava estampado em seu rosto desapareceu quando ela se lembrou que, no final das contas, ele conseguira fazer com que ela se esquecesse 
de Toms, de Sylvia e, principalmente de Simone. 



Sat transformara a noite numa orgia e, com isso, ela se esquecera. 



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 Aquele maldito!  pensou, tomando muito cuidado para apenas pensar  Conseguiu ir embora sem me dizer o que fazer... E isso, apenas para que eu seja obrigada a 
conjur- lo outra vez! 



Apanhando uma toalha, comeou a caminhar para o banheiro. Quando estava passando diante da mesinha de cabeceira, ela se distraiu e murmurou: 



 Agora, terei que cham- lo mais uma vez... E no estava querendo fazer isso! 



Foi o bastante... Um estalido se deu como se tivesse acontecido um curto- circuito e a figura de Sat surgiu novamente diante de seus olhos. 



 Mas ser que no entendeu?  perguntou o Demnio mostrando toda a sua irritao  No entendeu que no posso fazer nada? 



Jeanne ficou paralisada no lugar, incapaz de mover um s msculo, enquanto Sat dizia: 



 Talvez eu no tenha sido muito claro... No vai adiantar usar de Magia contra Simone. Voc ter de atra- la e, depois que ela estiver sob sua aura, a sim, eu 
poderei fazer alguma coisa. 



Comeou a desaparecer e, j no meio de uma nvoa amarelada, ele finalizou: 



 Traga- a para perto de voc. Fique perto dela. Faa com que Simone se integre  sua aura. A sim, poderei fazer alguma coisa! 



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CAPTULO XXV 



As palavras do Prncipe das Trevas impressionaram Jeanne. Impressionaram- na e serviram para alimentar a sua parania, a sua certeza de que, na realidade, teria 
at mais poderes do que o prprio Demnio. 



Se Sat no tinha condies de atingir Simone, ela haveria de consegui- lo. Afinal, tinha sido ele mesmo quem dissera que ela deveria trazer Simone para perto de 
sua aura. Isso s poderia significar que ela, Jeanne, era mais forte, que Sat precisava da fora emanada por sua aura para poder fazer qualquer coisa contra a filha 
de Toms e de Sylvia. 



Voltou a folhear o livro e constatou que ali, entre as pginas amarelecidas pelo tempo e j quase desfeitas por causa da umidade e de excesso de manuseio, havia 
muitos encantamentos que poderiam, no mnimo, serem tentados. 



 Simone precisa morrer  pensou Jeanne  No quero que ela apenas tenha de enfrentar situaes difceis. Ela precisa morrer, bem como seus pais. Tenho de ficar 
sozinha com tudo e, para que isso possa acontecer, no pode haver ningum interessado na herana de Toms a no ser eu mesma! 



Riu e acrescentou:  Sem Toms para lutar na Justia pelas quotas da empresa, sem Sylvia e sem Simone para reivindicarem uma parte da herana, eu poderei ficar com 
absolutamente tudo e, ento... 



Jeanne poderia se perguntar o que ela faria com tanto dinheiro... Porm, esse tipo de questo no se impunha  sua mente pois para ela, o que importava era possuir. 
Ter, ser dona, ser a proprietria... 



Era isso que ela queria, era para isso que vivia. Durante todos aqueles anos, Jeanne s se preocupara com a posse das coisas e, evidentemente, tambm das pessoas. 
Era a dona e senhora de uma poro de suas amigas e conhecidas, era a proprietria da ltima palavra, a dona de todas as decises. 



Parou um instante, olhou sua imagem refletida no espelho da sala e disse, com um tom de profunda revolta e frustrao em sua voz: 



 Era... Depois que Toms se libertou, parece que isso no est acontecendo mais... 



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E era verdade. Depois que a sociedade tomara conhecimento da separao do casal, o conceito de Jeanne perante a maioria das pessoas, desmoronara a olhos vistos. 
Ela j no era mais to considerada assim e os convites para encontros e reunies comeavam a escassear, o que era o melhor termmetro e a mais precisa medida da 
queda do prestgio de algum. 



Jeanne estava comeando a ficar sem prestgio, estava pouco a pouco sendo empurrada para o seu verdadeiro lugar na sociedade: o de uma intrusa, uma penetra muito 
pouco desejada. 



Era terrvel ter de reconhecer esse novo estado de coisas... Jeanne estava sendo relegada a um plano secundrio e ela no conseguia admitir isso, no podia em hiptese 
alguma tolerar que uma situao dessas se estabilizasse, se definisse. 



No era preciso ser um expoente intelectual para saber que noventa por cento do prestgio de que ela desfrutara at aquela data passaria para Sylvia assim que a 
situao de Toms na empresa voltasse a se regularizar. A partir da, ento, a primeira dama seria Sylvia e a princesa, Simone. 



 No!  exclamou Jeanne folheando o livro, escolhendo o encantamento que faria  Isso no vai acontecer! No posso permitir que uma qualquer me passe para trs! 



E, com um acento de desespero na voz, completou:  Se as coisas continuarem assim, no vai ser difcil que eu tenha de ir pedir favores para Sylvia! 



Ergueu o rosto para o espelho, fixou seu prprio olhar e disse, em tom determinado: 



 Os trs vo morrer... Eles tm de morrer e, ento, voltarei a ser a dona de tudo... Os outros viro beijar meus ps! 



Cautelosa, apertou bem os lbios para impedir- lhes qualquer movimento traioeiro e pensou: 



 At mesmo Sat h de se curvar perante mim! Sorriu interiormente enquanto imaginava o Prncipe das Trevas humilde e submisso a seus ps, implorando- lhe que o 
atendesse... 



 Ser diferente  pensou ela  Ele h de vir me pedir para ter uma noite... Ser o contrrio do que est acontecendo agora quando eu  que tenho que ficar pedindo 
as coisas! 



Respirou fundo e voltou ao livro. Olhou com mais ateno uma pgina... Ali estava o que buscava. 



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Um encantamento de morte, um feitio para ser feito sem a ajuda de Sat e que, sem dvida, poderia at mesmo faz- lo ver toda a sua capacidade e poder... 



******* Jeanne olhou o relgio. Na realidade, ela nem mesmo precisaria ver as horas pois, desde que comeara aquele ritual, ela sentia o tempo como se este fosse 
algo concreto e que pudesse ser tocado e avaliado em suas dimenses da mesma maneira que um aougueiro experiente  capaz de dizer o peso de uma pea de carne que 
apanhe para cortar. 



Mas, por fora do hbito, Jeanne olhou o relgio e constatou que faltavam apenas alguns minutos para a meia- noite. 



Olhou para o cu, onde a lua parecia um prato brilhante no firmamento. 



Era o segundo dia depois da lua cheia e, de acordo com o que dizia o livro, era esse o melhor dia para aquele tipo de feitio. 



Baixando a cabea, Jeanne viu que tudo quanto iria precisar ali se encontrava, corretamente disposto sobre a lpide. 



Sorriu. No pode deixar de sorrir ao pensar no que diriam seus conhecidos se a vissem ali, vestida inteiramente de negro, com todos aqueles apetrechos sobre a lpide 
de uma tumba no cemitrio do Ara... 



Escolhera o Cemitrio do Ara por que ouvira, certa vez, alguns estudantes de medicina dizerem que iam l  noite para roubar ossos do ossrio quando precisavam 
repor os que perdiam do laboratrio de Anatomia Descritiva. Isso levou- a a pensar que ali no deveria haver uma fiscalizao muito rigorosa e, assim, no correria 
o risco de ser apanhada pela Polcia ou de ser vista por algum. De mais a mais, o Ara  suficientemente grande para esconder uma pessoa l dentro, mesmo que essa 
pessoa esteja cercada por uma centena de velas... 



Olhou novamente para o cu e, como ela mesma previra, uma nuvem estava comeando a cobrir a lua. 



Chegara o momento... Rapidamente, disps as velas cobrindo todo o permetro da lpide e, ajoelhando- se no centro, acendeu- as. 



Em seguida, erguendo os dois braos para o alto, ela disse: 



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 Lua, rainha da Noite! Leva o alfanje da morte para Toms, Sylvia e Simone! 



Ao seu lado, os trs ratos brancos que ela tinha levado para l numa pequena gaiola de arame, mexeram- se, nervosos, pressentindo que alguma coisa ruim estava para 
acontecer. 



Jeanne abriu a gaiola e pegou o rato maior entre os dedos. Olhou para ele e disse: Morra, Toms! V fazer companhia para seus antepassados! Assim dizendo, mordeu 
com violncia a cabea do pobre animal, literalmente decepando- a com os dentes. 



O sangue do rato espirrou, escorreu quente e viscoso para a boca de Jeanne. 



Esta, porm, no se incomodou com aquilo e, cuspindo de lado o pedao de cabea que ficara em sua boca, com o sangue do animalzinho a lhe escorrer pelos cantos dos 
lbios, voltou a abrir a gaiola. 



Pegou outro rato e, segurando- lhe a cabea entre o polegar e o indicador da mo direita, apertou- a at que sentiu os ossos estalarem. 



Mais uma vez, o sangue a sujou, fragmentos do crnio do rato espirraram longe... 



 Morra, Sylvia! Voc quis Toms em vida... Pois o ter at depois da morte! 



Olhou para cima, deixando o corpo do rato ao lado do outro que matara. Viu que a nuvem que cobria a lua estava quase acabando de passar. Logo ela brilharia outra 
vez e, ento, o encantamento teria terminado. 



Pela terceira e ltima vez, abriu a gaiola. Restava apenas um rato. Estava nervoso, chiando como um desesperado e encolhendose num canto, procurando se afastar o 
mais possvel dos dedos de Jeanne. 



 Venha, Simone...  disse ela  No adianta lutar! Seu destino est traado e seus dias esto para terminar neste instante! 



Com um movimento rpido, tentou pegar o rato pela cabea. Porm, o animalzinho sabia que, para ele, seria uma questo de vida ou morte... 



Abriu a boca e mordeu. Mordeu com toda a fora o dedo mdio de Jeanne, arrancandolhe sem piedade um pedao da unha e uma boa fatia de pele... 



Jeanne se assustou. Tirou a mo depressa, arrastando para fora o rato. 



235 



 



Este, ao se ver livre dos arames da gaiola, soltou o dedo de Jeanne e, uma vez no cho, saiu em disparada, desaparecendo por entre os tmulos e campas rasas. 



Jeanne no pode fazer nada. Ficou ali, ajoelhada sobre a lpide, olhando para a escurido, incrdula. 



 Mas no  possvel...  murmurou  Ela escapou... Simone conseguiu escapar... 



******* Toms olhou o relgio um pouco impaciente.  Faltam dois minutos para a meia- noite  disse ele  J  tarde...  Tarde porque?  perguntou Sylvia, rindo 
 Voc tem algum compromisso, hoje? 



Toms riu, tambm, e comentou:  Voc tem razo... No tenho nenhum outro compromisso a no ser repousar... 



Olhou para Sylvia e disse:  Se  que voc vai me deixar repousar hoje... Parece que o ar aqui do Rio de Janeiro lhe faz alguma coisa... No deixa escapar uma s 
noite! 



Sylvia deu uma risada feliz, olhou para o banco de trs do automvel onde Simone dormia como se fosse uma criana. 



 A vida  curta demais  falou  Se no aproveitarmos enquanto podemos... 



Toms no retrucou e continuou dirigindo pela Avenida Nossa Senhora de Copacabana, mantendo uma velocidade de quase sessenta quilmetros por hora no trnsito livre 
do fim de noite e incio de madrugada.. 



Simone est dormindo  disse Sylvia  Deve ter ficado cansada, depois de tudo que andamos hoje... 



Toms viu o semforo da Rua Figueiredo de Magalhes ficar verde e, a cinquenta metros da esquina, acelerou um pouco para passar depressa pelo cruzamento. 



Foi tudo rpido demais... Quando ele se deu conta, o txi j estava em cima dele, a mais de cem quilmetros por hora, desrespeitando o sinal vermelho. 



A pancada foi formidvel... O automvel de Toms, atingido na altura da porta do motorista, foi arremessado contra o poste de iluminao do outro lado da rua, bateu, 
rodopiou e tombou. 



236 



 



O txi, transformado num monte de ferros retorcidos, incendiouse, consumindo- se rapidamente. 



Os populares acorreram, tiraram de dentro do automvel tombado o corpo inerte de Toms, tiraram Sylvia ainda respirando e, do banco de trs, saiu ilesa, sem nenhum 
aranho, a assustada Simone. 



A moa no precisou de mais do que cinco segundos para compreender o que tinha acontecido. 



Viu seu pai, a cabea pendendo para o lado num feio ngulo em relao ao pescoo, evidentemente j morto. 



Viu sua me... Inclinou- se sobre ela, em prantos, ciente de que nada mais seria possvel fazer... 



E ento, enquanto se abraava a seu pescoo, pedindo- lhe desesperada para que no a deixasse, ouviu- a murmurar: 



 Me Antnia... Voc... precisa... Me Antnia... E, com um estremecimento, Sylvia morreu... 



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CAPTULO XXVI 



Jeanne ficou furiosa. Quando ela se deu conta que a fuga do terceiro rato simplesmente significava que Simone tambm tinha conseguido escapar, ela no cabia mais 
em si de tanta raiva. 



Voltou para casa controlando- se para no correr demais com o automvel e, assim, acabar ela prpria indo parar no hospital por causa de um acidente. 



Mal entrou no apartamento, teve de se controlar outra vez pois a sua vontade era de quebrar tudo, a comear por aquele espelho que fazia tanta questo de lhe mostrar 
que, para ela tambm, o tempo tinha sido inexorvel e implacvel. 



Porm, ela sabia muito bem quanto custava um espelho como aquele... No em dinheiro, pois o dinheiro, quando se tratava de gast- lo para satisfazer seus caprichos 
e suas vontades, no tinha qualquer importncia. Aquele espelho custava era muito trabalho para conseguir um igual, feito em cristal bisot, a moldura cuidadosamente 
elaborada por um arteso chamado Schultz e que j parara de trabalhar com ptina havia muitos anos. 



 Mas por qu?!  perguntou ela, em voz alta  Por que ser que no deu certo? 



E, cheia de raiva, lembrou- se que, sozinha, sem pai e sem me, na realidade, Simone representava um transtorno muito maior. 



Ela era a herdeira. Teria os advogados de Toms s suas costas para defend- la e para fazer valer cada centavo de seus direitos. 



 S serviu para atrapalhar ainda mais...  ouviu Jeanne. A mulher olhou para os lados. Evidentemente, reconhecera a voz de Sat mas no estava conseguindo enxerg- 
lo. 



 Onde est, Prncipe das Trevas?  perguntou ela, irritada  No estou para brincadeiras, no estou com a menor vontade de brincar de esconde- esconde! 



A gargalhada caracterstica de Sat se fez ouvir e, no meio de uma nuvem de fumaa, ele apareceu. 



******* 



238 



 



Durante todos aqueles anos, sempre que Sat aparecera, fizera- o assumindo a forma humana. Ora ele estava com o corpo de Toms, ora com o de um outro homem que de 
alguma maneira impressionara Jeanne, ora estava com o corpo de um total desconhecido... Mas sempre era a forma de um homem esbelto, elegante e atraente. Jeanne sempre 
pensara que Sat agia dessa maneira por ser vaidoso. Afinal, a vaidade  um pecado quando excessiva e nada mais natural que o Prncipe das Trevas acumulasse mais 
essa falha. 



Dessa vez, porm, ele surgiu aos olhos de Jeanne como costumava aparecer nos livros de histrias infantis que falavam do Diabo. 



Tinha o corpo nu, apenas a cintura estava envolta num pano preto, a pele era muito vermelha, de um vermelho gneo, como se fosse uma brasa viva. Seu rosto perdera 
a beleza a que Jeanne estava acostumada: estava com lbios muito grossos, revirados para fora, o nariz era chato e de ventas largas, mais parecendo o nariz de um 
macaco e os olhos... 



Ah, os olhos! Eram grandes demais, rasgados no rosto largo, esbugalhados e injetados de sangue  se  que um ser desses pode ter sangue nas veias, o mais provvel 
 que tivesse fogo  e negros como carvo. 



A cabea toda era enorme, desproporcional para o tamanho dos ombros e ao invs de cabelos, tinha pelos... Pelos grossos e aglomerados como os da juba de um leo 
e que se separavam na altura da testa para dar lugar a um par de chifres curtos, grossos e rombos... 



Era horrvel... Porm, em todo aquele horror, havia uma sensualidade indizvel, um poder de seduo assustador, to grande que Jeanne, imediatamente comeou a se 
sentir arrebatada, excitada, desejando com todas as fibras de seu corpo, ser possuda por aquele monstro. 



 Eu a avisei  disse Sat  Voc no quis me ouvir.  Tentei  defendeu- se Jeanne, a voz rouca, trmula, manifestando o desejo que a invadia. 



Sat riu inclinando a cabea para trs e falou:  Voc errou e, agora, ter de pagar pelo seu erro. E como castigo, no lhe darei o que est querendo... 



Jeanne quis reclamar mas no conseguiu. Sua boca permaneceu fechada, a lngua travada, muito embora ela fizesse todo o esforo para falar. 



 Voc sofrer as conseqncias de seu erro na prpria pele - avisou o Prncipe das Trevas  Simone estar mais forte do que nunca e o dinheiro que voc ainda tem 
comear a minguar. 



239 



 



 No!  conseguiu dizer, finalmente, Jeanne  No deixe que isso acontea! Eu no suportaria! 



O Demnio ergueu os ombros com indiferena.  Para mim  falou ele  tanto faz que voc suporte ou no. De qualquer maneira, voc j no me interessa mais. 



Com uma risada canalha, acrescentou:  E no me interessa mais, de jeito nenhum e para nada... Jeanne entendeu muito bem o que ele estava querendo dizer. Ela no 
o teria mais... O Prncipe das Trevas no viria mais am- la, no mais a possuiria. 



 H outra coisa...  continuou ele  Voc me traiu. Tentou me passar para trs, conspirou contra mim consigo mesma em pensamentos, sabendo que eu no os poderia 
ler. Isso  o mais grave e , para mim, o rompimento do pacto que ns fizemos l na floresta de Randan, est lembrada? Um pacto em que voc se comprometia a jamais 
me trair. 



Fez um gesto, impedindo que Jeanne o interrompesse e prosseguiu:  Isso foi o bastante. Agora, voc dever voltar ao mesmo estado em que eu a apanhei e a ajudei 
pela primeira vez. 



O que significava a misria, um casebre no meio do mato, o isolamento... Tudo quanto Jeanne jamais poderia tolerar! 



 No!  suplicou ela  No faa isso, por favor...! Sat ficou em silncio por um longo minuto e, depois, murmurou:  Talvez eu lhe possa propor um outro pacto... 
Um sorriso de esperana esticou os lbios de Jeanne e ela disse, ansiosa: 



 Sim! Isso mesmo! Faamos um novo pacto! Eu farei o que voc quiser! O que voc quiser! 



Sat riu.  Far, mesmo... At porque no tem alternativa.  aceitar minhas condies ou ento viver na misria at o final de seus instantes. 



 Est bem!  falou Jeanne, apressada  Diga o que voc quer! Diga que eu darei um jeito de arrumar! 



Sat olhou atentamente para ela e murmurou:  Antes, acho que  melhor voc tomar conhecimento de algumas coisas. Compreendendo melhor o que poder lhe acontecer, 
voc poder trabalhar mais depressa e poder voltar a ser o que era. 



Jeanne franziu as sobrancelhas.  Voltar a ser o que era?  perguntou  Mas o que est querendo dizer? 



240 



 



 Olhe- se no espelho, Jeanne  falou Sat  Ver o que j comeou a acontecer. 



A francesa obedeceu. Voltando o rosto para o espelho, fixou a imagem ali refletida. Assustou- se. Seu rosto estava com muitas rugas, seus cabelos branquearam, ela 
estava uma velha... 



Olhou para as mos. As pintas acastanhadas que ela sempre se orgulhara de no possuir, estavam aparecendo... 



 No!  gritou ela  No pode ser! Ainda hoje eu no estava assim!!! 



Sat fez um gesto e Jeanne voltou a se ver como estava pela manh. 



Respirou aliviada e Sat disse:  O que voc viu  como vai ficar dentro de muito pouco tempo, se no cumprir a sua parte no trato. 



 Mas como voc quer que eu faa alguma coisa se no me diz o que eu preciso fazer?  protestou Jeanne, j mais senhora de si ao ver que voltara ao normal, que aquele 
processo de envelhecimento to rpido no tinha sido mais do que um dos truques do Prncipe das Trevas para assust- la. 



O Demnio voltou a rir e falou:  Eu quero Simone. E quero ser o primeiro. Ela tem de ser virgem, Jeanne. Absolutamente virgem... 



Jeanne meneou a cabea com incredulidade e murmurou:  No acho que seja possvel... Nos dias de hoje, uma moa como ela...  muito pouco provvel que ainda no... 



 Ela ainda  virgem  afirmou Sat  E eu a quero assim. Se voc no conseguir, pode estar certo que eu vou cumprir at a ltima letra as minhas ameaas! 



Jeanne respirou fundo. Depois de refletir um pouco, ela perguntou:  Por que no a pega, simplesmente? Voc  o Prncipe do Mal! Sempre disse que tem poderes ilimitados... 
Por que precisa de mim para ficar com Simone? 



******* 



241 



 



Pareceu a Jeanne ter percebido um ar de frustrao em Sat. Depois de olhar intensamente para a francesa, ele respondeu:  H foras defendendo Simone contra as 
quais eu no posso agir. Foras do Bem... 



Antes que ela pudesse dizer alguma coisa, o Demnio acrescentou: 



 Foi por isso que eu lhe pedi para trazer Simone para perto de sua aura, para fazer com que ela se deixasse influenciar por voc e, consequentemente, se deixasse 
impregnar um pouco por minha fora malfica. Est me acompanhando? 



Jeanne balanou afirmativamente a cabea e Sat prosseguiu:  Eu poderia me transformar num rapaz que fosse exatamente aquele que Simone imagina para ser o seu grande 
amor. No seria difcil. Mas, no momento em que eu tentasse me aproximar dela, as Foras do Bem a defenderiam e eu no teria a menor possibilidade de realizar o 
meu intento. 



 Isso significa que o seu poder no  assim ilimitado como sempre disse...  ponderou Jeanne com um tom de vitria em sua voz. 



Sat rosnou:  Se voc tivesse um pouco mais de cultura, se tivesse perdido um pouco de tempo lendo, por exemplo, Goethe, com certeza no falaria uma asneira dessas. 
Mas no... Achou que o melhor era se dedicar s futilidades! 



Deu uma risada.  s vezes  falou Sat como se estivesse monologando  chego a pensar que estou errado. Incentivo as pessoas a relegarem a parte espiritual e entre 
as muitas coisas do esprito, a parte intelectual, em detrimento das chamadas boas coisas da vida... Depois, eu mesmo me arrependo quando tenho de ouvir bobagens 
como essa... 



Com despeito, disse:  Dizer que meu poder  limitado... Isso  mentira! No que diz respeito ao mal, eu posso qualquer coisa! 



Baixando um pouco a voz, soprou, com seu hlito ftido:   contra determinadas foras do bem que eu tenho dificuldades... Como se estivesse tentando se justificar, 
Sat explicou:  Veja bem que posso dobrar, posso vencer muitas coisas que so decorrentes do Bem. Desde o Gnesis tem sido assim. Pude fazer Eva comer a ma, tentei 
Caim e fiz com que matasse Abel... Fiz No se embebedar... E muitas outras coisas... Mas, quando tenho de enfrentar determinadas coortes ou falanges, h um bloqueio. 
No consigo... 



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Com desnimo, ele completou:  O pior  que isso acontece muitas vezes em casos que parecem ser os mais simples... Como o de Simone, por exemplo. O que h de novidade 
no Demnio possuir uma mocinha? 



Quantas vezes isso j no aconteceu? Milhes... Bilhes de vezes... Mas... Com Simone, a histria est sendo outra... 



Olhou para Jeanne de uma maneira ameaadora e falou: Por isso vou precisar de sua ajuda. As falanges que esto defendendo e protegendo Simone, esto de sobreaviso 
contra mim. No contra voc. E menos ainda se voc se aproximar dela por meios meramente humanos e no tentar usar nada de sobrenatural. Essas tais falanges no 
percebero nada e voc poder atrair Simone para perto de si. 



Abriu um sorriso e arrematou:  Pode ser que demore. Alis,  natural que demore pois Simone no vai querer contato com voc uma vez que est sabendo das dificuldades 
a que voc obrigou Toms. Mas, se insistir, se usar de diplomacia e, principalmente se souber conquistar Simone pelos sentimentos, conseguir atra- la. E, ento... 



Jeanne assentiu com a cabea e, para se assegurar, indagou:  Voc vai me possibilitar destru- la, no  isso? E vai deixar que eu fique com tudo? 



 Sim  respondeu Sat  E vou lhe dar um outro presente... Voc vai rejuvenescer... Est bem assim? 



Jeanne sorriu.  Claro que est bem  respondeu ela  Pode estar certo que dentro de muito pouco tempo voc ter Simone para o seu prazer... 



Sat riu. A fumaa que havia ao seu redor se tornou mais densa e mais ftida e sua figura comeou a se desmanchar. 



Quando j estava quase desaparecendo, ele disse:  H uma outra coisa, Jeanne... A cada ano que passar sem que voc me d Simone, voc envelhecer cinco... Por isso, 
trate de se apressar! 



Jeanne quis protestar. Afinal de contas, aquilo no era justo. Sat no poderia penalizla daquela maneira por algo que ele mesmo sabia ser incapaz de realizar. 



Porm, o Prncipe das Trevas j tinha ido embora. Jeanne ficou ali, olhando para o espelho, vendo que, de fato, estava ficando velha muito depressa... 



 Ele tem razo  murmurou  Preciso ser rpida... No quero ficar uma velha antes do tempo, mesmo que ele tenha dito que vai me fazer rejuvenescer...! 



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CAPTULO XXVII 



Simone demorou, como seria natural, algumas semanas para se compenetrar de que estava rf e de que tinha se transformado, de repente, na herdeira de uma grande 
fortuna. 



Figueira e Bueno, os dois advogados de Toms encarregados do problema com Jeanne, viram- se na obrigao de praticamente tutelar a moa no que dizia respeito a toda 
a imensa quantidade de dinheiro que, de um momento para o outro passara para suas mos. 



Como havia apenas uma herdeira e como havia muito dinheiro, muitos empregos e muitas influncias no esplio Toms Camargo, no houve qualquer complicao e, em pouqussimo 
tempo, Simone estava  testa dos negcios do pai, sempre escorada pelos dois 



advogados e pela equipe de funcionrios mais antigos, pessoas capazes de tocar a empresa sozinhas e de lev- la a bom porto. 



Porm, havia o caso de Jeanne. Como Toms falecera antes que qualquer acordo fosse assinado, a ao judicial se impusera e com isso, Jeanne se tornara um espinho 
enorme na vida de Simone e na carreira de Figueira e Bueno. 



Ela estava irredutvel. Queria as quotas de Toms de qualquer maneira e, apesar de seu prprio advogado ter dito que era uma causa perdida, e que no fim ela acabaria 
saindo prejudicada, Jeanne insistia. 



Recusou qualquer contato com os advogados de Simone, disse que no haveria acordo e que levaria a ao at o final, mesmo que isso fosse a ltima coisa que faria 
em sua vida. 



 Vou ganhar  dizia ela  Depois, poderei morrer. Essa atitude deixava abismados Figueira e Bueno. Trs meses depois da morte de Toms e de Sylvia, quando ento 
Simone j estava mais acostumada com os negcios da empresa e estava comeando a poder tomar decises sozinha, os dois advogados foram conversar com ela. 



 No estamos entendendo  disse Figueira  Jeanne est recusando at mesmo o acordo que Toms tinha proposto antes de morrer. Ela sabe que vai perder tudo e, no 
entanto, insiste em no aceitar qualquer contato conosco. 



244 



 



Simone sugeriu:  Melhorem o acordo. Talvez ela esteja achando insuficiente. Sorriu, embora ainda houvesse muita tristeza nesse sorriso e completou: 



 Para mim, no far qualquer diferena... Os dois advogados, apesar de no estarem completamente de acordo com a opinio de Simone, assentiram e, no dia seguinte, 
fizeram chegar a Jeanne uma nova minuta para ela examinar. 



Jeanne nem mesmo a leu.  Leve isso de volta  falou ao mensageiro  No vou assinar nada. E no vou conversar com esses dois rbulas. Se tiver de tratar de alguma 
coisa, ser diretamente com Simone e aqui, em minha casa! 



O mensageiro levou de volta a minuta e deu o recado:  Ela disse que quer tratar com Simone. E na casa dela. Figueira e Bueno nem sequer transmitiram essa notcia 
para Simone. Era algo to absurdo que no valia a pena nem mesmo perder tempo falando sobre isso. 



 O que ela est pensando?  perguntou Figueira para Bueno. E, antes que o outro pudesse responder, acrescentou:  Ser possvel que ela ache que pode nos passar 
para trs dessa maneira? Os advogados somos ns! Recebemos de Simone para cuidar de casos como esse e uma de nossas obrigaes  justamente poup- la de aborrecimentos! 



Bueno ergueu os ombros com indiferena.  Deixe que ela queira  vontade. Quanto mais ela demorar, mais perto fica a sentena que, ns sabemos, ser favorvel  
Simone  replicou  Daqui a muito pouco tempo, no haver mais interesse nenhum e nem mesmo necessidade de acordo. Alis, j h dois meses eu acho que no se deveria 
mais falar em acordo com essa mulher! 



Figueira suspirou.  Tambm acho... Mas infelizmente, no  essa a opinio de Simone. Voc sabe como ela . Boa demais... 



Acendendo um cigarro, completou:  No vou ficar admirado se ela aceitar um encontro com essa megera. E ainda sair de l concordando com os termos que ela impuser... 



Figueira estava com a razo.  Na semana seguinte, Simone mandou cham- los para saber do resultado de sua sugesto quanto a melhorar o acordo com Jeanne. 



245 



 



 Ela no quis assinar  respondeu Figueira  Nem sequer leu a minuta nova. 



Simone ficou em silncio por alguns instantes e, pondo para trs da orelha uma mecha de seus longos cabelos cor de bano, falou: 



 Acho que vou tentar conversar com ela. Pode ser que...  Nada disso!  exclamou Figueira   exatamente isso que ela quer pois sabe que poder dobr- la, Simone! 
Voc no vai conversar com Jeanne e, se por acaso resolver faz- lo, fique sabendo que ns dois pediremos demisso! 



Bueno olhou intrigado para o companheiro. Ele tambm no concordava nem um pouco com a idia de Simone ir conversar com Jeanne mas, da a pr as coisas nesses termos, 
o 



passo era muito longo. Mais tarde, depois que j tinham deixado o escritrio de Simone, Bueno perguntou para Figueira por que dissera aquilo. 



 No sei  respondeu ele com sinceridade  Alguma coisa me disse, naquele momento, que no poderia permitir que Simone fosse ao encontro de Jeanne. No sei por 
que eu cheguei a amea- la com a nossa demisso... 



Sorriu, meio sem graa e arrematou:  Mesmo porque eu jamais deixaria Simone... E voc? Bueno assentiu com um aceno de cabea.  Voc est certo... Ns fomos os 
nicos a saber de toda a sua histria. Ns a vimos crescer. No teria o menor cabimento deix- la, no  mesmo? Seria algo assim como estarmos abandonando uma filha...! 



******* Enquanto o processo caminhava na Justia com a lentido que caracteriza todos os procedimentos legais, Jeanne no deixara um s momento de pensar, tramar 
e arquitetar um plano para cumprir a sua parte no pacto com Sat. 



Ela perdera, em primeira instncia, a tutela das quotas da empresa e, com isso, no conseguira mais ter nenhuma voz ativa quer na Diretoria, quer no Conselho Executivo. 
Com isso, ela se vira alijada de uma importante fatia de sua projeo social e isso a mortificava imensamente. 



 A culpa  de Simone  dizia ela para si mesma, cheia de dio  A culpa  dela e de mais ningum! 



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 mais do que sabido que no h melhor fermento para o dio do que a inveja e no h nada que a faa aumentar mais do que ver o alvo dessa inveja progredir, crescer 
e florescer. 



Era exatamente isso que estava acontecendo. Jeanne via Simone subir vertiginosamente, via seu nome aparecer com extraordinria frequncia no apenas nas colunas 
sociais mas, principalmente, nas notcias sobre grandes negcios. Via quase todos os dias comentaristas econmicos se referirem a ela com respeito e admirao e 
no foram poucas as vezes em que Simone fora citada como um exemplo vivo da nova gerao que comeava a tomar em mos as rdeas da economia e do 



desenvolvimento do pas. E isso a punha furiosa. Simone representava tudo quanto ela gostaria de ser e que jamais o conseguiria. 



Era jovem, bela, desejada por todos, amada, requisitada em todas as festas e reunies... Simone tinha o futuro pela frente, um futuro brilhante e feliz. 



J, para ela... Jeanne olhava com desespero para o espelho e via que a cada semana, mais e mais rugas apareciam em seu rosto, mais cabelos brancos despontavam e, 
o que era ainda pior, ela notava que suas curvas, seu corpo, comeava a se transformar. J no tinha mais a mesma cintura, uma barriga proeminente deformava- lhe 
o perfil e os seios... 



Ah, os seios! Aqueles seios grandes e firmes de que Jeanne tanto se orgulhara, estavam ficando flcidos, pendentes... 



Seios de uma velha... tentara todos os recursos para evitar o envelhecimento. Passara cremes, fizera massagens, ginstica, utilizara processos modernos e lanara 
mo de frmulas estranhas e exticas que se lembrara de ver Gabrielle receitar para suas clientes. 



Nada dera certo. O envelhecimento continuava, parecendo at mais intenso depois de cada uma das tentativas que ela fazia para impedi- lo. 



Enquanto isso, ela podia ver a fotografia de Simone nas capas e pginas internas de revistas femininas, de revistas de negcios e, ainda, muitas e muitas vezes, 
na televiso. Ela parecia cada vez mais linda, mais cheia de vida e de realizao. 



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 Isso vai acabar!  dizia Jeanne, com raiva  Vai acabar e, ento... Olhando para o vazio  sua frente, apertando os olhos j bem enrugados e com grandes bolsas 
nas plpebras inferiores, ela murmurava: 



 ... ento, Simone... Voc h de rastejar aos meus ps! Porm, para desespero de Jeanne, ela no via esse dia chegar. Sabia que, para poder fazer alguma coisa contra 
Simone, precisaria se aproximar dela, precisaria atra- la de uma tal maneira que sua aura tivesse condies de influir na da jovem e isso, justamente isso, parecia 
ser impossvel. 



Simone estava permanentemente em companhia de outras pessoas e, isso atrapalhava os planos da francesa. 



 Preciso apanh- la sozinha, em algum lugar onde ningum possa me impedir de toc- la, de abra- la...  dizia. 



Comeou a seguir os passos de Simone de modo a poder estar a par de toda a sua rotina, exatamente como faria um bandido que estivesse interessado em seqestrar a 
moa. Mas, depois de um ms, Jeanne chegou  concluso que Simone jamais estaria sozinha. 



 A no ser  noite, em seu quarto e ali, eu no posso entrar... Parecia ser impossvel. Simone era absolutamente inacessvel e seus advogados repeliram energicamente 
todas as tentativas de Jeanne de uma entrevista a ss com a jovem. 



J desesperada, vendo que no conseguiria coisa nenhuma por meios normais, Jeanne decidiu pedir ajuda a Sat e, numa sexta- feira  noite, invocou- o. 



******* Sat atendeu ao seu chamado com visvel mau humor.  No sei por que me chamou  disse ele. Como da ltima vez em que aparecera, Sat se mostrava ao natural, 
naquele seu horripilante aspecto de monstro semi- humano, com chifres. Desta vez, Jeanne notou que ele tinha os membros inferiores como as patas traseiras de um 
bode e isso lhe causou uma impresso desagradvel pois em seu pensamento, lembrou- se das vezes em que se sentira to arrebatada por aquele ser... Seria possvel 
que tivesse mantido relaes com um monstro daqueles?! 



Tomou muito cuidado para que esse pensamento no transparecesse em sua fisionomia e, respirando fundo, disse: 



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 Preciso de ajuda, Prncipe das Trevas. No consigo me aproximar de Simone. 



Sat balanou a cabea negativamente e falou:  Eu a avisei de que de nada adiantaria usar meios sobrenaturais para tentar essa aproximao. No posso ajud- la. 



 Mas isso no  possvel!  exclamou Jeanne  Voc tem poderes que eu no tenho! No  possvel que no consiga arrumar uma maneira de Simone ficar perto de mim! 



O Prncipe das Trevas ficou calado e Jeanne percebeu que, pela primeira vez, ele no estava rindo, no estava soltando aquelas gargalhadas de sempre. 



 No posso fazer nada  repetiu Sat. E, rspido, acrescentou:  Se pudesse, pode ter certeza que no faria pacto nenhum com voc. 



Jeanne se ajoelhou e quase chorando, disse:  Mas no pode ser... No quero envelhecer e morrer assim! No quero! Voc precisa me ajudar! 



Erguendo os olhos e fixando as feies de Sat, insistiu:  Deve haver uma maneira... Faa alguma coisa! E, numa tentativa de sensibilizar o Demnio, ajuntou:  
Lembre- se que eu sempre fui uma boa discpula... Est certo que tivemos algumas rusgas mas... Isso acontece com qualquer um, no  mesmo? 



Sat voltou a balanar negativamente a cabea e murmurou:  No h o que eu possa fazer, Jeanne. Esse problema voc dever resolver sozinha. 



Abriu os braos muito peludos para comear o movimento que fazia todas as vezes em que ia embora mas Jeanne gritou: 



 No se v ainda! Ajude- me, Prncipe das Trevas! Sat interrompeu o movimento e falou:  Est bem... Vou tentar fazer alguma coisa. Olhou intensamente para Jeanne 
e acrescentou:  Mas  claro que isso vai lhe custar um pouco mais.  No tem importncia!  exclamou ela  Qualquer coisa que me custe ser pouco! 



Sat meneou a cabea afirmativamente e disse:  Como j lhe expliquei, h foras e falanges que eu no posso vencer. Porm, essas mesmas foras podem ser fragilizadas 
por outros elementos do mal... 



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Havia uma certa raiva em sua voz quando ele completou:  Elementos que eu mesmo criei. Voc, por exemplo.... Ficou em silncio por quase um minuto, com os olhos 
fechados, como se estivesse se concentrando e, ento, arrematou: 



 Voc vai receber uma mensagem. Vai segui- la ao p da letra e, ento, talvez as coisas comecem a melhorar. 



Sat comeou a desaparecer e, j diludo entre a fumaa que desprendia, acrescentou: 



 Quanto ao preo que ter de pagar por essa ajuda, olhe- se no espelho... 



Jeanne ouviu a sua gargalhada ttrica e pensou que, sinceramente, teria sido melhor nem ouvi- la... 



Quando a fumaa de enxofre sumiu, Jeanne correu para a frente do espelho. 



J nesse movimento, notou a diferena. Ela estava mais lenta, sentia dores pelo corpo e sua respirao estava mais difcil. 



Com medo, olhou a imagem que o cristal lhe devolvia. Estava horrvel. Envelhecera cinco anos em apenas dez minutos. Seu rosto estava cheio de rugas e o cabelo, todo 
branco. Furiosa, ela apanhou um cinzeiro de bronze e arremessou- o contra a prpria imagem. 



Porm, o cinzeiro era pesado demais e caiu no cho antes de atingir o cristal... 



Jeanne compreendeu. Ela teria de conviver com aquilo... Teria de se ver diariamente, envelhecendo e fenecendo a cada momento. 



Fazia parte do preo. Fazia parte do pacto... 



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CAPTULO XXVIII 



Trs meses j tinham passado desde que Jeanne invocara Sat pela ltima vez e nada acontecera que pudesse dar a ela a idia de uma modificao naquele desesperador 
estado de coisas. 



Simone continuava a progredir, sua fortuna aumentava dia aps dia e Jeanne, ao contrrio, desmoronava. J era voz corrente que ela estava sofrendo de uma grave doena 
e que a transformara numa velha muito antes do tempo. 



Havia aqueles, cujo corao era menos empedernido, que tinham pena da pobre mulher mas, a maioria, no pensava assim. Durante todos aqueles anos, Jeanne pisara sobre 
muitas pessoas, causara muitos sofrimentos e humilhara demais aqueles que tiveram o azar de se atravessar em seu caminho. Por isso, era mais do que natural que no 
se apiedassem dela e, muito pelo contrrio, chegassem a achar que nada poderia ser mais justo do que ela sofrer alguma coisa. 



  castigo de Deus  comentavam  E Jeanne fez por merec- lo. 



Na Justia, as coisas tambm comeavam a se precipitar e o advogado de Jeanne apareceu para dizer que dentro de poucos dias, o Juiz deveria dar a sentena final 
e ela, Jeanne, seria prejudicada pois, na certa, perderia a questo. 



 Voc ainda tem uma chance  falou ele  Pode tentar o acordo com Simone e, apesar de ser prejudicial para ela, tenho certeza que aceitar. Simone no precisa de 
dinheiro e tem um corao bom demais para querer vingana nessa altura dos acontecimentos. 



Jeanne compreendeu muito bem o segundo sentido das palavras do advogado. Simone no teria interesse nenhum em ver uma pobre velha, doente e prematuramente decrpita, 
passar dificuldades. Mesmo que essa velha fosse ela, Jeanne, a pessoa que lutara durante tanto tempo para lhe tomar as quotas da empresa. 



Por um momento, Jeanne ficou irritada. Pensou em correr dali o advogado chamando- o de incompetente ou de qualquer outra coisa que o pudesse ofender, mas... 



Lembrou- se das palavras de Sat. 



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Ela receberia uma mensagem que lhe possibilitaria um encontro com Simone... 



Talvez fosse aquela a oportunidade e, segundo o Prncipe das Trevas, ela deveria seguir  risca as instrues que lhe seriam transmitidas. 



Respirou fundo, refletiu por alguns momentos e, finalmente, disse, tentando esboar um sorriso: 



 Est bem... Assinarei o acordo. Mas... O advogado arregalou os olhos. Parecia- lhe impossvel que Jeanne ainda tivesse coragem de impor condies para a assinatura 
de um acordo que, na realidade, no seria mais necessrio para Simone e que esta mantinha por mera piedade para com a francesa. 



 No creio que voc esteja em posio de exigir coisa nenhuma  ponderou ele. 



Jeanne balanou a cabea negativamente e disse:  No quero impor nada. Quero apenas pedir um favor para Simone. 



Fingida, boa atriz que sempre fora, enxugou uma lgrima no canto do olho esquerdo e murmurou: 



 Quero que ela me receba... Que me perdoe... Ergueu o rosto encarquilhado para o advogado e explicou:  Veja o meu estado... Estou doente, envelheci muito... Sei 
que no terei muito tempo mais. E no quero partir para o outro mundo levando o dio de Simone. 



O advogado sorriu e com benevolncia, disse:  Pode estar tranquila quanto a isso, Jeanne... Simone  uma boa alma. Tenho certeza que no guardar qualquer rancor 
de voc. 



 Pode ser...  replicou a velha  Mas eu fao questo de ouvir essas palavras da boca de Simone. Pode marcar o encontro para a assinatura do acordo mas... Que seja 
na presena de Simone. 



O advogado refletiu por alguns instantes e disse, por fim:  Est certo... Verei o que  possvel. Vou falar com o Figueira ainda hoje e, quem sabe, marcamos para 
segunda- feira esse encontro... 



Jeanne se despediu do advogado, radiante. Talvez, finalmente, estivesse trilhando o caminho certo. Tinha certeza de ser recebida por Simone e, a partir da, no 
lhe seria muito difcil faz- la acreditar em seu arrependimento. Da a convenc- la a um convvio mais estreito, o passo no seria muito longo. 



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 Voc a ter, Prncipe das Trevas! E eu terei a minha juventude de volta!  disse ela para o espelho. 



******* s nove horas da manh de segunda- feira, o advogado de Jeanne telefonou. 



 Ser impossvel encontrar Simone hoje  disse ele com preocupao em sua voz, temendo que Jeanne resolvesse voltar atrs e no mais assinar o acordo  Ela foi 
para o Rio de Janeiro e no dever voltar antes de uma semana ou dez dias. Pelo que Figueira me falou, ela tem muitos negcios a resolver por l. 



Apressado, antes que Jeanne pudesse reclamar, acrescentou:  Mas voc pode assinar o acordo aqui. At mesmo a em seu apartamento. A presena de Simone  totalmente 
desnecessria... 



 Mas eu queria...  comeou Jeanne.  Sei que voc queria se entender com ela  interrompeu o advogado  Mas isso pode ser feito depois. Assine esse acordo, Jeanne... 
Tenho certeza que as coisas ficaro mais fceis entre vocs duas depois que, juridicamente, no houver mais nenhum espinho. 



Jeanne refletiu por alguns instantes. Se ela deveria seguir as instrues da mensagem e se aquilo tudo era a mensagem propriamente dita, o melhor a fazer seria assinar. 
Alm disso, se Simone estava no Rio de Janeiro, ou seja, numa cidade que no era o seu domiclio, talvez estivesse mais vulnervel l, do que em So Paulo... 



E no seria totalmente impossvel localiz- la... Com alguns telefonemas... 



 Est certo  disse a francesa  Pode mandar vir o acordo que eu vou assin- lo. E, assim que Simone chegar, eu irei procur- la para uma conversa adulta e madura. 



Deu uma risada e arrematou:  Afinal, eu vivi tanto tempo com o seu pai... No tem o menor cabimento, depois de tudo acertado, que ns duas continuemos separadas. 
De uma forma ou de outra, eu sou a madrasta de Simone... 



O advogado quase nem podia acreditar no que estava ouvindo. Jeanne, finalmente, cedera... O acordo seria assinado, aquela tortura chegaria ao fim e, o que era melhor 
do que qualquer outra coisa, ele nunca mais precisaria chegar perto daquela mulher, nunca mais 



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precisaria ouvir sua voz e muito menos ver aqueles olhos frios e maldosos que pareciam perfurar- lhe a alma. 



Por sua vez, Jeanne tambm estava excitada. To excitada que nem mesmo se lembrou das dores reumticas que nos ltimos dias estavam incomodando tanto, chegando mesmo 
a 



impedi- la de dormir. Imediatamente aps desligar o telefone, comeou a agir. Em seguida, tambm atravs do telefone, achou o hotel em que Simone se hospedaria, 
em Copacabana... 



 Irei para l  disse  Assim que assinar esse maldito contrato, eu irei para l! Aposto como Simone, ao ver que eu me desloquei, doente e tudo, para o Rio de Janeiro, 
s para v- la, no se recusar a me receber! 



*******  No estou gostando nada disso  falou Figueira  Uma pessoa que chega a esse ponto, jamais volta atrs em sua opinio. 



 Voc est falando de uma pessoa normal  ponderou Bueno  E Jeanne no  normal. 



Franzindo as sobrancelhas, indagou:  Mas o que o incomoda? Se ela se decidiu a assinar... No  bom para todos ns? 



 No  respondeu Figueira  Para ns no  muito bom. Estamos cedendo quando no tnhamos a menor necessidade de ceder. Isso pode ser bom apenas para Jeanne. 



 E para Simone  completou Bueno  Ela sempre quis que esse acordo sasse, mesmo sabendo que financeiramente no  a melhor soluo. 



Ergueu os ombros, conformado e disse:  Mas Simone  assim mesmo. Boa demais. No  capaz de ver uma pessoa em dificuldades sem querer arrumar uma maneira de ajud- 
la. 



 Talvez seja por isso mesmo que ela tenha tanta sorte na vida... As pessoas de bom corao so abenoadas, Figueira... Deus ajuda e elas acabam alcanando tudo 
o que desejam... 



Malicioso, Figueira murmurou:  Ento  por isso que voc tem sido to exemplar ultimamente... Pensei que fosse apenas influncia de Simone mas vejo que no. H 
alguma outra coisa por trs. Voc est bajulando os santos para conseguir... 



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Abriu um sorriso e exclamou:  Mas eu j sei! Agora estou percebendo tudo... Bueno olhou para o colega com raiva e perguntou:  Est percebendo o qu, meu velho? 
 Voc quer  ficar rico como Simone... Por isso tem ido  Missa, tem feito caridades... Est  pedindo a Deus um lugar ao sol! 



Bueno riu.  Pode ser que esteja certo  disse ele  Mas no estou pedindo um lugar ao sol para mim, pois j estou velho, j realizei tudo quanto tinha de realizar 
e posso me considerar um homem feliz... 



Com um olhar sonhador, ele concluiu:  Mas eu tenho um filho... Quero o melhor para ele... Figueira franziu a testa, intrigado e indagou:  Mas j no conseguiu? 
Jorge no est bem empregado aqui com Simone? 



Com um sorriso, completou:  Ele conseguiu, em poucos meses, o lugar de assessor financeiro da dona da empresa. O que mais pode desejar? 



Bueno olhou para o companheiro e riu.  Acho que h muito mais para ele desejar. E, alis, ele o deseja. S que... 



Figueira estourou numa gargalhada.  Compreendi!  exclamou  Mas  claro que compreendi! Bateu nas costas de Bueno e disse:  Ele no poderia visar mais alto, no 
 mesmo? Bem ambicioso, o seu menino... 



Ficando subitamente srio, Figueira murmurou:  Mas... Espere a... As coisas esto comeando a aparecer... Jorge foi para o Rio de Janeiro na sexta- feira, no 
 isso? 



Bueno fez um sinal afirmativo com a cabea.  E Simone decidiu viajar para o Rio hoje de manh... Depois que recebeu um telefonema de Jorge... 



Um sorriso de felicidade iluminou o rosto redondo e vermelho de Bueno.  Ento  isso!  exclamou Figueira  _ isso! Esses dois esto de amores! E ns nem sequer 
desconfiamos! 



 Vocs no desconfiaram  contestou Bueno  Mas eu estou sabendo de tudo desde o incio... Desde quase cinco anos atrs, quando comearam a namorar escondido de 
Toms e de Sylvia. 



 Mas porque mantiveram tudo em segredo?  perguntou Figueira  No havia necessidade nenhuma! No h nada mais natural dom que dois jovens se amarem, no acha? 
 assim que a espcie se perpetua... 



Bueno ergueu os ombros, indiferente.  Vai ver, eles criaram o hbito de fazer tudo em segredo  murmurou  E, no fundo, deve ser mais gostoso. 



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CAPTULO XXIX 



Jorge avistou Simone caminhando pelo saguo do Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro e, com um sorriso, correu para ela. 



Abraaram- se, beijaram- se apaixonadamente e ele disse:  Desculpe- me faz- la esperar, Simone... Mas o trnsito... O Rio de Janeiro est cada vez pior... 



 Faz tempo que eu no venho ao Rio  comentou Simone  Desde a morte de meus pais... 



E, com um trejeito que tentava justificar suas palavras, completou:  No tenho boas recordaes daqui, Jorge. Acho que  fcil de entender... 



 Claro  fez o rapaz   claro que eu entendo. Ajudando- a com a mala, acrescentou:  Mas vamos deixar de lado os pensamentos negativos e as recordaes tristes, 
Simone. Temos um bocado de trabalho pela frente e, quando tivermos terminado tudo, quero mostrar para voc um Rio de Janeiro de que h de se lembrar com prazer. 



Aproximando- se do automvel que Jorge alugara, Simone indagou:  E o nosso plano? Ainda est de p? Jorge riu. Pondo a bagagem no porta- malas do carro, ele abraou 
Simone mais uma vez e disse: 



 Mas  claro que est de p, minha querida... J providenciei tudo. Pode ficar descansada que h de dar certo. 



Dirigindo depressa, procurando acompanhar o trfego enlouquecido da cidade, Jorge comentou: 



 S no consigo compreender a razo de todo esse segredo, Simone. Voc tem o direito de fazer o que quiser. E eu tambm! No temos necessidade de nos escondermos! 



Simone ficou em silncio por alguns instantes e, acendendo um cigarro para si e outro para Jorge, falou: 



 Eu sei como so essas coisas. Conheo muito bem a sociedade de So Paulo. Jamais admitiriam que eu me casasse sem fazer uma festa do tamanho de um edifcio de 
vinte andares. Por outro lado, sei o que vo comentar. Vo dizer que voc se casou comigo por causa do meu 



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dinheiro e mais uma poro de outras coisas que ns dois no gostaramos de ouvir. 



Inclinando- se para o lado, disse:  Prefiro assim. Nosso casamento tem de ser s nosso, Jorge. Ningum mais tem de participar. Depois, quando voltarmos para o trabalho, 
a sim, poderemos dizer a todos o que aconteceu. E poderemos rir  vontade da cara que certas pessoas vo fazer. 



Jorge suspirou. Por ele, anunciaria aos quatro cantos do mundo que estava se casando com Simone Camargo, faria uma festa monstruosa, faria qualquer coisa para mostrar 
a felicidade que estava sentindo. Mas, por outro lado, dava razo a ela. Seria impossvel uma cerimnia discreta e seria impossvel evitar os comentrios dos invejosos, 
daqueles que, incompetentes para alcanar a prpria felicidade, passam o tempo tentando minar a felicidade dos que a atingem. 



E Jorge detestava estar envolvido por uma aura de inveja...  Voc est certa  murmurou  O que interessa  que ns dois estejamos felizes e realizados. O resto 
 apenas o resto. No nos importa. E no poder influir em nossa vida. 



Sorriu, beijou os lbios de Simone aproveitando um sinal fechado e falou: 



 Reservei quartos para ns dois no Copacabana Palace. Fiz isso l de So Paulo, era mais fcil e podia dispor da infra- estrutura da empresa. Mas fique sossegada 
que ningum desconfiou pois a minha reserva foi feita separadamente. 



Fez uma pequena pausa e prosseguiu:  Poderia ter sido em outro hotel mas, j que  para viver um sonho, achei que voc gostaria de ficar l. Justamente nesta semana 
chegaro alguns artistas de Hollywood e no mnimo poderemos jantar na mesma sala que eles... 



Deu uma risada divertida e perguntou:  Bem provinciano, no acha? Simone tambm riu e, acariciando com a mo esquerda a nuca de Jorge, indagou: 



 Voc disse que reservou quartos? Foi isso o que eu entendi? Jorge olhou surpreso para ela e respondeu:  Sim... Um quarto para mim e outro para voc... No mesmo 
andar,  claro... Quartos contguos mas... Separados. 



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 No acha que  bobagem?  quis saber Simone, com um sorriso malicioso  Afinal, ns vamos casar depois de amanh... 



 Voc me disse que queria casar virgem  respondeu Jorge, muito srio  Por isso pedi quartos separados. 



Olhando intensamente para ela, acrescentou:  Acho que esse seu sonho, essa sua fantasia que sempre achei tola, no vai se realizar se ns estivermos no mesmo quarto... 
Seria pedir demais para qualquer um de ns! 



Simone riu. Beijou o rosto de Jorge e murmurou:  Aposto que voc no vai se arrepender por ter esperado tanto... E pode estar certo de que eu lhe sou muito grata 
por ter tido essa pacincia e por ter sido to cavalheiro durante todos estes anos. 



 No se trata de uma questo s de cavalheirismo, menina...  falou Jorge com um fingido rancor  Eu sempre tive medo... J imaginou o que seria de mim se por acaso 
voc engravidasse? Aqueles dois abutres que so seus advogados e que por um acaso o abutre maior  justamente meu pai, simplesmente haveriam de querer ver o meu 
couro virado pelo avesso! 



******* Enquanto Simone e Jorge desarrumavam as malas e guardavam as coisas da moa no armrio, Jeanne estava num txi a caminho do Aeroporto de Congonhas, em So 
Paulo. 



Tinha assinado os documentos que lhe haviam enviado, estava completamente liberada da ao na Justia e, assim, poderia dar seqncia ao seu plano. 



Adquiriu uma passagem para o Rio de Janeiro e, j sabendo que Simone estaria no Copacabana Palace, tratou de iniciar o seu ataque. 



Ela haveria de conseguir falar com ela em particular e haveria de faz- la sua amiga... Era isso que precisava. Que Simone se tornasse sua amiga para poder estar 
bem prxima  sua aura. 



Havia apenas um detalhe que a deixara intrigada e, ao mesmo tempo, preocupada. 



Aquele tal de Jorge, o economista e assessor direto de Simone tambm estaria no Rio de Janeiro. Isso significava que a moa no estaria sozinha e, o que era mais 
aterrador, talvez ele estivesse l com a inteno de lhe servir de proteo, uma espcie de guarda- costas com nvel universitrio. 



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O tipo da coisa que poderia atrapalhar Jeanne e muito... Respirou fundo, o txi estava chegando ao aeroporto e Jeanne disse para si mesma: 



 Ora... Acho que estou me preocupando  toa. Ele no estar dormindo com ela. Terei a noite para lhe fazer uma visita... 



De repente, por sua mente maligna passou a idia de que poderia estar redondamente enganada... Jorge poderia muito bem estar dormindo com Simone! Stephanie no dormira 
com o guarda- costas? E o Principado de Mnaco no caiu por causa disso. 



Mas no caso de Simone, as coisas seriam diferentes. Se isso fosse verdade, ela no seria mais virgem... Sat seria frustrado e ela... Bem... Nem era bom pensar no 
que iria acontecer. Procurando afastar de sua cabea essas idias, Jeanne avanou pelo saguo do aeroporto, em direo ao balco da Ponte Area. 



******* Desde que o avio pousara no Rio de Janeiro, Simone estava com uma estranha sensao de ansiedade. 



Ainda no saguo do aeroporto, ela achara que isso se devia ao fato de no estar com Jorge, de ele ainda no ter chegado para apanhla... Chegou a pensar at que 
o rapaz desistira e fora embora para o outro lado do mundo de onde, em segurana, enviaria uma carta explicando que no queria mais se casar. 



Simone riu consigo mesma dessa sua idia quando o viu correr em sua direo, os braos abertos, o rosto feliz por causa do reencontro. Depois, como a ansiedade persistisse, 
ela pensou que fosse devida ao nervosismo natural das noivas nas vsperas do casamento. 



Mas, a calma e a segurana que a presena de Jorge lhe dava, mostravam claramente que isso no era verdade. 



Devia haver alguma outra coisa... E ela tinha a obrigao de descobrir o que a estava angustiando.  No posso me casar sentindo isso!  pensou   capaz de me atrapalhar 
tanto que eu no consiga fazer nada com Jorge e isso sim, depois de tantos anos, seria uma autntica tragdia! 



Depois que suas roupas estavam arrumadas, enquanto Jorge, de seu quarto, fazia algumas ligaes telefnicas marcando os 



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compromissos de Simone para aquele dia, ela se espichou sobre a cama, deixando a porta de comunicao entre os dois quartos aberta de maneira a ouvir o que seu assessor 
e futuro marido dizia em seus telefonemas. 



Sorriu consigo mesma pensando que dentro de pouco tempo a situao estaria invertida. Seria Jorge a ter os compromissos e ela, no mximo, serviria de sua assessora. 



 Mas em casa  pensou  No quero ficar na empresa, isso no  exatamente o que eu gosto de fazer. 



Fechou os olhos, sentiu de repente um grande relaxamento e, com delcia, percebeu que iria cochilar. 



Estava naquele instante de torpor modorrento que precede o sono quando, ntida e claramente, escutou uma voz que lhe dizia: 



 Me Antnia... Voc precisa encontrar Me Antnia! ******* Simone deu um salto na cama, o corao em disparada, a respirao acelerada... 



 Jorge!  chamou  Jorge! Venha c! O rapaz largou o telefone, assustado. A voz de Simone era de medo, de angustia, de algum que estivesse precisando de socorro. 



 O que foi?  perguntou ele aflito, debruando- se sobre ela  O que aconteceu? Por que est assustada assim? 



Simone respirou fundo. Jorge lhe deu um copo de gua e ela, depois de um grande esforo, conseguiu dizer: 



 Ouvi uma voz, Jorge... Ele procurou sorrir.  Claro... Era a minha voz, falando ao telefone... Simone balanou a cabea negativamente, tomou outro gole de gua 
e disse, j um pouco mais refeita: 



 No. No era a sua voz. Era uma voz de mulher... E, ainda trmula, completou:  Era minha me... E repetiu uma frase que me disse no instante em que morreu. 



Fechou os olhos, apertou muito as plpebras para se controlar e no deixar que as lgrimas escorressem, enquanto dizia: 



 Lembrei- me agora, Jorge... Durante todo esse tempo, esse 



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fato, essa frase, estiveram escondidos em minha memria, presos em meu subconsciente. Creio que no momento, o choque de ver meus pais daquele jeito... Isso deve 
ter feito com que eu me esquecesse. 



Respirou fundo e prosseguiu:  Mas agora... Ela repetiu... E acho que eu devo fazer o que est me pedindo. 



Jorge refletiu. Havia muito tempo que ele tinha uma certa tendncia ao misticismo, chegara mesmo a freqentar um centro kardecista perto de sua casa, mas jamais, 
tivera qualquer experincia espiritualista. Nunca ouvira vozes, tivera vises ou qualquer outra coisa desse gnero. Por isso mesmo, acabara se desanimando um pouco 
e parara de freqentar o centro, achando que aquilo tudo no passava de charlatanismo para enganar os incautos. 



Mas, vindo de Simone... Era para se pensar...  E o que a voz lhe disse para fazer, querida?  perguntou ele, com cautela. 



 Minha me me mandou procurar uma certa pessoa... E, erguendo os olhos para Jorge, segurou suas mos e murmurou:  E eu me lembro que ela muitas vezes falou nessa 
pessoa... Me Antnia... 



 Uma Me- de- Santo?  indagou Jorge, sentindo- se arrepiado.  Sim... E, se no me engano, ela  minha madrinha... Jorge se deixou cair sobre uma poltrona e disse, 
a voz apagada:  Madrinha... Afilhada de uma macumbeira... E, com um sorriso forado, comentou:  Meu Deus... Onde eu estou me metendo... Ia abrindo a boca para 
falar mais alguma coisa mas, parou. Ficou imvel, os olhos esbugalhados, a boca semi- aberta, os cabelos quase de p... 



Em seus ouvidos, uma voz feminina, muito suave e muito semelhante  de Simone, disse: 



 Se voc quiser minha filha como sua esposa, ter de correr. Ajude- a a encontrar Me Antnia. E depressa... No h tempo a perder! 



A voz se calou e Jorge, muito plido, perguntou, baixinho:  Voc ouviu? Voc ouviu o que ela me disse? Simone balanou afirmativamente a cabea e murmurou:  Sim. 
E fico contente. Mostra que no  uma loucura s minha! 



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J refeito, novamente senhor de suas reaes, Jorge disse:  No. Isso no  loucura.  algo muito srio e ns temos de fazer o que ela pediu. 



De um salto, apanhou e telefone e comeou a desmarcar um a um os compromissos do dia. 



 Vai ficar esquisito  disse ele para Simone, ao terminar  Mas  mais importante encontrar Me Antnia do que qualquer outra coisa! Principalmente porque tive 
a sensao de que a nossa felicidade futura depende disso... E depende totalmente! 



Simone no discutiu. Estava achando tudo aquilo um bocado assustador mas, o interessante era notar que a ansiedade que vinha sentido, desaparecera. Parecia que, 
no momento em que ela e Jorge tinham tomado a deciso de encontrar Me Antnia, tudo passara a fluir melhor, com mais calma e naturalidade. 



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CAPTULO XXX 



Jeanne no quis ficar no Copacabana Palace, preferindo um outro hotel na Avenida Atlntica de maneira a no levantar suspeitas de Simone. 



Ela queria agir de maneira a sensibilizar a moa, dizendo que tinha ido ao Rio de Janeiro unicamente para v- la e que estava voltando no mesmo dia para So Paulo. 
Sua idia era a de fazer com que Simone a convidasse para ficar no mesmo hotel. 



 Ser a melhor maneira de mant- la sob minha aura  disse Jeanne para si mesma, ao entrar no quarto. 



Estava cansada. Aquele processo de envelhecimento a que a submetia Sat, deixava- a praticamente esgotada aos menores movimentos e, depois de uma viagem cansativa, 
depois de caminhar todo o saguo do Santos Dumont tentando acompanhar o carregador com as suas malas, Jeanne estava exausta. Como se no bastasse, havia as dores 
reumticas que, talvez por causa do avio, tinham piorado muito, fazendo com que ela tivesse at medo de se mexer. 



Deixou a mala sem nem mesmo abri- la e deitou- se ao comprido sobre a cama para repousar um pouco e, mais tarde, j mais disposta, ir atrs de Simone. 



Fechou os olhos e procurou adormecer. No conseguiu. Seus ouvidos latejavam, ela podia escutar o som do sangue sendo impulsionado com fora em sua cabea e, lembrando- 
se de uma conversa, muitos anos atrs, com um mdico seu conhecido, achou que estava com a presso arterial um pouco elevada. 



 No gosto disso  murmurou  Essa histria de presso alta... Posso passar mal de um momento para o outro... 



Procurou se concentrar e, com o poder da mente, afastar de si o fantasma de uma doena. 



 No posso ficar doente agora...  falou  Logo agora, que estou to perto de conseguir cumprir a minha parte no pacto com Sat! 



Sorriu consigo mesma, dizendo:  Depois... Quando tudo estiver resolvido... A sim, vou 



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recuperar a minha juventude e a minha sade... Com dificuldade por causa das dores nas juntas, ela se ajeitou melhor na cama e murmurou: 



 Sat no poder reclamar. Terei cumprido toda a minha obrigao e restar apenas que ele faa a sua parte. 



Foi nesse momento que um cheiro horrvel invadiu o quarto. Era a primeira vez que Jeanne sentia aquele odor, um odor que lembrava amonaco em altas concentraes. 



Sim... Ela sabia que era o Prncipe das Trevas chegando. Mas estranhava aquele cheiro to forte e to diferente. 



Aos poucos, uma nuvem de fumaa foi se formando diante de seus olhos e Sat apareceu. 



Ele tinha a expresso furiosa, os olhos mais esbugalhados e proeminentes do que nunca e pareciam dois pedaos de carvo metidos em buracos incandescentes. 



 Voc est perdendo  disse ele  Est perdendo tudo! Jeanne quis responder, quis protestar e dizer para o Demnio que no, que ela estava fazendo tudo o que era 
possvel fazer e que dentro de poucas horas estaria com Simone... 



Mas no pode... O Prncipe das Trevas, em meio a um rudo que lhe pareceu o arrastar pesado de um porto meio emperrado, j tinha desaparecido. 



Jeanne sentiu um calafrio e comeou a transpirar. No era preciso ser mdico para saber que ela estava ardendo em febre e, sem foras ou coragem para fazer nada, 
a francesa simplesmente fechou os olhos, procurando dormir. 



 Isso passa  disse ela para si mesma  Foi por causa da viagem. E essa apario de Sat, no foi real... Foi apenas conseqncia da febre... 



Sorriu consigo mesma e, sentindo- se menos tensa, menos angustiada, adormeceu. 



******* Durante todo o dia, pelo telefone, andando de txi para baixo e para cima, perguntando s pessoas, revirando o Rio de Janeiro, Jorge e Simone tentaram encontrar 
Me Antnia. 



Porm, parecia impossvel. 



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Me Antnia no era conhecida por ningum, at mesmo em alguns terreiros de Umbanda e Candombl que eles foram, no lhes souberam informar. 



 J ouvi falar  diziam alguns.  Esse nome no me  estranho  diziam outros. Mas, com preciso, com segurana, ningum sabia dizer nada.  Isso no vai bem  
falou Jorge j  noitinha, quando regressaram ao hotel  No fizemos progresso nenhum! 



 Talvez amanh  murmurou Simone, cansada e desanimada  Pode ser que se procurarmos em Niteri... Quem garante que Me Antnia no esteja em Niteri? 



 Sim  respondeu Jorge com um suspiro  Ou em qualquer outra cidade da Baixada Fluminense... 



Simone compreendeu o que ele queria dizer com aquilo. Estavam na estaca zero, na realidade, no tinham conseguido nada desde que saram em busca de Me Antnia, 
logo depois de terem escutado a voz de Sylvia to nitidamente. 



Os dois se encontravam no quarto de Simone, sentados na cama e ambos estavam exaustos. Tinham passado muito calor durante o dia, tinham andado muito e, alm de tudo 
isso, havia a tenso emocional, a angstia de no terem conseguido nada e de verem o tempo passar, minuto aps minuto, sem perdo... 



 Temos de encontrar Me Antnia antes do casamento  falou Simone  Sinto isso! Sei disso! 



Com expresso de desespero, Jorge perguntou:  Isso quer dizer que no haver casamento se no a encontrarmos? Simone no respondeu. Sentia, de repente que era preciso 
ser de Jorge... Aquele 



era o seu homem. E esperar mais... No entanto, ele mesmo parecia to retrado, to nervoso... Simone sorriu consigo mesma, pensando:  Ele vai ter uma surpresa... 
Na verdade, era difcil para a moa explicar a si mesma o que lhe estava acontecendo. Porm, parecia ser compulsivo. Ela sentia uma imensa necessidade de concretizar, 
de materializar o amor que sentia por Jorge... 



Levantando- se, ela se dirigiu para o banheiro e, de l, falou:  Estamos os dois cansados e nervosos, querido. O melhor que fazemos  tomarmos um bom banho e, depois 
do jantar, poderemos 



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conversar com mais calma e planejarmos o que vamos fazer amanh. Jorge concordou. Simone estava com a razo, h determinados momentos no relacionamento de um casal 
em que o melhor  parar, refletir com toda a calma antes de agir. E eles estavam atravessando um desses momentos. 



Comeou a caminhar para seu quarto. Foi interrompido pela voz de Simone que o chamava:  Mas onde voc vai? Jorge voltou a cabea para responder. No o conseguiu. 
Ficou ali, estatelado, atnito, sem saber o que fazer. Simone estava nua... Nua, mostrando toda a beleza de seu corpo, toda a sensualidade animal que havia nele. 



 Pelo amor de Deus, Simone...  comeou ele a dizer. Simone riu. Caminhou para os braos de Jorge e, comeando a desabotoar sua camisa, disse: 



 J comecei a encher a banheira, querido... E vou precisar que voc esfregue as minhas costas... 



Jorge engoliu em seco, j sentindo a violenta excitao que se apossava de seu corpo. 



 Assim, ns vamos acabar...  balbuciou.  Est enganado, querido  ciciou Simone  Ns no vamos acabar coisa nenhuma... Vamos  comear nossa vida... 



******* Jeanne acordou sobressaltada. Olhou pela janela aberta do quarto e notou que j era noite fazia muito tempo. 



 Como dormi...  murmurou. Lembrou- se da viso que tivera de Sat e da sensao de febre. Percebeu que transpirara muito, sua roupa estava inteiramente molhada. 



Olhando o relgio, viu que j passava de onze horas da noite, portanto, era muito tarde para ir at o Copacabana Palace procurar por Simone. 



 No devia ter dormido tanto  recriminou- se  Agora, terei de deixar para amanh. 



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Foi tomar um banho, depois, pediu que lhe trouxessem o jantar no quarto e, aps ter se alimentado bem, deitou novamente para dormir. 



Mais uma vez, no conseguiu. Ficou rolando na cama de um lado para o outro, sem conseguir conciliar o sono. 



Por fim, j quase duas horas da madrugada, ela se levantou e foi at a janela, olhar a noite, esperar passar o tempo at o dia amanhecer. 



Iria procurar por Simone logo de manh, quando a moa ainda deveria estar no quarto, recm- acordada e, assim, ainda com a mente embotada pelo sono. 



Seria at melhor, seria mais fcil de convenc- la de suas boas intenes. Estava olhando para o mar quando, de repente, sentiu a presena ao seu lado, do Prncipe 
das Trevas. 



 Voc perdeu, Jeanne  disse ele  Perdeu tudo... Jeanne sentiu um aperto no corao.  Como assim, perdi tudo?  indagou, agressiva  Como posso ter perdido se 
ainda nem fui falar com Simone? 



 Ela no  mais virgem  disse Sat com pesar  As Foras do Bem venceram e, assim, ela no me interessa mais... 



Olhando para Jeanne, ele acrescentou:  E nem voc. Tambm no me interessa mais, no tenho mais a menor necessidade de seus servios. 



Jeanne sorriu. A situao no deixava de ser pndega... Ali estava ele, o poderoso Prncipe das Trevas, falando com ela como se estivesse simplesmente despedindo 
uma empregada! 



Lutando desesperadamente para manter a calma, Jeanne lanou:  O que prova que seu poder  muito limitado... No fui eu que perdi, Prncipe das Trevas... Foi voc 
o derrotado! 



Sat olhou com raiva para ela e replicou:  Pode ser. Mas voc  quem vai ter o prejuzo. Eu tenho a eternidade, Jeanne... No fico velho, da mesma maneira que nunca 
fui moo. J com voc a histria  bem diferente... 



Comeando a desaparecer, ele encerrou:  Perdi Simone... Voc no fez a sua parte. Agora, ter o castigo que, de antemo, foi combinado. Envelhecer rapidamente... 



 No!  gritou ela  No quero morrer! Por favor, no faa isso comigo! Pelo menos, leve em considerao todo o prazer que eu j lhe dei! 



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Sat deu uma gargalhada e disse:  Est bem, Jeanne... Vou levar isso em considerao. De fato, muitas vezes voc me proporcionou prazer...  justo que eu lhe d 
um presente. 



Jeanne sorriu. Sim... De algum modo, ela ainda podia controlar o Demnio.  Vou procurar por Simone, de qualquer jeito  pensou  Talvez o Prncipe das Trevas ainda 
a queira, mesmo que no seja mais virgem...! 



E, vendo Sat desaparecer, pensou:  Afinal de contas, nos dias de hoje, pensar em virgindade  a maior estupidez... 



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CAPTULO XXXI 



Simone acordou com a certeza de que era feliz e de que essa felicidade iria perdurar para todo o sempre. 



Jorge tinha sido formidvel e ela, para sua surpresa, tivera a impresso de que j estava casada com ele havia muitos e muitos anos, tal a identidade que ambos conseguiram 
e tal a intensidade de prazer que sentiram. 



Mesmo tendo sido, para Simone, a primeira vez... Como resultado daquela noite de extravagncias e de malabarismos amorosos, ela acordou com o corpo dolorido e uma 
preguia imensa de sair da cama. 



 Pois fique deitada mais um pouco, querida... Enquanto repousa, eu irei ver aquele ltimo endereo que nos deram. Talvez tenha sorte e, assim,  tarde voltarei 
l com voc. 



Simone relutou um pouco, achava injustia Jorge ir sozinho. Mas acabou cedendo. A cama estava to boa, o dia estava to bonito... 



Sim... Seria uma boa idia ela ficar por ali no perodo da manh. Um pouco mais tarde, quando levantasse, aproveitaria para fazer algumas compras em Copacabana, 
ou talvez em Ipanema. 



Viu Jorge deixar o quarto e, olhando para o teto, pensou:  Tomara que ele encontre Me Antnia. Agora, depois desta noite, sei que no vou conseguir ficar sem ele... 
Quero esse casamento e o mais depressa possvel! 



Ficou na cama sonhando com a vida que teria a partir do instante em que estivesse casada com Jorge e, perto de dez horas da manh, Simone se levantou. 



Tomou um bom banho ainda sentindo no corpo os carinhos de Jorge e, vestida com simplicidade, saiu do hotel para perambular pelas lojas, um esporte que a imensa maioria 
das mulheres pratica e que para ela, devido ao ritmo alucinante de trabalho que se impusera, era proibido. 



Saiu do Copacabana Palace, andou um quarteiro pela Avenida Atlntica e entrou  direita para pegar a Nossa Senhora de Copacabana. 



Foi justamente quando estava entrando nessa avenida, que ela a viu. Sentiu um frio no estmago ao reconhecer Jeanne que, vendo- a 



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tambm, abria um sorriso que mais parecia um espasmo de dor, e comeava a caminhar em sua direo. 



Por um breve momento, Simone pensou em esper- la, em cumpriment- la. Afinal de contas, tinha sido companheira de seu pai por tantos anos... No seria educado fingir 
que no a via ali, no Rio de Janeiro, uma cidade estranha. 



Lembrou- se que Jorge, quando ligara para o pai, recebera a notcia de que Jeanne assinara, finalmente, o acordo. Assim, havia mais um motivo para que Simone fosse, 
ao menos corts com a velha. 



Mas... Havia alguma coisa de estranho, ali... Simone sentiu de repente uma repulsa terrvel por aquela mulher e, sem se dar conta, virou- lhe as costas e comeou 
a andar apressada, de volta para o hotel. 



Parecia- lhe sentir que estava sendo puxada por algum, por alguma fora misteriosa e muito poderosa que a impedia de parar de mover as pernas para esperar que Jeanne 
se aproximasse. 



Ouviu a francesa gritar seu nome e, nesse momento, suas pernas passaram a se movimentar mais depressa, sua mo fez sinal para um txi que passava e, quando Simone 
se deu conta, estava sentada no banco de trs, dizendo para o motorista: 



 Vamos ao Cemitrio So Joo Batista. Assustada, Simone pode perceber muito bem que no era ela a dar aquela ordem para o motorista... Em seu ntimo, ela no queria 
ir a cemitrio algum, o que queria fazer era voltar para seu quarto no hotel, trancar- se l dentro e esperar por Jorge. 



Mas... Ali estava ela, dentro de um txi, voando baixo em direo ao cemitrio. 



Quis dizer para o motorista parar, que tinha sido um engano... Mas no conseguiu. Sua voz estava presa na garganta, ela no conseguia pronunciar uma s palavra... 



******* Jeanne viu que Simone simplesmente fugira dela... Furiosa, sentindo- se impotente para persegui- la pela calada, ela se deixara ficar para trs, tentando 
pedir ajuda a Sat. 



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Porm, nada aconteceu... Sat no a atendeu e ela sabia que ele no lhe apareceria mais. A menos que conseguisse alcanar Simone e, de alguma maneira, induzi- la 
a pertencer ao Prncipe das Trevas. 



Isso, ela tinha certeza de poder... Desde que, evidentemente, tivesse Simone sob seu domnio. 



Respirando mal, o corao batendo desordenadamente e sentindo dores horrveis nas juntas, Jeanne viu Simone entrar no txi. 



No perdeu tempo. Entrou em outro carro de praa e disse para o motorista:  Minha filha est naquele automvel. Por favor, alcance- a! Preciso lhe dar um recado 
importante...! 



O motorista pisou fundo no acelerador. Mas, o outro, o que dirigia o carro em que Simone se encontrava, era mais hbil e mais ousado no trnsito e, muito rapidamente, 
ele se distanciou. 



 No vai dar, madame  disse o motorista de Jeanne  Ele est indo depressa demais. O jeito vai ser segui- lo e, quando ele parar, a sim, a senhora poder falar 
com sua filha. 



Mas o txi de Simone s parou  porta do cemitrio. Simone, ao descer do carro, achou que poderia novamente dirigir suas prprias aes, uma vez que fora ela mesma 
a abrir a porta e a ensaiar alguns passos ao longo da calada. 



Mas, logo percebeu que no seria assim. Ainda estava dominada por aquela estranha fora que a impelia para a frente, que a obrigava a atravessar os grandes portes 
do cemitrio e a caminhar por entre as sepulturas. 



De repente, olhou para trs e viu que Jeanne ali estava a pouco mais de cinquenta passos de distncia, caminhando com dificuldade em sua direo. 



Respirando fundo, parou e olhou para a velha que se aproximava. ******* Jeanne estava, realmente, velha e acabada, andando com muita dificuldade, respirando mal 
e ruidosamente, o rosto muito vermelho, as costas curvadas e os ombros subindo e descendo com o esforo de levar ar para o interior dos pulmes. 



Olhou para Simone, a pouco mais de trinta passos de distncia. Trinta passos que lhe pareciam trinta quilmetros... 



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 No vou conseguir...  murmurou  Quando me aproximar mais, ela vai fugir outra vez... E vai ficar assim, brincando comigo como o gato antes de liquidar o rato. 



Invocou novamente Sat, mas este no a atendeu. No... Ela no interessava mais... Com esforo, ergueu os olhos para a moa e viu- a ali, de p ao lado de uma sepultura 
baixa. Pareceu- lhe estar, de fato, diante de uma princesa, de uma mulher com poderes infinitos, com o poder que exercera para destruir sua vida. 



Um poder que ela jamais tivera: o poder do amor... Fora com o amor, com o desejo que a impulsionara para os braos de um homem, que Simone a destrura. 



Entregara- se... Amara... E, com isso, fizera com que o Prncipe das Trevas condenasse a ela, Jeanne,  perdio. 



Sentiu crescer o dio dentro de seu corao.  Chegarei l  murmurou. Faltava pouco mais de quinze metros para chegar at onde estava Simone. Esta, por sua vez, 
olhava a cena aterrorizada e estranhamente paralisada. No conseguia se mexer embora quisesse se aproximar de Jeanne para ajud- la, pelo menos para lhe perguntar 
por que fizera tanto esforo para lhe falar. 



Mas Simone estava petrificada... Lutava consigo mesma para se mover mas o mximo que conseguia fazer era... respirar. 



Nesse momento, ela viu Jorge que chegava, correndo como um louco por entre as sepulturas, gritando seu nome e mandando- a se afastar. 



Simone bem que tentou mas foi impossvel... Parecia pregada no cho, outra vez dominada por uma estranha fora que comandava seus movimentos e suas atitudes. 



 Fuja, Simone!  gritou Jorge, de longe  Fuja, pelo amor de Deus! Mas era tarde... Jeanne j estava bem perto e parecendo ter renovadas as suas foras. To perto 
que, se estendesse a mo, conseguiria tocar em Simone... 



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CAPTULO XXXII 



Jorge caminhara por quase uma hora pelas ruas estreitas da Lapa, at encontrar o endereo que lhe tinha sido dado. 



Era uma casa simples, bastante estragada pela falta de conservao e pelo mau uso mas, estranhamente, no instante em que ele passou o porto do jardim, veio- lhe 
uma intensa sensao de paz. 



Bateu  porta e uma mulata gorda e jovem, com um sorriso feliz no rosto, o atendeu dizendo: 



 Entre, doutor Jorge... Ns o estvamos esperando. Jorge levou um susto. Como aquela moa poderia saber o seu nome e a troco de qu estavam esperando por ele? 



Ressabiado, acompanhou a mulata at um cmodo nos fundos da casa e, abrindo- lhe a porta, a moa disse: 



 Pode entrar... Me Antnia est esperando pelo senhor. Jorge obedeceu e entrou num quarto acanhado, completamente vazio, sem janelas e iluminado apenas por uma 
vela acesa que estava a um canto. 



Olhando ao seu redor, ele viu que no havia qualquer mobilirio e as paredes nuas, muito brancas, ainda tinham o cheiro de cal, mostrando que tinham sido pintadas 
havia pouco tempo. 



 Venha, meu filho  disse uma voz que vinha do fundo do quarto  Aproxime- se... 



Jorge olhou para o lugar de onde tinha partido a voz. Estava ali um negra enorme, vestida de branco e que ele no tinha visto, por incrvel que isso pudesse parecer, 
no momento em que entrara naquele lugar. A negra estava sentada no cho, sobre um tapete ricamente bordado e pareceu a Jorge que ela brilhava. 



Prestou mais ateno e viu que, realmente, havia uma luz que emanava daquela mulher. 



Ela sorriu, estendeu as mos em sua direo e disse:  Simone est em perigo. Ela est, agora, no cemitrio So Joo Batista. Jeanne estar l dentro de poucos instantes. 
Ela quer tocar em Simone... 



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 Mas por que?  conseguiu perguntar Jorge  E o que ela pretende? 



 Jeanne est possuda pelo Demnio. Ela no sabe, mas est... E Sat, o Grande Exu, est querendo sua mulher. Se Jeanne a tocar, Simone morrer. Toda a energia 
de seu corpo e de sua alma, fluiro para Jeanne e, desta, para Sat. 



Fez um sinal com as mos e disse:  Corra, meu filho! Esteja perto de sua mulher quando as coisas acontecerem... E no tema. Eu estarei ajudando! 



******* Jorge tinha corrido como um louco at o cemitrio. Com desespero, viu que no conseguiria chegar a tempo de impedir que Jeanne tocasse em Simone e, por isso, 
gritara, pedindo- lhe que fugisse. 



Tinha certeza que Simone o ouvira mas, ela no se movera do lugar. E Jeanne ali estava, j a uma distncia que poderia alcan- la. Simone, por sua vez, tambm estava 
apavorada. Viu Jeanne estender as mos como as garras de uma coruja em sua direo, queria fugir, queria correr ao encontro de Jorge mas... 



No conseguia mover um dedo sequer. Jeanne sorriu. De sua garganta brotou uma voz estranha que disse:  Finalmente, Simone... Finalmente voc ser minha!, como no 
 mais virgem, poderei me livrar desta bruxa! Ela no cumpriu a sua parte no pacto e por isso, ser castigada! 



Era uma voz grossa, de homem, cavernosa e rascante... A prpria Jeanne estremeceu, horrorizada. Reconhecera aquela voz... Seus olhos, fixos nos de Simone, de repente 
traduziram todo o seu pavor. 



Era a voz de Sat... Ento, ele a havia trado! Apossara- se de seu corpo sem que ela o percebesse e a obrigara a fazer tudo aquilo! 



Nesse instante uma luz muito intensa brilhou entre Jeanne e Simone. De longe, Jorge viu Me Antnia se materializar entre as duas, a negra estendendo as mos para 
a bruxa. 



Me Antnia, com voz forte e enrgica, falou: 



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 V para o seu lugar, Besta Satnica! No ser minha afilhada que voc vai conseguir! 



Agitando as mos, pronunciou algumas palavras em Nag, enquanto uma nuvem de fumaa parecia sair do corpo da francesa. 



Jeanne ficou apavorada por um breve instante e, em seguida, desmoronou. 



Jorge correu. Simone, por fim, conseguiu se mexer e tambm correu ao seu encontro. 



Abraaram- se, sentiram- se, beijaram- se...  Acabou, querida  disse ele  Me Antnia a salvou! Simone no conseguia falar, as lgrimas rolando por suas faces, 
seu corpo todo tremendo como se fosse feito de gelatina. 



Jorge olhou para onde Jeanne estava e murmurou: Me Antnia a salvou e... destruiu definitivamente Jeanne... Voltou o rosto para onde vira aparecer a Me- de- Santo 
mas, ela j no estava mais ali. 



No lugar onde estivera, havia apenas um ramo de rosas brancas e o anel de ferro que Jeanne sempre usara. 



Com passos cautelosos, os dois caminharam at a velha bruxa. Ela estava respirando e Simone, em um gesto involuntrio se abaixou para v- la. 



 Est viva, querido  disse  No podemos deix- la aqui... Jorge balanou afirmativamente a cabea e, caminhando para o porto do cemitrio, falou: 



 Voc no tem jeito, mesmo... Depois de tudo o que essa mulher lhe fez... Enfim... Tem razo... Mas o mximo que podemos fazer, ser chamar uma ambulncia. 



Passando o brao por cima dos ombros de Simone, completou:  Depois disso, no h nem por que lembrarmos do que aconteceu, Simone... Teremos a nossa vida pela frente, 
no  mesmo? Um futuro cheio de felicidade... 



Simone fez um sinal afirmativo com a cabea e, no instante em que se afastava com Jorge, viu a sepultura sobre a qual cara Jeanne. 



 Veja!  exclamou ela. Jorge olhou. Sob a cruz de ferro fundido que encimava a sepultura, havia uma inscrio... 



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Com a voz embargada, Jorge leu:  Maria Antnia Cavalcante de Jesus... Me Antnia... 



*******  No consigo entender  disse o doutor Adalberto  Essa mulher est desafiando todo o meu conhecimento! 



 Tambm o meu  afirmou o doutor Muniz  No encontro uma explicao para o fenmeno. 



Voltando- se para a freira responsvel pelo Asilo So Vicente, indagou: 



 Tem certeza que essa ficha no est errada?  essa mesmo a data em que ela veio para c? 



 Doutor...  respondeu a freira  Quando cheguei aqui, ela j estava neste quarto havia cinco anos... E j estou nesta casa h mais de dez... 



 E sempre nesse estado?  perguntou Adalberto.  Sempre... No muda nunca. Nem para pior, nem para melhor... Apenas mexe os lbios e isso faz pensar que, afinal 
de contas, o crebro, ainda que parcialmente, funciona. O que ns 



sabemos  que ela sofreu um derrame num cemitrio e ficou assim, paralisada, muda, apenas olhando o tempo e o mundo. Estvel, clinicamente. Absolutamente estvel. 



E, em voz baixa, acrescentou:  At parece coisa do Demnio... Ser vtima de um acidente vascular cerebral num cemitrio... E ficar sofrendo tantos anos... 



Assim dizendo, a freira se persignou e se afastou com os dois mdicos para continuar a visita aos outros internados. 



No quarto, a velha ficou olhando para o teto, sem mover um s msculo. 



No podia se mexer, no podia falar... Seus lbios, apesar de se moverem de vez em quando, parecendo tentar articular palavras, no emitiam o menor som. 



Mas ela ouvia... E, naquele momento, estava ouvindo aquela mesma voz... Uma voz sarcstica que lhe dizia sempre a mesma coisa:  A est... Voc no morreu... No 
morreu... No morreu...
